terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Só com Equimoses... ah... e culpa, claro...


"Um soco dado pelo réu, no rosto da autora não é fundamento de divórcio se não puder concluir-se que aquele tenha agido culposamente, e se, para além do mais, da agressão não tiverem resultado quaisquer equimoses."


E agora... tentem adivinhar que instituição é a autora desta frase.....sugestões na caixa de comentários, s.f.f.

Foto do sr. Joel Peter Witkin, à moda do "until death tear us apart"

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

património popular

Câmara de Lobos (Madeira): Minha filha é espierta, espierta. Vai à vaca, pranta semilhas e ainda trata do buzico(bebé).
Ou
O grade (cão) azoigou (morreu) e foi atupido (enterrado) numa manta de tararifas (abóboras oriundas de Tenerife).

Um corte nunca é inocente...

... pensa, com o cabelo a pingar lamento. "Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos (...)"
relembra, enquando estes desfiam vertiginosamente perante a invasão implacável da tesoura. E rememora a cabeleira dessa outra mulher, farta, cabelos feitos de corda; fios longos, brancos, a perder de vista, que passeiam languidamente por entre os ombros e terminam nos seios, cobrindo-os apudoradamente.
Um corte nunca é inocente, repete, enquanto os fios a deixam para trás a olhar fixamente o espelho que lhe devolve o olhar. Há anos que não os deixa dobrar a linha do pescoço, castigando-os impiedosamente. Não resiste à rebeldia, à vontade de se espraiarem livremente. E corta-os, num impulso arrebatado. Quando a mão os sustem e a guilhotina os divide, sente a satisfação de sentir uma parte de si quedar-se no chão. Estilhaços rapidamente varridos. Sai mais escorreita, ciente da renúncia às recordações.

(Fotografia de Man Ray)

Imitações

É impressão minha, ou este ficou muito parecido com este?

domingo, 2 de dezembro de 2007

... para gente grande

Os chineses vêem as horas nos olhos dos gatos. Um dia, um missionário passeando por um subúrbio de Nanquim, apercebeu-se que se tinha esquecido do relógio, e perguntou a uma criança que horas eram. O garoto do Império Celeste hesistou primeiro; depois, mudando de parecer, respondeu: "Eu já lhe digo". Pouco depois reapareceu trazendo nos braços um gato muito gordo, e fitando-o no alvo dos olhos afirmou sem hesitar: "Ainda não é meio-dia". O que era verdade. Por mim, se me debruço sobre a linda Féline, a tão bem baptizada, que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, quer seja de noite, quer seja de dia, em plena luz ou na sombra opaca, no fundo dos seus olhos adoráveis eu vejo sempre distintamente as horas, sempre a mesma hora, uma hora vasta, solene e grande como o espaço, sem divisão em minutos ou segundos (...). Se qualquer imbecil me viesse perturbar enquanto o meu olhar repousa sobre esse delicioso mostrador, se qualquer génio malévolo e intolerante, qualquer demónio me viesse perguntar: " O que estás olhando com tanto interesse? Acaso lá vês as horas, mortal ocioso?, eu responderia sem hesitar: "Sim, vejo as horas. Agora é a Eternidade!" "Relógio", Charles Baudelaire

Lullaby de Domingo

I laugh a lot But that's just a plot Um dos álbuns que roda muito por cá.

Pérolas a porcos

"Je fuis des yeaux distraits que me voyant toujours ne me voyant jamais".
dsfeasfsfesewretreferweew
Bérénice, Racine

sábado, 1 de dezembro de 2007

Gostar de gatos é coisa para gente grande*


"Enquanto bebé, esta gata nunca dormiu em cima da cama. Esperava que eu estivesse deitada, depois andava por cima de mim, considerando as possibilidades. Metia-se no fundo da cama, junto aos meus pés, ou ficava no meu ombro, ou esgueirava-se para debaixo da almofada. Se eu me mexia muito, mudava arrogantemente de lugar, mostrando a sua contrariedade. Quando eu fazia a cama, gostava de ficar dentro dela; e ficava, visível como uma pequena bossa, muito feliz, durante horas, entre dois cobertores. Se eu fazia festas na bossa, ronronava e miava. Mas só saía dali quando precisava.
A bossa mexia-se pela cama, hesitava na beira. Às vezes ouvia-se um mio frenético quando ela escorregava para o chão. Com a dignidade perturbada, lambia-se rapidamente, dardejando os olhos amarelos para os espectadores, que cometeriam um erro se rissem. Depois, consciente de cada um dos seus pêlos, colocava-se em qualquer outro centro de cena."
Doris Lessing, Gatos e Mais Gatos

Gostar de gatos é coisa para gente grande
*Bom, grande não será o termo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Subsídios para uma ausência prolongada*

Cultivar a arte de deslizar para o momento da suspensão. Desaprender o acto de respirar. Encerrar(-me) hoje, recomeçar amanhã. * Cogitações avulsas sobre nada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Venus as a boy

Sair de cena sabe bem. Fiquei em casa. Soube tão bem este dia. Revigorante.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O Homem Perfeito

The perfect man is gentle,
And never cruel or mean.
He has a perfect smile,
And is always neat and clean.
The Perfect Man likes children,
And will raise them by your side.
He will be a caring father,
And good husband to his bride.
The Perfect Man loves cooking,
He will clean and vacuum too.
He'll do what's in his power
To show his deep-felt love for you.
The Perfect Man is sweet,
Writing poems with your name;
He's a best friend to your mother,
And will kiss away your pain.
He never has made you cry
Or caused you hurt in any way.
To hell with this endless poem and rhyme,

domingo, 25 de novembro de 2007

vertigens

(de René Magritte)

"É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra."


Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER.


Lullaby de Domingo

Em Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, Um doce-amargo do Chico, com direito a lírica na íntegra.
Eu te adivinhava/E te cobiçava/E te arrematava em leilão Te ferrava a boca, morena/Se eu fosse o teu patrão Ai, eu te tratava/Como uma escrava/Ai, eu não te dava perdão Te rasgava a roupa, morena/Se eu fosse o teu patrão Eu te encarcerava/Te acorrentava/Te atava ao pé do fogão Não te dava sopa, morena/Se eu fosse o teu patrão Eu te encurralava/Te dominava/Te violava no chão Te deixava rota, morena/Se eu fosse o teu patrão Quando tu quebrava/E tu desmontava/E tu não prestava mais, não Eu comprava outra morena/Se eu fosse o teu patrão Pois eu te pagava direito/Soldo de cidadão Punha uma medalha em teu peito/Se eu fosse o teu patrão O tempo passava sereno/E sem relclamação Tu nem reparava moreno/Na tua maldição E tu só pegava veneno/Beijando a minha mão Ódio te brotava, moreno/Ódio do teu irmão Teu filho pegava gangrena/Raiva, peste e sezão Cólera na tua morena/E tu não chiava não Eu te dava café pequeno/E manteiga no pão Depois te afagava, moreno/Como se afaga um cão Eu sempre te dava esperança/De um futuro bão Tu me idolatrava, criança/Se eu fosse o teu patrão

sábado, 24 de novembro de 2007

Mr Lekker...

... a nossa Pérola, convida-nos a passar por STP. A visitar, que a viagem sai relativamente em conta.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

eu cá sigo a moda

"Por qué no te callas"

Cogitações avulsas

De repente, as cinderelas e os príncipes estão na rua. Sem tacão, base ou armação no cabelo, sabe que será uma noite muito longa. O cabelo revolto denuncia-lhe a inépcia para a situação. Com calça preta, sabe que nunca se compromete. O pior é mesmo tudo o resto... Who cares?

Podia ser uma das pérolas de Mr. Lekker, mas não é


"Dois amantes que se destinam exclusivamente um ao outro já estão mortos: morrem de tédio."

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo
Obviamente Magritte

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Post it

O homem do blog escapuliu-se. As moças que ficam desejam-lhe uma boa viagem e que não se esqueça que pode e deve enviar-nos notícias.

(Memórias) da cegueira*2

"Há sempre presente uma política dos sexos, quer dizer uma necessidade para cada um deles de conduzir, conscientemente ou não, uma política (...). (...), há um jogo e paradas em jogo, um modo de relação difícil de regular , do qual ninguém pode abstrair e que envolve relações de poder."
Sylviane Agacinski, Política dos Sexos

Por que teima em não se cumprir?
Em deixar-se conduzir, levar conforme a sorte e a mão que lhe estende a possibilidade de não pensar?
Por que insiste em não existir? Materializar-se apenas no gosto do outro, nos olhos do outro, na posse de quem diz que lhe quer bem?
Por que mantém os olhos bem fechados e sonha com véus que lhe toldam os sentidos e sedas que lhe vedam o pensamento?
Escolham por mim, reclama na voz mimada de quem nunca lutou porque outras fizeram-no por ela, antes dela e que lhes custou o suor do rosto, os braços pisados, a face conspurcada pelos insultos.


* O blá blá do post com o mesmo título e mesma ilustração.

"Pode Ser Liberdade"

"Ter um livro para ler e não o fazer!"
F. Pessoa