quinta-feira, 13 de abril de 2006

Bode expiatório

(o Bode Expiatório, conhecido também por Azazel)

É tempo de férias e isso para mim equivale a uma atenção redobrada à televisão, net, jornais, revistas, enfim, aos media em geral! A globalização é só em tempo de férias! Há assuntos que só sei muito mais tarde ( só em tempo de férias )! Acho que até tenho sorte... porque os assuntos vêm mais apurados e menos inflamados (alguns)!
Ontem, mais uma vez (sou persistente), tentei usufruir de um momento televisivo nacional. Uma real decepção! Novelas atrás de novelas, séries que já perdi a conta das vezes que já vi e programas de humor nacional que me causam até rancor! (excepto o Gato Fedorento que ainda vou vendo com uma certa expectativa)
Contudo, ainda ontem à noite, discutia-se, no Clube dos Jornalistas, canal 2, o poder dos media na democracia. Aliás, o tema abrangente nesta espécie de tertúlia televisiva era: Os media como força oposta à democracia (mais ou menos assim... pois só vi um bocadinho!). Mas como o ponto de saturação estava a chegar aos píncaros, não houve pachorra para assuntos sérios, mudei de canal. Piorou a situação! Deparo-me como um anormal a discutir com um elefante e a dizer-lhe para se converter. Pensei que esta saga e chaga de realitys shows tivesse terminado! E em relação àquele anormal, o elefante deveria tê-lo sugado e, mais tarde, muito mais tarde, expeli-lo pelo sítio mais óbvio!! Adoraria! Como isso não aconteceu, fechei aquela caixa de Pandora que só me estava a causar desgostos!
Enfim, apesar de tudo temos que dar mérito aos media; entretêm-nos, informam-nos, denunciam certas situações... mas também temos que admitir que nem sempre são geridos da melhor forma, em vezes de informar/formar, deformam! São também uma arma poderosíssima.
Agora de uma coisa tenho (quase...) a certeza: os media são o reflexo de uma cultura, de um povo. Todo o trabalho é pautado pelo grau de exigência que é pedido e necessário para atingir os fins pretendidos. E a propósito de fins, ainda noutro dia uma velhinha disse-me que no tempo dos comunistas passou muita fome (ela nunca viveu noutro país senão em Portugal!!).
Hoje, deparo-me com uma notícia de abertura dum telejornal qualquer: a igreja considera que dedicar muito tempo aos média (televisão, revistas, jornal, net...) é PECADO!!!
Credo! Como é possível! A Igreja agora quer arranjar um BODE EXPIATÓRIO! Mas acho, sinceramente, que os doutores da Igreja deveriam dedicar-se a reformular as vestimentas que usam nos ritos pomposos, como por exemplo, escolher outras cores... em vez do roxo ou preto, o azulinho ou amarelinho. Acompanhar mais as tendência da moda! Ou, então, dedicarem-se a compor outras orações e canções mais actuais e mais fáceis de decorar.
A época do bode expiatório já não existe! Existiu na época dos antigos hebreus que, por altura dos pentecostes, mais propriamente na festa da expiação, levavam dois bodes que eram sacrificados de forma diferente! Um era morto e oferecido a deus, o outro, ao fim de cada participante lhe ter confessado os pecados ao ouvido, era levado para o deserto Sinai. Assim, o pobre animal, carregado de pecados, morria no deserto a expiar os pecados (daí a nossa expressão Bode Expiatório!).
Agora, nem quero imaginar a quantidade de bodes que seriam necessários para expiar tantos pecados, nem se quer havia deserto que chegasse!
Ainda bem que a tradição já não é o que era!!!

15 comentários:

Gaia disse...

O pior, Querida Nefertiti,é que algumas tradições, ainda são, tal como eram. Só os bodes expiatórios se alteram. A prova está aí.
Beijos

Nefertiti disse...

Errata: onde se lê nem se quer deve-se ler nem sequer (adv.)

Woman Once a Bird disse...

Ah, mas com bodes destes, bem podemos nós.

Woman Once a Bird disse...

O problema, a meu ver, está no ritual onde se realizou o anúncio maravilha... Paradigmático que se assita ao ressurgimento de rituais marcados a fogo na história mais obscura da Igreja. "It was the best of times, it was the worst of times"... (roubado a Dickens)

Woman Once a Bird disse...

Dúvida:
Tendo em conta que foram referidos os jornais, a televisão e a internet...
Será que as revistas e o cinema estão livres de pecado?

Dirim disse...

Nefertiti: belo texto. Mas quanto aos "media serem um reflexo de uma cultura, de um povo", discordo. Estou convicta que os media são muito mais o reflexo de quem os faz do que de quem os vê/lê/ouve. No Estado Novo a imprensa, decididamente, não era um espelho da cultura ou do povo que habitava o rectângulo e agora, estou certa que continua a não ser. No que diz respeito aos pecados, ou melhor, aos novos pecados.. o que me apraz dizer é que a Igreja está em choque tecnológico.. mais um, por sinal ;-)

rps disse...

Os media são feitos por pessoas iguais às outras. Os acasos da vida poderiam ter levado a Judite de Sousa a trabalhar no BCP e o Zé Alberto Carvalho nos CTT enquanto Miss Nefertiti e Miss WOAB, por exemplo, poderiam ir ter parado ao Jornalismo e eu poderia ser prf. de Filosofia. Somos todos basicamente iguais uns aos outros.

Por isso, acima de tudo, os media reflectem a sociedade em que vivemos. São mais espelho do que factor de mudança.

Um dos problemas da nossa sociedade é o modo ligeiro e simplista como se tratam as coisas, como nos referimos às coisas, como despachamos as coisas para tratarmos das seguintes.

Este mal agrava-se na produção de informação porque os jornalistas, pessoas como quaisquer outras, e pressionados, no trabalho, pela falta de tempo, e obrigados a despacharem várias coisas ao mesmo tempo, tratam, muitas vezes, os assuntos com ligeireza (quando não com desconhecimento sobre os assuntos que lhes aparecem à frente).

Serve isto para dizer: o que é que nos fica desta notícia? Isto:
"O Vaticano diz que é pecado navegar na internet e ver televisão".

Eu não conheço o documento em causa, mas aposto, TENHO A ABOSLUTA CERTEZA, que o documento não diz isso. Posso lê-lo e discordar absolutamente do que lá está. Mas isso - aposto - não diz. Isso foi o "lead" que os jornalistas tiraram da fonte que, para a maioria dos jornalistas, não foi sequer o documento original, mas sim um texto-síntese, de carácter jornalístico, feito por um jornalista de uma agência ou até por serviços de imprensa.

Tanto quanto percebi, depois de vasculhar um pouco mais, o documento dirá qualquer coisa do género "perdemos tempo hoje com coisas menos sãs e menos utéis, pecaminosas até, tempo que poderíamos utilizar em tarefas mais solidárias e de ajuda ao próximo" e o texto dá, entre outros, o exemplo do hábito de muitos de nós de nos fecharmos sobre nós mesmos na Internet.

Esta ideia é muito mais consensual do que aquela que emana do "lead" que corre por aí. Esta ideia, de modo simplista e ligeiro, acaba reduzida a "é pecado andar pela internet".

Para concluir: não conheço ainda o documento para ter uma opinião formada, mas sei que o Vaticano produz muitos textos sem sentido. Até pode ser este o caso. Mas o documento não diz "É PECADO ANDAR NA INTERNET E LER JORNAIS"

Woman Once a Bird disse...

Caro RPS:

Tens toda a razão. Os média são povoados por pessoas iguais às outras; e, como em todas as profissões, umas são mais sérias do que as outras (como bem sabemos).
A informação é, muitas vezes lançada cá para fora sem a certificação necessária no que diz respieto às fontes? Certamente. Numa sociedade que funciona à velocidade da luz, a informação pretende ser ligeiramente mais rápida, o que ocasiona desinformação.
no caso que motivou os dois posts que aqui se encontram... Tens toda a razão quando dizes que os média hiperbolizaram o assunto; efectivamente a informação que li hoje no Ecclesia não corresponde à afirmação taxativa de que é pecado ler jornais, ver televisão ou navegar pela net em demasia. Mas certo é que a cerimónia onde se "exortou" à meditação destas novas "maleitas" indiciam a nomenclatura. E, aliás, mais grave do que isto é ter-se ressuscitado a cerimónia de todo, como referi alguns comentários acima.
Tudo o resto, é risível, apenas. E daqui me vou, passar os olhos pela Bíblia, não vá o diabo tecê-las.

Anónimo disse...

Nada melhor do que ir às fontes!

SG

Woman Once a Bird disse...

Caro SG:
As fontes, são efectivamente fundamentais. Mas, repare, nada no texto da TSF, e que linko no post que antecede o presente, afirma taxativamente a certificação de pecado. Repare "no pode ser", pelo que a infomração coincide com o que se encontrou na Ecclesia (que não é senão um orgão informativo). Nada de novo, portanto.

jose disse...

não sabia a origem do bode expiatório, mas apreciei sabê-lo.
apreciei, aliás, ler todo o texto. dos bons.

Nefertiti disse...

Os documentos, as decisões, os ditos e não ditos da Igreja não vêm alterar nada na minha vida, nada mesmo. Escrevi este post baseada numa Notícia! Agora as fontes... não tenho nenhum interesse em esclarecer-me! Escrevi porque achei imensa piada!! bjs

Nefertiti disse...

P.s em esclarecer-me neste assunto!

Anónimo disse...

Mas é exactamente pelo facto das pessoas não se importarem com a verdade dos factos que se criam os boatos. Ainda que reconheça toda a legimitidade para comentar boatos!

SG

Woman Once a Bird disse...

SG:
A haver boato, certo é que se iniciou por uma das fontes consideradas "mais credíveis". Não concorda? Brincamos, mas o certo é que quem despoletou a onda de "pecados velhos e novos" foi exactamente a ecclesia. Ora, percebo perfeitamente que um jornalista confie que é informação suficientemente credível. Quer dizer, a opção de pegar no telefone, discar o nº do Vaticano, "Era o Bento, ffv. - aguardar ao som de excelsa música - Oh Bento, é verdade que demasiado jornal, televisão e internet passa a ser pecado?"
Quando o orgão mais próximo da instituição o veicula...