terça-feira, 29 de maio de 2007
agora conspiro eu
...por falar em publicidade, encontrei um verdadeiro tesouro aqui:http://conspiracaoas7.blogspot.com/2007/05/pasta-medicinal-couto-ressuscitou.html
A brincar a brincar...
Sobre a embrulhada dos erros que não são alvo de aferição nas provas de de Português dos 4º e 6º anos, o nosso Presidente diz que concorda com a sua realização. Contudo, não se sente "pudagogicamente" habilitado para se pronunciar quanto à polémica dos erros.
No que me diz respeito, as minhas dúvidas "pudagógicas" dissipam-se quando tenho alunos de 11º e 12º anos a defender que "não usam acentos" (que como se sabe fazem parte da estação Outono/Inverno ) ou que os restantes erros (em alguns casos às dezenas) são irrelevantes porque o que interessa é o que quiseram expressar.
A ler.
Excelente texto, sobre temática que já tentamos abordar por aqui. Não com tanta arte, como é óbvio.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
agora falo de palavras homónimas
- O que é falo? – inquiriu a amiga.
- Bem, falo é a forma do verbo falar no presente do indicativo da primeira pessoa do singular. – esclareceu a outra amiga.
- Mas, espera, não tem sentido! A professora disse que o objecto tinha a forma de um falo! – desesperou a amiga.
- Ah, então refere-se ao órgão genital masculino, ao pénis. – esclareceu a outra amiga.
- Ah! Já percebi. – suspirou e disse a amiga.
Nota: mais um flagrante da vida real.
domingo, 27 de maio de 2007
Ao alinhavar o post anterior, lembrei-me dele. E agora, depois de ler religiosamente a sua coluna de opinião (que continuo a fazer aos domingos, apesar de ter transitado para os sábados), vejo-me compelida a deixá-lo também aqui.
Deus Caritas Est /Deus Amor Est
Para o crente, onde e como encontrar Deus? Porque não decliná-lo também no feminino?
Afasto-me e aproximo-me de Deus(a). Não sei se creio, mas a crer em algo não será na representação do homem velho que estende um dedo à humanidade.
Mais próxima do cristal que me permite vê-lo Ela. Vê-la Ele. Dois. Não uma trindade, mas uma dualidade que se completa.
Li o poema que se segue e amei-A intuitivamente.
Afasto-me e aproximo-me de Deus(a). Não sei se creio, mas a crer em algo não será na representação do homem velho que estende um dedo à humanidade.
Mais próxima do cristal que me permite vê-lo Ela. Vê-la Ele. Dois. Não uma trindade, mas uma dualidade que se completa.
Li o poema que se segue e amei-A intuitivamente.
"He cares for me and He carries me.
As I rely on Him I can relate to others without fear.
With as open heart, forgiving.
She caresses me with the beauty of Her creation
With the warmth of the sun,
The fresh breeze from the wedding of skies and waters.
With sprouting green and mature red.
Ripe fruits my empty hands
And I can share and feed.
He embraces me with motherly affection.
And I receive consolation and become calm.
She kisses my wounds and hurting scars.
And I feel healed and whole.
He answers my desires with His peace
And turns my solitude into freedom.
Resilience and courage flow from the power of His word
So that I can withstand utter despair
Caused by the sheer violence and brokeness around me.
With the tender warmth of Her hand between my shoulders
I feel assured of the direction of my way.
Her gentle touch carries me forward
Surmounting distances and barriers
Constructed by man.
God is love
Empowering me to love."
Irmgard Icking
Maio de 2006
sábado, 26 de maio de 2007
Cripple and the starfish
Muito interessante, de Antony and the Johnson:
http://www.youtube.com/watch?v=luGpru86SeU
Cripple and the Starfish
Mr. Muscle forcing bursting
Stingy thingy into little me, me, me
But just "ripple" said the cripple
As my jaw dropped to the ground
Smile smile
It's true I always wanted love to be
Hurtful
And it's true I always wanted love to be
Filled with pain
And bruises
Yes, so Cripple-Pig was happy
Screamed " I just compeletely love you!
And there's no rhyme or reason
I'm changing like the seasonsWatch!
I'll even cut off my finger
It will grow back like a Starfish!
"Mr. Muscle, gazing boredly
And he checking time did punch me
And I sighed and bleeded like a windfall
Happy bleedy, happy bruisy
I am very happy
So please hit me
I am very very happy
So please hurt me
I am very happy
So please hit me
I am very very happy
So come on hurt me
I'll grow back like a Starfish
o meu posicionamento é também um direito!
Acho que não haveria, da minha parte, quaisquer razões para ignorar as diferenças conceptuais entre a palavra feminista e a palavra machista, visto que o acesso à informação é bastante facilitado; eu procuro, sempre que posso, tirar vantagens disso.
Quando eu falo que o feminismo não é a minha luta é porque não me identifico SÓ com as causas defendidas por este sistema. Estamos a falar de direitos e não de deveres. Contudo, sei perfeitamente que a minha independência (dependente só de afectos, com muito gosto!) socio-económica se deve, em parte, aos movimentos feministas (inicialmente só mulheres, depois homens também) que, ao longo dos tempos, foram fazendo conquistas baseadas no princípio fundamental da igualdade perante a lei.
Hoje em dia, sinto-me detentora dos direitos e deveres institucionalizados na minha sociedade; só não posso garantir que os usufruo em pleno, porque também acho que a lei não salvaguarda as diferenças! Não me interessa só a igualdade, mas sim a funcionalidade da lei.
O meu trabalho (de mulheres e homens) é chefiado por uma mulher e nunca ouvi ninguém pôr em causa o mérito da pessoa por ser mulher, e digo-vos, desde já, que ela é bastante feminina e mãe de família até. Contudo, presumo que teve que lutar muito, pois uma mulher que é mãe tem que prestar o mesmo serviço como qualquer outra pessoa que não o é. A lei é para todos, é igual.
Reconheço também que a essa igualdade, apesar de se pensar o contrário, trouxe muitas vantagens para os homens que, numa maioria, se viam aprisionados aos grilhões da sustentabilidade do seu núcleo familiar. A meu ver, ainda bem!
Actualmente, temos mulheres e homens com direitos e deveres iguais, mas com problemas de funcionarem como iguais. Acho que ainda não conseguimos descobrir a medida ou a fórmula certa, mas temos vindo a conseguir. Enfim, uma questão que se tem que racionalizar.
Os condicionalismos são muitas vezes ignorados pelos ditos defensores das igualdades, isso é evidente quando, numa sociedade em que o sistema religioso está completamente subjugado pelos preceitos da hegemonia de um só sexo (feminino ou masculino), os homens e as mulheres continuam, impávidos e serenos, a compactuar e a comungar desses mesmos “ideais e rituais”. Acho que a sociedade deveria estar mais atenta, pois não é por acaso que, de modo geral, os países protestantes ofereceram maiores possibilidades de evolução aos movimentos feministas.
Diariamente, interesso-me por questões sociais e que, de certa forma, directamente contacto e que estão bem à vista de todos: crianças que são exploradas e negligenciadas pela família; idosos completamente desprotegidos; pessoas desprezadas e caídas nas ruas; a falta de expectativas e de causas da geração vindoura; o desemprego; a imigração e emigração clandestina; pessoas a morrerem com fome; pessoas perseguidas e, por vezes, torturadas por ideologias e culturas extremistas ou sexistas; e as catástrofes naturais e ambientais.
Estou atenta, preocupo-me e tento dar o meu contributo para melhorar pelo menos o meio que me rodeia, por isso, considero o meu posicionamento mais direccionado para o HUMANITARISMO.
NOTA: não pretendo ser miss e ganhar concursos de beleza!!!
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Como é óbvio...
...Questionar a mercantilização do corpo feminino a retalho - corpo despido de Si, objecto, triplamente objecto - só pode ser fruto de uma enorme dor de cotovelo.
Aliás, o que as feministas mais têm são cotovelos. E dores. E bigode também. Toda a gente sabe (falácia de quê? Ajude-me aqui Funes, que não m'alembro)!
E geralmente também só gostam de outras gajas (sem bigodes e sem cotovelos).
Estas feministas são umas doidas. E (in)conscientes. Gaja que é gaja SÓ é feminina. Ista, nunca.
E eu que o diga, que desde que me afirmo feminista tenho uma data de cotovelos e duplo bigode (só me falta gostar de gajas).
(sim, é uma lullaby extraORDINÁRIA)
O SENHOR É O MEU PASTOR?! NADA ME FALTARÁ?
quarta-feira, 23 de maio de 2007
a cultura do nabo

Agora, ainda nem a metade do meu percurso, sinto-me exangue.
Já pensei em ser agricultora, mas faltam-me os meios e a disciplina de Técnica (existe?!). Falta-me, essencialmente, o terreno para cultivar NABOS em grandes quantidades, visto que pretendo não só abastecer o mercado nacional, mas também o internacional, mais, concretamente, a Europa.
Ambição não me falta e eu sei que Portugal, segundo as estatísticas, reúne boas condições para a cultura do nabo. Dá trabalho, mas (talvez) compensa.
Em suma, a cultura do nabo é que está a dar!
No entre-tanto que pensar e repensar na vidinha, a voz da mulher da Beira Interior que há em mim manifesta-se com expressões do género: Ó alma do diabo, consomes-me o fígado! Raios partam tudo isto!
Já pensei em ser agricultora, mas faltam-me os meios e a disciplina de Técnica (existe?!). Falta-me, essencialmente, o terreno para cultivar NABOS em grandes quantidades, visto que pretendo não só abastecer o mercado nacional, mas também o internacional, mais, concretamente, a Europa.
Ambição não me falta e eu sei que Portugal, segundo as estatísticas, reúne boas condições para a cultura do nabo. Dá trabalho, mas (talvez) compensa.
Em suma, a cultura do nabo é que está a dar!
No entre-tanto que pensar e repensar na vidinha, a voz da mulher da Beira Interior que há em mim manifesta-se com expressões do género: Ó alma do diabo, consomes-me o fígado! Raios partam tudo isto!
terça-feira, 22 de maio de 2007
Espelhos e Reflexos
"O espelho é, em relação ao mundo, poderoso mas também específico. E parece que, desde a primeira possibilidade técnica do reflexo das águas, a que o mito de Narciso faz menção, a grande aposta da tradição ocidental foi a de se constituir como o reino da visibilidade universal: ver é conhecer e a aposta é que uma pedagogia do olhar é o que constrói a nossa relação com o mundo. A relação entre especulação filosófica e fenomenologia - Ser é Perceber - é a de um vínculo forte, como aponta com argúcia, Umberto Eco."
Ieda Tucherman
Da última vez que estive Fora do Mundo, tive o prazer de usufruir da exposição de Kimiko Yoshida, com o belíssimo título "Tudo o que não seja eu". Por dificuldade de expressão, não aludi de forma nenhuma ao impacto que a mesma teve em mim; na maior parte dos casos, a única coisa que me ocorre nestas situações é o Silêncio, já que o indizível parece-me sempre incomensuravelmente maior. Pois bem, encontro agora um post que descodifica uma parte da belíssima exposição.
Desfloramento
Venho das noites escuras
E aprendi a ver nas trevas
e a ler nas trevas.
Venho das noites escuras
e sei o grande soluço das sombras
e os cânticos impotentes dos peregrinos.
Venho das noites escuras
e daí o meu amor imenso pela luz!
E quanto mais treva era a treva
melhor eu aprendia a amar a luz do sol,
e dos meus olhos sempre mais e mais abertos
a luz interior irradiando aniquilava as sombras...
E sendo sempre noite, era cada vez mais manhã.
E cada vez mais enorme e definitiva, a manhã subia,
a-pesar-da treva, a-pesar-do silêncio, a-pesar-de tudo!
E cada vez mais era manhã. E era ainda a noite.
A flor romântica da treva esfolhou-se nos dedos.
E então nasci.
E então vi que estava nu,
E alegrei-me por estar nu,
enfim!
Sorvi os frutos da terra,
e já não me souberam a papel impresso!
Sacudi a poeira do que me tinham ensinado,
e comecei a saber.
Sob as palavras, desvendou-se então a voz,
e a canção ardente da vida já não encontrou algodão
nos meus ouvidos.
Ah! Só quem veio das trevas e das noites escuras
pode amar assim o imenso mundo do sol!
(Adolfo Casais Monteiro)
segunda-feira, 21 de maio de 2007
"Vampiros"
Excelente exemplo de agendamento político.
Às portas de nova greve, começam as já habituais campanhas de sensibilização.
No céu cinzento Sob o astro mudo
Batendo as asas Pela noite calada
Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada.
(...)
São os mordomos do Universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do Rei.
(José Afonso)
É legítimo que o poeta fume?
O cigarro roubado a Pessoa, conduz a uma questão deveras pertinente. Que acontecerá quando os senhores do lápis azul (re)lerem Tabacaria?
"(...)
Acendo um CIGARRO ao pensar em escrevê-los
E SABOREIO no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o FUMO como a uma rota própria.
E GOZO, num momento sensitivo e competente.
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E CONTINUO FUMANDO.
Enquanto o Destino mo conceder, CONTINUAREI FUMANDO.
(...)"
«Um professor de Inglês, que trabalhava há quase 20 anos na Direcção Regional de Educação do Norte (DREN), foi suspenso de funções por ter feito um comentário – que a directora regional, Margarida Moreira, apelida de insulto – à licenciatura do primeiro-ministro, José Sócrates.»
Aqui vai um poema de Augusto Gil bastante alterado por mim, claro.
Batem leve, levemente,
como quem chama por nós.
Será chuva? Será gente?
Gente é, certamente
A chuva não bate assim.
...
Há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
...
Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
É gente, com certeza.
Fui ver.
- Há quanto tempo a não via!
E que raiva, Deus meu!
Passa gente e, quando passa,
Os passos oprimem e traçam
Punições e silêncios...
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais.
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Nota: e anda o pessoal preocupado com Salazar.
Por falar em estética

A maquilhagem
“ A mulher está no seu direito, e cumpre até uma espécie de dever, aplicando-se em ser mágica e sobrenatural; é necessário que ela espante e encante; ídolo, ela deve dourar-se para ser adorada. Ela deve ir buscar a todas as artes os meios para se elevar acima da natureza, para melhor subjugar os corações e tocar os espíritos. Pouco importa que a manha e o artifício sejam conhecidos de todos se o sucesso for certo e o efeito sempre irresistível. É nestas considerações que o artista filósofo encontrará facilmente a legitimação de todas as práticas empregadas em todos os tempos pela mulher para consolidar e divinizar, por assim dizer, a sua frágil beleza. A enumeração dessas práticas seria longa; mas, para nos restringirmos àquilo que o nosso tempo chama vulgarmente maquilhagem, quem não vê que o uso do pó-de – arroz, tão estupidamente anatematizado pelos filósofos cândidos, tem como objectivo e resultado fazer desaparecer da tez todas as manchas que a natureza ultrajosamente nela semeou e criar um a unidade abstracta na cor da pele, na qual unidade, como a produzida pelo maillot, aproxima de imediato o ser humano da estátua, isto é, de um ser divino e superior? Quanto ao negro artificial que contorna os olhos e ao vermelho que marca a parte superior da face, ainda que o seu uso obedeça ao mesmo princípio, o desejo de ultrapassar a natureza, o resultado está ao serviço de uma necessidade completamente oposta. O vermelho e o negro representam a vida, uma vida sobrenatural e excessiva; este contorno negro torna o olhar mais profundo e mais singular, dando aos olhos uma aparência de janela aberta sobre o infinito; o vermelho que incendeia a face, aumenta a claridade da íris e acrescenta ao belo rosto feminino a paixão misteriosa da sacerdotisa.”
Baudelaire (escritor/poeta francês do século XIX)
Aviso: quando eu maquilhar novamente os meus olhos, não me perguntem por que estou com mais olheiras! Haja paciência...
domingo, 20 de maio de 2007
Que fazer com ela?
Há uns anos, um explicando meu, ao ouvir uma conversa sobre a aula que eu teria no dia seguinte - de estética filosófica - perguntou-me com um ar assombrado, se também percebia dessas coisas.
Pediu-me imediatamente uma receita de tratamento para o acne.
E agora algo completamente novo...
Elogio à autofagia.
A SIC acaba de transmitir uma peça sobre como o caso do desaparecimento da criança no Algarve originou uma autêntica caça/massacre à notícia. E, quase no fim, uma espécie de lamento sobre como o caso esfria porque não existem novidades, porque já todos foram interpelados e de como os passeios dos pais da menina deixaram de ser novidade. Patético, isto a que chamam jornalismo. De referência, atrevem-se alguns a acrescentar.
sábado, 19 de maio de 2007

O ouvido fixa-se no som das folhas de um livro, nas teclas de telefone ou do teclado. Os olhos vagueiam pela imensidão da planície e as mãos, essas estão presas a uma frescura perdida. Estão envoltas em trapos de memórias e de amnésias.
Foto de Alain Couillaud
Foto de Alain Couillaud
Dor que desatina sem bater
Tenho alguma dificuldade em sentir empatia por gente que considero estúpida. Tento refrear estes meus assomos mais pedantes, mas eles estão aí, são viscerais, praticamente incontroláveis.
Esta semana, apeteceu-me bater (para além dos tipos do costume - os detentores da patente da filosofia) em alguém que afirmava orgulhosamente que dos livros quer distância. "Só jogados! Para bem longe."*
A incredulidade deve ter assomado ao meu olhar. A fúria às faces. O desejo incontrolável de bater às mãos (os dedos fervilhavam). Mas se sou extremamente febril, também é verdade que sou cobarde. Não fui capaz de balbuciar nada. Agastada (mas só isso) virei costas para outro lado e continuei a falar de leituras.
*Não, não foi um adolescente.
Esta semana, apeteceu-me bater (para além dos tipos do costume - os detentores da patente da filosofia) em alguém que afirmava orgulhosamente que dos livros quer distância. "Só jogados! Para bem longe."*
A incredulidade deve ter assomado ao meu olhar. A fúria às faces. O desejo incontrolável de bater às mãos (os dedos fervilhavam). Mas se sou extremamente febril, também é verdade que sou cobarde. Não fui capaz de balbuciar nada. Agastada (mas só isso) virei costas para outro lado e continuei a falar de leituras.
*Não, não foi um adolescente.
sexta-feira, 18 de maio de 2007
"Dor que desatina sem doer" 2
"Quem esteja minimamente familiarizado com as agruras da composição não precisará que lhe contem a história em todos os seus pormenores; como ele escrevia e achava bom o que escrevera; relia e achava execrável; corrigia e rasgava; cortava; acrescentava; ficava em êxtase; sucumbia ao desespero; passava noites excelentes e péssimas manhãs; agarrava uma ideia e deixava-a fugir; tinha uma nítida visão do seu livro, e a visão desvanecia-se; representava os papéis dos seus personagens enquanto comia; declamava-os enquanto passeava; ora vociferava, ora ria; hesitava entre este e aquele estilo; (...); e não conseguia decidir se era o mais divino dos génios se o maior tolo do mundo."
Orlando, Virginia Woolf
Onde reside o desejo?
(Ilustração de Aubrey Beardsley para a Salomé de Oscar Wilde.)Da memória emerge Salomé d´Oscar Wilde, uma recordação de muitos anos.
Comprei o livro, por mero acaso, num alfarrabista do Bairro Alto; ou melhor, comprei o livro por ter gostado muito das ilustrações.
Lembro-me ainda de ter gostado muito da personagem Salomé, a mulher/menina movida pela força do desejo. Ela pareceu-me a principal vítima. Aliás, a peça fala do desejo como o principal elemento que leva à destruição de todas as personagens do drama. Todos sofriam do mesmo mal: desejo.
Comprei o livro, por mero acaso, num alfarrabista do Bairro Alto; ou melhor, comprei o livro por ter gostado muito das ilustrações.
Lembro-me ainda de ter gostado muito da personagem Salomé, a mulher/menina movida pela força do desejo. Ela pareceu-me a principal vítima. Aliás, a peça fala do desejo como o principal elemento que leva à destruição de todas as personagens do drama. Todos sofriam do mesmo mal: desejo.
Há dias, no café, veio à baila o tema “O que mais te atrai numa pessoa” e, não sei porquê, as pessoas mencionaram só partes do corpo, tais como: olhos, mãos, voz, pernas, pés, peitos, nádegas, orelhas, boca, etc. Alguém notou que eu concordava com quase todas as preferências e ripostou: “ -Então, não te decides? Sempre indecisa!”
Ainda não sei bem, mas acho que gosto da pessoa num todo, e, diga-se de passagem e em tom de brincadeira, convém-me gostar da pessoa toda.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
tal como Penélope

Tal como Penélope de Ítaca, Feniana tece, com as palavras, belíssimos textos. É um dos meus blogs preferidos. Gosto muito de a visitar na sua ilha. Navego sempre até lá para admirar os seus trabalhos repousantes e agradáveis.
Para lá chegar, sigam estas coordenadas:http://speakcorner.blogspot.com/
Nota: desconheço o autor da imagem
quarta-feira, 16 de maio de 2007
"Dor que Desatina sem doer"
"O gosto pelos livros fora nele precoce. Em criança, várias vezes o haviam surpreendido, à meia-noite, ainda debruçado sobre uma página. Tiravam-lhe a vela e ele criava pirilampos para o servirem nos seus intentos. Tiravam-lhe os pirilampos e por pouco não incendiava a casa com um morrão. Para resumirmos o caso em poucas palavras, (...) - diremos que o nosso fidalgo padecia de amor pela literatura. (...). Era da índole fatal desta doença substituir a realidade por um fantasma, de forma que Orlando, a quem a fortuna concedera todos os dons - pratas, roupa de cama e mesa, casas, criados, tapetes, camas em abundância - dissipava em névoa, com o simples gesto de abrir um livro, toda esta imensa acumulação. Os nove acres de pedra que eram a sua casa desapareciam; desapareciam os cento e cinquenta criados de dentro; os seus oitenta cavalos de sela tornavam-se invisíveis; e levaríamos demasiado tempo a contar os tapetes, sofás, adornos, porcelanas, salvas, galhetas, rescaldeiros e outros bens móveis, muitos dos quais de ouro lavrado, que se evaporavam como um sopro de brisa marinha ao contacto com o miasma. Assim acontecia, e Orlando, sentado sozinho a ler, era um homem nú."
Orlando, Virgínia Woolf
terça-feira, 15 de maio de 2007
mas eu mal estava ouvindo
(...)
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhado para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu - não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros)
Quer para o bem, quer para o mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
(...)
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber (....)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem o poente quem odeia e ama?
Alberto Caeiro
O meu pobre coração não aguenta.

Octávio e António estão de volta, por enquanto amiguinhos. "Punhais no Senado"; em breve dançarão pelas ruas e entre o homem e o menino. Mediados por Elas, como é óbvio. Cícero, imperdível, na sua astúcia de advogado (lembro-me agora que foi o patético Mr. Collins em Orgulho e Preconceito).
Welcome back às minhas Segundas, Senhores e, principalmente, Senhoras de Roma (a cena entre Calpúrnia e Servília, divinal).
Welcome back às minhas Segundas, Senhores e, principalmente, Senhoras de Roma (a cena entre Calpúrnia e Servília, divinal).
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Epístola a António
Caríssimo:
Como neste novo blog não permites comentários, vejo-me obrigada a fazê-lo de longe.
Excelente, o teu post de hoje. Mas o problema daquele Encarregado de Educação é um bocadinho pior que um tiny, tiny psychological distress. Suponho que com este precedente, os paizinhos passem a receber uma cópia dos filmes a visionar em casa, de preferência entregues em mão pelo professor. E já que estamos com a mão no preconceito, há um livrito ou dois que bem podíamos lançar à fogueira.
Hereges!

Muito contentinha. Finalmente consegui o Orlando. Infelizmente, a ilustração da capa não é tão bonita como esta. Mas enfim, ao tempo que andava à procura do senhor/a, mais vale estar de teclado quieto.
A partir de agora, blogar só mesmo nos tempos livres dos meus tempos livres.
domingo, 13 de maio de 2007
MST
O meu problema não está em que MST opine, mas no facto de o homem ser pago para isso. Irrita-me a postura eu cá sou da cepa do Hemingway*! Enervam-me as postas de pescada sobre qualquer assunto, com aquela tonalidade desdenhosa que o homem emprega a quase tudo o que diz. Na verdade, estou cada vez mais convicta que nós é que devíamos ser pagos para gramar com as birras de MST. Credo, como a criatura berra e bate com os pés.
* Que também é um dos ódios de estimação cá da moça.
as pérolas e os porcos
A caravana passa e os porcos triunfam!
Por que se lançam pérolas aos porcos? Eles não comem pérolas e muito menos se interessam por elas. Os porcos podem ser porcos, mas não são estúpidos! É caso para se dizer: porcos porcos, pérolas à parte ou vice versa. De bons porcos anda o mundo cheio e, por isso mesmo, é melhor que cada macaco fique no seu galho.
A ordem de certas coisas nunca muda, pois quem sai aos seus não é de Genebra!
E por falar em pérolas, lembrei-me que de pérola a pérola não enche a galinha o papo! Ou até enche, mas não alimenta.
Bem, termino porque as gaivotas andam em guerra e há tempestade no mar! Nada agradável para um fim-de-semana que se quer pacífico.
Por que se lançam pérolas aos porcos? Eles não comem pérolas e muito menos se interessam por elas. Os porcos podem ser porcos, mas não são estúpidos! É caso para se dizer: porcos porcos, pérolas à parte ou vice versa. De bons porcos anda o mundo cheio e, por isso mesmo, é melhor que cada macaco fique no seu galho.
A ordem de certas coisas nunca muda, pois quem sai aos seus não é de Genebra!
E por falar em pérolas, lembrei-me que de pérola a pérola não enche a galinha o papo! Ou até enche, mas não alimenta.
Bem, termino porque as gaivotas andam em guerra e há tempestade no mar! Nada agradável para um fim-de-semana que se quer pacífico.
Nota: por amor a Ámon, não confundam mais as minhas ideias!
Lullaby de Domingo
You ain't got no money? He'll get you some
You ain't got no car? He'll get you one
You ain't got no self-respect,
You feel like an insect
(...)
You'll see him in your nightmares,
You'll see him in your dreams
He'll appear out of nowhere but
He ain't what he seems
You'll see him in your head,
On the TV screen
And hey buddy, I'm warnig
You to turn off.
sábado, 12 de maio de 2007
Pressentir Sexta, permanecer na Quinta
A entrevista de Cesariny deixou claro; o poeta despe definitivamente a palavra para assumir a imagem. Eu, que sou adepta da palavra, agarro-me às franjas de Quinta, porque Sexta significa voltar à norma dos restantes dias, à imagem, ao desenho de Cesariny que se repete diariamente dispondo os mesmos elementos de forma aleatória.
Agarrei-me às franjas de Quinta, porque sinto que só ela FALA, ou seja, só ela recorre descaradamente à palavra. Na tarde de ontem que não aconteceu ontem - porque segura por um fio no dia anterior - ouvi um mestre que usou a palavra sobre Jardins, Mundos e Utopias.
Ainda antes de agarrar as palavras cintilantes na sala de conferência, as cortinas abrem-se e vemos o Mundo lá fora, os jardins de dentro para fora. Primeiro, a claridade súbita. A natural, claro. Depois, a imagem da vegetação luxuriante do outro lado do vidro. Discutir jardins, na caverna (palavras do mestre), tendo o jardim lá fora. E portanto, de janelas claras emprestei o ouvido aos jardins no mundo. Aos mundos de jardins. Às utopias fora do mundo e, principalmente, às utopias fora do Tempo. Fiz bem em permanecer na quinta feira, em suspender o tempo de que me falariam no dia que não foi sexta.
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Fala a Quinta-Feira
Manhã de sexta e não acordei completamente.
Ainda é quinta.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Detesto ser impulsiva. Abomino, na verdade. Mas não evito. Ou melhor, não consigo evitar. Obviamente o facto tem implicações terríveis: nunca terei uma postura respeitável. Ou melhor, a determinada altura, desmancho-me a rir ou disfarço o nervosismo com piadas. Enfim, uma lástima. Um dos piores aspectos desta minha impulsividade acontece quando escrevo a alguém (acontece o mesmo por cá). Só me lembro de fazer a revisão de texto quando já enviei o mail ou publiquei o post. Restam-me as lamentáveis erratas.
Nostalgias
Releio documentação de há seis anos. A determinada altura, leio que F.B. é responsável pela minha reconciliação com a filosofia. Também é verdade que desde então já nos zangamos (e reconciliamos) muitas mais vezes. Uma relação difícil. Uma relação gostosa. Não gosto que nada aconteça de mão beijada.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Terceira epístola a Nefertiti
O(s) TRABALHO(s) de Portas...
... LIBERTAram-no de algum eleitorado.
Ultimamente apetece-me mais ouvir/ler que dizer. Portanto, ando parca com as palavras - pelo menos as que tomo emprestadas (porque elas não são as minhas). As que tenho, rumino interiormente. Apetece-me permanecer calada, em total ebulição interior. Há algum tempo que não estava febril. Espero que passe.
hagiografias
-Não sabe o que é uma hagiografia?
................................................................
-Ok, eu trago amanhã a história da minha vida.
NOTA: nas aulas utilizo, sempre que posso, exemplos concretos e práticos.
................................................................
-Ok, eu trago amanhã a história da minha vida.
NOTA: nas aulas utilizo, sempre que posso, exemplos concretos e práticos.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
De Gays, Estereotipos e da Estupidez em geral
- também tive um amigo assim. Eu percebi que ele era gay antes de ele próprio
- geralmente é assim.
- eu vi logo! Por exemplo, ele não gostava de futebol.
- pois, pois, eles são muito femininos
- nem de desporto em geral. Mas são muito amigos.
- Sim, eu também tive um amigo assim. Era do tipo gajo-gajo e andava com um gajo-gaja. Depois, nós percebemos logo quem são eles porque cuidam-se muito. Reparam em tudo e gostam da Britney Spears e da Beyoncé.
- Havia um, lá na minha faculdade, que nunca saiu do armário. Mas nós desconfiávamos. Namorava sempre com miúdas lindas, durante um ano ou dois, depois terminava e ninguém percebia porquê. Elas eram tão lindas. Eu desconfiei logo.
Não, não é invenção. Com mais ou menos palavras, o diálogo continuou com elas a descreverem como é que, nas suas cabecinhas, se parecem os homens cuja orientação sexual pende para o mesmo sexo.
Achei curioso o verbo ter, como se ter um amigo gay fosse algo tão sui generis quanto ter um tamagochi como animal de estimação. "tive um assim, outro assado". Estas, coitadas, conseguem topar um gay à distância. Mas gajas, mulheres que gostem de amar outras mulheres, dessas nem falaram. No mundo delas não devem existir. Sei lá, só se for, com certeza as que gostam de futebol e de desporto em geral. E claro, devem namorar com miúdas lindas - as tais rejeitadas pelo outro gay.
- geralmente é assim.
- eu vi logo! Por exemplo, ele não gostava de futebol.
- pois, pois, eles são muito femininos
- nem de desporto em geral. Mas são muito amigos.
- Sim, eu também tive um amigo assim. Era do tipo gajo-gajo e andava com um gajo-gaja. Depois, nós percebemos logo quem são eles porque cuidam-se muito. Reparam em tudo e gostam da Britney Spears e da Beyoncé.
- Havia um, lá na minha faculdade, que nunca saiu do armário. Mas nós desconfiávamos. Namorava sempre com miúdas lindas, durante um ano ou dois, depois terminava e ninguém percebia porquê. Elas eram tão lindas. Eu desconfiei logo.
Não, não é invenção. Com mais ou menos palavras, o diálogo continuou com elas a descreverem como é que, nas suas cabecinhas, se parecem os homens cuja orientação sexual pende para o mesmo sexo.
Achei curioso o verbo ter, como se ter um amigo gay fosse algo tão sui generis quanto ter um tamagochi como animal de estimação. "tive um assim, outro assado". Estas, coitadas, conseguem topar um gay à distância. Mas gajas, mulheres que gostem de amar outras mulheres, dessas nem falaram. No mundo delas não devem existir. Sei lá, só se for, com certeza as que gostam de futebol e de desporto em geral. E claro, devem namorar com miúdas lindas - as tais rejeitadas pelo outro gay.
É um esforço terrível, tentar não colocar por cá compulsivamente NC. Em dias como este, sufoco na prepotência e na invasão de outros, no dia que passa só com um vislumbre (ou uma alucinação).
Cogitações avulsas

Confesso-me exasperada com os brados de alguns sobre o que acontece aos SEUS impostos. Eu, como não lhes vi a Declaração, fico na dúvida. Mas também é verdade que, segundo a impressão de muitos, pertenço ao rol dos maiores ignorantes do País.
Fotografia de Christine Mathieu
Fotografia de Christine Mathieu
Pérolas a porcos
Do que não se sabe falar, mais vale estar calado.
domingo, 6 de maio de 2007
às mulheres mais belas que conheço
(Amores-perfeitos às mães mais belas que eu conheço: Ezequiel e Lucília)Hoje, telefonei à minha mãe e disse-lhe: -Beijos, mãe querida! - Ela ficou sensibilizada e agradeceu.
Eu ainda acrescentei: - Vamos ficar juntas durante muitos e muitos anos e também vamos continuar a resmungar de vez em quando uma com a outra! - Ela deu uma gargalhada e disse-me: -Pois é, mas eu vou estar em vantagem, vou ter uma bengala e dou-te com ela!"
E eu, claro, como não gosto que ela tenha a última palavra, pois já foi o tempo, rematei: -Eu fujo!
Assim seja, desejo eu! Amo-a muito.
sábado, 5 de maio de 2007
Um caso sério 7
Tenho alguma dificuldade em preferir-lhe um post entre todos os outros. Mas a verdade é que este vale mesmo (mesmo, mesmo) a pena.
Começos.
"Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.
She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.
Did she have a percursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, onde summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh When? About as many years before lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style."
Vladimir Nabokov, Lolita
Na minha perspectiva, um começo excepcional. Exímio exercício de apanhar o leitor à primeira frase.
Para a Rosa e para o Sr. Gostoso:"Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceito, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Teve uma percursora? Teve, de facto teve. Na verdade, talvez até não houvesse Lolita nenhuma se, certo Verão, eu não tivesse amado uma rapariga-menina inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Quase tantos anos antes de Lolita nascer quantos eu contava nesse Verão. É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso."
Vladimir Nabokov, Lolita
quinta-feira, 3 de maio de 2007
64
Quando eu tiver o dobro da minha idade...
só com óculos, meu caro "anjonheiro"!

Às quintas-feiras marco o ponto na Oficina de Aprendizagem. As crianças vão lá, ou porque lhes apetece ou porque os professores obrigam, e fazem actividades relacionadas com as diversas áreas disciplinares.
Ao longo deste ano lectivo, foram vindo crianças que, no entender dos seus professores e educadores, precisam de apoios… e eu estou lá para os apoiar.
Tenho crianças que frequentam o 5º ano, o que nem sempre é fácil para mim, pois quanto mais pequenas, mais complexo se torna o acto da comunicação e esta experiência leva-me a afirmar que os educadores de infância e os professores primários são uns verdadeiros heróis!
Também é verdade que me divirto imenso e concordo que as crianças são o melhor que há no mundo! Também concordo que são do mais barulhento que há e, quase que aposto, que a colega que dá apoios aos alunos do Secundário, numa mesa ao meu lado, concorda comigo, pelos olhares que lança… está tudo dito!
Habitualmente, converso com elas, lemos histórias e elas escrevem sempre qualquer coisa sobre o que se falou. Depois, eu corrijo e elas reescrevem.
Apesar de alguma confusão e da muita “melgação”, pois não dão um passo sem mim, consigo obter trabalhos bastante originais.
Familiarizei -me com o ritmo daquelas crianças, gosto de estar com elas e da confusão que conseguem "organizar". Tenho dois gémeos que não os distingo, digo os nomes ao calha e um deles responde ou corrige-me quando é o caso; um N. que não consegue estar quieto nem calado por um segundo... e tenho outros mais, cheios de definições personalizadas.
Hoje, depois de eu ter perguntado ao N. pelos seus óculos, ele sai-se com esta: “Eu não os trago porque com eles pareço um doutor e eu não quero ser doutor, quero ser engenheiro!”. Então, perante tal preconceito declarado e declamado, disse-lhe que, mesmo parecendo um doutor, eu exigia os óculos para as minhas aulas!
Ao longo deste ano lectivo, foram vindo crianças que, no entender dos seus professores e educadores, precisam de apoios… e eu estou lá para os apoiar.
Tenho crianças que frequentam o 5º ano, o que nem sempre é fácil para mim, pois quanto mais pequenas, mais complexo se torna o acto da comunicação e esta experiência leva-me a afirmar que os educadores de infância e os professores primários são uns verdadeiros heróis!
Também é verdade que me divirto imenso e concordo que as crianças são o melhor que há no mundo! Também concordo que são do mais barulhento que há e, quase que aposto, que a colega que dá apoios aos alunos do Secundário, numa mesa ao meu lado, concorda comigo, pelos olhares que lança… está tudo dito!
Habitualmente, converso com elas, lemos histórias e elas escrevem sempre qualquer coisa sobre o que se falou. Depois, eu corrijo e elas reescrevem.
Apesar de alguma confusão e da muita “melgação”, pois não dão um passo sem mim, consigo obter trabalhos bastante originais.
Familiarizei -me com o ritmo daquelas crianças, gosto de estar com elas e da confusão que conseguem "organizar". Tenho dois gémeos que não os distingo, digo os nomes ao calha e um deles responde ou corrige-me quando é o caso; um N. que não consegue estar quieto nem calado por um segundo... e tenho outros mais, cheios de definições personalizadas.
Hoje, depois de eu ter perguntado ao N. pelos seus óculos, ele sai-se com esta: “Eu não os trago porque com eles pareço um doutor e eu não quero ser doutor, quero ser engenheiro!”. Então, perante tal preconceito declarado e declamado, disse-lhe que, mesmo parecendo um doutor, eu exigia os óculos para as minhas aulas!
Fábula

"Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.
Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!
Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos."
José Craveirinha – Moçambique
quarta-feira, 2 de maio de 2007
Vale a pena...
Dar uma olhadela pela caixa de comentários deste post e também por este blog.
terça-feira, 1 de maio de 2007
Post sem tradutor
Passei a tarde com Mário. A tarde de Terça, note-se aquela que não consigo descodificar no seu Dias Desta Semana. Só lhe percebo a quinta-feira, porque FALA A QUINTA-FEIRA. Mas só quando precedida pela quarta e seguida pela sexta.
Ouço-o dizer, só com os lábios (já sem a raiva a nascer-lhe nos dentes*) que deixou de gostar da poesia das palavras. Porque o poema exige que se descreva - o amor pela rapariga do quarto andar, diz ele. Ficou-lhe o gosto pela (poesia da) pintura (da poesia), que é liberta de sentido, pelo menos, à primeira vista.
Mas Mário, na tua poesia (das palavras) sente-se o pulso de todos nós.
* Escandalosamente roubada a Sérgio Godinho.
Carta aberta ao Cusquices de Gajas
As nossas Cuscas em geral, atribuíram-nos uma graça e um trabalho (de Hércules). Primeiramente ficamos sem palavras; agora, felizmente mais recuperadas do choque inicial. Muito obrigada pela honra que nos concedem.
Em relação à tarefa que nos incumbiram, lamentamos algum desapontamento. Ainda tentamos acordar em relação aos nossos escolhidos... mas já eram seis e afinal éramos (ainda) só duas ao barulho. E seria injusto escolhermos deixando de parte os outros titulares desta casa que é nossa. Assim sendo, os nossos favoritos espraiam-se pelos links da nossa barra lateral e também por aqueles que não revelamos mas que sistematicamente frequentamos. São esses as nossas escolhas: excessivas, sabemos, mas ainda assim irredutíveis.
RR
Quando entrei na oficina pasmei. Olhei uma segunda vez. Ocupava uma grande superfície e era preto, ou quase preto. Aproximei-me com cautela, temendo que num desaparecesse num "blink of eyes". Continuava lá. Notava-se que era de traça antiga, mas parecia quase novo. A condução à esquerda. A senhora-anjo ali, pronta a esconder-se perante uma mão mais atrevida.
"É de 82, mas ainda assim já tem direcção assistida, vidros eléctricos e ar condicionado. Pesa 3 toneladas e a garantia é vitalícia", explicavam enquanto eu observava os detalhes. A escovas dos faróis, o volante contrastantemente fininho para um veículo tão possante. O gigante motor.
Eles continuavam a falar do proprietário: "tem mais três, o último dos quais de 2003. Diz que este consome 25 aos 100... comprou uma quinta nas amazónias. Como achava que aquilo era muito longe de tudo, adquiriu dois helicópteros".
Ainda tentaram elucidar-me quanto aos valores envolvidos, mas eu não conseguia parar de pensar que com aquele veículo poder-se-ia comprar (no minímo) duas casas. E lembrei-me de como estranhamente, o valor do meu carro nem dá para pagar a prestação do meu (pronto, é mais do banco que meu, mas gosto de me iludir, que querem) imóvel.
Diziam-me que "foi construtor civil na África do Sul. Fez fortuna durante o Apartheid e regressou em 92".
E repentinamente, as imagens desse longínquo ano de 1990 e de cantarmos enquanto sabíamos da libertação de Mandela. Recordei vividamente, a capa do relatório da Amnistia Internacional sobre a África do Sul, e que relatava atrocidades sem fim durante os diversos "recolheres obrigatórios". Olhei para aquele RR e pensei que nunca um negro o poderia ter na África do Sul da década de 80.
Que histórias contará aquele RR?
é vida...
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá"
Alberto Caeiro
segunda-feira, 30 de abril de 2007
Pérolas a porcos
Nunca podemos descascar a mesma laranja duas vezes.
domingo, 29 de abril de 2007
Como se eu fosse muito…
Não sou loira…por enquanto, pois já pensei ser e ainda não está fora de questão! Já tenho a tinta e tudo que é necessário!
Mesmo assim, quando eu for loira, irei interrogar à mesma por que há tanta polémica em se fazer um museu dedicado ao Estado Novo.
Tivemos uma ditadura, certo? Faz parte da História de Portugal e vem nos compêndios de História.
Prezo muita a Democracia, não porque vivi a ditadura, mas porque ouço e vejo relatos e testemunhos que sobrevivem sob forma de esclarecimento. Decididamente, gosto de viver em Democracia!
A História existe para esclarecer e alargar horizontes. Acho ridículo escolherem um leque de personalidade que surgiram e sobressaíram num determinado contexto social, económico e político e, depois, levá-los a concurso! E, para cúmulo dos cúmulos, irem a votos. Isto é uma História mal contada!
Falou-se num possível Museu na casa de Salazar, por que não?! É um passado recente que deveria ser aceite e falado da mesma forma como se fala, por exemplo, da época dos Descobrimentos que, para quem anda esquecido, também se cometeram barbaridades desde a escravatura, inquisição, pena de morte, etc… etc…
É importante exorcizar os medos, os ressentimentos e as angústias através do conhecimento, para podermos construir uma sociedade mais justa e equilibrada.
A História serve para racionalizar factos e não para enaltecer ou para propagandear personalidades ou acontecimentos isolados.
Já agora, de quem gostamos mais? Do pai ou da mãe? Depende… não sei! Tenho que pensar…
I will be back… blonde!
Lullaby de domingo
A lira de Orfeu torna-se definitivamente um problema.
Ou melhor, tornou-se um calcanhar.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
les elephants terribles
com um brilhozinho nos olhos fiquei a ouvir a bela voz amiga.
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=134626827
No kisses, no prince

O que mais me irrita nos contos de príncipes e princesas é a discriminação subtil, ou melhor, a desigualdade de oportunidades ali patente! Enquanto o rapaz (príncipe ou não) apenas dá um beijo numa semimorta muito bela, a rapariga (quase sempre plebeia) sujeita-se a dar beijos em sapos que nem sempre se transformam em príncipes (o factor sorte a funcionar)!
Eu cá nunca conto estórias dessas às criancinhas! Tenho pena dos sapos…
Eu cá nunca conto estórias dessas às criancinhas! Tenho pena dos sapos…
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Um dia*
... existirão fins de semana e feriados em que não terei que trabalhar em casa. Um dia, existirão fins de semana e feriados sem culpa!
*Post original de Luna e adaptado à minha condição.
Post... lá para os lados do Jardim da Manga*
A minha Bjork nasceu em Coimbra, numa casa minúscula com postigo.
Recordo-nos nesse primeiro ano, a ouvir compulsivamente It's oh so quiet na tua mini-wini aparelhagem. Recordas-te? Às escuras, ora em sussurros, grande parte aos berros e aos saltos - com o risco de atingirmos o céu que era incrivelmente baixo?
Pois bem, cheira-me que a Bjork contagiante desses tempos está (quase) de volta. Falta-nos a sala e o postigo para a celebrarmos aos saltos.
*Pronto, eu sei, também o fazíamos ao som do Debut
25

A memória é a linha ténue que nos separa do mesmo.
O esquecimento significa perda de nós - do que fomos e do que somos.
Longe do sonho? Certamente. Mas tal não nos impede de tentar. Provavelmente mais desencantados, mais cépticos, mas com uma réstea de esperança em nós e por nós.
"Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira."
Excerto de Canto Moço, de Zeca Afonso.
Ilustração roubada a Mário Cesariny
terça-feira, 24 de abril de 2007
José Luís Peixoto
Um poema escrito pelo conceituado escritor José Luís Peixoto quando tinha 17 anos.
Duelo Artístico
Que importa se morrem?
Que importa se crianças,
de barriga grande, deitam espuma,
de tantas cores, pelas bocas?
Só as cores importam.
Qual será a cor das espumas angolanas?
Será castanho frio no zinco, castanho quente?
Que importa?
Só o amor importa.
O nosso amor,
O nosso amor pela nossa vizinha.
Nasce-me água na boca,
(água, não espuma)
porque a nossa vizinha é óptima.
A nossa vizinha é soberba,
Certamente existe um Deus, senão,
Como poderia existir a nossa vizinha?
José Luís Peixoto, 17 anos (Ponte de Sôr)
In JL - Jornal de Letras, 2 de Janeiro 2007
domingo, 22 de abril de 2007
Das leituras
Sinto falta de entrar numa biblioteca e escolher livros ao acaso. A partir do momento em que me comecei a fazer acompanhar de listas de autores e títulos, deixei os prazeres que a leitura ao acaso nos pode proporcionar. Os dedos percorrem as prateleiras em busca das palavras que possam preencher o tamanho dos olhos. Contudo, as mãos agarram os livros (quase) obrigatórios.
Acho aflitivo a falta de interesse que algumas pessoas revelam. A ignorância é algo que não se consegue evitar. Mesmo @ mais erudit@ há-de ser ignorante em algo. Pode colmatar-se a ignorância parcelar sobre os assuntos. Contudo, o desinteresse é algo que faz parte do indivíduo enquanto Ser. Não se consegue ultrapassar, sobretudo porque, em primeiro lugar @ desinteressado não vê qualquer vantagem nisso. Aceito (não tenho qualquer outra hipótese) só não compreendo.
Um post com remetente
Nada como sacudir as poeiras que nos cobrem no dia a dia e passar à frente.
E acima de tudo, continuar a acreditar.
sábado, 21 de abril de 2007
O meu papá, o engenheiro!
A cena tem cerca de 40 anos. Uma jovem estudante de Conservatório bamboleava-se pelos corredores de livros nos braços com o maior ar afectado que conseguia copiar das imagens de revistas. Logo após a conclusão do curso, a criatura, embriagada pelo odor do diploma adquirido, exigia aos seus jovens alunos que a tratassem por So'tora. A partir daí, apurou ainda mais o andar lento mas cadenciado pelo movimento certeiro de ancas pelos corredores da escola onde iniciou o seu percurso. Afinou a cabecinha a pender ligeiramente para o lado em que a franja lhe atingia os cílios e treinou o salto para ritmadamente marcar a sua passagem pelas salas.
Na verdade, tudo aquilo que acaba de ser descrito é absolutamente secundário. Aquilo que mais impressiona na história de C. não tem propriamente que ver com a forma como percorria os corredores ou o título que exigia aos alunos. O que me impressiona é que C., à distância de 40 anos, em conversa com os colegas de Conservatório, utilizava a bengala línguística de "O meu papá, o engenheiro". Obviamente, o papá da criatura não possuía qualquer diploma que atestasse o título (nem um nem dois, como parece acontecer) nem consta que tivesse prestado provas a Inglês (técnico ou não). O papá da criatura só sabia assinar - e mal - o nome.
Reconheço-lhe a capacidade visionária de ter percebido que o título que mais se prestaria a aldrabices (e aldrabões) seria o de uma engenharia qualquer.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
quarta-feira, 18 de abril de 2007
O melhor dos piores
Em muitos momentos, deparei-me com pessoas pura e simplesmente fenomenais e Z foi uma delas. Deixou muitas saudades.
Z era “Aquela cativa / que me tem [nos tinha] cativo[s]”, era também uma óptima contadora de histórias… Era uma amiga.
Num dos passeios à beira mar, encontrámos um casal conhecido da Z, que vinha com o seu filho e, pelo que me apercebi, único. Comentei com a minha amiga que tinha gostado muito da atitude do menino que, enquanto esperava pelos pais que conversavam com Z., apanhava alguns plásticos e beatas que avistava para depois deitar no lixo. A criança deveria ter os seus oito anos, no entanto, em nenhum momento mostrou impaciência. Muito civilizadamente esperou… E eu, sinceramente, fiquei muito impressionada.
Z. então disse-me que aquela criança era realmente excepcional, mas obtinha resultados negativos na escola, para grande desgosto dos pais, e, numa conversa que assistiu, pode verificar de facto o quão eles sofriam com a situação. A conversa tinha-se passado mais ou menos assim:
- Então P. como vais na escola? – pergunta um pai
- … - responde o P e os respectivos pais.
- A M. também vai bem. - esclarece o pai
- Pai, eu sou a melhor da turma! - reforça a filha
- A J. também teve excelentes notas. - informa outro pai.
- Eu sou a melhor a Matemática! - enfatiza a filha.
- E tu P? – insiste alguém.
- … Eu sou o melhor dos piores. - responde e conclui o P.
P. é um génio, concluo eu.
domingo, 15 de abril de 2007
Ser ou não ser, eis a questão!
"É ou não é engenheiro?" Começa assim a peça teatral que está a marcar a actualidade portuguesa! Não há como evitar, mesmo que se queira...A delícia da antecipação...
Lullaby de Domingo
Já cá faltava a sorte grande da Kylie Minogue.
sábado, 14 de abril de 2007
Presunção e água benta...

(Confesso que aprecio, em particular, a coadunação da mensagem com a fotografia tipo passe!!!)
Carta aberta a Mr Lekker:
Demorei algum tempo a escrever-lhe. O estupor tomou-me de assalto! Deixe que lhe diga que de início a incredulidade tomou conta de mim e fiquei, perto de meia hora, arregalada a olhar para o ecrã (como sabe, tenho olhos enormes, por isso imagine lá a cena - ou melhor atente na fotografia ali ao lado para perceber o meu ar).
Ainda lhe dou o benefício da dúvida. Este post era para mim? Chamou-me "pequena" e colocou-me em fuga? Estou indignada! Duplamente indignada, já que não esqueço a sua reacção aquando do nosso primeiro contacto. Lembro-me que tive empatia imediata para com Vª Exa. (o que não é muito comum, já que sou uma gata sempre de pata atrás com os outros) e tentei dançar consigo.
Mr. Lekker. Recorda-se da sua reacção?
Informou a Woab que de que eu era pírulas. Doida. Eu doida? Só porque tentei dançar consigo e ensaiei alguns passos mais ousados, uns saltos de lado estonteantes e que me exigiram tardes de ensaio? Doida, acusou Vª Exa!
Ainda lhe dou o benefício da dúvida. Este post era para mim? Chamou-me "pequena" e colocou-me em fuga? Estou indignada! Duplamente indignada, já que não esqueço a sua reacção aquando do nosso primeiro contacto. Lembro-me que tive empatia imediata para com Vª Exa. (o que não é muito comum, já que sou uma gata sempre de pata atrás com os outros) e tentei dançar consigo.
Mr. Lekker. Recorda-se da sua reacção?
Informou a Woab que de que eu era pírulas. Doida. Eu doida? Só porque tentei dançar consigo e ensaiei alguns passos mais ousados, uns saltos de lado estonteantes e que me exigiram tardes de ensaio? Doida, acusou Vª Exa!
Como quer que agora não tivesse uma pata atrás em relação a si? Até duas, Mr. Lekker, até duas. De qualquer modo, informo-o que tenho coração fraco e tenho sido alvo de perseguição cerrada por parte de um doido a preto e branco que por cá anda. Daí o meu pânico e a minha cautela. Sou uma gata marcada, Mr. Lekker. Tenho sofrido ataques cruéis pelo que tento ser cautelosa e ciosa da minha integridade física.
Estou ofendidíssima com as suas insinuações (até se me descaíram os bigodes). Mesmo em fuga, sou bem mais graciosa e fotogénica do que essa que postou por aqui.
Profundamente ofendida, mas receptiva a um gesto de boa vontade,
Kiara
Estou ofendidíssima com as suas insinuações (até se me descaíram os bigodes). Mesmo em fuga, sou bem mais graciosa e fotogénica do que essa que postou por aqui.
Profundamente ofendida, mas receptiva a um gesto de boa vontade,
Kiara
quinta-feira, 12 de abril de 2007
A teoria da evolução (dedicada à mulher que já foi pássara...)
terça-feira, 10 de abril de 2007
Eurídice ascendeu ao Blog Que Seja Seu
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
Mais de terra e fogo é o abraço
Com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia
Notes on a Scandal
Lamento, não sou mulher de ficar extasiada perante bons planos, ou que perceba os intrincados meandros de takes e afins. Para mim, um bom texto é (quase) tudo.Tendo feito parte de uma formação para docentes sobre Teatro, escandalizei o formador com a minha teimosia. Queria lá saber da mimetização em si mesma e por si mesma; de me enrolar sobre mim porque estava com frio ou fugir da ameaça imaginária (aliás, não tão imaginária quanto isso, já que o homem berrava literalmente aos meus ouvidos). Ainda recordo (com algum carinho, confesso) o ar de escandalizado quando me recusei a participar em outra mimetização improvisada (perante uma plateia de gente convidada à pressa - e à força, diga-se) de uma suposta peça que deambula agarrada por um fio e que se une para formar a máquina. Patético.
Como disse anteriormente, para mim, um bom texto é (quase)
tudo. E Diário De Um Escândalo, tem-no. O remorso por estar no cinema em plena tarde de segunda (com tanto trabalho ainda por terminar) atenua-se imediatamente nos primeiros minutos. O filme subsiste a partir de três pontos essenciais: um argumento certeiro (do mesmo argumentista de Closer, Patrick Marber) e duas actrizes fabulosas, Judi Dench e Cate Blanchet. A câmara de filmar é um mero acaso, acessório necessário para o duelo.Barbara é a velha professora desencantada que se impõe essencialmente pelo medo. A certa altura é a própria que afirma que sabe que os alunos não gostam dela, mas que a respeitam. E o respeito é tudo, nessa dependência da segurança social em que se tornou o ensino público (segundo a própria Bárbara). É preciso ensinar a escrever, ler e contar, para que possam ser os empregados fabris de amanhã, imersos na miséria de onde a escola não tem que os resgatar.
Sheba é a novata diáfana acabada de chegar à Escola (e ao ensino), com a esperança de conseguir encontrar quem realmente queira aprender e, principalmente, com a esperança de escapar a um casamento que iniciou com um grande festim sexual mas que acabou na rotina de uma família comum. Impossível não perceber Sheba, quando esta tenta descrever o desespero de perceber a distância entre aquilo que sonhou ser a sua vida e aquilo em que ela efectivamente se torna.
Diário de Um Escândalo é uma síntese dos problemas que estão na ordem do dia; uma professora que mantém um caso com um aluno de quinze anos, uma mulher (quase) idosa que se debate contra o medo de estar só, de ficar eternamente só. Na verdade, o medo da solidão (nas suas múltiplas formas) funciona como motivação para ambas as mulheres.
Se é verdade que o aspecto cândido de Sheba nos leva a simpatizar imediatamente com a personagem e que os escritos (deliciosamente) cruéis de Bárbara nos levam a repeli-la de início, também é verdade que a determinada altura a tendência é de convergir: simpatizar menos com Sheba, antipatizar menos com Bárbara. A perversidade domina, mas não apenas a personagem de Bárbara, dolorosamente só ao ponto de a tornar absolutamente obssessiva perante a esperança de uma relação com alguém (em que até um toque acidental com o motorista do autocarro se torna uma esperiência quase erótica). A perversidade também reside em Sheba, que em momento algum percebe a extensão da sua transgressão. Tal como ela o afirma, fê-lo p
orque sentiu que podia.Magnífica, a cena em que Sheba percebe que tem sido manipulada por Bárbara; ainda mais porque até ali não se apercebera que o jogo era efectivamente jogado ao contrário. Sheba percorre quase todo o filme como uma mulher que se atormenta suavemente com a delicada situação em que se encontra; confia no background pobre do seu apaixonado e na fidelidade da sua mais recente amiga que lhe promete discrição. A queda é brutal quando percebe que nem o jovem é pobre ou apaixonado, nem Bárbara é a ingénua discreta que ela julgava. O tombo é grande, mas ainda assim insuficiente. A cena em que acusa Bárbara de a ter destruído é brutal, já que nem mesmo perdendo a família e incorrendo em pena de prisão percebe que é a principal responsável pela delicada situação. Afinal de contas, Bárbara ganhou tudo simplesmente fazendo (quase) nada. Sheba encarregou-se de tudo o resto.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
"Hermenêutica" das vozes
1ª advertência:
Este post surgiu após sete horas de componente lectiva, iniciadas às 8h e 15m da madrugada. Deste modo, salvaguarda-se a autora de eventuais considerações em relação à sua sanidade mental.
2ª Advertência:
O rascunho foi resgatado hoje, por falta de que fazer (ou por outra, por falta de ânimo para fazer o que é necessário fazer).
Continuação dos trabalhos iniciados no post My Private Lord...
Este post surgiu após sete horas de componente lectiva, iniciadas às 8h e 15m da madrugada. Deste modo, salvaguarda-se a autora de eventuais considerações em relação à sua sanidade mental.
2ª Advertência:
O rascunho foi resgatado hoje, por falta de que fazer (ou por outra, por falta de ânimo para fazer o que é necessário fazer).
Continuação dos trabalhos iniciados no post My Private Lord...
De regresso a casa, ouço Leonard Cohen, na sua magnífica I'm Your Man. Completamente abandonado, de um modo desprendido, sensualmente rendido aos pés do rosto a quem promete ser exactamente o que ele (rosto) quiser. Não deixa margem para dúvidas, o modo como modula as palavras. Cohen desistiu de si para tornar-se completamente outro.
Penso na versão de Cave. Dita todas as palavras de promessa iniciadas por Cohen, mas com um tom de contrariedade, de raiva contida por ter que dizer tudo aquilo. É difícil, o objecto dos seus desejos e por isso, absolutamente contrariado, diz-lhe que será tudo o que ela quiser. Percebe-se que promete o que nunca cumprirá. Cave é irresistivelmente real e o gozo com que promete nada em troca de tudo é magnífica.
A versão de Cohen é pateticamente dedicada (o patético aqui não é depreciativo - pelo menos não totalmente). A de Cave é marginal, bandida, deliciosamente manhosa.
Penso na versão de Cave. Dita todas as palavras de promessa iniciadas por Cohen, mas com um tom de contrariedade, de raiva contida por ter que dizer tudo aquilo. É difícil, o objecto dos seus desejos e por isso, absolutamente contrariado, diz-lhe que será tudo o que ela quiser. Percebe-se que promete o que nunca cumprirá. Cave é irresistivelmente real e o gozo com que promete nada em troca de tudo é magnífica.
A versão de Cohen é pateticamente dedicada (o patético aqui não é depreciativo - pelo menos não totalmente). A de Cave é marginal, bandida, deliciosamente manhosa.
Vem ginasticar!
Depois de abusar religiosamente das amêndoas (pelo menos no que a mim me diz respeito...), nada como mexer-se um bocadinho!!! 'Bora lá ginasticar!
domingo, 8 de abril de 2007
A propósito de Amor
Desde as maravilhosas aulas de F.B., que me atenho na biografia de Kierkegaard. Toda a sua escrita matizada a partir da separação: em relação ao seu Pai e, posteriormente, em relação a Regina Olsen. Escolha de Kierkegaard, que rompeu o noivado e assim morreu lentamente, imerso no desejo e na melancolia da separação.
Reencontrei Kierkegaard e Regina Olsen aquando da leitura de Terapia, de David Lodge. O personagem principal, Laurence Passmore (Bolinha), decide perseguir os passos de Kierkegaard:
"Almoçámos na Nyhavn e depois fomos ao museu da Cidade, onde há uma sala dedicada a Kierkegaard.
O Bolinha estava excitadíssimo com a visita, mas acabou por ser uma espécie de anticlímax, pelo menos assim me pareceu. (...)Estava particularmente interessado num quadro que retratava a noiva de Kierkegaard, Regine. Segundo me contou, eles estiveram noivos durante um ano e depois ele rompeu o noivado (...).
(...).
Costumava escrever de pé a uma secretária alta, que era uma das peças de mobiliário que se encontrava na sala. (...). Havia outra peça de mobiliário na sala, no extremo oposto à secretária, uma espécie de aparador, com 1,50m de altura. O Bolinha descobriu na brochura do museu que Kierkegaard o mandara fazer de propósito para guardar as recordações de Regine. Segundo parece, ela tinha-lhe implorado que não rompesse o noivado, chegando a dizer-lhe (...) que não se importava de viver com ele para sempre, nem que tivesse de passar o resto da vida dentro de um armário. «É por isso que não tem prateleiras.» disse o Bolinha. «Para ela caber lá dentro.»"
Reencontrei Kierkegaard e Regina Olsen aquando da leitura de Terapia, de David Lodge. O personagem principal, Laurence Passmore (Bolinha), decide perseguir os passos de Kierkegaard:
"Almoçámos na Nyhavn e depois fomos ao museu da Cidade, onde há uma sala dedicada a Kierkegaard.O Bolinha estava excitadíssimo com a visita, mas acabou por ser uma espécie de anticlímax, pelo menos assim me pareceu. (...)Estava particularmente interessado num quadro que retratava a noiva de Kierkegaard, Regine. Segundo me contou, eles estiveram noivos durante um ano e depois ele rompeu o noivado (...).
(...).
Costumava escrever de pé a uma secretária alta, que era uma das peças de mobiliário que se encontrava na sala. (...). Havia outra peça de mobiliário na sala, no extremo oposto à secretária, uma espécie de aparador, com 1,50m de altura. O Bolinha descobriu na brochura do museu que Kierkegaard o mandara fazer de propósito para guardar as recordações de Regine. Segundo parece, ela tinha-lhe implorado que não rompesse o noivado, chegando a dizer-lhe (...) que não se importava de viver com ele para sempre, nem que tivesse de passar o resto da vida dentro de um armário. «É por isso que não tem prateleiras.» disse o Bolinha. «Para ela caber lá dentro.»"
sábado, 7 de abril de 2007
Eternidade
“Eternidade! Que palavra medonha e terrível. Eternidade! Que mente poderá entendê-la? (…) Suportar nem que fosse a picada de um insecto por toda a eternidade já seria um tormento terrível. O que será, então, suportar as inúmeras torturas do Céu, para sempre? Para sempre! Por toda a eternidade! Não é por um ano, nem por um período determinado, é para sempre. Tentai imaginar o horrível significado disto. Já vistes frequentemente a areia na praia. Como são finos os seus minúsculos grãos! E quantos desses minúsculos grãos são precisos para formar a pequena mão-cheia de areia em que uma criança agarra para brincar. Agora, imaginem uma montanha dessa areia, com um milhão de milhas de altura, elevando-se da terra até aos mais altos céus, e com um milhão de milhas de largura, estendendo-se até ao espaço mais remoto, e com um milhão de milhas de espessura; e imaginem essa enorme massa de incontáveis partículas de areia multiplicadas pelo número de folhas que há na floresta, de gotas de água do poderoso oceano, de penas das aves, de escamas dos peixes, de pêlos dos animais, de átomos na imensa extensão do ar: e imaginai que, ao fim de cada milhão de anos, um passarinho pousava na montanha e levava no bico um minúsculo grão dessa areia. Quantos milhões e milhões de séculos seriam necessários para que o passarinho levasse consigo um palmo quadrado dessa montanha, quantos eões e eões de séculos até a levar toda? Todavia, no final dessa imensa extensão de tempo, nem sequer um instante da eternidade teria passado. No final de todos esses biliões e triliões de anos, a eternidade mal teria começado. E se essa montanha se erguesse novamente, depois de ter sido removida e o passarinho voltasse a removê-la novamente, grão a grão, e se ela se elevasse e fosse removida tantas vezes quantas as estrelas que há no céu, os átomos que há no ar, as gotas de água que há no oceano, as folhas que há nas árvores, as penas que há nas aves, as escamas dos peixes, os pêlos dos animais, no final de todas essas inumeráveis elevações e remoções dessa montanha incomensuravelmente grande, não se poderia afirmar que tivesse passado um único instante da eternidade; mesmo nessa altura, no final desse período, depois dessa imensidão de tempo, que, só de pensarmos nela, nos põe a cabeça a andar à roda, a eternidade mal teria começado.”
James Joyce, Retrato do artista quando jovem
Sobre a gravidade...

O primeiro ciciar da mais grave das vozes deste blog. Mas porquê mais grave? Para além da mais óbvia conotação polifónica poderá isso estar ligado a uma visão mais crítica e racional? Ou, tão somente, dar-se-á o caso de a maior massa corporal ser tão newtonianamente atraída? Esperemos pois que esta gravidade, seja ela qual for, possa ter algo a acrescentar...
Há dois dias que chove.
Há dois dias que o sol se esconde, as nuvens ameaçam o horizonte e escurecem os tons de azul.
Vontade de nada. Again.

Quero porque quero. Sem pedir desculpas. Sem pedir licença. Sem olhar para baixo por acreditar que não tenho direito a aspirar a tanto. Sem me penitenciar por achar que jamais conseguirei. Quero porque quero e sei o que quero, e portanto, não vou abdicar do Direito de querer. Ainda que seja somente por querer.
Picture by Tom Brinck
Picture by Tom Brinck
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Da pluralidade
Este blog é constituído por teclados cada vez mais plurais. Às vozes queridas que por cá se inscrevem, junta-se agora uma ligeiramente mais grave.
Temos homem, no blog que seja seu.
Da Velhice e do Crescimento
Releio tudo ao acaso. Estava apaixonada por este livro, queria escrever coisas bonitas. E só escrevi disparates. Hoje em dia, parece-me tudo demasiado enfático. Ainda assim, acreditava agir de boa-fé. Supunha estar a resumir-me. É possível, isto de uma pessoa se resumir? É possível conhecermo-nos a nós mesmos? Será que alguma vez somos ALGUÉM? Já não sei nada. Parece-me que todos os dias mudamos um pouco, e de repente, ao fim de alguns anos, transformamo-nos num novo ser. Tanto procurei dentro de mim, e já não encontro vestígios daquela pessoa ansiosa, perturbada, descontente consigo própria, zangada com os outros. É indesmentível que em mim vivia a quimera da grandeza. Era moda na época; todos queríamos ser excepcionais, e, não o sendo, depressa caíamos no desespero. Fiz bem em conservar-me boa e sincera. Estou agora muito velha, palmilhando airosamente o meu sexagésimo quinto aniversário. Graças a um qualquer capricho do destino, sonto-me muito melhor de saúde, mais forte e mais ágil do que nos tempos de juventude; ando mais a pé, passo melhor a noite - tenho noites óptimas, e por isso levanto-me sem esforço. Conservei-me macia como uma luva. Os meus olhos já não distinguem as coisas; tenho de usar óculos, e encontrei um par que me permite enxergar entre as ervas e na areia os pequenos objectos de história natural que são o meu regalo. Banho-me na água gelada e corrente com um prazer supremo, nunca me constipo. Já nem me lembro de ter reumatismo. Preenche-me uma calma absoluta, uma velhice tão casta de espírito como o é no procedimento diário; nenhum remorso de juventude, nenhuma ambição de glória, nenhum desejo de dinheiro, à excepção do que espero deixar aos meus filhos e netos. Sem dissabores relativamente aos meus amigos. Um único desgosto: o género humano, cada vez pior, as sociedades parecem virar as costas ao progresso, mas quem sabe o que esconde tal atonia? Que despertar se encontra latente por detrás de tal torpor?
Já não vivo em mim. O meu coração passou inteiro para os meus filhos e para os meus amigos. Só sofro com aquilo que lhes traz sofrimento. E sofro bastante, por vezes demasiado, porque dar-lhes alento exige muito de mim. Falta-me coragem interior para lidar com o mal dos outros. Se os outros não existissem, eu seria completamente feliz - feliz como uma pedra com olhos -, mas eles existem e obrigam-me a existir. Alegro-me e aflijo-me neles e por eles.
Quanto a mim, já nada me faz falta. Viverei muito tempo? Esta velhice surpreendente, que me apareceu sem moléstias e sem quebranto, será sinal de vida longa? Morrerei de repente? Que importa sabê-lo, se a todo o instante nos arriscamos a ser acidentalmente ceifados? REstar-me-à alguma utilidade? Aqui está uma questão importante. Parece-me que sim. Sinto que posso ser útil de uma forma mais pessoal, mais directa, como nunca fui. Não sei bem de que maneira, mas acumulei muita sabedoria. Hoje, seria capaz de educar melhor as crianças do que antigamente.
Mantenho a minha fé, mantenho integralmente a minha fé em Deus. A vida eterna. O mal um dia derrotado pela ciência. A ciência iluminada pelo amor. Mas... e os símbolos, as figuras, os cultos, os deuses humanos? Não contem comigo! Já ultrapassei isso tudo.
Faço agora parte do universo, e pronto. Não sou minimamente interessante, pois suporto tudo o que aconteceu de mal na minha vida e ainda consigo saborear o bem. (....) Não tenho medo da morte, lamento apenas o desgosto que assim causarei aos meus.
Fui-lhes útil nos últimos vinte anos? Sim, parece-me que sim. Quis muito sê-lo. Afinal, enganei-me ao pensar existirem momentos na vida em que nos podemos simplesmente exonerar sem magoar ninguém, pois reparem: ainda sou útil, apesar da idade avançada. O meu cérebro não perdeu o vigor. Sinto que absorveu muito e que nunca esteve tão bem alimentado.
É errado pensar que a velhice é um declive por onde vamos caindo: muito pelo contrário, subimos, e a passos largos, surpreendentes. O trabalho intelectual faz-se tão rapidamente como nas crianças o trabalho físico. Não é que não nos aproximemos do fim da vida, mas fazemo-lo com se fosse um objectivo, e não o derradeiro e fatal baixio onde encalharemos para sempre.
In Journal Intime, George Sand, 1868
Traços

Invejo as pessoas que agarram num teclado (ou em algo que também escreva...) e conseguem construir um discurso inteligível com a facilidade com que eu como tangerinas. Desde que me recordo que a arte da verbalização é coisa complexa. Diz-se uma coisa e lêem outra. Quer-se ironizar e levam-nos a sério. Mostramo-nos bem humorados e parecemos rancorosos. Exprimir-se, e não só (portanto) escrever, é um exercício difícil. Encher páginas com caracteres que façam sentido não é tarefa para qualquer um, não senhora. E à medida que vejo a página a encher-se de cores, prefiro a expressão pelo desenho, pelo traço escuro e firme de um retrato, ou de outra coisa qualquer, cujo sentido, seja, à partida, indecentemente subjectivo - até mesmo aos olhos de quem maneja o pincel.
quinta-feira, 5 de abril de 2007

Este blog cumpre os preceitos pascais*.
Estamos em abstinência quaresmal!
*Recusamo-nos a "pagar" a desobriga.
Estamos em abstinência quaresmal!
*Recusamo-nos a "pagar" a desobriga.
Pintura de Almada Negreiros
Subscrever:
Comentários (Atom)









