sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

O Cuspido da Maria

Aos mais incautos navegantes deste blog chamamos a atenção para o facto de este ser, por excelência, um post de gaja! Se for impressionável (a este tipo de abordagem), aconselhamos a que respire fundo e evite a leitura do referido. Declinamos qualquer responsabilidade quanto a possíveis enfartes ou ataques agudos de "Macho não lê baboseiras". Considerem-se avisados.
Encontramo-nos no início do meu percurso naquele porto que me oferecia trabalho. Apanhou-o uma colega, numa rua, escondido por entre rodas e medos. Não tinha idade para estar sozinho na rua, muito menos pela noite dentro, quando deambulam cães menos simpáticos, atraídos pelo cheiro da inocência e desamparo.
Levei-o para casa e, durante dois dias, mal disse palavra. Comia, dormia e olhava para mim com aqueles olhos que vieram a revelar-se enormes. Começamos a fazer companhia um ao outro, já que estávamos ambos em terra estranha...
No dia em que mudei de casa, foi comigo e passamos a ser três; foi uma decisão concertada, na qual ele não teve voto na matéria, mas acolheu com o despreendimento que o caracterizava. Passamos para uma casa mais ampla, com jardim, e passou a estar acompanhado também por Nefertiti. Ficou feliz, porque sempre era mais uma divisão para investigar e o acolher quando se aborrecesse.Os dias na Ilha começaram a passar mais rápidos.
Nunca perdeu alma de vagabundo, como se a aventura inicial o tivesse marcado a fogo. O mundo estava lá fora e sabia-o muito bem. Nenhuma de nós conseguia suportá-lo em casa quando se punha em lamentos, porque o chamavam. A vagabundagem meteu-o desde cedo em sarilhos. O espírito inquisitivo levava-o para territórios perigosos e certa noite voltou com ferida de guerra. Dois meses mais tarde, o inevitável - a curiosidade não matou o gato, mas roubou-lhe a cauda. Sem cauda e com um colar, arrastava-se vagarosamente pela casa , a que ficava na outra ilha, povoada por seres estranhos, como a outra gata, sempre altiva e de unha em riste. Dias complicados, em que nem conseguia passar a língua pelo pêlo, enfiar o focinho no aroma da terra e na comida que lhe caía no prato. Tornou-se melancólico.
O dia em que lhe retiraram o colar, foi, provavelmente, o mais marcante da sua infância. Recuperar os movimentos certeiros, a possibilidade de escapar-se à outra depois de se bambolear provocadoramente no focinho dela...
Cupido nunca aprendeu a lição. Foi um gato viajado, dividido entre duas ilhas. Nefertiti achava-o um gato delicado, com um miado que soava a francês, quando se propunha a seduzir uma das duas na esperança de mais comida no prato. Seis meses depois da perda da cauda, Cupido perdeu-se pelos caminhos de areia que o deveriam conduzir a casa. Desapareceu um mês. Graças à peculiaridade da falta que tinha, foi identificado certo dia, raquítico, a mendigar no parque de campismo da "cidade". Foi resgatado por Nefertiti, que nessa altura eu estava em serviço na outra ilha. Fazia a travessia de barco quando ela telefonou-me a anunciar o regresso do azarado compulsivo. Disse-me ela que o resgate foi comovente...
Depois disso, julgamos que a vagabundagem tinha ficado arrumada. Recusava-se a meter a pata fora de casa, provavelmente com medo que tornasse a não descobrir o trilho de volta. O sossego durou três semanas, que só não foram magníficas pela melancolia com que se postava à janela. Depois, decidiu-se e voltou a sair, pular para o muro e ir em busca dos outros como ele, da periferia. Nunca foi um animal tímido. De vez em quando trazia os amigos para casa, para partilhar o prato de comida que ele sabia farto. Outras vezes, trazia também os inimigos, perseguido pelas vielas felinas, refugiando-se em casa, distância de uma unhada.
Cupido acompanhou-me nos três anos em que estive na Ilha dentro da Ilha. Marcou o meu quotidiano muitas vezes aborrecido(e certamente também o de Nefertiti). Quando voltamos para casa, eu e ele, não suportou a ausência da areia, dos amigos que tinha nos telhados, do cheiro a mar mesmo ali. Cupido saiu um dia, como de costume, e não voltou mais.
A fechar...
De vez em quando tinhamos visitas expressamente para ele. Maria, do alto dos seus quatro anos, a ingenuidade aureolada pelos caracóis batia à porta e dizia-nos: "Vim ver o Cuspido".

(Trabalho de Mirek Dziewialtowicz)

13 comentários:

Bartleby disse...

Bom, se a bebé dissesse que vinha ver o "escarrado", então era uma mui curiosa sarcástica precoce.

rps disse...

Este não é um post de gaja.
Um tipo até fica a gosta de gatos. Momentânemanmete, é certo. :-)
Ganda posta, WOAB!

Elentári disse...

Adorei ler. Adorei.

Candy disse...

Qual baboseira, qual quê, lindo este teu texto! Até tocaste o coração do Rps...

rc disse...

Um Post que comove RPS deixa-me de rastos e com as lágrimas a escorrer.
Só posso tirar uma conclusão: o cuspido é feliz.

Dirim disse...

Woman... continuas no teu melhor.. está divinal a história do Cupido.. que o seu regresso esteja para breve.

gaja disse...

Adorei a posta!

Nefertiti disse...

Sinto muitas saudades desse amiguinho! Bela homenagem!

Rosario Andrade disse...

... o RPS a dizer que gostou de gatos (ainda que momentaneamente)... é um milagre, isso sim!
Ca em casa ha 4 gatos. Depois da primeira, o meu rapaz achou por bem arranjar-lhe companhia. E dizia ele, se perdermos um, sempre temos o outro!... depois do segundo, o terceiro, pelas mesmas razoes. E o quarto, porque onde ha 3 mais um nao faz diferenca. A grande questao é que os rapazes gostam de dar as suas voltas. Ha uns meses o Elvis (o n2) desapareceu por 4 dias... desde entao o meu rapaz tem passado horas e gasto rores de dinheiro para tornar o jardim intransponivel... e tem sido uma luta interessante, entre "man and machine"!
Excelente texto!
Abracicos!

Woman Once a Bird disse...

Cara Rosário:
Percebo-a perfeitamente. O Cupido não era o único felino a desmandar cá em casa. Antes dele, tenho uma loura cá em casa, chamada Kiara (que é bem mais velha do que o Cupido). Mas de uma coisa estou certa, é mera desculpa, a que arranjamos, ao pensar que se um desaparecer sempre temos o outro. São muito diferentes. A Kiara, por exemplo, é um animal silencioso e pouco sociável (com animais/pessoas novas). O oposto do Cupido que, ao subir o muro já estava a conversar connosco. Cada um a seu modo...
Quanto às tentativas do seu rapaz... o gato tem razões (e contorções também) que o homem desconhece.

Everything in its Right Place disse...

:o)
bela baboseira, dear WOAB!

as zafiras são assim: umas mais aventureiras que outras.

no entanto contenta-te com uma coisinha: quando ele tiver fome ou frio ele volta. até sabes que ele se está a divertir!

Latin disse...

Que saudades do cuspido! ...

catsfairy disse...

Acho que devias pensar sinceramente em escrever um livro: adorei!