segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Chronos

É tarde. Demasiado tarde? O despertador assinala as cinco, doendo-lhe no corpo o pulsar daquele número. Não há razão para querer ser heroína.
No dia dos seus cinquenta anos, o relógio acorda-a no silêncio da contagem das cinco horas da manhã - ou será da tarde? Pressente o toque inaudível do tempo e repete: é tarde, é tarde, é tarde. Se calhar demasiado tarde, tarde.
Ou então é hora, hora, hora, hora.
Hora de olhar para trás e contabilizar o que não fez, o que não quis: o que quis e não fez.
Demasiado tarde? Bate as pestanas cinco vezes, os dois olhos a marcar-lhe a idade em dobro. Viveu de menos ou viveu demais?
Já passaram cinco minutos e continua deitada, imóvel; apenas a respiração marca os segundos e as pálpebras no movimento incerto. Acorda ou não? Ou simplesmente deixa-se dormir até novo bater das cinco (da tarde ou da manhã)?
É tarde, tarde, tarde. Duas vezes tarde.
Hora de olhar para trás e enumerar o que fez mas não quis fazer.
É tarde, tarde. Três vezes tarde.
Adormece. Bom dia. (ou boa noite?)

2 comentários:

jorge c. disse...

Como é possível que ninguém tenha vindo aqui dizer que este texto é belíssimo?

Nefertiti disse...

porque perante factos não há argumentos :)