quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Notas breves sobre um violador

Não será porque passaram 30 anos que o acto de Polanski se torna mais desculpável. Não serão esses 30 anos que tornarão o facto de ter fugido às autoridades (aquando da consciencialização de que efectivamente iria ser punido) mais ligeiro, mais leve, menos memorável. Mas acresce a tudo isto que não deverá ser por estar ligado às artes, com renome no campo do cinema, que a violação de uma criança de 13 anos (o eufemismo de prática de actos sexuais com uma menor é, no mínimo, curioso)  possa passar em branco.Uma violação é uma violação, seja perpetrada por um pobre diabo ao virar da esquina, quer ocorra numa mansão em que se joga com os sonhos adolescentes de uma aspirante a actriz.
Um homem é sempre um homem, responsável pelos seus actos, quer seja um génio ou alguém de muito pouco talento. Foi um acto criminoso. Sem punição. Até agora. Chega tarde, mas que não se apague.

13 comentários:

blueminerva disse...

Tenho imensa admiração pelo artista, mas subscrevo inteiramente a tua posição.

beijocas

nefertiti disse...

Muito bem dito, Woman. Subscrevo.

Funes, o memorioso disse...

Subscrevo tudo quanto diz a propósito do artista. Um bandido não deixa de ser bandido pelo facto de ser artista. Ponto final.
Repudio terminantemente a sua ímpia ideia de que um indivíduo deve ser julgado 30 anos depois do crime. Como, estou certo, a WOAB também a repudiaria, se não estivesse em causa um crime sexual.
A Justiça nunca se faz trinta anos depois.
Imagine o trauma de uma criança de dez ou onze anos que descobre que o pai que adora violou outra criança há trinta anos, segredo que descobriu, porque a polícia, reabrindo um inquérito antigo, o foi prender a casa. Acha que este trauma de uma criança vale a pena, para vingar (e digo vingar, porque 30anos depois, é de vingança e não de Justiça que se trata) uma vítima que entretanto superou o seu trauma (se alguma vez foi trauma, porque pode não o ter sido, no caso de não haver violação, mas uma relação voluntária, consentida por menor)? Acrescendo que, se a vítima saiu psicologicamente traumatizada da violação, não é a exposição pública a um julgamento trinta anos depois que vai atenuar o seu trauma.
A sua posição arranca de um pressuposto cuja razoabilidade não quero aqui discutir: o de que, uma vez violador, sempre violador.
Mesmo admitindo este pressuposto, não faz sentido absolutamente nenhum que o crime não prescreva. O violador pode sempre ser julgado e punido pela sua actividade recente.
Se caiu num erro que não repetiu, não faz sentido que a sociedade não esqueça jamais esse erro. É que repare bem, ao dizer ao violador que violou uma vez que ele, para o resto da vida, vai estar sempre sujeito a pagar pelo seu erro, decorra lá o tempo que decorrer, ao colocar-se-lhe essa espada de Dâmocles sobre a sua cabeça, o que se lhe está a dizer é que não teve tentar controlar os seus impulsos. De qualquer modo, ele já violou uma vez. Pode continuar a violar.

Woman Once a Bird disse...

Ao contrário do que o Funes afirma, não parto do pressuposto que uma vez violador, sempre violador. Mas parto do pressuposto que se só passados 30 anos a responsabilização lhe bateu à porta, tal deveu-se ao facto de ter fugido à responsabilidade - isso e a conivência dos Países por onde passou, que sabendo-o nunca tomaram medidas em conformidade.
A justiça nunca se faz 30 anos depois porquê? Porque o sujeito foi mais esperto e furtou-se à pena à altura dos acontecimentos? Não Funes, tenho dificuldade em entender que a memória se esbata em função do facto de um foragido só ser apanhado 30 anos depois. Não defendo que pague o resto da vida; defendo que pague agora o que não cumpriu à época por escolha do próprio.

mcjaku disse...

Tendo a simpatizar com a ideia que nenhum homem está acima da lei e, portanto, o cidadão Roman não se pode esconder atrás do artista. Mas, do ponto de vista jurídico, sou completamente a favor da existência do princípio da prescrição, mais ano menos ano.
Questão mais grave é tratar-se este caso como violação: tanto quanto sei, e já li muita coisa sobre o assunto, houve sexo com menor, não houve violação. Houve consentimento ( se calhar até provocação) numa festa regada a álcool e a drogas em casa de Jack Nicholson cheia de groupies, incluindo uma que tinha 13 anos em vez dos 18 ou, vá lá, 16 que Polansky diz que achou que tinha. É crime ? Claro. É violação ? Claro que não !

PS Nem vou falar do sistema jurídico americano e do "acordo" que alegadamente foi feito e desrespeitado pelo M.P. Mas esta "privatização" da justiça penal tão americana dá-me nojo.

Woman Once a Bird disse...

Caro Mcjaku:
Utilizei o temro violação porque considero que o facto de uma criança ser dopada e o acto sexual ocorrer sob esse efeito torna-o duplamente não consentido. Primeiro, porque uma criança de 13 anos não tem o discernimento necessário que um homem de 30 tem - ou deve ter. Segundo, porque nem estava na posse de todas as suas faculdades. Relações sexuais consentidas com uma menor? Se o visado se sente melhor a pensar assim...

Táxi Pluvioso disse...

A "mansão em que se joga com os sonhos adolescentes de uma aspirante a actriz" é demasiado forte. A "criança" metia-se mesmo debaixo deles com a ajuda da mãe.

Woman Once a Bird disse...

Táxi:
Por que razão colocou a criança entre aspas? Os treze anos valem mais ou menos consoante as aspirações? Querem ver que qualquer dia o pobre enganado era o marmanjo de trinta e muitos anos que manipulava adolescentezinhas com a perspectiva de uma carreira cinematográfica, meandro em que era - e é - bem conhecido.

Gostava mesmo de saber se tanta complacência se verificaria se falássemos de familiares dos defensores de que o pobre diabo não merece cumprir a punição a que fugiu.

everything in its right place disse...

"Um homem é sempre um homem, responsável pelos seus actos, quer seja um génio ou alguém de muito pouco talento."

o que querias dizer era :
"Um Homem é sempre um Homem, responsável pelos seus actos, quer seja um génio ou alguém de muito pouco talento."
não era?

tal como "some girls are bigger then others", os 13 anos de uma garota serão diferentes dos 13 anos de outra.

eu com 13 anos estava prontinho para muita trintona que por aí andava...

se foi violação é uma coisa, se, como dizem por aí, não foi, é outra.

Woman Once a Bird disse...

Lois:
Se consideras que a tua maturidade é a mesma agora que então...

Uma miúda de 13 anos não tem discernimento para tomar uma decisão dessas, muito menos perante um tipo de trinta e muitos que usa e abusa da posição que ocupa.

A violação aconteceu; o depoimento da miúda assim o atesta e a criatura apenas foi acusada de "sexo com menor" em função do acordo que foi feito. Portanto, na maioria das vezes o que corre por aí é o habitual: sacaninha da gaja, que aos 13 anos enganou o pobre do Polanski. É força do hábito...

Anónimo disse...

Sobre este assunto, só me apraz dizer o seguinte : Ou o mundo está louco, ou eu não l os livro de instruções. Jamais,em tempo algum, Polanski poderá ser inocente. O que certas pessoas querem fazer é preservar os direitos de um artista. Aqui está algo de muito errado. Muito, mesmo.

Parabéns!
Gostei do blog.

S.

ecila disse...

É mesmo assim como dizes! (tanto no post como nos comentários) Finalmente alguem que entende o que está em causa neste caso.

Woman Once a Bird disse...

Ecila e S:
Faz-me mesmo muita confusão a duplicidade de critérios em função deste caso. Fico abismada com o número de pessoas que vieram a público defendê-lo.Pelos vistos ser figura pública atenua muitas consciências.