domingo, 6 de julho de 2008

Lullaby de Domingo

Ouvir a faixa (das magníficas CocoRosie) e ler a crónica do Anselmo Borges que também remete, de alguma forma, para o post anterior. 
 

6 comentários:

Aditi disse...

Parabéns pelo blog e pelos posts. Tal como nos diz Anselmo Borges, normalmente o que aparece é a história dos vencedores, onde não cabem a história das mulheres. Felizmente, que com a comparticipação deste blog, aliada a muitas outras iniciativas ao longo dos anos, a história vai-se redefinindo!

Funes, o memorioso disse...

"O Sagrado, Deus, referente último do religioso, apresenta-se como Mistério plenamente libertador e salvador. É, pois, à luz desta intenção última que as religiões e os seus textos têm de ser lidos"

Eu não sei se Anselmo Borges percebe que dizer "O Sagrado, Deus, referente último do religioso, apresenta-se como Mistério plenamente libertador e salvador" é usar uma expressão que não significa absolutamente nada, ou, o que vai dar ao mesmo, significa o que quer que se queira.
Tudo o resto que ele diz é apenas consequência deste vazio inicial. É apenas politicamente correcto e piedoso, escrito, não para trilhar os caminhos da busca da verdade, mas apenas para conquistar a adesão e a simpatia do leitor (em particular, da leitora). Não deve ser levado a sério. Se acreditasse verdadeiramente naquilo que escreve, Anselmo Borges, no mínimo, tinha vergonha de assinar os seus textos como padre de uma Igreja que hoje, como no passado, continua a considerar a mulher como um ser que enferma de essenciais limitações que a inabilitam para qualquer outra função que não a de parir.

Woman Once a Bird disse...

Com o último comentário, pressuponho que ao Funes não seja permitido ser crítico perante a profissão que exerce, por pertencer aos membros que a constituem...

Bem vinda Aditi. ;)

Funes, o memorioso disse...

Tiro completamente ao lado, cara Woman,

Um credo religioso não é uma profissão e ser padre não é ser um profissional liberal.
Eu não fiz qualquer voto de obediência. O Bastonário da Ordem dos Advogados não é meu superior hierárquico. Eu não recebo ordens do presidente do meu Conselho Distrital (do meu bispo, se quiser). Acima de tudo: a advocacia não se propõe salvar quem quer que seja, indicando às almas um caminho cujos trilhos estão marcados por dogmas imperativos cuja ultrapassagem implica a excomunhão e a perdição.
Os meus princípios como advogado são exactamente os mesmos princípios por que qualquer pessoa se pode reger, seja advogado ou seja engenheiro ou seja sapateiro. Não existe uma filosofia, uma ideologia ou uma teologia da advocacia.
Por outro lado, não existe isso a que chama a comunidade dos advogados ou a comunidade dos membros da profissão que exerço. Existem tipos que exercem a advocacia como profissão e que podem, para defesa dos seus interesses, formar uma corporação. Como compreende, os sacerdotes não são (ou não são só, nem principalmente) uma corporação profissional. Integram uma Igreja, o que significa que têm um conjunto de dogmas comuns que partilham ou que, se não partilham, os colocam fora da comunidade.
Claro que eu, no exercício da minha profissão me rejo por determinados valores. Simplesmente, como referi, esses valores podem não ter nada de comum com os valores de outro advogado qualquer (sem que ele ou eu sejamos mais ou menos advogados um do que o outro) e são rigorosamente os mesmos valores por que eu me regeria, se fosse médico, trolha ou limpador de retretes.
De resto, eu nunca critiquei Anselmo Borges por ele criticar alguns dos seus colegas de comunidade. Critiquei-o por duas coisas:
1- Por, pretendendo-se intelectual, proferir afirmações sem sentido intelectual, como "O Sagrado, Deus, referente último do religioso, apresenta-se como Mistério plenamente libertador e salvador";
2- Por, fingindo-se muito do feminismo e dos valores feministas (só para agradar ao público para quem falava, naturalmente), integrar a comunidade (repare que eu digo "integrar a comunidade" e não "exercer a profissão") dos que, nos últimos séculos, têm passado a vida a defender uma ideologia profundamente anti-feminista.
Repare também que eu digo que a Igreja subscreve uma ideologia anti-feminista, não anti-feminina. Na verdade, a Igreja Católica sustenta que a essência do papel da mulher é a maternidade, o dar vida e que, na realização plena desse papel, o seu lugar é a família e o lar, àquela e a este se devendo preferencialmente consagrar. E nisto a Igreja vê uma grandeza sublime, uma grandeza que justica que à virgem Maria seja concedido o atributo (de duvidosa coerência monoteísta) de "Mãe de Deus". Não está em causa a legitimidade de a Igreja para defender e sustentar isto e que isto possa traduzir, de facto, um respeito infinito pela mulher. Está em causa que "isto" - ficar em casa a ter filhos e a servir obediente e submissa o marido, na plenitude sagrada da família - é excatamente o inverso daquilo que o feminismo defende.
E Anselmo Borges não pode querer, simultaneamente, estar de bem com Deus e com o Diabo.

Funes, o memorioso disse...

Tiro completamente ao lado, cara Woman,

Um credo religioso não é uma profissão e ser padre não é ser um profissional liberal.
Eu não fiz qualquer voto de obediência. O Bastonário da Ordem dos Advogados não é meu superior hierárquico. Eu não recebo ordens do presidente do meu Conselho Distrital (do meu bispo, se quiser). Acima de tudo: a advocacia não se propõe salvar quem quer que seja, indicando às almas um caminho cujos trilhos estão marcados por dogmas imperativos cuja ultrapassagem implica a excomunhão e a perdição.
Os meus princípios como advogado são exactamente os mesmos princípios por que qualquer pessoa se pode reger, seja advogado ou seja engenheiro ou seja sapateiro. Não existe uma filosofia, uma ideologia ou uma teologia da advocacia.
Por outro lado, não existe isso a que chama a comunidade dos advogados ou a comunidade dos membros da profissão que exerço. Existem tipos que exercem a advocacia como profissão e que podem, para defesa dos seus interesses, formar uma corporação. Como compreende, os sacerdotes não são (ou não são só, nem principalmente) uma corporação profissional. Integram uma Igreja, o que significa que têm um conjunto de dogmas comuns que partilham ou que, se não partilham, os colocam fora da comunidade.
Claro que eu, no exercício da minha profissão me rejo por determinados valores. Simplesmente, como referi, esses valores podem não ter nada de comum com os valores de outro advogado qualquer (sem que ele ou eu sejamos mais ou menos advogados um do que o outro) e são rigorosamente os mesmos valores por que eu me regeria, se fosse médico, trolha ou limpador de retretes.
De resto, eu nunca critiquei Anselmo Borges por ele criticar alguns dos seus colegas de comunidade. Critiquei-o por duas coisas:
1- Por, pretendendo-se intelectual, proferir afirmações sem sentido intelectual, como "O Sagrado, Deus, referente último do religioso, apresenta-se como Mistério plenamente libertador e salvador";
2- Por, fingindo-se muito do feminismo e dos valores feministas (só para agradar ao público para quem falava, naturalmente), integrar a comunidade (repare que eu digo "integrar a comunidade" e não "exercer a profissão") dos que, nos últimos séculos, têm passado a vida a defender uma ideologia profundamente anti-feminista.
Repare também que eu digo que a Igreja subscreve uma ideologia anti-feminista, não anti-feminina. Na verdade, a Igreja Católica sustenta que a essência do papel da mulher é a maternidade, o dar vida e que, na realização plena desse papel, o seu lugar é a família e o lar, àquela e a este se devendo preferencialmente consagrar. E nisto a Igreja vê uma grandeza sublime, uma grandeza que justifica que à virgem Maria seja concedido o atributo (de duvidosa coerência monoteísta) de "Mãe de Deus".
Não está em causa a legitimidade da Igreja para defender e sustentar "isto", nem que "isto" possa traduzir, de facto, um respeito infinito pela mulher. Está em causa que "isto" - ficar em casa a ter filhos e a servir obediente e submissa o marido, na plenitude sagrada da família - é excatamente o inverso daquilo que o feminismo defende.
E Anselmo Borges não pode querer, simultaneamente, estar de bem com Deus e com o Diabo.

Woman Once a Bird disse...

Não completamente ao lado, caro Funes. O discurso de Anselmo Borges não se prestou apenas para agradar o público alvo que, como bem sabemos e tão propagadamente anuncamos são umas histéricas que se regem por idiotias sem sentido. Mas passemos à frente esta parte mais delicada.
Anselmo Borges, ao longo dos tempos tem assumido posições muito críticas no seio da Igreja Católica. Contudo - a fé para ele ainda é um pilar fundamental - e não serei eu (e não me parece que assista ao Funes o direito) a decidir se é mais ou menos intelectual por causa da fé que professa. Admiro Anselmo porque, no seio da fé que professa, permite-se a assumir uma postura crítica. E, na minha perspectiva, é de louvar - e não de apodar de hipocrisia. Mas isto sou eu, que considero que, apesar de não professar fé nenhuma, os outros têm o direito de o fazer. Manias.
Quanto à ideia de que a Igreja professa uma ideologia "apenas" anti-feminista, estamos, uma vez mais, em desacordo. A imagética feminina na religião católica obedece apenas aos padrões patriarcais. E sobre isso já discuti amplamente com o Sancho, aqui mesmo, há cerca de um ano. Se tiver tempo, volto ao assunto. Mas a imagem da mulher - mesmo essa Maria (que obviamente teria que ser virgem e, portanto, despojada do seu corpo e do seu prazer) é a mediadora nas relações masculinas. Portanto, as poucas mulheres que povoam o panteão católico (há algumas) primam por esta característica: mulheres sem o ser, submissas, enternecedoras e, sobretudo meras mediadoras. E se calhar por isso Anselmo defende que é preciso abolir alguns ditos textos sagrados - escritos por homens à sua imagem e semelhança - das celebrações religiosas.