sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sobre a Capa da Visão - uma (outra) perspectiva

A insónia está inquietada no coração da sua igualdade formal pelo Outro, que desnucleia tudo quanto, nela, se banha em repouso, em presença, em sono - tudo quanto se identifica. A insónia é o dilaceramento deste repouso no idêntico."
Emanuel Lévinas, Deus, a Morte e o Tempo

 
Vietname, 1972,  Fotografia de Nick Ut

Corre no facebook um grupo de apelo ao boicote à Visão desta semana, fundamentalmente  chocado com a fotografia duríssima que a ilustra. 
O apelo ao boicote deixou-me, num primeiro momento, perplexa. A imagem é dura? Certamente. Mas não sendo uma fotomontagem, não sendo possível identificar a vítima, não compreendo que ferida de morte à Região é essa que tem indignado, ao momento,  já 1500 membros.  De repente, o fotojornalismo passou a ser apodado de necrófago porque o flash aconteceu aqui mesmo, ao virar da esquina. 

 Sudão, fotografia de Kevin Carter, Prémio Pulitzer em 1994 

Há anos que visionamos, chocamo-nos e sentimo-nos mais humanos com fotografias pungentes vindas de outros sítios menos afortunados: em relação a Eles, dizemos  que é necessário saber da tragédia, enquanto que quando nos toca a Nós evocamos o pudor e a indignação face ao mesmo. critério. O direito à informação só é admissível quando nos glorifica ou então quando nos permite sentir uma piedade confortável em relação a outras aldeias/cidades/países. Acima de tudo, não permitamos confusões: eles não são nossos. O pudor só bate à porta quando o cadáver somos nós. Aí, levantamos as mãos aos céus e gritamos por decoro.


Leipzig, 1945, Robert Capa

Confesso que ainda que o discurso oficial aponte para a necessidade de minimizar os efeitos da tragédia que nos assolou no último fim de semana, apanhou-me de surpresa que muitos/as adoptassem avidamente o apelo. Que se note que não considero que o discurso do coitadinho deva prevalecer ou que não se deva acautelar os interesses económicos; contudo, também é manifestamente exagerado julgarmos que em função de uma tão propalada "Madeira nova" é necessário assobiar para o lado em relação ao que de facto se passou: é preciso haver espaço também para o luto e não apenas varrê-lo juntamente com a lama para debaixo da(s) ribeira(s). 


No que me diz respeito, prefiro uma Ilha dotada de equilíbrio: consciente quanto ao que se passou, esperançosa em relação ao que está por vir.
E não, não vou boicotar a Visão, até porque as reportagens que esta encerra em nada são pouco dignificantes para as pessoas (ao invés desse conceito abstracto e confortável de "povo madeirense") que viveram a tragédia .

5 comentários:

Anónimo disse...

Parece que estamos a viver uma tragédia envergonhada... é uma atitude pouco sensata e até obtusa. Sim, a Madeira está bastante destruída e o que precisa agora é de ajuda!

Helena

BaBy_BoY_sWiM disse...

Concordo plenamente com o que escreves...

Estamos em sintonia, ando a estranhar...

Woman Once a Bird disse...

Eu também ando perplexa contigo Baby. ;)

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=cf69vIQL_u8&feature=player_embedded#

não tens o numero do Shane Macgowan ?

:)

Hugo Santos disse...

O que me choca mais não é a imagem da capa da Visão. Choca-me mais a falta de sapiência das pessoas face ao que é e deve ser o Fotojornalismo e o dever de um fotojornalista. Para os Madeirenses que viveram a tragédia consigo entender que a imagem choque e que até o facto de não gostarem de a ver publicada na capa da Visão. Chamar-lhe sensacionalista, voyeurismo e outras coisas do género é que não só não consigo admitir como me entristece profundamente, talvez por ser precisamente a minha profissão. Porque não se viram contra a ficção jornalística com que somos bombardeados diariamente em certos canais de televisão? Porque não se viram contra as revistas cor-de-rosa que atentam diariamente contra a privacidade e o bem estar das pessoas destruindo muitas das vezes famílias inteiras... Não estamos perante uma foto de paparazzi e aqui não há nem pouco de margem ao sensacionalismo!!! Cabe sempre ao fotógrafo decidir em milésimos de segundo se deve ou não fazer a foto, no entanto perante uma tragédia cabe ao fotógrafo informar e mostrar a realidade ao mundo. Posso garantir que se esta foto e outra muito semelhante, captada por um outro fotógrafo da agência AFP, em que é retirado um corpo de um carro, não tivessem chegado à comunicação social do continente e aos jornais de todo o mundo, creio que nunca ninguém que não vivesse na Madeira teria tido a real dimensão do que foi a tragédia. Chama-se a isto realidade... Chama-se a isto Fotojornalismo. Um estilo de vida que na realidade poucos conhecem mas que é digno, ético, incorruptível e solidário! Se isto é uma verdade absoluta inerente à profissão? É. Se todos os fotojornalista se regem por estes valores? Não. Mas quando assim é percebe-se e nunca lhes deveríamos chamar fotojornalistas.
Quanto ao facto do fotógrafo ter realizado a foto tenho a profunda convicção de que qualquer bom fotojornalista com valores o teria feito, sempre respeitando a família, o corpo, os madeirenses e os seus próprios princípios. Parece-me claro e indiscutível! Vivemos num país que ainda é um pequeno paraíso e quando não existe uma abertura da sociedade portuguesa aos jornais e revistas internacionais percebe-se que isto choque. No entanto as grandes agências de referência do Fotojornalismo fazem diariamente fotos de horror e tragédia bem mais marcantes do que esta. Fotos que são publicadas nos melhores e mais conceituados orgãos de comunicação social mundial. Quanto ao facto de a foto ter sido escolhida para capa da Visão é outra história ainda que com os mesmos contornos. As fotos são enviadas para uma redacção que analisa as mesmas. Os Directores e Editores têm a responsabilidade e o dever de realizar opções e escolhas complicadas. Por isso é que estão nesses cargos. Se foi para vender?! Quem disser que não foi para vender mente, porque qualquer publicação quer vender, no entanto não acredito e não quero acreditar que tenha sido a única ou a razão mor de tal decisão. Informar, passar a dimensão real da tragédia, "abanar" a consciência dos políticos e de todo o povo para que se unissem e fossem solidários teria sido a razão mor pela qual eu a teria publicado.

Mesmo não conhecendo aproveito o blog para solidarizar com a família da vítima da foto e com o povo da Madeira. Não felicito o fotógrafo ou a Visão, porque não acho que se devam laurear. Vinco porém que foram profissionais e fico feliz por terem desempenhado o seu trabalho com coragem até ao fim sem quebrar perante possíveis pressões que terão existido.

Os Madeirenses tem uma força interior invejável dentro deles e são exemplo para todos em muitas áreas. Espero que consigam ter com o passar do tempo a capacidade para ver a foto de outra maneira e que se coloquem pelo menos do outro lado. Se esta não tivesse sido feita, teriam as ajudas chegado da mesma maneira? Teria o povo de Portugal Continental e de todo o mundo percebido a real dimensão da tragédia?