quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Habilitações Necessárias Para Ser Ministro…"

Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder… O poder não sai de uns certos grupos como a péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
(…)
Um homem é tanto mais célebre, tanto mais consagrado, quantas mais vezes tem sido ministro - isto é, quantas mais vezes tem mostrado a sua incapacidade nos negócios, sendo esbanjador da fazenda, ruína do País, etc.
Assim o Sr. Carlos Bento foi a primeira vez ministro da fazenda. Teve a sua demissão, e não foi naturalmente pelos serviços que estava fazendo à sua pátria, pelo engrandecimento que estava dando à receita pública, etc.. Se caiu foi porque naturalmente a opinião, a imprensa, os partidos coligados, poder moderador, o julgaram menos conveniente para a administrar a riqueza nacional. E o Sr. Carlos Bento saiu do poder com importância.
Por isto foi ministro da fazenda uma segunda vez. Mostrou de novo a sua incapacidade – pelo menos o julgou, por essa ocasião, o poder moderador, impondo-lhe a sua demissão. E a importância do Sr. Carlos cresceu!
Por consequência foi terceira vez ministro. Caiu; devemos portanto ainda supor que naturalmente deu provas de não ser competente para estar na direcção dos negócios. E a sua importância aumentou, prodigiosamente!
É novamente ministro: se tiver a fortuna de ser derrubado do poder, e convencido pela opinião de uma incapacidade absoluta, será elevado a um título, dar-lhe-ão embaixadas, entrará permanentemente no Almanaque da Gota…
Ora tudo isso faz pensar – que quanto mais um homem prova a sua incapacidade, tanto mais apto se torna para governar o seu país!
E, portanto, logicamente, o chefe do estado tem de proceder da maneira seguinte na apreciação dos homens:
O menino Eleutério fica reprovado no seu exame de Francês. O poder moderador deita-lhe logo um olho terno.
O menino Eleutério, continuando a sua bela carreira política, fica reprovado no exame de história. O poder moderador, alvoraçado, acena-lhe com um lenço branco.
O caloiro Eleutério, dando outro passo largo, fica reprovado no 1º ano da faculdade de Direito. O poder moderador exulta, e quer a todo o transe ter com ele umas falas sérias.
O bacharel Eleutério, avançando sempre, fica reprovado no concurso de delegado. O poder moderado não pode conter o júbilo, e fá-lo ministro da Justiça.
E a opinião aplaude!
De modo que, se um homem se pudesse apresentar ao chefe de Estado com os seguintes documentos:
Espírito de tal modo branco que nunca pode aprender a somar;
Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos.
O chefe de Estado torná-lo-ia pela mão, e bradaria, sufocado em júbilo:
- Tu Marcellus eris! Tu serás, para todo sempre, Presidente do Conselho!


Eça de Queirós, As Farpas (1871)

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