segunda-feira, 30 de maio de 2016

Antilocução

Apesar de inicialmente contextualizado na realidade do Brasil, este texto tem pistas sobre como as mulheres são tratadas, por norma, no espaço público.
Em 1929, Virginia Woolf reivindicou um quarto que fosse só das mulheres para que elas - nós - pudessem(os) dar largas ao pensamento.
Em 2016 é preciso ainda continuar a reivindicar um espaço - desta feita não o almejado quarto que seja seu, um espaço privado - mas o direito ao espaço público.
Aos pontos descritos no artigo, acrescentaria a compulsão para o descrédito de tudo o que diga respeito às mulheres - e ao género. Estamos a falar de uma área das ciências humanas com trabalho reconhecido há décadas mas que muitos e muitas insistem comentar como se de «opinião» se tratasse. A desconsideração pelo labor de muitas e de muitos (que não se conhece) é reflexo desta propensão para desvalorizar tudo o que diz respeito aos estudos sobre as mulheres. Aliás, o recurso à ridicularização de tudo o que diz respeito às questões que dizem respeito às mulheres é um recurso clássico de quem «não é machista, mas...». E é um bom exemplo de como se engendra o ambiente perfeito para a aceitação de comportamentos discriminatórios mais explícitos. Mas isso não é nada. O que importa é que «Jusqu'ici tout va bien. Jusqu'ici tout va bien. Jusqu'ici tout va bien.»


Helena Almeida, «Ouve-me», 1979

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Jovem conservador de direita e a falácia do empreendedorismo



este tipo é fabuloso e permanece o mistério sobre como é que não se desmancha a rir.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015



Quer me parecer que não foi bem isto que os/as gregos/as que votaram não no referendo tinham em mente. Acredito que não seja fácil estar no lugar de Tsipras, mas o facto de fazer o contrário do que prometeu, isto é, do que o fez ser eleito, aproxima-o perigosamente de Passos Coelho. E isso é muito, muito mau. Para a Grécia. E para a Europa.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Esmaga o/a magistrado/a que há em ti



as pessoas são tão rápidas a julgar.
O mundo está cheio de juízes/as prontos/as a sentenciar sem ouvir e sem nada avaliar.

Nesta audiência permanente em que vivemos, todas as palavras que contrariam as nossas crenças padecem de falta de conhecimento empírico: "em vez de escrever esse texto com base em preconceitos, já experimentou ir ao local e ver?". Mas se se vem do centro da sensação, então carece-se de distanciamento objetivo: "claro que não pode avaliar com rigor e objetividade, se é sujeito no cenário" [sim, porque é preciso ser mutilado de guerra para entender que a guerra é multifacetada e muito mais complexa do que o resultado de uma experiência localizada]. "Se é deficiente não pode escrever sobre deficiências de forma objetiva, está claro". [claro, como é que tal não me teria ocorrido].

Para certas pessoas, os direitos humanos são matéria para se parecer bem. Parece que quem defende direitos humanos agora é acusado de pertencer a uma qualquer brigada de policiamento. Como se os direitos humanos - de todos/as os/as humanos/as não precisassem, de facto, de defesa e proteção e, sobretudo, de reconhecimento! Mas não, para estas pessoas, é tudo uma questão de parecer e não, efetivamente, de ser.

Quem é lesto/a em julgar, sem sequer fazer o esforço de se colocar no lugar do/a outro/a, acusa e condena o/a outro/a com base numa tal «brigada do politicamente correto» apenas revela desinformação e ignorância e arrogância.

Se lutar pelos direitos humanos é ser politicamente correto/a, então que seja.

Eu quero ser MUITO politicamente correta. TODOS OS DIAS.

Simon Walker

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Juncker, o movedor de montanhas

já estou de lágrima no canto do olho ao ouvir o Juncker a garantir que foi a troika a insistir nas medidas sociais durante as conversações, porque o governo grego nem sequer queria saber. Não sei o que pensar sobre o facto de ele assegurar que isto não era mais um pacote de «austeridade estúpida». Isto quererá dizer que os outros pacotes eram «estúpidos»? Estou emocionada, Juncker. Obviamente que, para além de preguiçosos/as, os/as Gregos/as são os/as vilões/ãs europeus (esta mania do berço da democracia do mundo ocidental escolher os seus próprios líderes e de estes insistirem em manter o programa com o qual foram eleitos, tem de acabar!)


O Juncker acaba de dizer que eles «moveram montanhas!» - havia alguma figura bíblica com este feito?

[já o ouvi falar em francês, em inglês, e agora está a falar em alemão - quero ver se fala grego]

terça-feira, 5 de maio de 2015

E insiste

É impressionante que João Miguel Tavares fale em «números» relativos à infeção por VIH/SIDA que «pululam em blogues e redes sociais» como se fossem falsos, apresente dados da OMS e cale os dados nacionais.

O argumento dos «países civilizados» é tão válido quanto na civilizada Suíça alguma gastronomia típica incluir carne de cão, ou os civilizados EUA condenarem pessoas à pena de morte, e alguns dos seus Estados interditarem uma panóplia de atos sexuais. Não basta que seja importado para ser bom. Convém que tenhamos capacidade para analisar as importações. Portugal criminalizou a violação marital em 1982, enquanto a «civilizada» Inglaterra só o fez dez anos depois.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Doar sangue e sexo anti-natura, segundo João Miguel Tavares


A argumentação de João Miguel Tavares, no Governo Sombra de hoje, sobre as declarações de Hélder Trindade, relativas à interdição da doação de sangue por homossexuais, é um exemplo da ignorância atrevida: não sabe, mas opina acerca do que desconhece, como se fosse um especialista.

Para além das afirmações que remetem para a utilidade das práticas sexuais [só o sexo com potencialidade procriativa é 'natural', segundo o jornalista], Tavares lança dados inexistentes. Na lógica de João Miguel Tavares, não são outros hábitos, nomeadamente o uso de preservativo, que influenciam a probabilidade de transmissão de DST, em particular, do VIH-SIDA. Não, segundo Tavares tudo se resume às práticas [sexuais]. O jornalista reduz o sexo à cópula heterossexual vaginal e à cópula anal homossexual e heterossexual, defendendo que, a prática anal representa maior perigo de transmissão, o que está correto, mas apenas num cenário de sexo desprotegido (ver imagem). Adicionalmente, Tavares tem tiradas como: «estás a colocar a pilinha num sítio no qual a natureza não...». A ideia de as práticas sexuais sem potencialidade reprodutiva serem anti-natura, é antiquíssima. Na Idade Média, o pecado [e crime] da sodomia incluía todas as práticas sexuais 'inúteis', como sejam o coito interrompido, o coito interfemural ou o bucal e, claro, o anal, sem esquecer a masturbação. Inúteis para fins reprodutivos, assinale-se, que eram os únicos admitidos para a prática de relações de sexo.


Tavares é, naturalmente, livre de ter uma visão biologizante das práticas sexuais e de partilhar a ideologia do imperativo coital, no entanto, é grave que, num programa de rádio, afirme, como se fosse verdade, que a infeção e transmissão de VIH-SIDA entre homossexuais é muito superior à de heterossexuais [isso é tão anos 80!]. Só se for na cabeça de Miguel João Tavares.

Diz o jornalista que, no que respeita à doação de sangue, o direito «é o de quem recebe sangue e não o direito dos homossexuais em dar sangue». Da minha parte, espero que os serviços competentes façam o seu dever antes de qualquer transfusão de sangue - isto é, que o submetam a todos os testes legalmente obrigatórios, para além do teste do HIV, independentemente da orientação sexual do/a dador/a. Este é que é o direito de quem recebe sangue: é ter a garantia de que que lhe vão injetar um produto que cumpre todos os parâmetros estipulados legalmente. E esses parâmetros devem ser assegurados independentemente da orientação sexual do dador. Escrevo no masculino porque claramente, esta é uma questão que afeta desproporcionadamente os homens homossexuais.

O discurso de Tavares está pleno de ignorância e estereótipos que revelam a adesão a mitos da homossexualidade que servem para alimentar a homofobia. Foi também confrangedora a falta de preparação dos restantes participantes da tertúlia pública (ninguém se deu ao trabalho de consultar estatísticas?). É verdade que há mais homens infetados do que mulheres. Mas não se pode concluir, a partir deste dado, que a maioria dos homens infetados seja homossexual.

Bastaria a Tavares consultar os dados e o relatório.


É lamentável a falta de preparação e, sobretudo, a difusão de mitos que reforçam a discriminação contra pessoas com orientação sexual diferente da heterossexual.


sábado, 25 de abril de 2015

Portugal, Abril de 1974

detenção de um agente da PIDE testemunhada por Henri Bureau, Abril 1974

Hoje, ainda é assim.

Adenda: no segundo episódio de Os Últimos Dias da PIDE, alude-se a esta foto (vencedora de um prémio da World Press Photo) esclarecendo que não se trata de um agente da polícia política, mas sim de um sem-abrigo.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Assédio Sexual de Rua (piropos incluídos)

Maravilhas do Chile, que até tem um Observatório do Assédio de Rua


Claro que cá isto é só exageros das/os feministas.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Passos Coelho assegura que vencemos Voldemort



Rodney Pike

Passos Coelho, titular do cargo primeiro-ministro de Portugal, junta-se à lista de personalidades que recusa nomear a grande ameaça que todos/as conhecemos, mas cujo nome ninguém ousa pronunciar.

domingo, 5 de abril de 2015

Os excessos das feministas de segunda vaga



A Elle deste mês traz um artigo sobre o «novo feminismo». De acordo com a diretora da revista, cuja citação encerra o texto, ficamos a saber que «o feminismo de agora» é «solto, relevante e livre». E eu aqui a achar que os feminismos, desde a sua origem, sempre tinham sido relevantes, mas afinal, parece que é só "agora". O que não deixa de ser irónico, uma vez que vivemos numa altura em que muita gente defende que os feminismos deixaram de fazer sentido, precisamente, por já se ter conquistado a igualdade formal.

Entrevistadas pela revista, as fundadoras da página Maria Capaz acreditam estar a contribuir para «as pessoas» deixarem de temer a «palavra 'feminismo'». A plataforma Maria Capaz tem subjacente uma ideia que me parece louvável e que poderia ser de extrema utilidade, para informar e contribuir para as reivindicações feministas, caso não repetissem ad nauseam uma mão cheia de senso comum, que reforçam essencialismos, sobre os quais urge refletir e desconstruir. Sim, há alguns contributos interessantes na plataforma e algumas tentativas de incentivar a reflexão. Julgo, no entanto, que estas são neutralizadas pelo tom generalizadamente essencialista e acrítico da maioria das narrativas. Aliás, a Rita Dantas fez um post maravilhoso sobre o assunto.

Que as palavras feminismo e feminista metem medo até mesmo às cobras, sobretudo em Portugal, já se sabe há muito. Aliás, as Actas do Congresso Feminista de 2008 intitulam-se precisamente «Quem tem medo dos feminismos?». Algumas pessoas poderão ilustrar, de viva voz, os motivos pelos quais ser feminista, em Portugal, é coisa para se ser proscrita. Se falarem com a Maria Teresa Horta ela explicará - ilustrando com a sua experiência própria, porque é que assim é. Do lado académico, várias pessoas abordaram o assunto também. Apesar de haver, em Portugal, um trabalho de desconstrução de que feminismo não é o contrário de machismo, a propaganda com vista à desinformação rende até hoje. São comuns as respostas a garantir que são «humanistas» e não «feministas», porque são muito «femininas» e outras ignorâncias similares.

A explicação avançada por Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues, fundadoras do Maria Capaz, e reproduzida pela Elle, é que, pelo menos para mim, é inovadora. De acordo com o citado na revista, aquelas afirmam que o mau nome do feminismo se deve ao feminismo de segunda vaga:

«(...) na segunda grande vaga destes movimentos (que aconteceu entre o final dos anos 60 e os anos 70), acabaram por ser cometidos alguns excessos e isso, de certa maneira, acabou por contaminar a palavra».

Podem repetir?

Jill Posener fotografa o resultado do vandalismo feminista que comprova os excessos cometidos por feministas de segunda vaga.
Claro, como é que nunca tinha pensado nisso? Foram as feministas que deram mau nome ao feminismo! 

Um pouco de conhecimento de história dos feminismos permite perceber que as feministas da chamada primeira vaga, frequentemente chamadas sufragistas, também não caíram bem no goto da maior parte das pessoas. E a palavra feminismo - entre a primeira e a segunda vaga - nunca foi bem vista (tal como ainda não é hoje, basta pensar no facto de, após o discurso na ONU, a Emma Watson ter recebido inúmeras ameaças). 

A revista não explica que excessos das feministas de segunda vaga são esses e que Rita Rodrigues e Iva Domingues acreditam terem «contaminado» a palavra  (terá sido exigir liberdade e autodeterminação sexual? Terá sido a exigência de acesso a direitos sexuais e reprodutivos? Terá sido a exigência de eliminação de cláusulas discriminatórias no direito da família, e no direito penal? Terá sido a exigência da criminalização da violação marital? Terá sido a exigência da criminalização dos maus tratos conjugais? Terá sido a exigência de que o trabalho doméstico fosse pago? Que para trabalho igual houvesse salário igual? ....) Qual das exigências das feministas de segunda vaga terá sido o(s) excesso(s)? Não sabemos o que querem as fundadoras do Maria Capaz dizer com aquela frase enigmática porque, ainda que a tenham explicado à autora do artigo, a revista não o esclarece.

Se estavam a pensar em queimas de sutiãs, convinha começarem por investigar um pouco mais acerca do mito da queima. Não há, evidentemente, garantias de que uma (ou várias) feministas não tenham nunca queimado sutiãs, mas, por cá, decididamente, nunca o fizeram. Não sei que excessos* é que as citadas se referem, mas a ideia de que foram as feministas a dar mau nome ao feminismo é coisa de fazer chorar, de tão perverso que me parece. Acredito até que não tenha sido essa a intenção das autoras, ou mesmo da diretora da revista ao afirmar que o feminismo «agora» é que é «relevante», «solto» (seja lá o que isso for) e «livre» - mas que a apropriação dos feminismos por parte da indústria da moda, moldando-o para ser um produto vendável, pode causar mais danos ao «nome» do que alguma vez antes, lá isso pode.

Para além de remeter para um mundo ainda mais obscuro as mulheres e os homens que lutaram pela igualdade, de forma pioneira e absolutamente corajosa, o maior perigo é, precisamente, o da confusão de que ser feminista é acreditar que as mulheres (ou a mulher, como tanto gostam de escrever no Maria Capaz, como se todas as mulheres fossem iguais e uma massa uniforme de gente. Aliás, sobre isto já a autora do 30epicos escreveu uma crítica contundente.) podem fazer tudo o que quiserem, como se a igualdade se resumisse a uma qualquer liberdade individual de uma mulher «mãe, profissional (bem-sucedida), consciente, empreendedora, reivindicativa, na medida certa, feminina, feminista (...)». Como se todas as mulheres partissem [e estivessem] do/no mesmo ponto.

Os feminismos partem de uma base comum, que é a do reconhecimento da existência de um sistema social de ordem patriarcal que prejudica mulheres e homens, com especial incidência nas primeiras. Os feminismos diferem nas abordagens que apresentam e nas soluções que preconizam para lutar (sim, lutar) contra as desigualdades (re)produzidas por esse mesmo sistema social.

Independentemente de que tipo de feminismos estejamos a falar, o objetivo é que uma pessoa possa tomar as decisões que entender sobre a sua vida sem ser prejudicada apenas porque é mulher. Alguns feminismos salientam outras categorias além do género (etnia, orientação sexual, orientação religiosa, aspeto físico, classe social, orientação política, nacionalidade, entre outras). Alguns feminismos centram-se em problemas globais nos quais acreditam que as mulheres podem ter um papel preponderante (ecofeminismo, p.e.). Há temas que dividem as feministas: a prostituição é um deles, a pornografia é outro, entre vários. Decididamente, há espaço para toda a gente e todos os contributos sérios e bem intencionados são desejáveis. A discussão, a reflexão e a (auto) crítica são pontos fulcrais de desenvolvimento de ideias e das suas concretizações. Convém, no entanto, que se tente não reforçar os estereótipos e a ignorância que se tenta combater.

everydayfeminism.com

Seja «novo» ou «velho», não há UM feminismo. HÁ FEMINISMOS 
(não sei qual das ligações "se inspirou" na outra, uma vez que têm conteúdos muito similares, ainda assim, a wiki parece-me mais completa).

*saliente-se, p.e., que a ação de feministas, usando máscaras a representarem cães, e que forçaram a entrada de um estabelecimento comercial, em Lisboa, que ilegalmente e impunemente, interdita a entrada a cidadãs, foi também apelidada de «excessiva» por parte de muita boa gente que se diz «humanista» e «defensora dos direitos humanos de homens e de mulheres».

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Hermética?

Elisa Imperi


«Ganhei o troféu da criança-1967 com o meu livro infantil O Mistério do Coelho Pensante. Fiquei contente, é claro. Mas muito mais contente ainda ao me ocorrer que me chamam de escritora hermética. Como é? Quando escrevo para crianças, sou compreendida, mas quando escrevo para adultos fico difícil? Deveria eu escrever para os adultos com as palavras e os sentimentos adequados a uma criança? Não posso falar de igual para igual?
(...).»
Clarice Lispector (2013). A Descoberta do Mundo - Crónicas. Relógio D'Água, p. 104.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A Queima dos/as nabos/as

A Associação Académica da Universidade da Beira Interior (UBI) publicou no youtube o seu vídeo promocional à Semana Académica da UBI. O João Mineiro (JM), do Bloco de Esquerda (BE), afirmou que o vídeo era misógino, e houve alguém - aparentemente, um dos autores do vídeo -, que o acusou de estar a seguir modas. Parece que misoginia agora é uma palavra popular, deve ser como troika, sei lá (e a julgar pelo vídeo, a misoginia vai de muito boa saúde, sim senhora). É nesta troca de conversa entre o João Mineiro e o autor do vídeo (que o JM nunca nomeia), que este ensina que um vídeo promocional:


Espera... 

se bem entendi, o vídeo dirige-se a um target, [em português: público-alvo], que são "miúdas bêbedas"?

Pode repetir? Espera, é às miúdas bêbebas, «com decotes grandes e que cravam beijos em troca de uma passa por um charro» que este vídeo se dirige? Ah, bom... ainda bem que esclarecem, por momentos cheguei a pensar que era a quem estuda na Universidade da Beira Interior (UBI) e à população em geral que que costuma frequentar as Queimas, independentemente de usar decotes e de se embriagar, ou não.

Mas pelos vistos não, e atenção que não basta estar bêbeda. É preciso também usar decotes - mas não é qualquer decote, tem que ser dos grandes. Ah, e não se esqueçam de cravar uma passa num charro, se não reunirem as três características, estão safos/as - este vídeo não é para vocês.








É todo um mundo de poesia nos objetivos na promo da Queima de 2015, nas palavras de um dos autores desta obra prima, que tanto envergonha o cérebro de qualquer publicitário/a. Ah, e anotem bem a lição do génio criativo: um vídeo promocional está-se nas tintas para o politicamente correto. É todo um poço de profundidade e de iluminação técnica nestes ensinamentos. Na verdade, explica o autor, um vídeo promocional está-se nas tintas para o facto de as mulheres, bêbedas, ou não, com decotes, ou sem eles, a cravar shots na noite - ou de dia - ou o que bem lhes apetecer serem pessoas (porque, sei lá, assim de repente, ocorre-me que sejam sujeitos com direitos e garantias iguais aos de qualquer outro cidadão/ã; seres autodeterminados, cuja liberdade sexual é um bem jurídico reconhecido como a qualquer outra pessoa, independentemente do tamanho do decote e do grau de álcool no sangue). Nã, nã, meninos/as. É o target - e o target é uma mistura de qualquer coisa - porque «é feito de miúdas bêbebas» - que estão representadas no vídeo por miúdas em calções a passear uma cabra e que representam essas mesmas miúdas bêbedas.... ou seja, o vídeo dirige-se ao grupo que representa. Estou confusa (deve ser por ser da quantidade de shots que já ingeri enquanto escrevia este texto). Então a Semana Académica é para  miúdas bêbedas, que usam decotes grandes e cravam shots e uns bafos em charros. Hum.. então e se cravarem pastilhas? Ou LSD, já não dá?

Digam-me que ninguém recebeu dinheiro para fazer isto, por favor. A ideia por si só já é muito má, a imagem é péssima, a luz horrenda, e os planos nem na companhia do «senhor humor» se safam. Só faltava alguém da AAUBI ter pago para isto.

Alguém traga um mapa do século XXI para estes/as cavalheiros/damas da AAUBI acabadinhos/as de chegar do século XVIII.


quinta-feira, 19 de março de 2015

Passos Coelho, o Indeciso



Informa a TSF que Passos Coelho quer «"remover num par de anos" todas as medidas extraordinárias do tempo da troika». Nem sei se ria agora, ou espere pelas eleições.


domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional das Mulheres

Esta caricatura publicada no Charlie Hebdo demonstra maravilhosamente a atitude do mundo ocidental face à comodificação [peço emprestada a palavra ao Fairclough] do corpo das mulheres.

Enquanto este serve para ser olhado, cobiçado, tocado, manipulado para o prazer do outro, tudo bem. Quando as proprietárias desses corpos reclamam para si o poder de os usar como bem entendem, inclusivamente, desnudando-se [pasme-se!] para si ou como forma de luta, e não para serem vistas pelo olhar masculino, então é o nosso senhor nos acuda, que o mundo acabou e é tudo uma pouca vergonha.

FEMEN par Charlie Hebdo
E não, contrariamente ao que sugere Inês Ferreira Leite, no Maria Capaz, não são as mulheres que impõem às outras o modelo de perfeição. Não basta ela perguntar aos homens que se conhece se eles valorizam ou não a celulite nas pernas de uma mulher. Convém observar a publicidade e as revistas - é que, que  eu tenha notado, nem a Playboy ou qualquer outra revista masculina apresentam modelos diversos de beleza feminina. É sempre o mesmo modelo monolítico da mulher [preferencialmente branca], magra, ou muito magra, pele uniforme, sem poros e só com alguns sinais estratégicos, de cabelo arranjado e de boca semiaberta; e não, não têm celulite. Toda a gente no ocidente sabe reconhecer o modelo de beleza feminina dominante. Precisamente, porque ele se impõe. Contrariamente ao que IFL faz, não se pode avaliar a realidade a partir das opiniões e comportamentos dos amigos - à partida, se são amigos, logo [pelo menos os meus] são homens maravilhosos [e seres humanos que eu muito admiro]. Mas há mais mundo para além do umbigo. Nem sempre é bonito, mas está lá. Ignorá-lo e dizer que são as mulheres a principal força da sua própria opressão é pura e simplesmente ignorar todos os dados empíricos que vão além do umbigo de quem investiga. Eu também conheço homens cretinos. Mas não os chamo de amigos e, sempre que posso, evito-os. (ah! E culpar as mulheres por serem a fonte da sua própria opressão não é feminismo; é apenas um reflexo da ideia medieval de que as mulheres são todas más como às cobras e invejosaassss).

E neste dia Internacional das mulheres, se calhar, podíamos aproveitar e refletir sobre a facilidade com que aceitamos a discriminação contra as mulheres como conceito comercial, em pleno século XXI. O que li sobre a intervenção das feministas na barbearia causou-me perplexidade. Uma coisa é criticar a ação (por se defender outros tipos de intervenções); outra, muito diferente, é defender como admissível um conceito comercial que coloca as mulheres abaixo de cães e que, ilegalmente, lhes interdita a entrada, com base na ideia ser muito gira, e os tipos até são empreendedores e, ah, claro, o conceito está disseminado na Europa (se os outros têm é porque deve ser bom). Ah, e já agora aproveitar a onda da reflexão e olhar bem para a capa da Lux Woman que tem duas «feministas assumidas» - o assumida (o adjetivo usado para revelar publicamente alguma característica que se sabe ser reprovável pela maioria) deixa antever a confusão que vai nas cabecinhas de muita gente a propósito do conceito de feminismo. O Priberam sabe o que é, já o Ciberdúvidas, cujos conhecimentos da língua portuguesa são incontestáveis, está um pouco confuso.

terça-feira, 3 de março de 2015

Ai não?


Segundo o Público, estas são palavras de Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara do Porto. Estas declarações foram ditas a propósito da crítica de Carla Miranda, vereadora sem pelouro, da mesma autarquia, a quem, segundo o jornal, o presidente da Câmara, Rui Moreira, mandou ter "dois pingos de vergonha".

This isn't happiness


De acordo com a notícia, Miranda terá criticado a atribuição de uma medalha municipal de mérito a Sindika Dokolo, marido da oligarca Isabel dos Santos. Dokolo é um poderoso colecionador de arte, que passeia as suas aquisições um pouco por todo o mundo. Predispôs-se a levá-las à Invicta. Pelo que consegui perceber, a oposição de Miranda incide na atribuição da medalha de mérito. O que, decididamente, ultrapassa a minha compreensão são as declarações de Cunha e Silva, vereador da cultura. Então não importa a origem da coleção? Se o produto tiver sido roubado pode ser exposto? Se for comprado com recurso à exploração de mão de obra escrava também não há problema? E se vier do Estado Islâmico também pode ser? (eu sei que é pouco provável, que eles optam por destruir a arte, mas vá, estamos no campo da imaginação). Se for oferta do Mubarak ou do Yanukovych também marcham? 

O que me parece inaceitável não é sequer a atribuição de uma medalha de mérito a um colecionador de arte (isso pode ser discutível, e parece-me bem que seja discutido e que se discuta sim, a qualificação da pessoa a quem se vai atribuir o mérito, evidentemente! Afinal de contas, a medalha é suposto simbolizar o mérito, logo, mais que natural que se avalie se a pessoa a merece ou não). Se Dokolo tem ou não mérito? Não faço ideia. Mas espero que, quem vai atribuir a medalha, não o faça somente por ele ser casado com uma das mulheres mais poderosas do planeta, cujo pai lidera um país com desigualdades sociais gritantes e com atropelos muito graves à liberdade de expressão, conforme denúncias da Amnistia Internacional. Ou apenas por ele ser dono de uma ótima coleção de arte, porque embora ele seja o único marido de Isabel dos Santos, não é o único colecionador de arte do mundo, de resto, só no país temos vários, um dos quais com uma coleção particularmente bem cotada.

O que realmente me parece intolerável é que uma pessoa com responsabilidades, no poder local, venha dizer publicamente que "não importa a origem da coleção"? Ai não? Olhe, na altura em que as oligarquias caem há sempre gente que se desvincula. Deve ser dos «macaquinhos no sótão».