segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Pedras no Caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo" Ou Com o Google me enganas e com o Google me desengano?



A frase citada no título é o último verso de um poema, que circula na Internet, atribuído a Fernando Pessoa.
Não sendo uma especialista em Literatura Portuguesa, muito menos em Fernando Pessoa, desde a altura em que me falaram nesta frase, aludindo ao tal poema, que o mesmo me pareceu um simples testemunho de auto-ajuda. Ora, na escola, aprendera que Pessoa era complexo, como a sua obra; portanto, muito diferente destas palavras. Também aprendera que uma parte considerável da sua obra ainda era desconhecida do grande público - por isso, existia a possibilidade de este ser um dos poemas desconhecidos. Porém, apesar da "arca sem fundo".....ainda não conhecera nenhum heterónimo dedicado a ser conselheiro da felicidade. Ora, imaginar Pessoa a escrever um receituário para a boa ventura, reconhecendo o valor da sua vida e "agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida", continua hoje - como quando li o poema pela primeira vez, a soar, no mínimo, extraordinário.
Contudo, em 2007, quando tomei conhecimento do texto, procurei a verdade no sítio errado - cingi-me ao Google - o qual confirma a autoria do texto devolvendo inúmeras páginas que escrevem "Fernando Pessoa após estes versos:


"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, 
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. 
E que posso evitar que ela vá a falência. 
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, 
incompreensões e períodos de crise. 
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas ese tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrarum oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. 
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. 
É ter coragem para ouvir um 'não'. 
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Hoje, quando vi o poema no facebook, a sensação de estranheza ainda foi maior: "É ter coragem para ouvir um 'não'? É ter segurança para receber uma crítica mesmo que injusta????" - decididamente, isto não é Pessoa, o poeta português é muito mais complexo que isto.
E, claro, outros houve que duvidaram igualmente (quem, conhecendo um pouco de Pessoa, não duvidaria?) e, através deles, percebi que os versos são de Augusto Cury ("Dez Leis para ser Feliz") à qual se juntou o último verso, da autoria de nemonox. A história integral está aqui. (Obviamente, em 2007, devia ter feito como eles, que contactaram a Casa Fernando Pessoa).


3 comentários:

Funes, o memorioso disse...

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" é uma das frases mais estúpidas que já li na vida. Fernando Pessoa era um génio literário que, como todos os génios literários, escreveu muita coisa sem ponta por onde se lhe pegue. Mas há uma coisa que um génio literário nunca faz: escrever livros de auto-ajuda.
Também circula aí pela net muito disparate deste género atribuído a Einstein. Tudo isto tem origem na cabeça de idiotas da América (do Norte e do Sul), embora não tão idiotas que não percebam que a única forma de dar algum esboço de credibilidade às suas fórmulas é atribuí-las a outros.

Bosão de Higgs disse...

A coisa já há muito que é coisada...

Ver em http://static.publico.clix.pt/homepage/provedor/04.ruiAraujo/textos/2007.05.13.fernandoPessoa.asp

Ceridwen disse...

Bosão: Obrigada :)
Infelizmente, neste caso é mais difícil encontrar o esclarecimento do que a disseminação do poema atribuído a F.P. Ter-me-ia poupado bastante energia se aparecesse logo esta página do Provedor dos Leitores do Público.