quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

A descoberta da pólvora ou a corrida mais louca do mundo

Mais uma vez somos informados pela comunicação social das mudanças ao nível da educação; ao que parece, o Ministério pretende alterar o funcionamento do 2º ciclo do ensino básico. Assim, apresenta a figura do professor-tutor, que será responsável por algumas disciplinas, nomeadamente português e matemática. Teoricamente, a medida visa suavizar a mudança de hábitos que a transição de ciclo implica: enquanto que no primeiro ciclo o educando está habituado a um professor responsável pela maior parte dos conteúdos inerentes ao processo de ensino-aprendizagem, o segundo ciclo implica que o aluno se ambiente a vários professores para as várias áreas curriculares. A medida apresentada (mais uma vez) aos média, poderá ser benéfica; contudo, para além da basófia habitual, pouco se acrescentou à notícia, ou seja, não se explicou quando e como será adoptada a medida; e aqui está o busilis da questão. A esta altura, os docentes habilitados para o segundo ciclo não têm uma formação tão ampla que permita esta operação. Isto significa que um professor que esteja habilitado a leccionar português no 2º ciclo, não possui habilitações para leccionar a disciplina de matemática, ou a disciplina de ciências da natureza. Perante o cenário, temo que esta "novidade" seja implementada sem as devidas alterações necessárias para uma execução eficaz. A tomar como exemplo medidas anteriores, provavelmente esta medida será entronizada como a salvação da educação, a ser implementada o mais rapidamente possível, se possível no próximo ano. É o que temos visto. Esperemos que desta vez seja diferente. Ainda a propósito, um apontamento sobre a reportagem que anunciava a medida; apresentou-se, em género de remate, que esta medida afinal já era aplicada numa escola do País. Não recordo a escola. E não recordo, porque o desenrolar da referida reportagem foi risível. Um jornalista interrogava os alunos da dita escola sobre o facto de terem os mesmos professores a leccionar várias disciplinas; os alunos explicavam que tinham o professor de matemática a leccionar também a disciplina de ciências da natureza, ou o professor de português a leccionar também estudo acompanhado e formação cívica. O hilariante da novidade é que a tal medida que acontece apenas na dita escola, acontece também na maioria das escolas do País. E perguntava o jornalista que descobriu a pólvora, se o modelo funcionava...

6 comentários:

his_tory disse...

O Ministério está mesmo a dividir para reinar... Como esses professores tutores iniciam a formação no próximo ano e exige-se-lhes o mestrado (3+2 anos), os professores profissionalizados nesse ciclo de ensino (podemos dizer que eles escolhiam se queriam leccionar no primeiro ou no segundo ciclos) terão de voltar ao banco da Universidade para completar o mestrado (2 anos, com créditos do leque das disciplinas), o que significa proventos e alunos para as universidades, especialmente com cursos ligados ao ensino... (a ministra também leccionava numa universidade...) ou serão ultrapassados pelos "novos" docentes, agora tutores, enquanto eles passam para ajudantes/auxiliares dos primeiros, com o correspondente corte no ordenado (especulação da minha autoria?!).

Se o problema fica resolvido? Claro que não, visto que no 3.º Ciclo os alunos são confrontados com a mesma realidade (1 professor por disciplina, e por vezes até para as Áreas Curriculares Não Disciplinares). Adivinhem qual será o próximo alvo deste
Mi(ni)stério...
Em seguida temos o Secundário...
E mais não digo.

Woman Once a Bird disse...

O secundário? Não fica para mais tarde. Já há muito que está minado.

rps disse...

Por razões que entenderás, comento o ponto da peça jornalistica: o mais grave é que, depois de emitido o trabalho, provavelmente ninguém lhe disse nada...

edelweiss disse...

Não percebo qual o interesse dessa medida. Lembro-me que a minha professora de matemática no 1º ano (agora diz-se 5º, não é?) era também a professora de ciências da natureza, e não havia vantagens nem desvantagens, para nós era igual.

Woman Once a Bird disse...

Eu percebo alguma pertinência em que o Conselho de turma no 2º ciclo seja o mais reduzido possível; aliás, parece-me que a maior parte das escolas tenta isso, conciliando algumas áreas disciplinares no mesmo professor. E isto não acontece só no 2º ciclo, bem como tamb+em no terceiro. Contudo, não me parece viável a figura do professor-tutor(tal como foi apresentada). São áreas muito díspares, para que uma única pessoa as domine bem a todas.

Woman Once a Bird disse...

RPS:
Pergunto-me como um jornalista "descobre" que uma escola no País pratica "a medida anunciada", sem descobrir que todas as outras também...
Aliás, a acreditar no que foi vomitado pelo Ministério nessa peça, a situação não está sequewr perto de ser similar. Professores de matemática a leccionar ciências da natureza no 2º ciclo já acontece, até porque a formação de base desses docentes é em Matemática E Ciências da Natureza.
Sinceramente, não consegui deixar de pensar que foi mesmo mal intencionado...