terça-feira, 24 de maio de 2011

Um lançamento é para despachar

No átrio do Teatro Municipal Baltazar Dias, em meia hora, falou-se de Mulheres e Teologia. O pretexto, o lançamento do livro E Deus Criou a Mulher – Mulheres e Teologia. O convidado, Anselmo Borges, um dos organizadores do Congresso agora foi apresentado em livro. O contexto, a Festa do Livro do Funchal. 
Uma apresentação que estava agendada para as 17:30 mas que começou muito depois das 17:45, por ajustes de agenda de última hora. A eles voltaremos.

Anselmo Borges começou por chamar a atenção de que o/a leitor/a não pode esquecer o contexto histórico na leitura dos textos sagrados, que é perigosa quando literal. Assim, um/a leitor/a atenta está consciente que se tratam de textos que procuram responder à pergunta fundamental que é também a da religião, a saber, o quê ou quem traz liberdade e sentido último ao ser humano. E que, portanto, a finalidade das religiões e dos seus textos é trazer liberdade e não opressão e quando se tornam o seu inverso – quando se tornam opressão em vez de libertação, então deve ser posta de lado.
Deste modo, continua Anselmo Borges, uma hermenêutica feminista dos textos sagrados deve ser uma hermenêutica da suspeita, em que é preciso não esquecer que os seus escritores e intérpretes foram, ao longo, dos tempos, os homens, os varões. Assim, reiterou, uma hermenêutica feminista tem que ter uma leitura crítica da História e tem que ser uma hermenêutica da memória, que procura o lado esquecido da História, que vai para além da História dos vencedores porque são os que dominam o discurso. E a verdade é que durante muito tempo, a mulher não deteve qualquer poder.
Exortou também à reformulação dos próprios rituais religiosos, que influenciam a auto-identidade da mulher: batizada pelo padre, pelo bispo, pelo papa, em nome do pai, do filho e do espírito santo. É necessário desconstruir essa imagem masculina de Deus, porque «se Deus é masculino, então o masculino é divino, porque é Deus.»
É preciso não esquecer (como tem acontecido) que deus é assexuado e não a imagem patriarcal dominante, que é apresentada muitas vezes como opressora, autoritária; Deus Pai, que é juiz, rei e soberano.
Exortou ainda à urgência de que a crítica hermenêutica faça parte de todas as religiões, para que estas tenham capacidade de se reformularem em função do tempo em que estamos e não em função do tempo em que estivemos. E este trabalho é um trabalho de toda a humanidade, porque de direitos humanos se trata - «nada daquilo que é humano me é estranho». E lembrou Kant que, já no século XVIII,  considerou que o ser humano deve ser sempre um fim em si mesmo e nunca um meio.

Finda a apresentação, o ajuste de agenda  proibiu questões ao público (que só depois veio saber porque não havia sido aberto espaço para debate) e convidou o autor a abandonar a mesa em que assinava livros aos/às assistentes que o solicitavam, pelo que a tarefa que teve continuar em cima do joelho, ao fundo da sala. 
Ao que parece, o ajuste de agenda apenas disse respeito ao lançamento deste livro. Tudo o resto, continuou placidamente na mesma. 

3 comentários:

Funes, o memorioso disse...

A Bíblia é um conjunto de textos inequivocamente machistas. Constatada esta evidência, só há duas atitudes intelectualmente honestas: dizer que a Bíblia é machista, porque Deus quer uma sociedade patriarcal onde os homens dominem; ou dizer que a Bíblia teve o seu tempo e é hoje um texto completamente ultrapassado.
A ideia de tentar encontrar feminismos nos textos sagrados cristãos é-me repugnante, porque envolve um anacronismo revisionista. Claro que na Bíblia - como em qualquer texto com mais de cem páginas - eu encontro tudo e o seu contrário. Se quiser encontrar feminismos também encontro. O que não os encontro é no espírito de quem escreveu os textos. Tentar proclamar a religião cristã como uma religião da libertação da mulher é uma simples desonestidade intelectual. Parece-me, até prova em contrário.

Woman Once a Bird disse...

Funes, temos aqui um problema: ou eu não consegui transmitir o que ouvi ou o Funes não soube ler o que escrevi.
Em momento algum ouvi que as autoras tentaram encontrar feminismos nos textos sagrados cristãos. E penso que não transpira essa ideia das minhas palavras.
Nunca Anselmo Borges afirmou que a religião cristã é uma religião da libertação da mulher. Mas pode vir a sê-lo, se se permitir a ser revisionada.
Não percebo onde foi tirar todas essas conclusões. Mas concedo que seja a sua leitura do que escrevi. Não poderia estar mais longe da intenção.
Mas Funes, leia o livro...

Marta disse...

WOB, tens lá um desafio... :)
bjo


[o mais certo é que...
Prof. Funes não soube ler...]