segunda-feira, 30 de abril de 2007

Pérolas a porcos

Nunca podemos descascar a mesma laranja duas vezes.

domingo, 29 de abril de 2007

Como se eu fosse muito…

Não sou loira…por enquanto, pois já pensei ser e ainda não está fora de questão! Já tenho a tinta e tudo que é necessário! Mesmo assim, quando eu for loira, irei interrogar à mesma por que há tanta polémica em se fazer um museu dedicado ao Estado Novo. Tivemos uma ditadura, certo? Faz parte da História de Portugal e vem nos compêndios de História. Prezo muita a Democracia, não porque vivi a ditadura, mas porque ouço e vejo relatos e testemunhos que sobrevivem sob forma de esclarecimento. Decididamente, gosto de viver em Democracia! A História existe para esclarecer e alargar horizontes. Acho ridículo escolherem um leque de personalidade que surgiram e sobressaíram num determinado contexto social, económico e político e, depois, levá-los a concurso! E, para cúmulo dos cúmulos, irem a votos. Isto é uma História mal contada! Falou-se num possível Museu na casa de Salazar, por que não?! É um passado recente que deveria ser aceite e falado da mesma forma como se fala, por exemplo, da época dos Descobrimentos que, para quem anda esquecido, também se cometeram barbaridades desde a escravatura, inquisição, pena de morte, etc… etc… É importante exorcizar os medos, os ressentimentos e as angústias através do conhecimento, para podermos construir uma sociedade mais justa e equilibrada. A História serve para racionalizar factos e não para enaltecer ou para propagandear personalidades ou acontecimentos isolados. Já agora, de quem gostamos mais? Do pai ou da mãe? Depende… não sei! Tenho que pensar… I will be back… blonde!

Lullaby de domingo

A lira de Orfeu torna-se definitivamente um problema. Ou melhor, tornou-se um calcanhar.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

les elephants terribles

com um brilhozinho nos olhos fiquei a ouvir a bela voz amiga. http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=134626827

No kisses, no prince




O que mais me irrita nos contos de príncipes e princesas é a discriminação subtil, ou melhor, a desigualdade de oportunidades ali patente! Enquanto o rapaz (príncipe ou não) apenas dá um beijo numa semimorta muito bela, a rapariga (quase sempre plebeia) sujeita-se a dar beijos em sapos que nem sempre se transformam em príncipes (o factor sorte a funcionar)!
Eu cá nunca conto estórias dessas às criancinhas! Tenho pena dos sapos…

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Um dia*

... existirão fins de semana e feriados em que não terei que trabalhar em casa. Um dia, existirão fins de semana e feriados sem culpa! *Post original de Luna e adaptado à minha condição.

Post... lá para os lados do Jardim da Manga*

A minha Bjork nasceu em Coimbra, numa casa minúscula com postigo. Recordo-nos nesse primeiro ano, a ouvir compulsivamente It's oh so quiet na tua mini-wini aparelhagem. Recordas-te? Às escuras, ora em sussurros, grande parte aos berros e aos saltos - com o risco de atingirmos o céu que era incrivelmente baixo? Pois bem, cheira-me que a Bjork contagiante desses tempos está (quase) de volta. Falta-nos a sala e o postigo para a celebrarmos aos saltos. *Pronto, eu sei, também o fazíamos ao som do Debut

25



A memória é a linha ténue que nos separa do mesmo.
O esquecimento significa perda de nós - do que fomos e do que somos.
Longe do sonho? Certamente. Mas tal não nos impede de tentar. Provavelmente mais desencantados, mais cépticos, mas com uma réstea de esperança em nós e por nós.

"Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira."

Excerto de Canto Moço, de Zeca Afonso.
Ilustração roubada a Mário Cesariny


terça-feira, 24 de abril de 2007

José Luís Peixoto

Um poema escrito pelo conceituado escritor José Luís Peixoto quando tinha 17 anos.
Duelo Artístico
Que importa se morrem?
Que importa se crianças,
de barriga grande, deitam espuma,
de tantas cores, pelas bocas?
Só as cores importam.
Qual será a cor das espumas angolanas?
Será castanho frio no zinco, castanho quente?
Que importa?
Só o amor importa.
O nosso amor,
O nosso amor pela nossa vizinha.
Nasce-me água na boca,
(água, não espuma)
porque a nossa vizinha é óptima.
A nossa vizinha é soberba,
Certamente existe um Deus, senão,
Como poderia existir a nossa vizinha?
José Luís Peixoto, 17 anos (Ponte de Sôr)
In JL - Jornal de Letras, 2 de Janeiro 2007

domingo, 22 de abril de 2007

Das leituras

Sinto falta de entrar numa biblioteca e escolher livros ao acaso. A partir do momento em que me comecei a fazer acompanhar de listas de autores e títulos, deixei os prazeres que a leitura ao acaso nos pode proporcionar. Os dedos percorrem as prateleiras em busca das palavras que possam preencher o tamanho dos olhos. Contudo, as mãos agarram os livros (quase) obrigatórios.
Acho aflitivo a falta de interesse que algumas pessoas revelam. A ignorância é algo que não se consegue evitar. Mesmo @ mais erudit@ há-de ser ignorante em algo. Pode colmatar-se a ignorância parcelar sobre os assuntos. Contudo, o desinteresse é algo que faz parte do indivíduo enquanto Ser. Não se consegue ultrapassar, sobretudo porque, em primeiro lugar @ desinteressado não vê qualquer vantagem nisso. Aceito (não tenho qualquer outra hipótese) só não compreendo.

Um post com remetente

Nada como sacudir as poeiras que nos cobrem no dia a dia e passar à frente. E acima de tudo, continuar a acreditar.

Lullaby de Domingo

sábado, 21 de abril de 2007

O meu papá, o engenheiro!

A cena tem cerca de 40 anos. Uma jovem estudante de Conservatório bamboleava-se pelos corredores de livros nos braços com o maior ar afectado que conseguia copiar das imagens de revistas. Logo após a conclusão do curso, a criatura, embriagada pelo odor do diploma adquirido, exigia aos seus jovens alunos que a tratassem por So'tora. A partir daí, apurou ainda mais o andar lento mas cadenciado pelo movimento certeiro de ancas pelos corredores da escola onde iniciou o seu percurso. Afinou a cabecinha a pender ligeiramente para o lado em que a franja lhe atingia os cílios e treinou o salto para ritmadamente marcar a sua passagem pelas salas. Na verdade, tudo aquilo que acaba de ser descrito é absolutamente secundário. Aquilo que mais impressiona na história de C. não tem propriamente que ver com a forma como percorria os corredores ou o título que exigia aos alunos. O que me impressiona é que C., à distância de 40 anos, em conversa com os colegas de Conservatório, utilizava a bengala línguística de "O meu papá, o engenheiro". Obviamente, o papá da criatura não possuía qualquer diploma que atestasse o título (nem um nem dois, como parece acontecer) nem consta que tivesse prestado provas a Inglês (técnico ou não). O papá da criatura só sabia assinar - e mal - o nome. Reconheço-lhe a capacidade visionária de ter percebido que o título que mais se prestaria a aldrabices (e aldrabões) seria o de uma engenharia qualquer.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

O melhor dos piores

Em muitos momentos, deparei-me com pessoas pura e simplesmente fenomenais e Z foi uma delas. Deixou muitas saudades. Z era “Aquela cativa / que me tem [nos tinha] cativo[s]”, era também uma óptima contadora de histórias… Era uma amiga. Num dos passeios à beira mar, encontrámos um casal conhecido da Z, que vinha com o seu filho e, pelo que me apercebi, único. Comentei com a minha amiga que tinha gostado muito da atitude do menino que, enquanto esperava pelos pais que conversavam com Z., apanhava alguns plásticos e beatas que avistava para depois deitar no lixo. A criança deveria ter os seus oito anos, no entanto, em nenhum momento mostrou impaciência. Muito civilizadamente esperou… E eu, sinceramente, fiquei muito impressionada. Z. então disse-me que aquela criança era realmente excepcional, mas obtinha resultados negativos na escola, para grande desgosto dos pais, e, numa conversa que assistiu, pode verificar de facto o quão eles sofriam com a situação. A conversa tinha-se passado mais ou menos assim: - Então P. como vais na escola? – pergunta um pai - … - responde o P e os respectivos pais. - A M. também vai bem. - esclarece o pai - Pai, eu sou a melhor da turma! - reforça a filha - A J. também teve excelentes notas. - informa outro pai. - Eu sou a melhor a Matemática! - enfatiza a filha. - E tu P? – insiste alguém. - … Eu sou o melhor dos piores. - responde e conclui o P. P. é um génio, concluo eu.

domingo, 15 de abril de 2007

Ser ou não ser, eis a questão!

"É ou não é engenheiro?" Começa assim a peça teatral que está a marcar a actualidade portuguesa! Não há como evitar, mesmo que se queira...

A delícia da antecipação...















...Ou a antecipação da delícia.


Lullaby de Domingo

Já cá faltava a sorte grande da Kylie Minogue.

sábado, 14 de abril de 2007

Presunção e água benta...



(Confesso que aprecio, em particular, a coadunação da mensagem com a fotografia tipo passe!!!)

Carta aberta a Mr Lekker:


Demorei algum tempo a escrever-lhe. O estupor tomou-me de assalto! Deixe que lhe diga que de início a incredulidade tomou conta de mim e fiquei, perto de meia hora, arregalada a olhar para o ecrã (como sabe, tenho olhos enormes, por isso imagine lá a cena - ou melhor atente na fotografia ali ao lado para perceber o meu ar).
Ainda lhe dou o benefício da dúvida. Este post era para mim? Chamou-me "pequena" e colocou-me em fuga? Estou indignada! Duplamente indignada, já que não esqueço a sua reacção aquando do nosso primeiro contacto. Lembro-me que tive empatia imediata para com Vª Exa. (o que não é muito comum, já que sou uma gata sempre de pata atrás com os outros) e tentei dançar consigo.
Mr. Lekker. Recorda-se da sua reacção?
Informou a Woab que de que eu era pírulas. Doida. Eu doida? Só porque tentei dançar consigo e ensaiei alguns passos mais ousados, uns saltos de lado estonteantes e que me exigiram tardes de ensaio? Doida, acusou Vª Exa!
Como quer que agora não tivesse uma pata atrás em relação a si? Até duas, Mr. Lekker, até duas. De qualquer modo, informo-o que tenho coração fraco e tenho sido alvo de perseguição cerrada por parte de um doido a preto e branco que por cá anda. Daí o meu pânico e a minha cautela. Sou uma gata marcada, Mr. Lekker. Tenho sofrido ataques cruéis pelo que tento ser cautelosa e ciosa da minha integridade física.
Estou ofendidíssima com as suas insinuações (até se me descaíram os bigodes). Mesmo em fuga, sou bem mais graciosa e fotogénica do que essa que postou por aqui.
Profundamente ofendida, mas receptiva a um gesto de boa vontade,
Kiara

terça-feira, 10 de abril de 2007

Eurídice ascendeu ao Blog Que Seja Seu

Orfeu e Eurídice, de Rubens

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
Mais de terra e fogo é o abraço
Com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia

Notes on a Scandal

Lamento, não sou mulher de ficar extasiada perante bons planos, ou que perceba os intrincados meandros de takes e afins. Para mim, um bom texto é (quase) tudo.
Tendo feito parte de uma formação para docentes sobre Teatro, escandalizei o formador com a minha teimosia. Queria lá saber da mimetização em si mesma e por si mesma; de me enrolar sobre mim porque estava com frio ou fugir da ameaça imaginária (aliás, não tão imaginária quanto isso, já que o homem berrava literalmente aos meus ouvidos). Ainda recordo (com algum carinho, confesso) o ar de escandalizado quando me recusei a participar em outra mimetização improvisada (perante uma plateia de gente convidada à pressa - e à força, diga-se) de uma suposta peça que deambula agarrada por um fio e que se une para formar a máquina. Patético.

Como disse anteriormente, para mim, um bom texto é (quase) tudo. E Drio De Um Escândalo, tem-no. O remorso por estar no cinema em plena tarde de segunda (com tanto trabalho ainda por terminar) atenua-se imediatamente nos primeiros minutos. O filme subsiste a partir de três pontos essenciais: um argumento certeiro (do mesmo argumentista de Closer, Patrick Marber) e duas actrizes fabulosas, Judi Dench e Cate Blanchet. A câmara de filmar é um mero acaso, acessório necessário para o duelo.
Barbara é a velha professora desencantada que se impõe essencialmente pelo medo. A certa altura é a própria que afirma que sabe que os alunos não gostam dela, mas que a respeitam. E o respeito é tudo, nessa dependência da segurança social em que se tornou o ensino público (segundo a própria Bárbara). É preciso ensinar a escrever, ler e contar, para que possam ser os empregados fabris de amanhã, imersos na miséria de onde a escola não tem que os resgatar.
Sheba é a novata diáfana acabada de chegar à Escola (e ao ensino), com a esperança de conseguir encontrar quem realmente queira aprender e, principalmente, com a esperança de escapar a um casamento que iniciou com um grande festim sexual mas que acabou na rotina de uma família comum. Impossível não perceber Sheba, quando esta tenta descrever o desespero de perceber a distância entre aquilo que sonhou ser a sua vida e aquilo em que ela efectivamente se torna.
Diário de Um Escândalo é uma síntese dos problemas que estão na ordem do dia; uma professora que mantém um caso com um aluno de quinze anos, uma mulher (quase) idosa que se debate contra o medo de estar só, de ficar eternamente só. Na verdade, o medo da solidão (nas suas múltiplas formas) funciona como motivação para ambas as mulheres.
Se é verdade que o aspecto cândido de Sheba nos leva a simpatizar imediatamente com a personagem e que os escritos (deliciosamente) cruéis de Bárbara nos levam a repeli-la de início, também é verdade que a determinada altura a tendência é de convergir: simpatizar menos com Sheba, antipatizar menos com Bárbara. A perversidade domina, mas não apenas a personagem de Bárbara, dolorosamente só ao ponto de a tornar absolutamente obssessiva perante a esperança de uma relação com alguém (em que até um toque acidental com o motorista do autocarro se torna uma esperiência quase erótica). A perversidade também reside em Sheba, que em momento algum percebe a extensão da sua transgressão. Tal como ela o afirma, fê-lo porque sentiu que podia.
Magnífica, a cena em que Sheba percebe que tem sido manipulada por Bárbara; ainda mais porque até ali não se apercebera que o jogo era efectivamente jogado ao contrário. Sheba percorre quase todo o filme como uma mulher que se atormenta suavemente com a delicada situação em que se encontra; confia no background pobre do seu apaixonado e na fidelidade da sua mais recente amiga que lhe promete discrição. A queda é brutal quando percebe que nem o jovem é pobre ou apaixonado, nem Bárbara é a ingénua discreta que ela julgava. O tombo é grande, mas ainda assim insuficiente. A cena em que acusa Bárbara de a ter destruído é brutal, já que nem mesmo perdendo a família e incorrendo em pena de prisão percebe que é a principal responsável pela delicada situação. Afinal de contas, Bárbara ganhou tudo simplesmente fazendo (quase) nada. Sheba encarregou-se de tudo o resto.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

"Hermenêutica" das vozes

1ª advertência:
Este post surgiu após sete horas de componente lectiva, iniciadas às 8h e 15m da madrugada. Deste modo, salvaguarda-se a autora de eventuais considerações em relação à sua sanidade mental.

2ª Advertência:
O rascunho foi resgatado hoje, por falta de que fazer (ou por outra, por falta de ânimo para fazer o que é necessário fazer).


Continuação dos trabalhos iniciados no post My Private Lord...


De regresso a casa, ouço Leonard Cohen, na sua magnífica I'm Your Man. Completamente abandonado, de um modo desprendido, sensualmente rendido aos pés do rosto a quem promete ser exactamente o que ele (rosto) quiser. Não deixa margem para dúvidas, o modo como modula as palavras. Cohen desistiu de si para tornar-se completamente outro.
Penso na versão de Cave. Dita todas as palavras de promessa iniciadas por Cohen, mas com um tom de contrariedade, de raiva contida por ter que dizer tudo aquilo. É difícil, o objecto dos seus desejos e por isso, absolutamente contrariado, diz-lhe que será tudo o que ela quiser. Percebe-se que promete o que nunca cumprirá. Cave é irresistivelmente real e o gozo com que promete nada em troca de tudo é magnífica.
A versão de Cohen é pateticamente dedicada (o patético aqui não é depreciativo - pelo menos não totalmente). A de Cave é marginal, bandida, deliciosamente manhosa.

Vem ginasticar!

Depois de abusar religiosamente das amêndoas (pelo menos no que a mim me diz respeito...), nada como mexer-se um bocadinho!!! 'Bora lá ginasticar!

domingo, 8 de abril de 2007

A propósito de Amor

Desde as maravilhosas aulas de F.B., que me atenho na biografia de Kierkegaard. Toda a sua escrita matizada a partir da separação: em relação ao seu Pai e, posteriormente, em relação a Regina Olsen. Escolha de Kierkegaard, que rompeu o noivado e assim morreu lentamente, imerso no desejo e na melancolia da separação.
Reencontrei Kierkegaard e Regina Olsen aquando da leitura de Terapia, de David Lodge. O personagem principal, Laurence Passmore (Bolinha), decide perseguir os passos de Kierkegaard:

"Almoçámos na Nyhavn e depois fomos ao museu da Cidade, onde há uma sala dedicada a Kierkegaard.
O Bolinha estava excitadíssimo com a visita, mas acabou por ser uma espécie de anticlímax, pelo menos assim me pareceu. (...)Estava particularmente interessado num quadro que retratava a noiva de Kierkegaard, Regine. Segundo me contou, eles estiveram noivos durante um ano e depois ele rompeu o noivado (...).
(...).
Costumava escrever de pé a uma secretária alta, que era uma das peças de mobiliário que se encontrava na sala. (...). Havia outra peça de mobiliário na sala, no extremo oposto à secretária, uma espécie de aparador, com 1,50m de altura. O Bolinha descobriu na brochura do museu que Kierkegaard o mandara fazer de propósito para guardar as recordações de Regine. Segundo parece, ela tinha-lhe implorado que não rompesse o noivado, chegando a dizer-lhe (...) que não se importava de viver com ele para sempre, nem que tivesse de passar o resto da vida dentro de um armário. «É por isso que não tem prateleiras.» disse o Bolinha. «Para ela caber lá dentro.»"

To a little kitten

Lullaby de Domingo

sábado, 7 de abril de 2007

Eternidade

“Eternidade! Que palavra medonha e terrível. Eternidade! Que mente poderá entendê-la? (…) Suportar nem que fosse a picada de um insecto por toda a eternidade já seria um tormento terrível. O que será, então, suportar as inúmeras torturas do Céu, para sempre? Para sempre! Por toda a eternidade! Não é por um ano, nem por um período determinado, é para sempre. Tentai imaginar o horrível significado disto. Já vistes frequentemente a areia na praia. Como são finos os seus minúsculos grãos! E quantos desses minúsculos grãos são precisos para formar a pequena mão-cheia de areia em que uma criança agarra para brincar. Agora, imaginem uma montanha dessa areia, com um milhão de milhas de altura, elevando-se da terra até aos mais altos céus, e com um milhão de milhas de largura, estendendo-se até ao espaço mais remoto, e com um milhão de milhas de espessura; e imaginem essa enorme massa de incontáveis partículas de areia multiplicadas pelo número de folhas que há na floresta, de gotas de água do poderoso oceano, de penas das aves, de escamas dos peixes, de pêlos dos animais, de átomos na imensa extensão do ar: e imaginai que, ao fim de cada milhão de anos, um passarinho pousava na montanha e levava no bico um minúsculo grão dessa areia. Quantos milhões e milhões de séculos seriam necessários para que o passarinho levasse consigo um palmo quadrado dessa montanha, quantos eões e eões de séculos até a levar toda? Todavia, no final dessa imensa extensão de tempo, nem sequer um instante da eternidade teria passado. No final de todos esses biliões e triliões de anos, a eternidade mal teria começado. E se essa montanha se erguesse novamente, depois de ter sido removida e o passarinho voltasse a removê-la novamente, grão a grão, e se ela se elevasse e fosse removida tantas vezes quantas as estrelas que há no céu, os átomos que há no ar, as gotas de água que há no oceano, as folhas que há nas árvores, as penas que há nas aves, as escamas dos peixes, os pêlos dos animais, no final de todas essas inumeráveis elevações e remoções dessa montanha incomensuravelmente grande, não se poderia afirmar que tivesse passado um único instante da eternidade; mesmo nessa altura, no final desse período, depois dessa imensidão de tempo, que, só de pensarmos nela, nos põe a cabeça a andar à roda, a eternidade mal teria começado.” James Joyce, Retrato do artista quando jovem

Sobre a gravidade...


O primeiro ciciar da mais grave das vozes deste blog. Mas porquê mais grave? Para além da mais óbvia conotação polifónica poderá isso estar ligado a uma visão mais crítica e racional? Ou, tão somente, dar-se-á o caso de a maior massa corporal ser tão newtonianamente atraída? Esperemos pois que esta gravidade, seja ela qual for, possa ter algo a acrescentar...
Há dois dias que chove. Há dois dias que o sol se esconde, as nuvens ameaçam o horizonte e escurecem os tons de azul. Vontade de nada. Again.

Quero porque quero. Sem pedir desculpas. Sem pedir licença. Sem olhar para baixo por acreditar que não tenho direito a aspirar a tanto. Sem me penitenciar por achar que jamais conseguirei. Quero porque quero e sei o que quero, e portanto, não vou abdicar do Direito de querer. Ainda que seja somente por querer.

Picture by Tom Brinck

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Da pluralidade

Este blog é constituído por teclados cada vez mais plurais. Às vozes queridas que por cá se inscrevem, junta-se agora uma ligeiramente mais grave. Temos homem, no blog que seja seu.

Da Velhice e do Crescimento

Releio tudo ao acaso. Estava apaixonada por este livro, queria escrever coisas bonitas. E só escrevi disparates. Hoje em dia, parece-me tudo demasiado enfático. Ainda assim, acreditava agir de boa-fé. Supunha estar a resumir-me. É possível, isto de uma pessoa se resumir? É possível conhecermo-nos a nós mesmos? Será que alguma vez somos ALGUÉM? Já não sei nada. Parece-me que todos os dias mudamos um pouco, e de repente, ao fim de alguns anos, transformamo-nos num novo ser. Tanto procurei dentro de mim, e já não encontro vestígios daquela pessoa ansiosa, perturbada, descontente consigo própria, zangada com os outros. É indesmentível que em mim vivia a quimera da grandeza. Era moda na época; todos queríamos ser excepcionais, e, não o sendo, depressa caíamos no desespero. Fiz bem em conservar-me boa e sincera. Estou agora muito velha, palmilhando airosamente o meu sexagésimo quinto aniversário. Graças a um qualquer capricho do destino, sonto-me muito melhor de saúde, mais forte e mais ágil do que nos tempos de juventude; ando mais a pé, passo melhor a noite - tenho noites óptimas, e por isso levanto-me sem esforço. Conservei-me macia como uma luva. Os meus olhos já não distinguem as coisas; tenho de usar óculos, e encontrei um par que me permite enxergar entre as ervas e na areia os pequenos objectos de história natural que são o meu regalo. Banho-me na água gelada e corrente com um prazer supremo, nunca me constipo. Já nem me lembro de ter reumatismo. Preenche-me uma calma absoluta, uma velhice tão casta de espírito como o é no procedimento diário; nenhum remorso de juventude, nenhuma ambição de glória, nenhum desejo de dinheiro, à excepção do que espero deixar aos meus filhos e netos. Sem dissabores relativamente aos meus amigos. Um único desgosto: o género humano, cada vez pior, as sociedades parecem virar as costas ao progresso, mas quem sabe o que esconde tal atonia? Que despertar se encontra latente por detrás de tal torpor? Já não vivo em mim. O meu coração passou inteiro para os meus filhos e para os meus amigos. Só sofro com aquilo que lhes traz sofrimento. E sofro bastante, por vezes demasiado, porque dar-lhes alento exige muito de mim. Falta-me coragem interior para lidar com o mal dos outros. Se os outros não existissem, eu seria completamente feliz - feliz como uma pedra com olhos -, mas eles existem e obrigam-me a existir. Alegro-me e aflijo-me neles e por eles. Quanto a mim, já nada me faz falta. Viverei muito tempo? Esta velhice surpreendente, que me apareceu sem moléstias e sem quebranto, será sinal de vida longa? Morrerei de repente? Que importa sabê-lo, se a todo o instante nos arriscamos a ser acidentalmente ceifados? REstar-me-à alguma utilidade? Aqui está uma questão importante. Parece-me que sim. Sinto que posso ser útil de uma forma mais pessoal, mais directa, como nunca fui. Não sei bem de que maneira, mas acumulei muita sabedoria. Hoje, seria capaz de educar melhor as crianças do que antigamente. Mantenho a minha fé, mantenho integralmente a minha fé em Deus. A vida eterna. O mal um dia derrotado pela ciência. A ciência iluminada pelo amor. Mas... e os símbolos, as figuras, os cultos, os deuses humanos? Não contem comigo! Já ultrapassei isso tudo. Faço agora parte do universo, e pronto. Não sou minimamente interessante, pois suporto tudo o que aconteceu de mal na minha vida e ainda consigo saborear o bem. (....) Não tenho medo da morte, lamento apenas o desgosto que assim causarei aos meus. Fui-lhes útil nos últimos vinte anos? Sim, parece-me que sim. Quis muito sê-lo. Afinal, enganei-me ao pensar existirem momentos na vida em que nos podemos simplesmente exonerar sem magoar ninguém, pois reparem: ainda sou útil, apesar da idade avançada. O meu cérebro não perdeu o vigor. Sinto que absorveu muito e que nunca esteve tão bem alimentado. É errado pensar que a velhice é um declive por onde vamos caindo: muito pelo contrário, subimos, e a passos largos, surpreendentes. O trabalho intelectual faz-se tão rapidamente como nas crianças o trabalho físico. Não é que não nos aproximemos do fim da vida, mas fazemo-lo com se fosse um objectivo, e não o derradeiro e fatal baixio onde encalharemos para sempre. In Journal Intime, George Sand, 1868

Traços


Invejo as pessoas que agarram num teclado (ou em algo que também escreva...) e conseguem construir um discurso inteligível com a facilidade com que eu como tangerinas. Desde que me recordo que a arte da verbalização é coisa complexa. Diz-se uma coisa e lêem outra. Quer-se ironizar e levam-nos a sério. Mostramo-nos bem humorados e parecemos rancorosos. Exprimir-se, e não só (portanto) escrever, é um exercício difícil. Encher páginas com caracteres que façam sentido não é tarefa para qualquer um, não senhora. E à medida que vejo a página a encher-se de cores, prefiro a expressão pelo desenho, pelo traço escuro e firme de um retrato, ou de outra coisa qualquer, cujo sentido, seja, à partida, indecentemente subjectivo - até mesmo aos olhos de quem maneja o pincel.

quinta-feira, 5 de abril de 2007


Este blog cumpre os preceitos pascais*.
Estamos em abstinência quaresmal!

*Recusamo-nos a "pagar" a desobriga.
Pintura de Almada Negreiros