quinta-feira, 7 de agosto de 2008

"Je suis Action Directe"*

Grupo Baader-Meinhof

Esta questão sobre o ingresso das mulheres em grupos especiais das forças armadas tem suscitado reacções mais ou menos racionais por todo o lado. De repente, mais uma vez lá acontece esta história de se permitir que se candidatem a forças mais especializadas quando todos sabemos, à partida, que as mulheres não passarão as provas requisitadas. O que, desde logo, coloca dúvidas quanto à natureza deste argumento. É que assim sendo, não há problema para os defensores da interdição e esta é, portanto absurda: permita-se, que a natureza encarregar-se-á do resto.

No DN de hoje, lê-se mais uma vez o desfiar dos argumentos dos nossos valorosos guerreiros sobre esta questão. Particular atenção para a afirmação de um almirante, que defende que certas forças de elite deverão continuar interditas a elementos do sexo feminino porque, entre outros, a "emotividade das mulheres desaconselha que entrem em combate directo". A ingenuidade de tal afirmação, a repetição de um arquétipo repetido até à exaustão, conduz-me a um livro que li há alguns anos atrás. Matem as Mulheres Primeiro, resulta de um trabalho de investigação de uma jornalista, Eileen MacDonald, que entrevistou algumas das mulheres que integraram os grupos terroristas mais conhecidos: ETA, IRA, Intifada Palestiniana, Brigadas Vermelhas italianas, o grupo Baader-Meinhof, a Facção do Exército Vermelho, Action Directe (grupo revolucionário francês). Todos estes grupos integraram mulheres nas suas fileiras que acederam conversar com a autora do livro, do qual vos deixo o seguinte excerto da introdução:

"«O primeiro alvo são as mulheres», era, segundo se diz, uma instrução dada aos recrutas do esquadrão antiterrorista da Alemanha Federal, bem como uma recomendação que a Interpol fazia aos outros serviços secretos europeus. Falei com vários membros destas organizações, e embora nenhum deles tenha confirmado que alguma vez tivesse recebido tal instrução, todos a consideravam um conselho precioso. Herr Christian Lochte, director do serviço de recolha de informação sobre movimentos subversivos alemães (...), que tem mais de vinte anos de experiência no estudo dos revolucionários políticos que tantos atentados cometeram no seu País, comentou: «A quem quer que tenha amor à vida, alvejar primeiros as mulheres é uma atitude muito inteligente. A minha experiência diz-me que as mulheres terroristas têm um carácter mais forte, mais poder, mais energia. Há alguns exemplos em que os homens hesitam por momentos na hora de disparar, ao passo que as mulheres o fazem de imediato. Este é um fenómeno generalizado entre os terroristas.»"

Com isto depreende-se que a imagem tradicional que tanto tem toldado uma verdadeira leitura das diferenças entre géneros - a mesma que levou o ilustre almirante, certamente convicto, a usar o argumento do excesso de emotividade - poderá ter nuances menos esperadas pelos garbosos heróis. A verdade é que a violência feminina é ainda matéria delicada - delicadeza é mesmo a palavra de ordem: espera-se que a mulher corresponda plenamente ao arquétipo de Mãe, piedosa e amantíssima, protectora dos lares, dotada de cílios freneticamente pestanejantes e achaques respiratórios. O problema é que, por vezes, com esta imagem, sai o tiro pela culatra. Ou melhor, em cheio.

*Citação de uma integrante das suas fileiras, proferida aquando da sua detenção, enquanto disparava contra a polícia. O namorado entregou-se pacificamente.

11 comentários:

Funes, o memorioso disse...

Ora aqui está um texto feminista que eu não hesito em subscrever na íntegra.
A lógica do primeio parágrafo é absolutamente irrebatível.
A história do argumento sobre a "emotividade das mulheres [que] desaconselha que entrem em combate directo" desqualifica quem o sustenta.
Tanto quanto sei, há só um bom argumento para justificar que se vede o acesso das mulheres às forças armadas. É que as forças armadas, no limite, fazem a guerra e na guerra morre muita gente. Os níveis demográficos dos Estados podem ficar seriamente atingidos e desaparecer parte substancial da população. Ora, terminada a guerra, torna-se necessário repor os níveis demográficos anteriormente existentes. E para este fim colectivo, como é evidente, no estádio actual, são necessárias muito mais mulheres do que homens. Uma mulher só excepcionalmente se reproduz mais do que uma vez por ano. Logo, se alguém tiver que morrer na guerra, que sejam os homens. Do ponto de vista demográfico, eles são mais dispensáveis. Quanto aos méritos deste fim demográfico, não me pronuncio.

Woman Once a Bird disse...

Funes, confesso-me de queixo caído.

Nefertiti disse...

Mas afinal o que se quer provar com isto? Acho que não percebi por que é importante provar que as mulheres são tão boas na guerra como os homens.
Infelizmente a teoria da emotividade parece-me não corresponder à realidade.

Woman Once a Bird disse...

Não se trata de provar que as mulheres são tão boas na guerra quanto os homens. Trata-se apenas de refutar o argumento de que a emotividade as torna mais delicadas e amáveis, ao ponto de as tornar incapazes. Isso será verdade para algumas, mas não para todas. Aliás, a fragilidade feminina é um mito carinhosamente acondicionado socialmente, inclusive por muitas mulheres, que consideram a fragilidade uma mais valia. E quanto à fragilidade, plenamente de acordo com Beauvoir: as mulheres tornam-se frageis porque convencionou-se ser da sua natureza.
As mulheres querem ingressar na marinha? Pois que lhes seja permitido. Que as provas decidam tal entrada ou não. E não apenas um anúncio que explica que só serão aceites candidaturas masculinas. E que se sustente que é um favor que é feito à mulher, em nome da sua "emotividade".
Felizmente os homens também são dotados de emotividade, não sendo esta uma característica única e exclusivamente feminina.

Funes, o memorioso disse...

Bem, eu aqui tenho que introduzir um ponto de ordem.
A diferença entre um homem e uma mulher é, objectivamente, uma questão genital e hormonal. Os homens e as mulheres têm orgãos sexuais e hormonais distintos.
Isto - ao menos directamente - tem pouco que ver com aspectos psicológicos. Aí há uma escala infinita e de graduações que variam analogicamente.
A ausência absoluta de emotividade e sensibilidade (chamemos-lhes, por convenção, a masculinidade abslouta) é um extremo platónico que não cabe a nenhum homem concreto e, do mesmo modo, a emotividade e sensibilidade puras (por convenção, a feminilidade absoluta) é outro extremo platónico que não está presente em mulher nenhuma.
O que temos são gradientes: homens mais emotivos e sensíveis e, nesta medida, mais "femininos" e mulheres mais brutas e insensíveis, nesta medida "mais masculinas". É uma simples convenção. Do ponto de vista psicológico não existe isso de ser o homem mesmo homem ou a mulher mesmo mulher.
Erro comum, é o de confundir estas características psicológicas com a orientação sexual do visado. Um homem sensível e "efeminado" é confundido com o homossexual e uma mulher abrutalhada com a lésbica. É erro grosseiro de quem tem destas coisas um conhecimento de café e não faz ideia nenhuma do que seja a homossexualidade ou a libido humana.

Nefertiti disse...

Depende daquilo que se entende por fragilidade... que pode também estar convencionado ( à boa maneira machista!)

Nefertiti disse...

pronto, o sr. Funes desenvolveu o assunto.

Woman Once a Bird disse...

De acordo, caro Funes. Mas a consideração que um homem mais emotivo é mais "feminino", ou que uma mulher menos emotiva é "masculina" responde a uma convenção cultural. A um padrão que (a necessidade de padronizar é incontestável) pode toldar as decisões e formas de nos vermos.

Nefertiti:
A fragilidade excessiva é uma patranha construida culturalmente, tal como o chavão de que os homens não choram. Nem as mulheres são bonequinhas de loiça, nem os homens são empedernidos.

Rosa Oliveira disse...

Após prolongada ausência, por manifesta vontade, não minha, mas de WOB, regresso e tenho o prazer de ler um «post» que subscrevo totalmente. Bom texto, Woman.

subscrevo, ainda, essa ideia da fragilidade feminina ser um mito socialmente construído, diria mais: construto da sociedade patriarcal que é a nossa. De forma lúdica, tinha já feito uma tentativa de avaliação; tomo a liberdade de partilhar:

http://amarpedra.blogspot.com/2008/06/pensamento-quase-profundo.html

rps disse...

Tb me pronuncio de acordo.
A única actividade que deve, de facto, ser totalmente interdita às mulheres é o sacerdócio católico. E só pela defesa e preservação do segredo de confissão.

Woman Once a Bird disse...

Sobre o segredo da confissão, sempre achei que o confessor tem que ter uma apetência para a cusquice. Oferecer-se para ouvir a vida dos outros é obra (não sei se será divina, tenho reais dúvidas).