quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Ainda não é tempo...

Começou por ser um comentário de resposta. Passou a post.
Concordo plenamente consigo Talisca. A conquista pelos direitos no feminino é ainda muito recente, muito frágil. Por tudo isso, as minhas escolhas. A escolha do nick não foi inocente (como de resto, o nome do blog também não o foi).
Esta obra, é para mim, actual e secretamente feminina. Espartilhada, de costas, em negação de si e da sua relação com os outros. É assim que nós, mulheres, continuamos a agir, pese embora as conquistas no domínio público. Em privado, continuamos esmagadas pelos nossos medos, pela nossa forma de nos aprendermos e que nos foi veiculada. Perpetuamos preconceitos, discriminações e padrões de conduta. Continuamos a deixar que nos transformem em "mulherzinhas". Quando olho a obra de Witkin, vejo uma nudez atroz... uma mulher a sós com o seu corpo, um corpo normal que tenta sofregamente seguir os chavões que lhe são impostos. Se ontem pagou pelo corpo que tinha (corpo fonte de pecado porque fonte de desejo), hoje paga pelo corpo que não tem (e que lhe é quase imperativo ter). Novamente, corpo objecto, assumidamente objecto. Mas ainda corpo dos outros, dos olhares dos outros, não efectivamente corpo de e em si mesma. Parece que a ouço sussurrar "Este é o meu corpo, tomado por vós." Em prece, pede que a reconheçam e que a deixem reconhecer-se sem cadeados, sem os padrões de beleza que a mantêm apertada (e em que ela própria se sufoca). Ainda não é tempo de olhar para nós, porque "não nos é possível ainda, falar de amor". E porque ainda não nos permitimos voar.

16 comentários:

nefertiti disse...

é tempo sim senhora!! aliás, deveria-se falar mais de amor!

nefertiti disse...

P.s: nunca senti na papel a discriminação, sou mulher e ponto final. A minha condição nunca me privou do que fosse. contudo, muitas mulheres são vítimas delas próprias!! Isso é que me irrita profundamente!!

Woman Once a Bird disse...

Sinceramente, acho que na maior parte dos casos podemos não ter consciência, parecer-nos normal. Mas já todos sofremos, por um motivo ou outro. A nossa educação está mergulhada em preconceito de género. A forma como nos rotulamos, a forma como julgamos... respiramos padrões que é simplesmente impossível terem desaparecido em um século de emancipação, em trinta anos de democracia em Portugal.

provavelmente talisca disse...

Todos temos que ser feministas.
É imperativo.
Não quero a meu lado nada menos do que um ser humano.
Disse.

nefertiti disse...

não é fácil mudar a ordem das coisas de um momento para outro... cada uma de nós deveria, no nosso dia-dia, derrubar essas fronteiras! Mas nem sempre isso se verifica... as próprias mulheres sujeitam-se a coisas!! Para quê? Para não ficarem sós?? Por que é mais cómodo?? Sinceramente, Woman... ppor vezes parece-me que são as próprias mulheres que criam esses padrões!!!
Caramba, somos tantas... abraço

Woman Once a Bird disse...

Não é mais grave uma mulher discriminar do que um homem. É sim fruto da educação, dos padrões culturais etc. Ou melhor... É tão grave uma mulher ter preconceitos de género, quanto um homem.
Somos todos responsáveis... não só pela sua criação como em relação à sua perpetuação.

nefertiti disse...

sim, concordo contigo.mas continuo a irritar-me com a submissão de certas mulheres.ultrapassa-me. desculpa, mas comigo as coisas funcionam assim.é tão grave uma mulher ser discriminada,como é grave um homem ser discriminado!A discriminação é grave!Não sou feminista nem machista. São rótulos muito fortes.Sou a favor de uma vida com dignidade para todos.

P.s é verdade que nunca senti a discriminação, o que não significa que não possa vir a sentir. pode ser pelo facto de ser mulher como pode ser por outro motivo!Mas sei também que não vou estar só! Tenho aqueles com que posso sempre contar (inclusive contigo).

Woman Once a Bird disse...

Eu não tenho medo da palavra feminista. Nem tão pouco da interpretação que lhe possam dar. Sou e pronto. Tenho as minhas (boas) razões, já que para mim o feminismo não consiste em uma oposição ao sexo masculino, mas sim uma oposição a preconceitos que se perpetuam muitas vezes subliminarmente. Existem outros tipos de preconceito e discriminação? Como é óbvio. Mas isso não torna o assunto menos caro ou menos válido. Já senti discriminação? Claro que sim. De cada vez que falo sobre este assunto e a condescendência vem ao de cima. A desvalorização do tema é, já por si, sintomática.

provavelmente talisca disse...

Aliás, acusar os excessos das feministas já é uma forma de as desvalorizar.
Até porque se há coisa que as feministas nunca fizeram foi cometer excessos. Poucas bombas. Pouca violência. Alguns livros escritos e um ou outro grito "abaixo o poder do pénis - viva o poder da vagina" que eu por mim acho um bocado descabido, mas unicamente por razões fisiológicas, até acho que o pénis e a vagina estão bem um para o outro, não é disso que se está a falar, não vamos prosseguir nesta senda.

Agora, quando são mortas, feridas, magoadas e abusadas sete vezes mais mulheres do que homens em Portugal por ano, resta pouco a dizer...

his_tory disse...

Está quase tudo dito.
Ser feminista é defender a igualdade do género humano, a não discriminação por cor, sexo, religião, opções pessoais, etc., como consta no artigo 2.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (http://www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm). O documento foi aprovado há mais de meio século, mas não por todos os países, e mesmo os que aprovaram não o cumprem ou fazem cumprir na íntegra. Isso seria um grande choque cultural, uma revolução que elevaria o estado actual da Humanidade (talvez não passe mesmo de uma quimera...). Mas, como dizem os chineses, também as grandes caminhadas começam com um passo. E esse passo está dado, a aprovação da Declaração.

As mulheres "educam" as crianças tanto ou mais que os homens, até no ensino essa é uma realidade iniludível. Mas a mudança de mentalidade demora séculos a se efectivar. Há que ter esperança que, no futuro mais ou menos próximo, as coisas vão mudar. Mas não acredito em fundamentalismos feministas (ou por qualquer outro motivo), porque por essa via irrompem fissuras na sociedade e podemos perder em anos conquistas que levaram séculos a efectivar.

Por outro lado, não podemos esquecer que o homem e a mulher são inequivocamente diferentes (sem entrar na analogia do pénis e da vagina). O respeito pela diferença é sempre possível, mas o tratamento por igual é muito complicado. A ser assim, eu vou iniciar uma campanha para que, por exemplo, a profissão professor ou o acesso ao ensino superior sejam regulamentados como as listas partidárias (intercalar um homem e uma mulher), ou mesmo em representação proporcional à população do país.

Contradizendo parcialmente o que aleguei anteriormente, a imposição normativa destituída de enquadramento cultural pode suscitar efeitos secundários difíceis de dirimir.

nefertiti disse...

Eu não tenho medo das palavras: feminismo e machismo. Também tenho as minhas razões.e também pouco me importa as outras leituras. Nunca fui condescendente com qualquer género de injustiça, pelo menos tendo não sê-lo! Nem nunca desvalorizei o tema. Julgo também que não preciso de ser feminista para ter consciência que existe desigualdade ou injustiça. Contudo quero deixar claro que admiro e respeito muitas mulheres que se assumiram como feministas e conquistaram muitos direitos.

Woman Once a Bird disse...

Tens que me explicar o final do coment, His_tory. Acho que não o percebi bem. Concordo com a regulamentação que propuseste em representação proporcional à população. Mas sejamos radicais e estendamo-la também às saídas das Universidades (em que as mulheres têm mais dificuldade em arranjar emprego, apesar da educação). Aliás, façamos o mesmo aos quadros de empresas e cargos de chefia. Representação proporcional à população em todos os sectores.

Woman Once a Bird disse...

His_tory:
Para complementar o anterior, dá uma olhadinha por aqui:
http://myhairisfullofbrain.blogspot.com/2006/05/paridade-como-o-aparelho-para-os.html

Anónimo disse...

a instituição do paterfamilias, EU VOTO CONTRA! (se isso é ser feminista... então...). Contudo, ainda me questiono por que nós, mulheres e homens, ainda temos que dizer que temos os mesmos direitos, sermos feministas. O feminismo já nem deveria de existir!! ( nos países subdesenvolvidos justifica-se! Muito mesmo.)

Anónimo disse...

sou eu, nefertiti.

his_tory disse...

Olá,
Aqueles exemplos eram meramente ilustrativos de algumas áreas que, nos tempos mais recentes, estão a ser ocupados em maior número por mulheres (e algumas professoras até se queixam desta situação...). Logicamente que há muito a fazer, mas a meu ver é mais ao nível do respeito pela diferença (nos países de influência cultural europeia, desenvolvidos).
No que respeita à parte final do meu comentário anterior, mesmo que os governantes aprovem leis de paridade em todas as áreas do domínio público e privado, elas só podem efectivar-se se houver mudança de mentalidades, de cultura e até de religião (lembremos a história do véu islâmico, da criação bíblica da mulher, entre muitas outras). Afinal, todos sabemos que as leis por si sós nada alteram, mas que as alterações de comportamentos têm de partir de todos e de cada um de nós.