terça-feira, 11 de agosto de 2009

Esto no puede ser no mas que una cancion*

Esta Coimbra que revisito já não é a minha (seja bem vindo quem vier por bem)**. É uma outra, com outras gentes, outros lugares e outros cheiros. É uma cidade que não se permitiu cristalizar. A ponte D. Pedro e D. Inês que pode ser percorrida a pé, a ponte desencontrada em memória dos amores contrariados não pertencia à minha Coimbra. A minha Coimbra é velha, apenas povoadas pelas ruas antigas, pela calçada difícil, pela Sé Velha mais velha com andaimes a conspurcar-lhe as paredes (quando a luz se apaga nas janelas). Na minha Coimbra, de vez em quando, houve o Pinto e o Pratas, houve um rasganço registado em cassete desaparecida na memória, sempre evocada, ainda por achar. Na minha Coimbra nós, mulheres, desenhamos bigodes e prendemos cabelos como forma de furar essa tradição de que mulheres não rasgam homens, nem homens mulheres (O que faz falta é animar a malta). Já não somos nós que calcorreamos a calçada com a impressão de que é nossa, para sempre nossa.

Esta Coimbra que revisito já não é a minha e não tenho coragem para procurar novamente pelo Diligência(s). O Diligência(s) era o sítio no meu tempo que ainda resistia à sua passagem. Foi lá que descobri as benesses de uma sangria e de um cigarro fumado ao som das canções de Zeca Afonso. Primeiramente, timidamente, sentávamo-nos nas mesas mais próximas à porta, com receio de quebrar o encanto dos amigos que lá dentro se reuniam, que cantavam ou dedilhavam as cordas à vez. Com o passar das noites atrevemo-nos e aproximamo-nos cada vez mais (e levavamos outros amigos também). Lá, pela primeira vez, ouvimos o Hasta Siempre ou Yolanda (e aquela praia de gente madura punha-nos a pensar). E voltavamos. Sempre que o bolso nos permitia, ou a vontade apertava (e para nós eram trovas e cantigas de embalar). Tornamo-nos familiares e atrevemo-nos a lançar música pedida, a bater palmas, a trautear refrões a plenos pulmões (afirmamos dente por dente assim) e a pedir estórias e música e vinho.
Desde que saí de Coimbra e a revisito nunca mais voltei ao Diligência(s); pelo medo do que possa (não) encontrar, porque é espaço que ficará eternamente tal como foi naquela altura, como continuo a rememoriar. Voltar a Coimbra é voltar ao Diligência(s) sem lá ir.
Não é necessariamente preciso: Mi soledad se siente acompañada.

*O título e a última frase foram retirados de Yolanda.
**As frases em parêntesis pertencem a Zeca Afonso (ou decorrem de algumas líricas de Zeca Afonso).



7 comentários:

Dirim disse...

Íamos ao restaurante do lado (lembras-te?) e depois ao Diligências. Recordo bem as mesas da entrada, decoradas com a garrafa de vinho (tu recordas a sangria). No regresso, muitas vezes, desviavamo-nos da escadaria e escalávamos a Avenida, em direcção à Praça. Contornar o Cartola, subir a rua das Amarelas, encontrar o clube, onde havia sempre uma cara familiar. Acho mesmo que ainda recordo os traços dos senhores (na altura gente nos 40 e 50 eram 'senhores') que cantarolavam as músicas que ainda te preenchem as memórias.

patxocas disse...

:)
Consegui revisitar a minha Coimbra, que parece que também é a tua, pelas tuas palavras.
E do Diligências lembro-me também da Sangria. ;)
Do Clube de Rugby, das caras que sempre por lá encontravámos e do horrível wc.
Das amarelas, do fino às 3 da manhã.

Obrigada pelo post. Gostei imenso. ;)

Woman Once a Bird disse...

Obrigada Patxocas.
O Rugby foi outro dos nossos sítios, em casa, em que pulávamos durante horas sempre com algum receio que o tecto nos caísse em cima. :)

Dirim disse...

Do Rugby o que recordo melhor é o Canto dos Cisnes ;-) [já nem me lembrava do PORMENOR do WC ;-)

rps disse...

Entendo, sem nunca ter conhecido.

nefertiti disse...

Agora é a tua Coimbra desalmada... Entendo perfeitamente, reconheço identifico essas sensações, não através de Coimbra, que nunca foi minha, mas através de sítios, pessoas, situações, etc.

José Ricardo Costa disse...

Como dizia o outro, nunca se deve regressar a um sítio onde se foi feliz...

JR