quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O que eu gosto do Louboutin e do Lauren

Enquanto este tipo de estética continuar a ser premiado pelas imbecilidades que produz, não chegaremos a lado nenhum. 
Proponho tentem enfiar-se nos trapos e solas que desenham; a ver se têm bustos e tornozelos mais delicados.
(Já estivemos mais longe do pézinho enfaixado e dos desmaios por falta de oxigénio).

11 comentários:

Funes, o memorioso disse...

Mas alguém obriga alguém a usar os sapatos do homem? Ou alguém é discriminado por os não usar?
A WOAB pode achar que as mulheres que compram, calçam e são felizes a usar sapatos do Louboutin são estúpidas ou masoquistas. Mas não pode querer castigar o estilista que desenha o que elas gostam.

Woman Once a Bird disse...

Caro Funes:
Sei que acredita piamente que terei extrapoderes para castigar estes/as energúmenos/as que para encherem o seu prato procuram esvaziar os estômagos de outras. Infelizmente nãos os tenho. Se os tivesse, acredite que agora estava o Louboutin aos berros porque tinha tornozelos maiores que os pés, e o Lauren com uma cintura maior que a do Marlon Brandon nos últimos tempos.

Quando falo em premiar, refiro-me ao o facto de muitas/os os idolatrarem e encherem os desfiles de anoréticas, de aplaudi-los no meio de tanta insanidade. Por mim, boicota-se o trabalho de gente que simplesmente ainda não percebeu que por baixo dos trapos estão pessoas a sério.

Ceridwen disse...

A propósito disto: http://www.boingboing.net/2009/09/29/ralph-lauren-opens-n.html
"Dude, her head's bigger than her pelvis" (felizmente, parece que alguém para além d@s feministas, acha isto ridículo).
Mais aqui: http://photoshopdisasters.blogspot.com/

Ceridwen disse...

Mais um contributo, a propósito das imagens alteradas:
"Two Self editors have announced their magazine was right to give Kelly Clarkson a slimmer body on their September issue, explaining that covers shouldn't reflect reality, but "inspire women to want to be their best"."
daqui: http://jezebel.com/5335022/self-editors-explain-covers-arent-supposed-to-look-realistic

samya disse...

Oi, tudo bem? sabe o que penso quando vejo este tipo de imagens, ou sapatos que destroem a coluna de qualquer ser humano, ou a numeraçao de roupas reduzidas ate o ridiculo (sem engordar nem emagrecer um kilo eu passei de 42 a 46 para calças jeans, nao eh extranho?)?
Misoginia. Porque voce precisa realmente detestar muito as mulheres, detestar a representaçao feminina como as conhecemos, para criar coisas, roupas e sapatos e mesmo padroes de beleza que anulam cada vez mais a mulher materia, a mulher realidade.
Beijos

Woman Once a Bird disse...

Nem mais Samya. É que é mesmo não ter qualquer respeito pelo feminino (ao contrário do que gostam de papaguear).

José disse...

Aii, não comento aqui há tanto tempo que até fico com vergonha!
Mas olha, isso também é válido para os homens, pá. Nós também não somos todos altos e musculados como os que usam nos desfiles, embora eu até gostasse de ser um pouquinho assim, mas não muito, que é sempre bom um pouco de chicha para agarrar. Na minha humilde opinião, claro!
Mas devo dizer-te que estou-me bem cagando para isso, o que não significa que tu cagues também, claro. Tens todo o direito de ser contra isto, tal como as tipas têm o direito de ser magrelas. Só entra no jogo quem quer. Não podemos vitimizá-las. A culpa não é dos criadores, mas das próprias pessoas que se submetem a esse tipo de violências, porque são mal formadas e fracas de espírito.
Mas pronto(s), o que eu queria mesmo era dizer olá, e mandar beijinhos e abraços, que não mando beijinhos e abraços para vocemecês há, tipo, bué da tempo.
Espero que esteja tudo a correr bué da bem.

nefertiti disse...

Eu concordo com o José, só alinha quem quer. Que fazer? Não consumir.

Adília disse...

Fica um pouco difícil quando os comentadores, ignorando completamente os contextos, colocam as questões em termos de querer ou não querer fazer isto ou aquilo, como se a vontade fosse uma qualquer faculdade independente da afectividade, das motivações e sobretudo dos fortes condicionalismos sociais e culturais que são implacáveis para as mulheres.
Aconselho a procurarem mais informação e a procurarem esclarecer-se acerca dos conceitos de violência simbólica e de hiper realidade, talvez ajude um pouco.
Por outro lado, quando certas empresas, por exemplo, estimulam as funcionárias a usarem saltos altos quando em funções, tem de falar-se de discriminação, não?!
Ainda como matéria de reflexão: quem cria o gosto, no mundo da moda? São as clientes? São os estilistas? São os patrões? Quem ganha com as modas? Quem ganha com um modelo de mulher obcecada pela aparência?

Funes, o memorioso disse...

Adília,

O seu comentário coloca bem uma série de questões pertinentes que merecem reflexão, maxime, o problema da criação do pensamento dominante e da liberdade.
Obviamente que me incomoda que uma mulher use contrariada tacões altos no trabalho, porque a isso se sente constrangida pelos patrões. Eu odeio usar gravata e frequentemente sou constrangido, por razões profissionais, a fazê-lo e odeio sentir-me constrangido.
Onde nós nos separamos radicalmente é que a Adília (como, de resto, a WOAB) não conseguem, a partir daqui, evitar uma atitude paternalista de, fazendo o caminho inverso, cair na tentação de enunciar um pensamento correcto (por contraposição a um pensamento errado) e um modo correcto de ser feliz (por contraposição a um modo equivocado de ser feliz). É por isso (e este é um esclarecimento especialmente dirigido à WOAB) que eu vos classifico como pessoas de esquerda. A esquerda tem essa tentação da engenharia social, da criação de homens novos, portadores de um pensamento bom, justo e correcto.
Eu - tal como vocês odeio - que alguém possa ser obrigado a vestir-se ou a calçar-se de um modo que considera sofredor e incomodativo. Mas, se uma mulher (ou um homem) gosta de se espartilhar, de calçar tacões de alturas infinitas, de se apertar para seduzir, eu digo: então que o faça e seja feliz. Vocês, não. Vocês dizem: uma pessoa que goste disso, na verdade não gosta disso. Tem é a cabeça mal formada pelo capitalismo e pelo machismo dominantes que lhe impõem esse comportamento e que a convencem que ele é necessário para ser feliz. Essa pessoa não é livre e anda cega.
O problema é que, pensando assim, é obrigação estrita de quem teve acesso à luz dá-la a conhecer aos que andam na sombra. E aqui começa o perigo totalitário que Karl Popper tão bem denunciou em Platão. É que os piores crimes cometidos contra a humanidade o foram por aqueles que queriam levar a luz aos outros, que os queriam obrigar a ser livres.

Funes, o memorioso disse...

No meu comentário anterior, escrevi:
A esquerda tem essa tentação da engenharia social, da criação de homens novos, portadores de um pensamento bom, justo e correcto..
Fi-lo de propósito. Não ignoro que neste blogue se defende que eu devia escrever "a esquerda tem essa tentação (...) da criação de pessoas novas" ou, no mínimo, "...da criação de homens e mulheres novos" (embora esta última fórmula me colocasse, depois, na posição incómoda de ter que explicar por que é que tinha posto os homens à frente das mulheres). Simplesmente, neste blogue, eu - que acuso a WOAB de, como mulher de esquerda, ser portadora de uma mensagem potencialmente totalitária - sempre gozei da liberdade exprimir o que quero e da forma que quero. Ao referir-me à "criação do homem novo", limitei-me, mais uma vez, a usar dessa liberdade. E porque a uso, e porque ela me tem sido sempre aqui concedida, por muito grandes que sejam as divergências ideológicas que me separam da WOAB (e são muito grandes), eu tenho a certeza que, no dia em que chegar a hora do combate decisivo, nós vamos estar do mesmo lado da barricada.