terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Em Portugal há 33 violações por mês

Em 2004, Susana Maria publicou a sua tese de mestrado sobre sobreviventes de violação. Durante a investigação, a Susana falou entrevistou polícias, médicos/as e sobreviventes - algumas das quais com denúncia e processo a decorrer, outras que optaram pelo silêncio e tentaram o esquecimento procurando apoio numa das Organizações Não Governamentais de apoio a vítimas e sobreviventes.

Henrique Monteiro

Uma das conclusões do seu trabalho é a de que é necessário um centro especializado para vítimas de crimes sexuais. Não, o instituto de medicina legal (IML) é tudo menos suficiente. Não, as ONG's não têm condições para prestar este apoio imediato e essencial. Como explicou uma das médicas entrevistadas à autora deste trabalho:

"Não existe um serviço especializado para atendimento a vítimas de violação. Não conheço nenhum hospital que o tenha. A mesma médica refere, ainda, ter algumas dificuldades em lidar com situações de violação: "não com as lesões físicas, mas para dar encaminhamento ou aconselhamento sim".

completa referindo "Nestas situações de violação a mais urgente é a criação de apoios imediatos, ou seja, apoio na crise (. ..), porque é a partir daí que a pessoa começa a organizar as coisas, os sentimentos, toda a situação; porque naquele momento eu penso que a pessoa não consegue entender a que lhe aconteceu conscientemente e, posteriormente, traz-lhe problemas [consequências mais tarde]. As pessoas deveriam receber esse apoio no momento em que são vistas pelos médicos.». 

Naturalmente, sabemos que muitas vítimas não são vistas por médicos/as. Sabemos que muitas não denunciam a ninguém ou que o fazem passado muito tempo. Para que todas as pessoas vítimas de crimes sexuais possam ter apoio na crise. Para que todas as mulheres - sim, há homens violados, mas a assimetria é abissal [mesmo considerando as violações intraprisionais] - possam ter apoio neste momento crucial.

É por sabermos que estes momentos são fundamentais para que a vítima possa gerir o momento traumático, que foi criada uma PETIÇÃO com a exigência da criação de um centro especializado no apoio a vítimas de violação. Para assinarem e divulgarem, caso concordem.


2 comentários:

Susana Fernandes disse...

Bom dia...
Eu sou uma sobrevivente! este ano faz 16 anos que fui violada... durante muito tempo me vi como uma vitima, entrei em depressão, mutilei-me, tentei o suicidio, até que um dia ganhei força, coragem e passei a ver-me como uma sobrevivente... não é fácil, passe o tempo que passar, há sempre algo que me faz lembrar detalhadamente aquela noite...mas eu sou forte, eu consigo enfrentar isto por muito dificil que seja... Ainda o mês passado comentei com a minha psicóloga o facto de não haver grupos de apoio, de ajuda para pessoas como eu... abomino o facto das leis de portugal serem demasiado brandas para estas criaturas, até apoio psicológico lhes é dado... Resumindo, sou completamente a favor de serem criados grupos de apoio a vitimas de crimes sexuais. Nós também somos gente, nós precisamos de apoio para o resto da nossa vida!

Ceridwen disse...

Susana: toda a minha solidariedade para ti e para todas as pessoas que um dia foram violadas. Esperemos que, no âmbito da Convenção de Istambul, Portugal crie centros de apoio de emergência. E, espero [espero, mas não acredito, mesmo com Istambul] também que, a lei passe a centrar-se no consentimento, ou melhor, no dissentimento da vítima, e não na violência ou ameaça grave. Isto é, que as mulheres possam consentir acerca do seu próprio corpo e sexualidade. Um abraço muito apertado.