quarta-feira, 2 de abril de 2008

Não revelo como passei neste exame

Pela manhã de ontem, uma autoridade (muito temida e respeitada) da escola entregou-me um documento com os seguintes dizeres:
Os docentes oriundos de Portugal Continental deverão ser submetidos a um exame para aferirem a sua competência linguística no que diz respeito aos nossos regionalismos. para o efeito, deverão preencher o texto que se segue, usando palavras do quadro à direita.
Depois de realizar devidamente o exame, o texto ficou assim:
"O senhor João estava na paragem à espera do horário, quando reparou que o seu relógio estava a dar bêbras. Viu o céu muito forrado e logo de seguida começou a lubrinar, por isso decidiu chamar uma abelha. Esta andava aos soquetes que até parecia que ia trambulhar devido aos caboucos que encontrava no caminho.
Quando chegou ao seu destino começou a cramar da sua sorte a um amigo que andava a passear o seu grade.
Já era tarde e, como gostava de ajativar as suas coisinhas, ainda tinha de passar pelo mercado para comparar o preço das pimpinelas, das bogangas, dos tabaibos, da vaginha e dos bisalhos.
Depois foi à padaria demitado comprar brindeiros.
O padeiro estava somenos, com os braços cheios de bábedas e uma cara muito enfiada.
Teve tempo de ir à venda comprar uma caixa de palhetes e um cajirão.
De regresso a casa, viu uma gasguita com uma gavela de erva à cabeça. Para carregar melhor, arranjou uma molhelha.
Bebeu uns copos e chegou a casa com uma bicuda.
Já em casa, a mulher deu-lhe umas taponas valentes, deixando-o negro de tanto pancume.
Por fim, para mais informações: hhp://www.umapetafechadanagaveta.pt"

15 comentários:

Sancho Gomes disse...

Diz lá...

Woman Once a Bird disse...

Não conheço a boganga (não conheço muitas outras). Mas parece-me que aqui é referente a uma estirpe de abóbora - a muganga. Assim, não será propriamente um regionalismo.

Woman Once a Bird disse...

Já agora, assim como a tapona e o cabouco.

jorge c. disse...

Só conhecia o horário e a abelha.

Sancho Gomes disse...

Vamos lá ver. Sou madeirense que até gosta de se gabar de conhecer razoavelmente a sua terra, história e cultura. Há, contudo, muitos alegados regionalismos dos quais nunca ouvir falar: abelha; lubrinar, grade, ajativar, brindeiros, cajirão, gasguita, molhelha e bicuda.
Gavela não é um regionalismo madeirense, uma vez que se utiliza noutras regiões do país, como Algarve, Alentejo e Ribatejo, constando dos dicionários. Cabouco tb não é um regionalismo e tb se pode encontrar nos dicionários.

Woman Once a Bird disse...

Subscrevo em absoluto o que o Sancho apontou. Conheço estes "regionalismos" apenas apontados esporadicamente, muitas vezes na imprensa, como sendo típicos cá. Nada mais longe da verdade.

samya disse...

ã?

everything in its right place disse...

está na cara que este exame foi decidido pelo Coito Pita...

nefertiti disse...

Já agora, eu pedi a ajuda a um colega madeirense que rapidamente fez o dito exame.
Horário: autocarro
Bêbras: descontrolado
Forrado: nublado
Lubrinar: chover
Abelha: táxi
Soquetes: aos saltos
Trambulhar: cair
Caboucos: buracos
Ajativar: ajeitar/ ter tudo em ordem
Bogangas: abóbora
Tabaibos: um fruto (de cactos)
Vaginha: feijão verde
Bisalhos: pintos
Brindeiro: pão
Enfiada: cara doente…
Somenos: doente
Bábedas: borbulhas
Palhetes: fósforos
Cajirão: caneca
Gaguita: rapariga
Gavela: recipiente…
Molhelha: uma espécie de barrete
Bicuda: bebedeira
Tapona: bofetada
Pancume: pancada

Caros e estimados amigos,

O Português, como qualquer língua viva, apresenta uma diversidade ou uma variedade no que se refere à pronúncia, à gramática e ao vocabulário.
Os termos que destaquei são sem dúvida regionalismos, que não têm que ser obrigatoriamente só da região da Madeira, até porque alguns também são usados na região onde nasci, Beira Interior (tapona ou tapa, por exemplo).
Como instrumento de comunicação, a língua está sujeita a diversos factores: sociais, culturais, psicológicos e geográficos. Por isso, é importante ter presente que os diversos sistemas linguísticos sempre interagiram. Isso sempre se verificou ao longo da História da Língua, contudo, a meu ver, hoje é mais frequente por razões óbvias: a imprensa, os transportes, as novas tecnologias… "a aldeia global".
Os regionalismos, além de serem a expressão de um povo, de uma cultura, de uma sociedade ou de uma comunidade, podem revelar aspectos como, por exemplo, a migração.
De facto, nem todos regionalismos constam no dicionário, mas outros constam, e disso tenho a certeza e em absoluto.
Gosto de conhecer os regionalismos os sítios para onde vou não só porque revelam aspectos de uma comunidade, mas também porque fazem parte do nosso património linguístico que deve ser preservado.
Um abraço a todos.

nefertiti disse...

errata: gavela - molho
grade - cão

Funes, o memorioso disse...

Bem, eu sabia que "horário" é o nome da emprea de transportes públicos do Funchal, portanto a tradução era fácil. Mais difícil seria a retroversão, pôr o português comum "autocarro" no português da Madeira "horário".

Em Águeda (distrito de Aveiro) era comum (quando ainda havia agricultura e pecuária) a expressão "gabela de erva", com "b", em vez do "v".

Finalmente, estranho não ter encontrado no texto o regionalismo madeirense mais comum: "cubano".

nefertiti disse...

...e não é que também me enganei ao escrever gasguita, enfim, "mau tempo no canal".
Pois é, Sr. Funes, aqui "cubano" também pode ser um português do continente...

Sancho Gomes disse...

nefertiti,

como sabes, não tenho qualquer problema com regionalismos. Por isso não referi nenhum que efectivamente reconheço como regionalismo. Tenho é alguma renitência em aceitar regionalismos que todos conhecem, menos os madeirenses (até mesmo as chavelhas, ou pesquitas, como quiseres).
bjs a ti e à WOAB.

Sancho Gomes disse...

WOAB,

deixo-te uma daquelas provocações e tu não dizes nada?...

Woman Once a Bird disse...

E estranhas? Sou uma woman respeitável. ;)