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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Oh Boy




A sessão de abertura da Mostra de Cinema de Expressão Alemã - Kino (cinema, em alemão), organizada pelo Goethe Institut - continua a  proporcionar excelentes serões no São Jorge. 

Depois de Barbara (as idiossincrasias, tensões e contradições de uma alemanha dividida), de Almanya (filme maravilha sobre uma família turca a viver há duas gerações na terra da Angela Merkel, cujo patriarca decide fazer uma viagem familiar ao país do Atartürk); Drei, que como o próprio nome indica, relata o encontro e (reencontro) de três pessoas que se relacionam romanticamente (esqueçam as estórias de um gajo que trai a mulher ou da gaja que trai o marido. Este não é um filme de triângulos em que há uma pessoa traída e outra que trai. Esta é uma estória fantástica ao agrado da comunidade poliamorosa) e de Same same but different (a história de Benjamin Prüfer baseada num episódio marcante da sua vida), eis que a Kino traz para o ecrã do São Jorge (e, pela primeira vez, para o Teatro do Campo Alegre no Porto, e para o TAGV em Coimbra), Oh Boy, um filme a preto e branco, com um Tom Schilling verdadeiramente entregue à tarefa de fazer viver Nico Fischer, esse trintinho alemão que não sabe bem o que fazer à vida.

Para além das bandas sonoras (os filmes alemães que vi são um bom exemplo de como uma banda sonora bem escolhida pode melhorar substancialmente a experiência de assistir ao desenrolar de uma estória), os filmes selecionados para abrir as Kino refletem muito da vivência alemã. Apesar de o Drei se poder passar em qualquer país ocidental (sobretudo do norte da Europa), e de a nacionalidade do rapaz do Same same but different facilmente se poder alterar sem adulterar o conteúdo da história, a verdade é que há imensos detalhes que só poderiam passar-se na Alemanha. As reações dos clientes do bar (Oh Boy) onde o velho faz a saudação hitleraiana não poderiam ocorrer noutro local que não na Alemanha. A narração da noite de cristal também não.

Contudo, a Kino é uma mostra de cinema de expressão alemã e não de cinema alemão (apesar de este post poder indiciar outra coisa, mas apenas me refiro a filmes de abertura) e, portanto, as películas em exibição podem ser suiças, luxemburguesas, austríacas e alemãs). Portugal, o Brasil, Timor e os PALOP nunca poderiam fazer uma coisa destas, pois não? Estamos demasiado concentrados/as em provar como o português europeu é melhor que o do Brasil e ignoramos magistralmente Timor e qualquer país dos PALOP. Não, o alemão que se fala no cantão alemão da Suiça, evidentemente, não é igual ao que se fala em Berlim. Aliás, duvido muito que o que se fala em Berlim seja igual ao que se fala em Bona. O português padrão - que se ouve na televisão e nos media - não representa todos/as os/as falantes. A língua é muito mais rica do que aquilo que os media (e alguns/mas intelectuais) nos fazem (querem fazer) crer.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Maiores de 18

As salas de cinema deviam ser, na sua maioria, interditas a adolescentes. Com as crianças não há problema. Por norma ficam quietas e as intervenções são esporádicas. Impossíveis são as criaturas que quando entram num espaço desta natureza miraculosamente esquecem a comunicação por sms que por norma utilizam e desatam a conversar (um eufemismo, na verdade é mais um monólogo coletivo). Sessões para adolescentes. E nas restantes salas, acesso vedado a criaturas que ainda se riem desalmadamente com alguma cena que lhes pareça, vagamente, uma cena de sexo. E que não sabem quando parar para pensar que a restante sala pagou bilhete para o filme e não para as suas palhaçadas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

E depois acontece isto, caros/as amantes do acordo ortográfico

 (a imagem aparece com link quebrado, pelo que não é possível determinar a proveniência)

Facto continua a ser facto, na medida em que apenas desaparecem as consoantes mudas. Mas há jornais e revistas que alegremente cortam tudo e todas. Já parecem a Rainha de Copas da Língua Portuguesa.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Memorial

 Gravura de 1709 (roubada aqui)


"Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda."
Memorial do Convento

sexta-feira, 23 de abril de 2010

No dia Mundial do Livro, permitam-me o umbiguismo

Da próxima Feira do Livro do Funchal, destaque-se:
  • A vinda da Isabela Figueiredo com o seu Caderno de Memórias Coloniais - tive uma quase apoplexia ao ler que a minha blogger favorita cá estará;
  • O lançamento de uma nova editora, a Nova Delphi, com a presença de Anselmo Borges e Maria José Magalhães, para os lançamentos das primeira obras: uma reedição de A Relíquia, do genial Eça de Queirós e o lançamento das Actas do Congresso Feminista 2008 (finalmente!).
Todos os pormenores aqui.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O homem que termina as sentenças

 mas que ainda precisa de (muito)treino.


Para o Sancho, com _______________.
(vide caixa de comentários do post anterior)

El Rei Marcelo

Não sabemos ainda o eleito daquele que se diz o maior Partido da oposição. Mas a comunicação social já elegeu o seu líder, ao conferir mais tempo de antena a Rebelo de Sousa que a qualquer dos candidatos. O homem parecia um autêntico D. Sebastião com os microfones ansiosos por vislumbrá-lo por entre as brumas. E qual lenda, o anúncio esperado não aconteceu. Apenas informou que talvez não comparecesse no Domingo porque era dia de votação de estatutos. Quase se conseguiu ouvir a exclamação de decepção dos meninos e meninas dos média. Enfim, um triste domingo a partir daí.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Por que razão não caem os céus?

Que fazer quando queremos escrever sobre algo e as palavras não são generosas connosco? Com frequência cada vez maior sou apenas tomada pelo assombro das experiências e sobre elas pouco consigo verbalizar. Emudecida. Pior - desapalavrada (permitam-me a liberdade, mas se me escapam posso também traí-las). Tudo isto porque queria aqui deixar algo em defesa de Ágora, que fui ver ontem, e não encontro a forma de o fazer. É que é difícil  não calar o aperto que senti ao ver estantes substituídas por estábulos, gente estrangulada por (em nome de) deus ; que me entendam, refiro-me àquele momento específico em que  queremos chorar copiosamente, soltar a angústia estrangulada na garganta e nada sobrevém a não ser uma tímida lágrima (ou duas) discretamente limpa na abençoada escuridão.
E naquela sala evoquei não só Hipátia (de que quase nada é sabido), mas também Sócrates, Tomás Morus, Tomás Campanella, Giordano Bruno, Galileu, Espinoza, Olympe de Gouges, Simone Weil e tantos/as outros/as que tiveram a coragem que a maior parte de nós, em circunstâncias semelhantes, seríamos incapazes de ter.

E agora, como então, com aflitiva persistência se ouve a secular e perigosa pergunta: afinal de contas, para que serve o conhecimento se não tiver utilidade imediata?

quinta-feira, 21 de maio de 2009



- Under the robes, beneath everything, it was always me. Tell me you adore me.
- How could you, who understood me so well, make such a mistake? You've shown me your true self, and what I love was the lie, perfect lie, that's been destroyed.
- You never really loved me.
- I'm a man who loved a woman created by a man. Anything else simply falls short.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Rei morto, rei posto

Foi péssima, a experiência da última entrada numa sala de cinema. tão má, que não consegui balbuciar quase nada. Mas nada como tentar colmatar um travo amargo com um novo sabor.
Novamente sala de cinema, bisando a experiência na mesma semana. esta mais ampla e em estreia (por cá as estreias são usualmente old experiences).
Bom, mas lá fomos novamente, direitinhas à boca do lobo: quem viu a treta (rol do qual faço parte) e quem de mente limpa estava por não ter caído na cantiga do slumdog (eu avisei, eu avisei que não me parecia grande espiga).
Sessão da tarde, que é a melhor, sala meia vazia, como se gosta.

(Funes, a partir daqui a coisa complica)

Há uns anos atrás, havia um verdadeiro rol de actores pelos quais não dava um centavo. Charles Bronson, Jim Carey, um outro tipo que não me lembro o nome (mas que usava sempre o cabelo comprido e os músculos à mostra e que dizem que é criatura que adora todas as criaturas fora dos ecrãs) e Clint Eastwood. Jim Carey tolero apenas no fantástico Despertar da Mente; O Charles Bronson e o outro recalcado continuam no meu inferno (e sem um tostão). Clint Eastwood... bem, esse foi um dos tais que me fez morder a língua. Primeiro clandestinamente (assim a modos como o episódio do Saramago, mas pior, porque apresentava a desculpa de gostar dos filmes que realizava, mas que não o podia ver a ele enquanto actor). Com Mystic River esta desculpa funcionou na perfeição; já não colou aquando de Million Dollar Baby, altura em que me deixei de preconceitos (que é como quem diz, de tretas) e assumi que gosto do que o homem faz.

(pausa para fumar, que isto de rascunhar sobre o Eastwood e principalmente sobre Gran Torino deixa-me nervosa)

Não há nada que não tenha gostado neste filme. Desde a fotografia (que para mim é geralmente secundária) até ao texto, muito bem urdido e com tiradas geniais.
Eastwood está magistral. Fora de portas, um homem enorme, sem medo, com a postura corporal que tanto agradava a Leone. Um rosnador profissional, sempre pronto para ladrar ao mais próximo: familiar, padre ou vizinho. Portas dentro, um homem solitário; o melhor exemplo está na cena em que vemos um Eastwood mergulhado na banheira, a água a cobrir-lhe a fragilidade do corpo normalmente disfarçada pela rigidez das roupas que enverga. Um homem dos outros tempos, que mantém orgulhosamente a bandeira do seu País à porta de casa mas que se rende aos vizinhos vindos de longe.

É difícil escrever sobre este filme; sobre a violência que não nos entra gratuitamente pelos olhos dentro (como no caso de slumdog), mas que sustenta todo o enredo: poderia ser um revaldo perto de nós, gente que tenta desesperadamente combater o que lhes é destinado por força das circunstâncias. Não nos deixa ao largo como simples voyeurs, nem tão pouco apela à piedade (coitadinhos, coitadinhos, what's next?).
E a solidão. É que a solidão daquele velho homem pode ser perfeitamente nossa e os fantasmas afigurar-se-nos-ão parecidos.

Como chegar aos nossos? Como deixar que os nossos se cheguem até nós?


Do you belong
In your skin
Just Wondering

terça-feira, 7 de abril de 2009

Como contribuir para outros se tornarem milionários ...

...e chorar sobre o dinheiro derramado. Detestei. Não tenho mais nada a dizer.

"Os pássaros"



O barulho e a agitação empurram-me para a biblioteca.
Sempre que vou para uma escola, trato logo de ver como é a biblioteca. É o espaço sagrado, de culto, onde pratico rituais fundamentais como o descanso, a liberdade e o crescimento individual.
Exausta e com a urgente necessidade de me encontrar, entro na “capela”, sussurro “boa tarde”, sento-me num cantinho, cruzo os abraços e, enquanto espero pelo toque da campainha, absorvo-me em mim.
O momento idílico foi, num certo dia, interrompido por duas crianças que se dirigiram apressadamente para o canto onde, serenamente, eu “vegetava”. Para mostrar a minha indisponibilidade, lancei-lhes previamente uns maus-olhados, mas pouco adiantou, eram muito obstinados e lá invadiram o meu espaço. Os dois rapazinhos lutaram pela mesma cadeira e, depois de decidirem dividir o mesmo poiso, pediram-me palavras que rimassem com PÁSSAROS.
- Vá lá, professora, diga-me palavras que rimem com pássaros! – dizia um enquanto tapava a boca do outro.
- Pássaros… pássaros… - agonizava eu.
- Diga! É para um poema sobre a primavera! – dizia o outro que simultaneamente tentava soltar-se das garras do outro.
- Pássaros… passos… não! Aros.. assados… churrascos? Desculpem, estava a brincar! Ó meninos, façam antes com "os pardais" que vão para os beirais; ou com "as andorinhas" que nunca andam sozinhas, devem ter medo, coitadinhas; ou com "os passarinhos" que fazem ninhos; ou com "as cegonhas "que trazem os meninos nas fronhas; ou com… Sei lá! Ou façam rimas soltas ou brancas, os versos não têm que necessariamente rimar! Agora com pássaros!? Sinceramente... não sei! – desesperada, tentava convencê-los.
- AH! Já sei! Ouça: “ Chegou a primavera,/ Cheios de alegria,/ Os pássaros comemoram,/ E cantam as suas mais belas melodias/ (…)”- pronunciou a criança vitoriosa.
- Excelente! E vamo-nos já embora! – finalizei, pois versos com “os pássaros” já me causavam náuseas.
Depois deste episódio, passaram três anos, a dita questão ainda hoje sobrevoa a minha cabeça e gorjeia: “ Palavras que rimam com pássaros?”

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Down the road

Tinha esperança numa promessa que nunca foi realmente feita, diz a certa altura April Wheeler (Kate Winslet) perante os despojos dos seus sonhos.

Saio do cinema ligeiramente irritada e profundamente incomodada com o filme que escolhi ver. Irritada pelos adultos adolescentes que povoam as salas de cinema e não se coibem em partilhar com estranhos os seus risinhos e comentários perfeitamente idiotas enquanto aguardam impacientemente pelo fim. E as crianças? Onde andam as crianças? perguntam em alta voz, como se fosse um comentário brilhante. E se de repente Kate Winslet as olhasse nos olhos e lhes dissesse: porra para as crianças, ainda não percebeste? E porra para ti, que te dás ao luxo de comprar um bilhete e sentar esse rabo de ginásio enquanto me esfalfo para que ponderes sobre o seguinte: a tua existência é povoada por um vazio desesperante (hopeless). Certamente as criaturas calar-se-iam perante a ousadia. Mas a Kate permaneceu onde era esperado, a fazer o que lhe competia e eu tentei concentrar-me apenas nela (personagem): na projecção de si que desfiou ao longo da narrativa, na esperança de fuga sustentada por aquele homem que havia considerado a pessoa mais interessante que havia conhecido e que entretanto havia entrado - e ela com ele - na norma.
A personagem de Kate é interessantíssima; uma mulher que desafia o seu tempo (anos 50) e propõe-se a ser o sustento da casa para dar hipótese ao marido para se encontrar e saber o que realmente quer ser. Parece suspirar ao longo da narrativa o célebre trecho inicial da Tabacaria
Eu não sou nada.
(...)
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(esqueçamos, por enquanto, Nunca serei nada/Não posso querer ser nada).
A esperança de todos os sonhos do mundo em mim, é transferida para o amante, inebriada pelo desejo de escapatória a dois. Termina no dia em que ele, apanhado pela normalidade dos dias foge ao sonho e a acusa de ser pouco mulher. E na narrativa, a palavra sonho/desejo é gradualmente substituida por infantilidade/loucura/estado febril.
Ele recupera a capacidade mentir muito bem (todos nós reconhecemos a verdade, apenas aprendemos a mentir muito bem, diz-lhe a determinada altura) e ela percebe que não pode querer ser nada. Tem que ser alguma coisa, dentro da norma pré-estabelecida (por quem? por todos os que apesar de reconhecerem a verdade - ou pelo menos parte dela - aprendem a mentir muito bem) e aprender também ela a fazê-lo, a considerar interessante o que nunca o foi, a afirmar amor quando já não o tem. E por momentos ela fá-lo, por instantes deixa-se inundar pela normalidade e pela máscara da realidade que trai a verdade (o vazio desesperante) para só então dar, definitivamente, o salto*.

*A certa altura uma personagem secundária mas, a meu ver, fundamental (doido, pois claro) refere que muitos conseguem perceber o vazio, mas muito poucos conseguem alcançar que este é absolutamente desesperançado.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ser condescendente com a morte*

Um relógio (belíssimo relógio) que regista o tempo no sentido inverso.
A partir de um conto de F. Scott Fitzgerald, David Fincher apresenta-nos uma parábola da obsessão contemporânea com a inscrição do tempo no corpo, catedral amaldiçoada do existir.
É o velho sonho que remete para a procura de uma certa fonte da juventude que finalmente desembocou em alquimias de século XXI, com mulheres e homens que ao invés de envelhecerem digladiam-se diariamente com o registo temporal. Portanto, a premissa é muito simples: e se esse registo fosse inverso?
Não que o tempo não deva deixar a sua marca em nós (não?); apenas queremos que suavize essa passagem, que não nos arraste na decadência do minuto que implacavelmente passa, que não nos lembre que somos finitos, aproximando-nos cada vez mais ao pó através do corpo que diariamente se desfaz.
E assim surge diante de nós um homem ideal: um novo velho que progressivamente se transforma em velho novo. Um homem ao contrário, com uma temporalidade generosa perante o passar dos anos, mas nem por isso menos implacável. Um Benjamin aterrorizado com a possibilidade do rejuvenescimento, de mãos quase dadas com uma Daisy paralisada perante a inevitabilidade do (seu) corpo que envelhece. Em uma das deixas, Daisy afirma que estavam destinados a encontrar-se algures no meio do percurso, quando a coincidência dos corpos lhes permite o reconhecimento do gesto amoroso por algum tempo. Gesto que se interrompe, uma vez mais, pelos corpos mutantes de ambos que reclamam separação aos amantes.
A obsessão contemporânea pauta toda a narrativa e horroriza o espectador. Nada mais perturbante que o espreitar da demência no corpo de uma criança de sete anos, com um passado que se desvanece numa memória envelhecida e o sabor amargo que resta na certeza de que ainda que se engane o corpo e a imagem que dele se cria, a finitude não se engana e não se compadece perante a visão de um recém nascido com o conhecimento do mundo no olhar.

*Título surripiado a Heiddeger

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

"Na minha fome encho-me de forças que não tenho. Eu sou Hércules." (por ouvir dizer)

Eu nunca tinha ouvido falar de Manfred Karge. Mas quero ler-lhe os textos - e guardá-los, que sou possessiva em relação aos textos guardados em livros - que raramente consigo dar .
Acabei de lhe ouvir um, nas vozes de Beatriz Batarda. E a aliança é soberba, da palavra escrita à dita, numa relação simbiótica.
Eu nunca tinha ouvido falar de Manfred Karge e apanhei-me na penumbra da sala a tentar anotar fragmentos de texto às cegas, com medo que se me escapassem (e escaparam). E claro, reconfirmei esta minha inclinação pela palavra: os pormenores cénicos escapam-se-me na catadupa do texto. Eu quero é mergulhar na palavra e no rosto daquela mulher que as diz, que as sente, que as modela com a massa do seu corpo tornado muitos.
E especialmente para o Jorge*, uma das minhas anotações (trémulas, provavelmente com termos imaginados, recontados, como geralmente acontece nestes casos):
"Opressores e oprimidos todos ao monte e aos pontapés. Quem sabe onde começam uns e acabam os outros?"
- e aqui já não sei se no plural, não sei, anotei assim, mas já tinha sido dito, já estava mais à frente no texto, o texto a ser dito e o meu ouvido a correr freneticamente atrás dele, ele a escapar-se por entre os lábios, por todo o corpo daquela mulher que enchia o palco. E a plateia, com os risinhos idiotas de coisa com graça nenhuma.
Inúteis, sussurra a determinada altura a personagem (e a actriz). Somos nós, os imprestáveis Com toda a razão. Inúteis**.

*Diz-me lá que agora é a guerra total e eu acredito e acho-te graça e aceno-te com uma tocha (ai, Prometeu, Prometeu).

**Este é também um post absolutamente inútil (como aliás quase todos os que tenho assinado por cá, com excepção dos que se reportam ao D.M.)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Cinco bandas sonoras e mais algumas infracções

Desafio de fim de ano, do meu querido que gosta de tudo no seu devido lugar. Propõe-me que elenque cinco filmes com 5 bandas sonoras memoráveis. Aqui ficam as minhas:

1.ª - Obviamente, Der Himmel Über Berlin/Wings of Desire:
You know why! Memoráveis, The Carny e From Her To Eternity. E bom, pelo resto da banda sonora também...

2.ª - In The Mood For Love:
A minha obsessão de final de Verão, magistralmente conduzida por Michael Galasso. Um Nat King Cole que surge como novo aos meus ouvidos de tão bem que se adequa aos encontros e desencontros de Maggie Cheung e de Tony Leung.

2.ª (cont.) - No seguimento da anterior, 2046:
Casta Diva, ainda que considere a interpretação de Callas muito melhor que a que consta do filme, é um portento em qualquer filme. Desta vez, com as escolhas e composições de Shigeru Umebayashi, Wong Kar Way volta a encher-me as medidas.

3.ª - Necessariamente, Magnólia...
...perfumada pela mestria de Aimee Mann. Maravilhosa cena inicial, primorosamente rematada com "One".

4.ª - The Hours:
Philip Glass compõe o acompanhamento sonoro do universo de Virginia. Não existe uma única nota fora do lugar ao longo do filme.

5.ª - Mulholland Drive:
Pela interpretação de Rebecca Del Rio, com o pungente Llorando em pleno Club Silencio. Angelo Badalamenti sabe muito bem o que faz e Lynch também.

Post scriptum:
Fujo aos filmes e entrego-me às séries. Permitam-me então enviesadamente acrescentar, sem margem para dúvidas, Six Feet Under por Feeling Good interpretada pela maravilhosa Nina Simone e pela sequência final a cargo de Sia com Breathe Me (a nódoa está em tanto Coldplay, mas enfim).
Não poderia também deixar de referir a soberba banda sonora de Twin Peaks, a cargo de Angelo Badalamenti poderosamente auxiliado pela etérea Julee Cruise.

E pronto, cumprido o desafio (em excesso e atropelando as supostas regras), transmito-o aos seguintes: Provavelmente Talisca, Lueji, Bartleby, Luís e o pessoal cá da casa.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

No princípio era Sacra.

Em dia de espera(nça), os minutos arrastam-se como se dias fossem e, entre um bocejo ao computador e dois perante o ecrã de televisão, jaz o comando de TV, que marca a descontinuidade das horas mortas. E nessa tentativa de quebra, de ruptura, detenho-me em alguns canais que supostamente divulgam música. O movimento é o mesmo... fulanas magras, lindas de morrer, com maquilhagem que encheria seguramente um contentor, esfregam-se em algum lado (ou em alguém), munidas dos seus biquinis e saltos dourados. Por vezes, fingem que o segredo está no canto - e não na curva. A primeira vez que me recordo sentir horrorizada com um rebolanço do género, foi há uns anos atrás e, surpesa das surpresas, não foi com uma qualquer moçoila internacional, nem tão pouco a gemer algo que se poderia assemelhar com R&B (???). Era noite cerrada, e os protagonistas encontravam-se na Áustria (se não estou em erro), num programa que versava, essa noite, sobre o compositor húngaro Franz Lizst. A conversa decorria entre a (muito) plástica Bárbara Guimarães, com perguntas improváveis ao Maestro Vitorino de Almeida. E, suponho que para ilustrar o dilema do compositor - oscilou sempre entre a sua queda para a volúpia e uma vontade igualmente irresistível para a beatude (tornou-se religioso) - o programa tem um momento inenarrável em que, no interior de uma catedral, o Maestro observa, ao som da música sacra de Lizst, a boa da Bá(r)ba(ra) a rebolar-se voluptuosamente nos degraus que conduzem ao altar. De rir e chorar por muito menos, na verdade. Mas o que é certo, é que a tendência abandonou catedrais e alastrou-se à música (???) profana e é ver as mocinhas feitas em linha de montagem, com os mesmos corpinhos a rebolarem por onde podem e com quem conseguem. E vendem.

sábado, 24 de junho de 2006

A Mulher Invisível


A celebração pelo fogo, a fertilidade da Deusa transformada em santo padroeiro. À volta da fogueira, com os resquícios de festival de celebração da vida.
E já que me fui lembrar de Six Feet Under para ilustrar este post mal amanhado, fabuloso o episódio desta semana, com Ruth Fisher a despachar/imolar a tiro de caçadeira, os "reis-veados" que povoaram a sua vida. Só faltou mesmo vê-la a dançar em frente à fogueira, envolta nos seus longos cabelos ruivos coroados por flores.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Obviamente tu, Brutus. 2


Magnífico, o último episódio de Roma.
Servília, com o seu rosto belíssimo, a desferir o último (??) golpe a Átia que, polidamente lhe agradece a jura de vingança. Fabulosas ambas, na agressividade educada da arena constante dos episódios da série. Certamente não fica por aqui.
Brutus, as usual, cobarde até ao fim. É num quase morto que Brutus atravessa o punhal, depois de murmurar contra ele aos ouvidos de outros. Espera por César caído, ensaguentado, com a sombra da morte nos olhos, para então desferir o seu golpe. E pressentimos que, pudesse ele evitá-lo, manteria as mãos (mas não as palavras) arredadas daquela execução.
Esperemos agora por Marco António - o debochado - que ainda assim recua incrédulo perante o assassinato no Senado. Até para ele a cena foi demais.
E esperemos também por Octávio, prudente, silencioso perante o relato de morte que Servília serve ao lanche.
In the end, matam-se os grandes, enquanto que os simples prosseguem serenamente; Pulo, o idiota, a força bruta cuja ambição sempre residiu em bebida e Irene é o único que se afasta incólume pelas vielas sinuosas do Império.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

O Segundo Segredo de Brokeback Mountain

Desloco-me ao cinema para visionar o filme de todo o (des)contentamento. Como é óbvio, plateia maioritariamente feminina. Mas estou em crer que não pelos mesmos motivos porque a população masculina suspira por um remake do filme nestes termos. Este foi, provavelmente, o filme que todo o amigo, companheiro, e marido temeu que a amiga, companheira ou mulher quisesse ver. Suponho que, durante algumas semanas, os pesadelos masculinos versassem sobre uma sala de cinema escura, uma tela a projectar olhares languidos entre o Jake Gyllenhaal e o Heath Ledger.
Imagino-os mais conversadores que o costume, mais generosos "podemos ir ao teatro, podemos ir a um concerto, jantar fora..." monopolizadores da conversa para não dar espaço ao temido "Sabes, e se fossemos ver aquele filme de que se falou muito e que é uma história de amor entre dois caubóis?" E então, as manobras de diversão multiplicaram-se na maioria dos relacionamentos em que havia o perigo efectivo da proposta indecente.
No dia em que fui ao cinema, 5 gatos pingados devem ter ficado sem assunto e a imaginação faltou-lhes para evitar a entrada naquela sala. E era vê-los, conduzidos pela mão da moça das suas vidas, subir de cabeça baixa a escadaria da sala (que deve ter parecido infinitamente penosa), quase que arrastados, de pacote de pipocas na mão (para ela, suponho, que o ar das criaturas era de pura agonia).
Elas absurdamente felizes e ingénuas (e daí talvez não) e eles a rezar para mais nenhum desgraçado conhecido entrar por ali a dentro e aquele triste evento pairar venenosamente nos futuros domingos de tremoço entre compinchas.