terça-feira, 30 de setembro de 2008

Por falar em cultura da esquerda e da direita...

Os excertos do texto que vou transcrever evidenciam algumas características dos entes que "coisificam" os partidos políticos da nossa actualidade e que, fatalmente, são mais à direita ou mais à esquerda. Alguns dos referidos seres optaram ou assumiram uma postura que passa, muitas das vezes, pela forma como se vestem, pelo género de música que ouvem, pela forma como comem e o que comem, pela marca da viatura que usam ou se a usam... Ou seja, um código ideológico (muito parecido com o código genético... que apenas tenho uma pálida ideia do que é) manifestamente exteriorizado, objectivo e diferenciado que facilmente é associado como sendo da direita ou da esquerda, conforme o caso.
Eu limito-me a votar. Sou democrática, logo gosto de misturar estilos. Contudo, confesso, que já não sei qual é o que me assenta e cai melhor.
E a propósito, para finalizar, o poema que vos deixo: Viro-me para direita e pisca-pisca;/Viro-me para a esquerda e pisca-pisca./ E depois?/ Depois, é só estalada, é só estalada! (Não é pura a coincidência nem mesmo a inconsciência, pois a letra é mais ou menos a da conhecida música brejeira ou ligeira ou popular ou o que quiserem, vai tudo dar ao mesmo!).

Então, é caso para dizer (e muito bem dito e porque falava eu no início de excertos e para preencher mais a página ) que eu tentei parafrasear um texto e isso pode-se verificar com a seguinte leitura:

(...)
Sou um céptico. Não acredito nos homens nem nas mulheres. Quando se trata da cultura, não acredito na direita nem na esquerda. A direita no poder é populista. Parece esquerda. Quer fazer bem ao povo. Dá os subsídios em função do grau de adesão popular. Promove aquilo que mais povo junta. Porque sabe (quando sabe) distante das aspirações do povo, tem o remorso dos benfazejos e compensa a sorte que acha ter dando a esmola a quem mais precisa. O povo.
A esquerda é elitista. Parece direita. Pensa que os subsídios devem ser entregues aos iluminados, aos experimentalistas, que normalmente são os amigos e conhecidos. Porque é a esquerda, presume que o povo aderirá espontaneamente, cantando hinos, à cultura que ela escolhe. Surpreendem-na as salas vazias, os livros por vender. Surpreende-a o povo. Afinal, ninguém ama mais o povo do que a esquerda.
A esquerda julga acreditar na igualdade entre os seres humanos, mas, com um pragmatismo inconsciente, torna-se elitista, vive num circuito fechado, sonhando com marés de multidões enquanto fala para salas vazias. A direita (quando não é povo) tem consciência daquilo que a separa do povo. Mas tem remorsos do que pensa. Em casa ouve Bach, mas na rua, por expiação, dança Emanuel.
A esquerda, a direita e o povo deviam ser banidos deste paraíso terrestre. Por mim, só acredito e amo paisagem. A flora e a fauna não humana. O que faz de mim um radical ecologista. ( Serei de esquerda?).
Na impossibilidade verificada de se cumprirem os meus desejos, voto contra a democracia participativa. A esquerda é bem intencionada ao desejar esta forma de democracia. Mas, crédula que é na mirífica igualdade dos homens e possuidora de péssimos dotes matemáticos ( resultado de ensino que vem pondo em prática) ignora a estatística e não quer ver que isso equivale a uma sentença de morte do bom gosto e do direito. (Sou de direita?)
(...)

RAA 12/16/2003

"a oeste nada de novo" in (Revista)Periférica, Ano II, nº 6, Verão de 2003

5 comentários:

Sancho Gomes disse...

A visão dicotómica é um resquício do sec. XIX que serve para situar alguns dogmas. E é apenas para isso, ainda que não seja pouco.

nefertiti disse...

Mas há quem ainda ache que as músicas de Zeca Afonso são património das gentes da esquerda! E, pior, eu fui às "Andanças" e houve quem acha-se esquisito, pois não tenho "estilo de esquerda"! Meu Deus, andei eu a estudar História para depois não perceber nada da actualidade!!

simplesmente disse...

Como é que sabe que as pessoas de direita ou de esquerda são assim? Já passou por essas áreas ou é só teoria aprendida nos livros e na NET? Já pensou que pode estar a magoar alguém com as suas palavras tâo absolutas? Sou de esquerda, claramente, defendo e pratico ideais que nada têm a ver com a sua descrição, felizmente!

nefertiti disse...

Já pensou que eu não estou a generalizar. Já pensou eu não estou a dizer mal da ideologia. Já pensou que o que digo não é retirado da teoria, mas da prática... Sim, eu pensei e escrevi, pois penso que ainda vivo numa democracia. Mas fica as minhas mil desculpas pelas ofensas e tem razão, eu não passei por essas área, eu, como disse, sou o povo, só consumo política e não a faço.

nefertiti disse...

correcção: sou do povo.