sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Adeus

Este é o último post em que utilizo a grafia da Língua Portuguesa tal como sempre a conheci. Por defeito profissional, sou obrigada a adaptar-me ao novo acordo ortográfico. Não é só o corte no salário, ou a subida de IVA que me vai afectar no Novo Ano. A minha Língua também deixará de ser a minha.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Últimas Pérolas a Porcos do Ano (2010)

Qualquer semelhança com a nossa realidade, não é coincidência:

«Os nossos sentimentos morais foram na verdade corrompidos. Tornámo-nos insensíveis aos custos humanos de políticas sociais aparentemente racionais, especialmente quando nos asseguram que elas irão contribuir para a prosperidade geral e assim - implicitamente - para os nossos interesses separados. (...).
Hoje voltamos às atitudes dos nossos primeiros antepassados vitorianos. Mais uma vez, só acreditamos em incentivos, "esforço" e recompensa - juntamente com castigos pela desaquação. (...). Se os trabalhadores não estiverem desesperados, porque hão-de trabalhar? Se o Estado pagar para que as pessoas fiquem ociosas, que incentivo elas terão para procurar emprego remunerado? Regredimos ao mundo duro e frio da racionalidade económica do Iluminismo, expresso pela primeira vez, e melhor, em 1732 n'A Fábula das Abelhas, (...). Na opinião de Manderville, os trabalhadores "nada têm que os faça mexer além das suas carências, que é prudente aliviar, mas loucura remediar."»
Tony Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70, pp. 36-39

O autor continua com a afirmação de que Tony Blair não o diria melhor. Sócrates também não, acrescento eu.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Dize aos filhos da Madeira que votem*


A partir de hoje, muitos/as madeirenses estão atormentados/as por um autêntico dilema que terá de ser resolvido até à próxima ida às urnas.Como muitos/as compraram a tese de que os madeirenses são efectivamente um povo superior, de repente são confrontados/as com uma escolha que se afigurará difícil:
Por um lado, há um madeirense na corrida às Presidenciais, o que significa que  um cidadão cujo BI atesta pertencer a este povo superior seria uma escolha natural para todo(a) o(a) madeirense saudável e bem regimentado/a (os/as judeus/judias andaram estes milénios todos muito enganadinhos/as com a história do povo escolhido - afinal havia outro). Por outro lado,  os/as fiéis seguidores/as da crença em Madeirenses, Jardim e PSD, constatam que se o candidato supracitado cumpre o primeiro requisito e tem uma actuação pública muito parecida com o segundo, na verdade anda distante do terceiro. Aliás, quanto ao terceiro, este tem um outro candidato que,desgraçadamente, é continental e, portanto, cubano. Como se vê, o dilema moral é enorme e julgo que provocará dolorosas insónias e consecutivas idas à igreja à procura de uma alumiação divina porque os povos superiormente alumiados geralmente são muito bem relacionados com o divino - ou pelo menos, com os que se dizem seus representantes directos (ai Teodoro, Teodoro, ai Carrilho, Carrilho).

*Adulteração de "Dize aos filhos de Israel que marchem." Livro do Êxodo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diz que é um País laico

Eles por lá
Leio num jornal que um professor, em Espanha, foi interrogado pela Polícia por ter falado de presunto, em uma das suas aulas. Um aluno e respectivos pais acusam-no de comportamento xenófobo e falta de respeito para com a sua religião (pelos vistos o profeta não tem especial apreço por carne de porco).


Nós por cá
Em contrapartida, na minha terra, chegamos à época de inferno. Eu, que vivo num Estado pretensamente laico, acordo agora todas as manhãs com uma cerimónia religiosa berrada aos meus ouvidos. Note-se bem: estou deitada, no meu quarto, noite escura, e acordo estremunhada com um virgem do parto, ó maria, seenhooora da conceiçããão. E a coisa persiste em nome do pai, do filho e do espírito santo. Mais à frente (e eu às voltas) o sermão do padre, que como todos os sermões de padres desta altura falam de luz, de candeias e velinhas a alumiar o caminho dos(as) pobres pecadores(as) - que somos todos(as) nós, principalmente os(as) que praguejam na cama porque a liberdade religiosa lhes invade o seu espaço privado - desde as 5.30 da matina, que a salvação quer-se bem cedo. 
Esta redenção é-me impingida todos os dias, uma tradicional salvação que acontece todos os Natais. A esta salvação não chega remir os(as) que cheios(as) de boa vontade (e outras coisas mais) preenchem os bancos da igreja a horas de se estar a dormir; esta salvação obriga também os(as) que estão em casa e que não querem nem precisam ser salvos(as) a fazer parte de tudo isto. Porque num Estado que se diz laico, as Câmaras ainda acham que podem privilegiar desta forma indecorosa uma confissão religiosa e permitir-lhe a propagação da boa nova mesmo para quem não quer ser evangelizado(a). Num Estado que se diz laico, eu não tenho opção de escolha e na época do natal ouço re-li-gio-sa-men-te a missa todos os dias, que é para aprender a não ter a mania que estou num País livre.

(pintura de Hieronymus Bosch)

O exame que (não) era e que se julga que passará a ser (e respectivas trapalhadas)

Acaba-se o primeiro período com a sensação de que tudo mudou. Saúda-se o regresso do exame nacional de Filosofia, já com um primeiro ensaio no próximo dia 22 de Fevereiro para quem ingressou este ano no 10.º ano de escolaridade, em que se realizará (a nível nacional) o teste intermédio à disciplina.
Tudo estaria bem, se não tivéssemos iniciado o ano lectivo sem a informação de que arrancariam este ano testes intermédios na disciplina e que apontam (mas não confirmam) para a possibilidade de exame no ano terminal da disciplina (11.º ano).
Tudo estaria bem se esta calendarização (22 de Fevereiro) não fosse tão perniciosa para quem começa agora o seu percurso pela disciplina. Um agendamento muito pouco cuidado face aos conteúdos contemplados implica um ritmo nas aulas que é muito pouco razoável. A primeira unidade teve que ser em muito sacrificada e é possível que este ritmo alucinante leve os(as) alunos(as) a adquirir alguns (mais) anticorpos à disciplina. 

Perante tudo isto, não é possível deixar de questionar o intento desta planificação trapalhona. Esperemos que quem elaborou (ou está a elaborar) o teste intermédio que aí vem tenha tido em conta o currículo da disciplina, e não a orientação de determinados manuais. Esperemos que todas estas andanças não sejam apenas para engendrar desculpas para acabar com a disciplina.
 Sabemos a possibilidade de ter gente a pensar pode ser incomodativo...

Sobre a saga dos exames de Filosofia, ver aqui, aqui e aqui.

(pintura de Rembrandt)



Boa Semana

domingo, 19 de dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Galardão Natalício: a solidariedade em todo o seu esplendor


As crianças andam doidas, completamente apaixonadas por essa figura que surge sempre por esta altura do ano, muito cor-de-rosa, bamboleante, cada vez mais Lolita, embaixadora da caridade natalícia. Minto; as crianças dividem-se, entre uma paixão assolapada pela Popota, essa hipopótama cada vez menos hipo e uma paixão mais comedida, mas ainda assim intensa, pela Leopoldina, uma avestruz pensada para fazer com que os/as portugueses/as enfiem a cabeça na areia. Ambas sérias candidatas a beneméritas, senão da humanidade, pelo menos de Portugal, apregoam as fabulosas doações do seu patrão para causas sociais. São assalariadas, as bichinhas, e trabalham intensamente por esta altura, numa exortação pungente aos esvaziamento dos bolsos dos/das portugueses/as. 
Este ano (não sei se acontecia também o ano passado) a instituição de solidariedade social que é a Sonae continua a sua demanda de fazer caridade com o dinheiro que é dos outros; e propõe, para além de todas as quinquilharias usuais, um telemóvel da Popota, pela módica quantia de 59 euros. As crianças deliram, os pais um bocadinho menos, mas a verdade é que estas coisas vendem e fazem com que as pessoas passem um Natal mais apaziguado, na ilusão de que fizeram a sua parte. Esquecem o mais importante: ano após ano, a Sonae apregoa uma solidariedade que não é a sua: paga o/a cliente para que, com toda a pompa e circunstância, se apresentem cheques caridosos a instituições, num festival de exibicionismo atroz. Todos sorriem, inclusive o consumidor, o único que nada ganha com tudo isto. A solidariedade não é para todos/as. E principalmente, só dá lucros a alguns.

domingo, 12 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"A Calçada da Corticeira é o Calvário das Carquejeiras do Porto"


Outro testemunho de um observador - Hugo Rocha - do 'calvário' das carquejeiras publicado no
 Século Ilustrado, a 19 de Abril de 1947, retirado daqui.
Para eventuais interessad@s, pode ler-se, no Centro de Documentação Movimento Operário e Popular do Porto, no âmbito do projecto "Memórias do Porto: testemunhos do Porto laboral do séc. XX", o testemunho de Palmira de Sousa, que percorreu a Calçada desde os 10 anos de idade.


As Carquejeiras


Eram mulheres, umas fortes, outras nem por isso, que subiam e desciam de madrugada até à noite a Calçada da Corticeira (a rampa, cuja nunca ninguém subiu de automóvel ou de bicicleta, embora tivessem tentado, façanha que ficaria nos anais do burgo). As carquejeiras descarregavam molhos de 40, 50 ou mais quilos de carqueja (ou chamiça) dos barcos que a transportavam Douro abaixo.


Depois, com os molhos às costas, dobradas, subiam a calçada (210 metros, 22 por cento de inclinação) até às Fontainhas. Ali, descansavam pousando a carga no muro da Alameda, bebiam água num fontanário e lavavam os rostos - sujos do pó da chamiça, e escorrendo suor. E prosseguiam viagem até ao centro da cidade, às Antas, a Paranhos, à Boavista, aos sítios onde havia padarias de que a carqueja era acendalha para os fornos. Entre os anos 30 e 50 passaram centenas de mulheres pela Corticeira. Num ano, em 1940 e tal, chegou a haver noventa, todo o dia, em bicha e em ziguezague, para compensar a agrura da subida.

Falavam pouco e contaram pouco. Pouca gente, aliás, estava interessada em ler coisas tristes e, além disso, as histórias delas não tinham o 'charme', nem o sumo requinte dos dramas traduzidos do francês. Por tal motivo a tragédia das carquejeiras ficou por contar. Dos temps em que andávamos na praia do Borras a tomar banho, em frente à Corticeira, guardei a imagem daquele formigueiro, daquele funicular de mulheres ocultas sob o carrego da carqueja eriçado de hastes com o aspecto dos ouriços. Um formigueiro a que éramos indiferentes: o rio chamava-nos na aventura da travessia e os desgostos interessam pouco aos meninos. Mas, ainda assim, recordo os seus rostos quando as vi de perto, no alto da Corticeira (tão inclinada que nunca a palmilhei de alto a baixo). Rostos amargos....

Histórias poucas. Não eram comédias de costumes e arranhavam em demasia a boa consciência das pessoas. Ficaram, no entanto, alguns nomes: a Blandina, que aceitou dizer quanto ganhava e os carretos que fazia (dez diários, a 50 quilos, dão meia tonelada, multipliquem por doze meses, durante dez anos - e terão ideia do peso do calvário). A Ermelinda, que ficou assinalada por ter dado à luz em plena subida, e a Elisa, que ficou mais assinalada por ter morrido de repente, aos trinta anos, a meio da Calçada, debaixo do carrego. Pessoalmente não as esqueço e, quando vou à Corticeira ver os crepúsculos recortarem a Ponte, lembro-me delas. E aqui deixo a evocação. Serve de homenagem à dignidade, porque, se a dignidade tem um rosto, é, com certeza, o das carquejeiras.

Helder Pacheco, As Carquejeiras, 1988
Calçada da Corticeira, Helena Reis




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Para ti, sabes porquê


"We should write as we dream; we should even try and write, we should all do it for ourselves (...)"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Boa Semana


Não é só a banda sonora deste filme que é recomendável.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pergunta da semana

Estava no google. Como é que está errado, se tirei do google?
(ao dizê-lo tinha um ar triunfante, uma espécie de Agora toma! E como é que te safas desta?)

Ainda não é o espírito de Natal*

Neste primeiro fim-de-semana de Dezembro, já a cheirar a Natal, apenas um desejo: que amanhã, na ida para a escola, quando sintonizar o rádio do carro na TSF, estejam a noticiar a morte das bilhardeiras:
Imagino uma história bem escabrosa, em que provocam a morte uma da outra apertando os infindos cordões de ouro que andam a vender por tudo o que é ourivesaria da Ilha**. 
Que as últimas palavras das criaturas sejam um curto pedido de desculpas pela falta de talento propagada em todos os intervalos dos noticiários. Que sejam breves, que farta de as ouvir ando eu.

* mas é a prenda ideal.

**Já agora, é um bocadinho idiota tanta ourivesaria julgar que estes senhores encaminharão clientes para a sua porta. 33 mil ourivesarias anunciam da mesma forma e esperam que alguém as distinga? Já para não referir a coerência destes parodiantes: uma no cravo outra na ferradura, não é?


Lullaby de Domingo


Banda sonora para um fim-de-semana de tempestades: lá fora e na luta contra a vontade de nada fazer apesar da pilha de fichas para corrigir.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Inverno do nosso Contentamento*

Há dias que o céu não nos deixa em paz, num lamento constante, ritmado pela lentidão ou por vezes (felizmente só por vezes) violentamente zangado. Não há grande diferença entre o dia e a noite, a não ser no que diz respeito ao conforto de sentir-lhe a zanga lá fora, longe do nosso quarto.
Não percebo este céu por cima de nós; há dois meses e meio que entro sistematicamente em salas abafadas, apinhadas de adolescentes que transpiram tanto ou mais do que eu.
Não nos chega frio, apenas a água que escorre dos nossos corpos acalorados, o esforço de pensar com os pingos de suor a caírem o mais discretamente possível (acreditamos nós). As gargantas secas e os poros a trabalhar freneticamente, a reclamar o espaço do outro que está mesmo ali, quase colado, com o bafo quente a queimar-nos as orelhas.
As salas de aula são lugares terríveis, em dias como os que temos tido. E por vezes, a tristeza do céu rouba-nos o espaço lá fora, nos intervalos, quando poderíamos respirar mais livremente por escassos minutos. Uma tristeza quente, sempre quente, sem esperança.
Há dias que chove e finalmente começa a ser uma chuva que anuncia o frio. Pelo menos já se respira outra vez.

*Título inspirado num título de Steinbeck.


domingo, 28 de novembro de 2010

Lullaby de Domingo


Uma das coisas de que mais gostei em The Social Network foi exactamente a banda sonora, a cargo de Trent Reznor. E mais ainda desta faixa que brinca com Grieg (um dos meus compositores favoritos).

sábado, 27 de novembro de 2010

Matrix

Já não estamos num País constituído por cidadãos e cidadãs, nem numa Europa para as pessoas. Somos agora apenas escravos dessa entidade sem rosto que é o mercado e existimos com o único propósito de alimentá-lo. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Matem as Mulheres Primeiro

Voltamos a ter um ano negro. 39 mulheres assassinadas, 11 "danos colaterais" e 38 tentativas de homicídio (uma delas já esta semana). 
É a crise, dizem muitos/as. As pessoas andam muito mais agressivas por causa da crise. Mas esta questão, a da violência nas relações amorosas sempre foi um problema subjacente ao modo como nos relacionamos, com ou  sem crise, com ou sem informação com mais ou menos punição. 
A verdade é que continuamos a validar estes comportamentos de cada vez que procuramos justificações, de cada vez que chafurdamos nos contornos do crime à procura de motivos.  Ela provocava, ela estava a pedi-las, ela também nunca se foi embora continuam a ecoar mais alto que ele matou-a. 


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em greve

(imagem roubada ao blog Rua do Patrocínio)

A minha participação cívica não se resume aos queixumes à mesa do café.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dos Mexeriqueiros



Por se evitarem os inconvenientes, que dos mexericos (1) nascem, mandamos, que se alguma pessoa disser à outra, que outrem disse mal delle, haja a mesma pena, assi civil, como crime, que mereceria, se elle mesmo lhe dissesse aquellas palavras, que diz, que o outro terceiro delle disse, posto que queira provar que o outro o disse.



1) Chama-se Mexerico, a acção de contar, dizer, ou referir o que se ouvio em segredo, ou em confiança a alguem, a seu inimigo, ou ao amigo, para os inimisar.
Como os mexericos, diz João de Barros, pela mór parte sempre são fundados em algumas conjecturas provaveis, quasi sempre produzem effeito.
Ordenações Filipinas, Livro XXXV

Imagem de Hieronymus Bosch

Boa Semana

domingo, 21 de novembro de 2010

Declaração de interesses


Colaborei para a presente edição do Projecto 10, dedicada aos anos 90. 
Fica aqui o agradecimento pelo convite, ao Aires Gouveia, que conheci num feliz jantar de blogger's aqui na Região (vai já para um ano). 

Lullaby de Domingo


A propósito de Cimeiras, t'shirts, FMI e gente que não sabe o que é contar tostões ao final do mês, mas que nos fala da necessidade de fazermos isso. Flexibilizemos nós as relações laborais dessa gente.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ainda a Cimeira

é uma novidade tão grande, mas tão grande, ver os governantes do mundo em reunião a queimar os seus neuroniozinhos enquanto as primeiras-damas vão ao MUDE. Sei lá, apetece-me ser chata (é assim que se diz, não é?) pois bem sei, que até já há mulheres em cargos de chefia de nações (olha a Merkel, o que é que queres mais, hã?). Afinal de contas, elas não têm cabecinha para pensar nos destinos das armas do planeta. Aliás, foi lindo ver, durante a Cimeira Ibero-Americana cada um(a) no seu papel. Ah! É tão boa esta igualdade! Uns pensam e as outras passeiam. Cada qual no seu lugar.
Segundo entrevistada na SIC, um grupo de filandes@s foi impedido de entrar em território nacional. Declararam ir participar nas manifestações anti-NATO e "faziam-se acompanhar de tarjas e t-shirts.... "

tarjas e t-shirts? É legal impedir a entrada de cidadãos que declaram ir participar em manifestações legais e que se fazem acompanhar de "t-shirts" e "tarjas"?

sábado, 13 de novembro de 2010

Lullaby de Domingo (ou sábado)


Ainda não decidimos (programado para as 23:59). 
10.

Novas Cartas Portuguesas - "Há 38 Anos foi histórico, agora é contemporâneo."*

Está já ao virar da esquina,  As Novas Cartas Portuguesas, edição anotada da responsabilidade do grupo de trabalho da Ana Luísa Amaral. Ainda não a tenho, porque só estará nas livrarias a 15 de Novembro e já se sabe que na Ilha as coisas tendem a ser ainda mais morosas, mas está formalizada a encomenda. De qualquer modo, nem a própria D. Quixote nos agraciou com a capa do livro no site. Imperdoável.

*Da entrevista dada por Ana Luísa Amaral, para a Ípsilon.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Da obrigatoriedade

Apesar de ter passado vergonha esta semana com a alegada virilidade da Chaterine Deneuve (afirmação idiota postada no facebook) e apesar da abada que a Shyz Nogud lhe deu com a maior das pintas (e não foi preciso recorrer de qualquer propriedade viril), ainda assim a Ípsilon de hoje é obrigatória. Tem as Três Marias e Grinderman. I rest my case.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Entrevistas quase, quase reais

Ricardo Salgado: "ó, que maçada, Judite! Já lhe expliquei milhares de vezes que pagamos muitos impostos! E que o TGV não é uma coisa piquena".

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

F Word


A Crise não é para Todos(as)

Confesso alguma perplexidade perante inúmeros juízos de valor que, aqui e ali, se ouvem. 
Desde que o País está em crise (e não recordo o seu início, o que contraria desde logo o conceito de crise) que arribam vozes que, num estilo declamado e geralmente pomposo, apontam o dedo aos(às) portugueses(as) em crise e que insistem em esbanjar dinheiro. Perante tão escaldante denúncia, as possibilidades não são muitas: os(as) juízes(as) tão profícuos(as) em juízos de valor não são portugueses(as). 
 Muitas vezes sustentam a tese de que os(as) portugueses(as) não sabem poupar porque, nas suas saídas de estrangeiros(as) que não estão em crise, puderam constatar que os(as) outros(as), que são todos(as) portugueses(as), também lá estavam: a jantar, os(as) incontidos(as). A esbanjar dinheiro em concertos, os(as) mãos-largas. A encher supermercados, os(as) comilões(comilonas). A comprar roupas e sapatos e malas, as grandes porcas (já sabemos que esta acusação por norma só é declinada no feminino). Claro que no caso específico do(da) observador(a) comentador(a) nada destes comportamentos viciosos, porque apesar de os ter, já sabemos que não faz parte dessa enorme massa que são os portugueses em crise. Os portugueses em crise são sempre os(as) outros(as).

domingo, 7 de novembro de 2010

Jornalismo de pacotilha

(criado por Jim Davies)*

Gostava de perceber a intenção (e já agora o motivo, se não for pedir muito) deste título gordo.  É que esses(as) professores(as) destacados(as) e a receber, não estão destacados(as) para as suas casas onde, refastelados(as) nos seus sofás, aguardam placidamente pelo salário. Esses(as) professores(as) destacados(as) e a receber estão, obviamente a trabalhar. Não necessariamente a dar aulas (mas em alguns casos também), mas a exercer funções pelas quais são, obviamente, pagos. 
A minha única dúvida reside se este é um título que revela apenas um trabalho pouco aprofundado ou pura desonestidade intelectual. É que há uma diferença enorme entre as duas, apesar de nenhuma das hipóteses ser abonatória para o Diário em questão. 

*Perdoe-me o Garfield, o abuso no uso da sua imagem para um post destes.

Lullaby de Domingo



terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Quando a Palhaçada não tem Limites 2

"Tem alguma ideia de qual é a representação percentual dessa massa de ignorantes numas eleições? 
Fernando Savater - Não sei determinar. Mas o sintoma mais alarmante dessa ignorância pode ser medido nas televisões. Em Espanha, os programas de debate discutem os amores de fulana e beltrano. Há uma mulher em Espanha que é um fenómeno mediático. É famosa apenas pela sua ignorância cósmica e por dizer os maiores disparates. No entanto, uma sondagem feita numa rádio determinou que muitos espanhóis votariam nela para primeira-ministra. Na sequência disto, a rádio ligou-me para opinar sobre o assunto. “Vocês acreditariam que os mesmos espanhóis votariam nela para treinadora da selecção nacional?”, perguntei. E a resposta que obtive foi: “Não, claro que não! O lugar de treinador da selecção é um posto demasiado sério!” Ou seja, quando falamos de coisas sérias falamos de futebol, e quando falamos de política tudo é possível. Este tipo de degradação do discurso é muito grave."


Quando a Palhaçada não tem Limites 1

(imagem roubada aqui)

Ao que parece, o inenarrável Coelho pretende candidatar-se à Presidência da República. Apenas tenho a lamentar que se alimente este género de figuras que, sob a capa da denúncia, são apenas e tão somente mais do mesmo. Ou pior. 
Lamento que por cá as pessoas tenham confundido, mais uma vez, uma triste palhaçada com Política. Lamento que não se perceba a profunda falta de civismo que uma linha de actuação desta natureza significa. Leia-se, por exemplo, o blog que assenta no mesmo registo para se perceber imediatamente que esta gente não é, não pode ser, gente séria. 
A relevância que o  PND ganhou na Região é apenas resultado de um erro grotesco do eleitorado madeirense, que sempre teve predilecção por bobos da corte. Espero sinceramente que o número de idiotas seja insuficiente para que esta intenção de candidatura tenha realmente pernas para andar.  

Boa Semana

domingo, 31 de outubro de 2010

"Sou o que quero ser"

Ao ler esta notícia, lembro-me do que sempre aprendemos sobre as mulheres: que são frágeis, que são emocionais, que não são feitas para trabalhos deste género. Coitadinhas. E se já antes conhecemos mulheres que atestam que esta condescendência é falaciosa (lembram-se da polémica da entrada das mulheres nas forças armadas?), temos agora esta mulher, de 20 anos, a assumir um cargo que todos/as sabem ser perigoso. Torçamos por ela e não esqueçamos o seu nome e o seu rosto.

*Título roubado a Clarice.

Lullaby de Domingo


Há que perceber o seguinte: só sou bem mandada de mim mesma. Não tenho por hábito obedecer a déspotas. Nem à direita nem à esquerda.

sábado, 30 de outubro de 2010

Bastaram Alguns Telefonemas

Finalmente percebe-se o amuo de meados da semana. É que era mesmo preciso fundamentar todo aquele discurso do Cavaco sobre como é peça fundamental para a salvação do País. O Governo e o PSD lá lhe fizeram a vontadinha e agora passa-se de fininho a ideia de que o homem teve dedo na coisa:


(imaginar Teixeira dos Santos e Eduardo Catroga comovidos com o fado de Cavaco)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Olha, rolou cá para baixo novamente

 (Ticiano)

A recandidatura que todos/as nós sabíamos que ia acontecer está aí. E porquê? Não é que realmente quisesse: Cavaco sacrifica-se pelo País, Cavaco vai salvar o País. 
As mesmas promessas messiânicas de há 4 anos atrás. Ficamos todos/as muito mais descansados/as com tanto fervor patriótico do homem que pouco se fez notar nos anos de Presidência (e quando se fez notar, foi o que se viu). Carregou nos últimos quatro anos com a crise nos ombros, qual Sísifo, Portugal acima. Ao que parece, voltou tudo ao início. Minto, está substancialmente pior. Mas já se sabe que é o homem certo. Afinal de contas, há melhor que um economista para presidir a um País em crise? Temos visto...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Le meilleur point de vue"

Aquele que é o meu texto de Derrida está finalmente traduzido. Por Fernanda Bernardo. Publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian (capa do livro aqui ao lado).

Divergências conceptuais

Sobre isto, mantenho um saudável diálogo com Jools; eu sou do clube do caríssimo Funes. Já Jools é um acérrimo defensor de que um alargamento do prazo limite até cerca de 3 anos (após a data indicada) é perfeitamente aceitável. O critério passa pelo aspecto da coisa...

"Piquenos" enganos

Indicar o Google (imagens) como fonte é equivalente a indicar como referência bibliográfica a Biblioteca Municipal do Funchal.

domingo, 17 de outubro de 2010

Lullaby de Domingo


Dedicada à minha direcção de turma (teremos uma longa conversa).

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

E depois acontece isto, caros/as amantes do acordo ortográfico

 (a imagem aparece com link quebrado, pelo que não é possível determinar a proveniência)

Facto continua a ser facto, na medida em que apenas desaparecem as consoantes mudas. Mas há jornais e revistas que alegremente cortam tudo e todas. Já parecem a Rainha de Copas da Língua Portuguesa.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Verdadeira Vocação

Na avaliação de Professores/as , dá-se especial ênfase ao verdadeiro intuito de tal carreira: a leccionação e tarefas relacionadas com esse acto (veja-se o caso da publicação de manuais escolares, por exemplo) não é tão válida quanto outras modalidades assaz pertinentes para o ensino em Portugal: primeiro o trabalho de deputado/a, autarca ou dirigente sindical. Só depois a ralé, os que ficam nas escolas e "só" leccionam.
Chamam-lhes cargos de reconhecido interesse público. Percebe-se a distinção: é que leccionar obviamente não é um cargo de interesse público, excepto quando se trata de perorar sobre a avaliação de quem o exerce.

Baile de Máscaras - o PCP que temos (e por vezes esquecemos que temos)

 (imagem daqui)

O Partido Comunista Português, que reclama a luta pela Liberdade para seu feudo, faz comunicados destes, a lamentar a atribuição do prémio nóbel da Paz a Liu Xiaobo. Ao que parece, ao PCP não fazem impressão os regimes ditatoriais; ou melhor, apenas tem pruridos em relação aos que não são da sua cor política. 21 anos depois, Tiananmen torna a desvelar o rosto que por vezes esquecemos estar lá.

domingo, 10 de outubro de 2010

Lullaby de Domingo


"Insinuo o «coração partido» e o «amor» e alguma ordem misteriosa do Universo, mas 'I dare not speak it's name" (...). Porquê? Por medo de diluir o seu sentido, nomeando-a, ou por medo de deixar de acreditar, depois de repetir a mesma coisa, concerto após concerto, ou por medo de que aquilo se torne um cliché. "

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Viva o Regabofe!

Claro que para quem governa este país, o facto de 'o povo' (seja lá o que isso for! E, please, poupem-me à definição da CRP ou de um Dicionário!) se concentrar nos que já pouco podem traz vantagens óbvias. Enquanto 'o povo' se entretém a gastar munições contra as minorias étnicas, contra @s beneficiários do Rendimento Mínimo de Inserção (ess@s ladrões que nada querem fazer!), contra @s desempregad@s (esses que nada querem fazer!), os institutos públicos vivem à grande e à francesa. Os convites da festa do 20º aniversário da ANACOM (tinha que ser uma coisa a sério, afinal de contas, só se tem 20 anos uma vez) devem ter sido bordados pelas  mesmas virgens cegas que bordam alguns diplomas universitários....  pois custaram 12 mil euros... o que é isso nos dias que correm, em que se cortam abonos de família a quem ganha 630€....????
Para se rirem daquilo que as entidades públicas afirmam ser "compras transparentes de acordo com o código das compras públicas" e dentro da total legalidade, á favor visitar e explorar o base.

Liu Xiaobo


Nós homenageamos-te.
a ti, e a tod@s @s que sobreviveram à perseguição de um regime que insiste em matar a própria população.
E também aos que ofereceram o corpo em sacríficio por uma liberdade sonhada.
@s mort@s de Tiananamen ainda não foram suficientemente chorad@s.



O Povo que temos 2

Nos jornais portugueses, a notícia de que o Nobel da Paz será entregue a Liu Xiaobo tem indignado inúmeros leitores, que consideram um ultraje que tal prémio seja entregue a um desobediente. Preso, ainda por cima, porque não consegue ficar calado e desobedece ao Estado e promove manifestos e horrores do género. Há que encarneirar, senhoras e senhores. Sobretudo encarneirar.

O Povo que temos 1

Dos argumentos mais extraordinários que já ouvi sobre o desastre que seria a eleição de Manuel Alegre para PR, ressalvo o seguinte (cito de memória): o senhor não é bom para o cargo porque não é obediente nem disciplinado. Desobedece ao partido e isso, claro, não pode ser uma virtude nos tempos que correm. Há que encarneirar, senhores e senhoras.
If you are lonely when you're alone, you are in bad company.
Jean-Paul Sartre 
Picture by Henri Cartier-Bresson

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Contos Exemplares


"I Dare Not Speak It's Name"

Esta semana a Visão justifica o preço que por ela é pago. Na página 114.

O homem pássaro está entre vós: falou-vos no passado dia 1 de Outubro e toca esta noite na Aula Magna, também para vós . O vós só é extensível a quem está no Continente, especialmente a quem está por Lisboa (porque estar no Continente não basta e há quem trabalhe amanhã cedo e não possa ter o luxo de se deslocar até à Aula Magna e depois regressar calmamente a casa).  O homem pássaro está entre vós e desconfio que vos falou da mesma forma sublime como compõe e  como escreveu uma belíssima crónica que justifica o que se paga pela Visão (esta semana). E eu, esmagada pela inveja de apenas lhe beber as palavras escritas e a nada mais ter direito.

(a próxima lullaby será dele)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A ignorância Atrevida

Ouço Miguel Sousa Tavares (MST) garantir assertivamente, no Jornal das 9, na SIC, a inexistência de monarquias ditatoriais. Talvez não fosse má ideia, sei lá, mandar-lhe umas informações das ONG's de Direitos Humanos sobre... as monarquias (na visão dele tão democráticas) da Arábia Saudita, do Camboja, da Tailândia, do Brunei, Omã, dos Emirados Árabes Unidos.... A ignorância é triste, mas a ignorância atrevida é insuportável! MST diz estas incorrecções sem qualquer pudor. Sem qualquer reconhecimento pela responsabilidade que é ser um personagem que tem acesso ao espaço público de forma privilegiada. Não preciso de ver um telejornal para ouvir o que MST disse: já o ouvi anteriormente (por parte de alguns defensores do regime monárquico). É curioso como uma ideia se pode perder no caminho sinuoso dos argumentos e de quem os recebe. Não entendo esta defesa da monarquia baseada na alegada 'inexistência de ditaduras monárquicas' - o que, para além de ser uma incorrecção - não invalida que as monarquias europeias tivessem tido períodos de regimes ditatoriais. Sou republicana porque não concebo a ideia de que alguém ganhe o direito de representar/e/ou governar a nação apenas porque nasceu numa determinada família [terá por certo as suas vantagens - encontram-se, naturalmente, prós e contras no facto de se educar alguém (de nascença) para as tarefas de representação do reino (consoante o tipo de monarquia pode ser bem mais que representação)]. Mas voltando o foco aqui para o rectângulo, e pensando no papel do PR: sim, apesar de todos os constrangimentos existentes na eleição de um(a) PR (apenas as personalidades escolhidas pelos partidos podem ser eleitas na prática e, os partidos mais fortes - mais ricos -, têm mais hipótese que os outros) - apesar destas (e de outras questões que fragilizam a eleição de um representante da nação e outras que fragilizam o próprio regime em si), continuo a preferir um regime onde eu possa escolher quem me representa. A ideia das castas e dos privilégios e obrigações à (por) nascença carece de algum tipo de crença no destino - da qual eu sou desprovida. É claro que, reconheço a existência de castas (de famílias, de profissões, partidárias, etc.) no regime republicano democrático em que vivemos. Claro, e pior que isso, existem privilégios quanto ao número de nomes que @s descendentes da ex-família real podem usar (privilégios esses que não são extensíveis aos restantes cidadãos). Dizia MST que "foi um erro esconder o que foi a 1.ª República: que se acha que se instituiu o sufrágio universal, a inclusão das mulheres na política, a promoção da educação". Não sei com quem anda MST a falar, mas eu soube há já alguns (bastantes) anos que as mulheres acederam - timidamente - aos lugares de eleição e eleitoras já durante o Estado Novo. O que se sabe é que a Iª República prometeu o voto às mulheres republicanas e que lho retirou logo após a médica Carolina Beatriz Ângelo ter exercido o seu direito de voto (não sem antes a questão do recenseamento ter ido a tribunal). Por isso se costuma dizer que a Iª República traiu as mulheres sufragistas. E se falhou no número de escolas que implementou (porque não cumpriu o seu plano para a educação), lembremo-nos que a monarquia já contava com alguns séculos sem tentar - tão pouco - democratizar o ensino. As coisas são como são, mas eu gostava, sinceramente, que @s monárquic@s deste país dissessem mais em prol da defesa do regime que acreditam ser melhor para o país, para além de se queixarem do dinheiro gasto na representação da República (na Monarquia devia ser menos, com certeza...), ou no facto de algumas personalidades da República terem mais privilégios que ele@s (não é que tod@s nós, é del@s!) - como se o mesmo não acontecesse na monarquia... Depois, claro, para não ajudar, ainda há aquela gente que gosta de usar palavras light como nomes próprios e nomes de peso nos apelidos, a quem as revistas cor-de-rosa acompanham com títulos de baronesa, duque, e aparentados. Esses trataram de ridicularizar qualquer réstia de dignidade à coisa.

Picture by Diane Arbus

Boa Semana

sábado, 2 de outubro de 2010

Lullaby de Sábado


(lullaby de sábado para DE)

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
 Clarice Lispector

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Fim e o Princípio (de quê?)

Depois de cada guerra
alguém tem de fazer a limpeza.
As coisas não se limpam
a si próprias, afinal.
Alguém tem de afastar os escombros
Para a berma da estradas,
Para que as carroças com os cadáveres
Possam passar.
Alguém tem de meter-se
por entre a lama e as cinzas
por entre as molas dos sofás
por entre os vidros partidos
por entre os farrapos ensanguentados.
Alguém tem de arrastar a trave
Que escorará a parede,
Alguém tem de por o vidro na janela
E colocar a porta nos gonzos.
Nada disto é digno de ser fotografado
E demora anos.
As máquinas fotográficas partiram já
Para outras guerras.
As pontes têm de ser reconstruídas
E as estações ferroviárias também.
As mangas das camisas ficarão rotas
De tanto serem arregaçadas.
Alguém, vassoura na mão,
Se lembra ainda de como foi.
Outro alguém escuta, acenando que sim
Com a cabeça
Mas já outros, ali perto
Acham tudo aquilo um pouco maçador.
De vez em quando alguém
Desenterra ainda numa moita
Um velho argumento enferrujado
E lança-o na lixeira.
Os que sabem
o porquê e o como
vão ceder lugar
aos que pouco sabem.
E aos que sabem menos ainda.
E por fim mesmo nada.
E na erva que vai crescer
Sobre as causas e os efeitos
Alguém deverá deitar-se
de espiga nos dentes
olhando as nuvens
O Fim e o Princípio por Wislawa Szymborska

Clarice ali, a olhar para mim

aTrouxe o único exemplar que havia na FNAC. Não sei se houve mais.apenas que Clarice estava lá, à minha espera, a detestar a tradução do título que fizeram. A Mulher mistério tem uma biografia cujo título português é demasiado evidente. Why This World transformou-se em Clarice Lispector - Uma Vida. Mau presságio?


Sou invadida pela mesquinhez. Invejo o autor, que tem a minha idade e que se dedicou a esta obra monumental (refiro-me ao volume e às leituras documentadas, que sobre o conteúdo ainda nada posso acrescentar). Folheio o livro a invejar uma paixão idêntica, mas que foi muito mais longe que a minha. Pobre de mim, SÓ leitora.

domingo, 26 de setembro de 2010

Qual o valor de uma biografia?

Curiosa, a forma como esta biografia é apresentada ( ainda não li). Como se a obra de Clarice Lispector não fosse suficiente para esta ser reconhecida ; como se a biografia desenhada por outras mãos suplantasse a escrita da própria. Como se esta fosse a primeira vez que se escreve sobre Clarice.
Título estranho, este. 

Lullaby de Domingo


Semana de apresentações: um admirável mundo novo. O receio estampado em alguns rostos. Noutros, desafio. Aborrecimento. Curiosidade. Entreolham-se: aquele é idiota, aquela tímida.  O do lado é giro. O que está no canto certamente não é de cá. 
Tenho cinco salas repletas de rostos ansiosos que iniciam agora um percurso num espaço que para a maioria é desconhecido (e insuficiente, em alguns casos). 
Cá vamos nós.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Lullaby de Domingo


No can do this!
No can do that!
What a hell can you do, my friend?
In this place that you call your town 

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"A linguagem administrativa é a minha única língua"*

"Reduzir-se-ão todas as relações humanas aos cálculos de prejuízos e de interesses, e todos os problemas à liquidação de contas?"
Lévinas, citado por Chaterine Chalier em Lévinas, a Utopia do Humano


A Comissária Europeia Vivien Reding pronunciou-se sobre a expulsão dos ciganos ordenada pelo governo de Sarkozy e o Eliseu declarou-se profundamente ofendido, apesar das suas  pretensões xenófobas, com as palavras da comissária. Durão Barroso secundou e bem a Comissária.
Por cá, a música é outra. E dos dois principais partidos (o CDS não conta, nem surpreende) temos  vetos a moções de censura à política de Sarkozy e juras de compreensão e clarificação de intenções do mesmo apresentadas por JS e PPC.

O pormenor que parece escapar aos meninos maravilha é a de que a França de Sarkozy (e que não é dele) não expulsa "apenas" os imigrantes ilegais no País. Sarkozy ordena que a prioridade seja dada aos ciganos.  E é esta a diferença fundamental que torna esta uma questão de xenofobia e não apenas questão de segurança, bandeira que é sempre acenada quando alguns Estados pretendem usar de metodologias pouco recomendáveis, em claro choque com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O assentimento que ambos, o efectivo e o aspirante a Primeiro Ministro,  fizeram questão de dar ao seu colega francês apenas esclarece que partilham de uma mesma dificuldade: pensar do ponto de vista do outro. É difícil para esta gente, mas é muito é perigoso para todos nós. Porque é preciso aprender com o que já fomos capazes de fazer, porque não podemos permitir que no seio desta Europa que acreditávamos muito distante da outra, voltemos a expulsar pessoas em função da sua etnia. Porque é preciso, de forma clara e inequívoca esclarecer estes burocratazinhos que nos governam ou que aspiram a governar, que os seus ares graves de estadistas não  nos enganam quanto à pequenez da sua capacidade de entender o Outro como digno de respeito.

*Eichmann, um bom funcionário, citado por Hannah Arendt em Eichmann Em Jerusalém - Uma Reportagem Sobre a Banalidade do Mal.