sábado, 3 de junho de 2006

Para Além dos Flashes e dos Sorrisos - A Insustentável Situação dos Centros de RVCC

Os centros de RVCC (Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências) acompanham adultos pouco escolarizados durante um processo que tem por objectivo a validação e certificação das competências que demonstrem ter adquirido ao longo da vida (profissionais, formativas, pessoais, etc).
O trabalho desenvolvido nos centros de RVCC pressupõe uma equipa composta por profissionais de RVCC ( com formação na área das ciências humanas e sociais) e por profissionais das áreas sobre as quais incidem as competências a certificar; essas competências estão definidas pelo Ministério da Educação, mais concretamente pela Direcção Geral de Formação Vocacional (DGFV). O processo decorre em dois períodos fundamentais: o reconhecimento de competências e a validação das mesmas.
Ao adulto é solicitada a elaboração de um dossiê reflexivo sobre o seu percurso de vida, que será alvo de validação. A sua elaboração implica um processo de consciencialização do capital de saberes que adquiriu, pelo que neste passo, o profissional de RVCC é fundamental, na medida em que o adulto não é consciente dos saberes que possui. Assim, a tarefa essencial do profissional consiste na promoção da reflexão, tomada de consciência e valorização das experiências por parte do adulto.
Num segundo momento, o dossiê é analisado. As competências alvo de validação (definidas pela DGFV) colocam-se ao nível das seguintes áreas: linguagem e comunicação, matemática para a vida, cidadania e empregabilidade e tecnologias da informação e da comunicação. São profissionais das áreas referidas que aferem se as competências necessárias para a certificação estão evidenciadas no dossiê. Estão previstas 25 horas de formação complementar para os casos em que se apresentem algumas fragilidades; o objectivo da formação (que pode incidir em qualquer uma das áreas acima referidas) reside em limar os aspectos menos conseguidos do dossiê.
Após o processo de reconhecimento de competências é realizada uma sessão de júri de validação, em que estão presentes o adulto, o profissional de RVCC (responsável pelo acompanhamento), os profissionais que analisaram o dossiê e um avaliador externo (para tal, o Ministério possui uma bolsa de avaliadores). A sessão de Júri tem por objectivo a homologação dos documentos por parte da DGFV, ou seja, a validação e certificação de competências que conferem ao adulto a equivalência ao 9º ano de escolaridade, sendo-lhe também concedida uma carteira pessoal de competências-chave (as que revelou possuir ao longo do processo).
O Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências constitui-se como um processo fundamental num País com o nível de escolarização que o nosso apresenta; não é um processo escolar, nem é um processo de formação. Ao adulto não é ensinada a elaboração do dossiê; como foi dito anteriormente, este é um processo de consciencialização dos saberes adquiridos ao longo das suas várias experiências.
Os Centros de RVCC não têm tido o respeito que lhes é devido. Porque é um processo financiado pelo Fundo Social Europeu, debatem-se constantemente com atrasos nas verbas atribuídas. Muitos dos seus profissionais trabalham meses sem receber o que lhes é devido. E isto não tem qualquer visibilidade.
O Primeiro Ministro anunciou aparatosamente esta semana a abertura de mais de uma centena de centros de RVCC por todo o País. Foi suficientemente publicitada (propagandeada) esta medida que implica, obviamente, novos postos de trabalho. Contudo, não ficou explícito se estes novos centros irão padecer dos problemas gravíssimos que já padecem os existentes. Não ficou explícito se serão essencialmente os funcionários a financiar durante meses a fio o projecto.
A agravar a questão, o Ministério da Educação tem dado indícios de que pretende desvirtuar o processo, entregando-o às escolas. Se se confirmar a intencionalidade de constituir estes centros como uma escapatória para o problema da empregabilidade docente, sem atender à necessidade da formação, podemos estar a assistir ao princípio do fim deste processo meritório. É necessário zelar para que os profissionais de RVCC, ou seja, os técnicos que acompanham o processo de elaboração do dossiê (e que é um acompanhamento caso a caso), continuem a ser profissionais suficientemente habilitados para o processo.
Não parece ser essa a prioridade do Ministério. Porque este não é um processo de ensino-aprendizagem, a sua condução para organismos que manifestamente não estão preparados para a sua forma de acção implicará, obviamente, a morte do processo; mais cedo ou mais tarde será reduzido a um apêndice do ensino recorrente (não sendo a sua filosofia o ensino) ou a mais um processo formativo (não sendo a sua filosofia a formação).
Mas como é óbvio, se tal acontecer, a responsabilidade pelo falhanço nunca será do centro de decisão.

13 comentários:

Gaia disse...

Desagrada-me esta noticia q nos trazes, no q concerne à intenção de transferência de responsabilidades. O reconhecimento de competências adquiridas ao longo da vida não é invenção portuguesa. Existe noutros países. Não tenho acompanhado o processo nos últimos anos. O que dizes no final do post é ,efectivamente, preocupante, porque corre o risco de se transformar em algo de teor disciplinar/ensinável,contrário à natureza do reconhecimento de competências. Nisso estás cheia de razão, porque tudo o q lá vai parar acaba em formato disciplinar. A área de projecto que devia ser - se tivesse q ser - uma metodologia de trabalho virou disciplina. Chamam-lhe área, mas o "cheiro" é o mesmo. A formação cívica idem e o estudo acompanhado ibidem, as tecnologias da informação ...tudo bem formatado disciplinarmente.
Qto aos vencimentos q nunca chegam a horas, faz-me lembrar os vencimentos dos formadores/professores q trabalham na Formação Profissional. Tb nunca chegam atempadamente. Pois...pois...

Anónimo disse...

Este é um tema que me toca particularmente, já que sou profissional de RVCC e neste primeiro semestre tenho sido alvo dos atrasos das verbas..... valem-me as palavras de reconhecimento do(a)s adulto(a)s que acompanho e ainda os seus sorrisos (e muitas vezes lágrimas) ao verem as suas competências a serem valorizadas e validas no final de uma sessão de Júri.... no entanto é realmente uma situação que se torna (quase) insustentável.
No que toca ao rigor que a metodologia deverá ter, realmente é uma preocupação de quem trabalha na área e não só: os entendidos da matéria já prevêem que este trabalho que tanto tem feito não só pela qualificação escolar dos adultos com baixa escolaridade, mas também pela realização pessoal dos mesmos, tem os seus dias contados. È realmente um trabalho que exige muita dedicação (como qualquer outro afecto à educação de terceiros) e como diria um meu professor de faculdade “espírito de missão” (não quer dizer que o tenha a 100%); é um trabalho que necessita de uma reconstrução da ideia de que para aprender não é preciso estar numa sala de aula e que se aprende em diversas situações na vida e que essas aprendizagens são igualmente importantes como aquelas que foram adquiridas pelos métodos tradicionais do ensino: isto implica abertura, disponibilidade e investimento pessoal e ainda acreditar realmente nesta ideia.... o que muitas vezes não acontece com as pessoas que trabalham nestas equipas e por isso tendem a resvalar para práticas mais escolarizadas...
Da minha parte o que posso dizer é que vou continuar a ser fiel a esta metodologia e ao princípio que está por de trás da mesma, enquanto me for possível aguentar os contratempos financeiros e mesmo das metas físicas que temos de atingir todos os anos, perfeitamente desenquadradas à metodologia de Balanço de Competências. Claro que a minha opinião neste tema é deveras suspeita porque como dizia um adulto no seu dossier "quem escreve na 1ª pessoa tende a moralizar os temas"....

Frederico disse...

Para além da capacidade muito duvidosa dos avaliadores que conheço, um ano de atraso de rendimentos é inaceitavel e obviamente que tem consequências.
Dito de outra forma, os formadores consideram essa nobre actividade como passatempo e colocam-na em ultimo lugar nas prioridades profissionais. As faltas são constantes.

Woman Once a Bird disse...

Em relação aos Centros de RVCC, os técnicos que conheço, apesar dos atrasos, empenham-se a sério no que fazem.

Anónimo disse...

Mais uma vez a confusão se instala:, o processo de RVCC não é um processo formativo..... No entanto, enquanto o(a)s Profissionais de RVCC estão no Centro a tempo inteiro, os técnicos que analisam posteriormente o dossier podem estar a meio tempo e aí proporciona-se, de facto, alguma negligência no seu trabalho (é só mais umas horas que vão lá fazer), o que às vezes é complicado de gerir....

Helgas disse...

O reconhecimento das minhas competências pode ser uma invenção minha e daqueles que estão intrinsecamente envolvidos no processo... Como alguém disse e muito bem " quem escreve na 1ª pessoa tende a moralizar os temas".
A avaliação deve ser feita com um certo distanciamento. Por profissionais.

Woman Once a Bird disse...

Não tenho a certeza de ter percebido, Helgas.

Anónimo disse...

Quero dizer que Centros RVCC são uma prioridade!! As pessoas precisam de saber que estão a ser avaliadas/orientadas por professionais. Só assim é que se pode ter o distanciamento possível. Todo o processo da avaliação tem que ser rigoroso e credível.

Anónimo disse...

digo profissionais

Frederico disse...

WOB,
Com que autoridade um mediador pressiona um formador, que não recebe à 12 meses, a cumprir um calendário quando a Escola Profissional que já lhe pagou a formação de Abril, o solicita para uma actividade complementar?

Juro que gostava de saber.

Woman Once a Bird disse...

Caro Frederico:
Por isso mesmo considero que este estado de coisas é insustentável. Basicamente temos um Estado que nos cobra tudo, mas que espera que alguns dos seus cidadãos subsistam de boa vontade. Ora, quando existem famílias em jogo, quando as pessoas muitas vezes têm que fazer viagens algo longas para cumprirem o seu trabalho - que não lhes é pago atempadamente, evidentemente que é impossível esperar/exigir mais do que boa vontade da parte de quem se espera que subsista de nada.

Anónimo disse...

Cara helgas:
Essa avaliação, ou mais correctamente, validação isenta já é feita por uma equipa de profissionais: o(a)s técnico(a)s que são especialistas nas 4 áreas que analisam o dossier deepois de concluído e no Júri de Validação está sempre presente uma figura que se chama avaliador(a) externo(a) que não tem qualquer contacto com o adulto (sendo uma figura externa ao CRVCC), que assiste e intervém na referida sessão.
Quanto ao rigor da validação essa é constantemente posta em causa tendo em conta as metas físicas que os CRVCC's têm de atingir todos os anos para qua a aprovação da sua actividade no ano seguinte seja possível..... mas esse tipo de pressões qualquer tipo de actividade do nosso sistema educativo sofre.....

Anónimo disse...

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