quinta-feira, 13 de abril de 2006

Pecados originais (e outros demónios).

É com lágrimas nos olhos (de tanto riso) que vos escrevo estas linhas. A passagem por aqui deixou-me a pensar no futuro dos católicos deste País. Como tornear a questão? Como encontrar a farinheira do séc. XXI? Passo a explicar. Li algures (e não me peçam as fontes, porque tenho uma memória muito selectiva – embora desconfie que o tenha lido no A Senhora da Catherine Clément) que a portuguesíssima farinheira resultou da necessidade dos Cristãos Novos comprovarem a sua conversão. Em toda a casa portuguesa dos tempos mais obscuros (uns mais obscuros que outros) jazia na cozinha o enchido de carne de porco; ora, os Cristãos à Força também teriam que ter nas suas cozinhas (e à mesa) este tipo de iguarias para não denunciarem a qualidade da conversão. Vai daí, conceberam a farinheira cujos ingredientes não contemplam o polémico porco.
Pois bem, após este momento explicativo, voltemos ao assunto que me pôs os dedos a fervilhar perante o teclado. É que o gabinete do ilustre Bento XVI vomitou cá para fora uma série de pecados que têm que ser penitenciados pelo fervoroso crente. A partir de agora, “Passar demasiado tempo a ler jornais, ver televisão ou a navegar na Internet pode ser considerado pecado com a obrigatoriedade de ser confessado”. Ora, isto é gravíssimo e já consigo vislumbrar um dilema semelhante ao que foi descrito pelo David Lodge no seu O Museu Britânico Ainda Vem Abaixo (a saber, sobre o dilema dos usos dos contraceptivos para evitar a procriação desenfreada). É que isto de cada vez que ler o jornal, ou consultar o mail, ou cirandar pelos blogs e ter que ir a correr confessar-se à Igreja mais próxima, tem muito que se lhe diga. Primeiro, porque a Igreja mais próxima pode não ser tão próxima quanto isso. Segundo, porque os joelhos de uma pessoa não aguentam tanta penitência (e aqueles bancos são uma tortura). Terceiro, porque o crente pode conduzir o padre lá do sítio ao pecado da blasfémia, por o ter constantemente por lá nas suas contrições reincidentes. Ora, na minha perspectiva, o problema resolve-se de forma bem mais simples. É o crente deslocar-se à loja de cd’s mais próxima e fazer um investimento inicial (porém, vitalício) num cd que contenha esse sucesso inominável interpretado por António Calvário, “Oração”. E de cada vez que terminar de pecar, o piedoso ajoelha (para o efeito, ter uma almofada sempre a jeito) ao pé do computador , do televisor ou do infame jornal, e coloca a musiquinha a tocar, trauteando de cabeça e braços ao peito a lírica inspirada… Findo o ritual, pode regressar normalmente à vidinha e continuar alegremente a cometer pecados tão capitais. Para quem não conhece, aqui fica a preciosidade que devem imprimir em tamanho reduzido e colocar na carteira para sacar sempre que necessário.
A título de exemplo, se a leitura do jornal ocorrer em local público, nada mais fácil do que, no recato do wc do estabelecimento, sacar da cábula e trautear os versos salvadores(se quiser num ritmo mais acelerado para despachar a penitência mais rapidamente).
Senhor,
A teus pés eu confesso:
Senhor,
Meu amor maltratei!
Senhor,
Se perdão aqui peço,
Não mereço!
Senhor, Meu amor desprezei
E pequei!


Perdão
No entanto, eu imploro!
Senhor!
Tu, que és a redenção!
Eu sei que a perdi e que a adoro
E eu choro
Senhor,
Ao rogar seu perdão!


Senhor,
Eu confesso o perjúrio de tantas promessas!
Senhor,
Eu errei mas na vida
Encontrei a lição!
Senhor,
Eu t'imploro, senhor, ó meu Deus:
Não t'esqueças da minha oração!
Senhor,
Ó bondade infinita, dai-me o seu perdão!


Amor
Por amor eu na vida jamais encontrara!
É tarde!
Caminho p'la vida perdido na dor!
Senhor!
Este amor é mais puro que a jóia mais rara,
Que o mais puro amor!
Senhor,
Se o amor é castigo, perdão meu senhor!

8 comentários:

bartleby disse...

Caso para dizer: para grandes males, grandes remédios!!!

candida disse...

que horror! anda tudo maluquinho. o mundo foi assaltado por atrasados mentais, leigos e religiosos.

Nefertiti disse...

bem, nem sei o que dizer... mas acho que o assunto tocou-nos de igual forma! Isto é de partir a rir. Uma divina comédia!!!

Nefertiti disse...

O teu texto está excelente!! bjs

rps disse...

Na lista de novo pecados deveria constar:

- ter um blog e não blogar

(não é o caso de Miss WOAB e Miss Nefertiti, mas é o de muitas outras figuras...)

Dirim disse...

De facto, um pecado e tanto.. uma amiga questionava-se se o facto de ter ultrapassado várias (!) velhinhas na passadeira poderia estar incluído no pecado de "excesso de velocidade"...

dama disse...

E achas que também resulta se cantarolarmos o Padre Zézinho, esse outro excelso badaleiro?

Woman Once a Bird disse...

Suponho que também seja uma alternativa. Aliás, para uma pessoa não ficar aborrecida por ouvir/cantarolar o mesmo, é uma excelente sugestão.