terça-feira, 16 de maio de 2006

Desassossegos



Anda com o terror estampado nos olhos enormes.
No início, tratou-o como trata a todos: a pontapé. Ou melhor, à unhada. O problema é que ele não se deixou ficar. Para além de retribuir, volta sempre.
É feio. Ou pelo menos, não toma conta de si. Anda sempre com um ar sujo, de quem viu água poucas vezes na vida. E ela, que é uma tipa asseada (num grau quase obssessivo, na verdade) não tolera - nem o aspecto, nem o cheiro. Depois daquele primeiro embate, fez por ignorá-lo. Deixou-o do lado de fora do vidro da porta, a observar-lhe os movimentos seguros, as limpezas, o sono. Na verdade, exibia-se para ele, atirando-lhe ao focinho a sorte de cuidar-se entre quatro paredes. Ele, do lado de lá, pacientemente a cozinhar o ódio, com a ameaça a rondar-lhe o olhar: "Se te apanho, estás lixada."
O confronto foi inevitável: primeiramente, numa das suas incursões despreocupadas pelos arredores. De repente, ele salta sabe-se lá de onde e ela só se viu a salvo em casa. Registou que tinha que ter mais cuidado.
Depois, aconteceu a porta ter ficar inadvertidamente aberta, porque ninguém previa a ameaça. Atacou-a em casa, completamente adormecida e, portanto, vulnerável. Precisou de toda a força e garganta para o empurrar dali para fora.
Mas ele volta. Sempre. Por vezes encontra apenas o vidro e ela sente-se confiante e até lhe lança um dos seus esgares de superioridade. Outras vezes tem azar e ele consegue entrar. Aí, tudo de novo, a luta para poder respirar, livrar-se dele, daquele cheiro nauseabundo que quase a faz perder os sentidos.
Sabe-o à espreita. Na esquina mais próxima. Que já não pode sair despreocupadamente para cheirar o aroma da terra e das flores. Sabe que tem que ter cuidado.

13 comentários:

his_tory disse...

A natureza tem dessas coisas...
E os humanos também! Então não é suposto os opostos se atraírem?...
De qualquer modo, este discurso cai na vitimização do feminino e sobrevaloriza a força (bruta) da masculinidade. Poderíamos esperar de ti outra coisa, "Woman"? Quiçá...
Para terminar a tua história, talvez prevendo um "happy end", lembro Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se...
Por outro lado, a "prisão-refúgio" do lar pode ser interpretada como um apelo ao "brake the chains".
Qual será o desfecho!? Não há vitórias incondicionais...

his_tory disse...

Uma novidade, do DN Madeira, 16 de Maio 2006:
«Neste momento, encontra-se ainda patente naquele local a exposição "Peões e Passadeiras: Jam Sessions Rigo 84-23", que foi prolongada até ao final do mês de Maio, de forma a dar resposta ao interesse demonstrado pelo público pelos diversos trabalhos ali expostos pelo artista madeirense, residente nos EUA.»
Acho que me vou redimir...
Passa a mensagem aos mais distraídos...

Dirim disse...

WOAB: com esta narrativa, só posso dizer: espero que ela tenha cuidado. E.. aqui entre nós: "há uma contingência incontrolável na maneira como os outros olham para nós. Os outros, na verdade, não nos vêem; vêem, só, aquilo que lhes convém parecermos. É essa impressão de nós que prevalece, ainda que o que é esteja tão despreocupado em provar que é que ofusca aquilo que parece".

Latin disse...

Ela tem que ter cuidado é verdade, mas também é verdade que ela sabe muito bem tratar de si...
Não sei bem que é que deve ter mais cuidado...

Nefertiti disse...

é um clássico: " A Dama e o Vagabundo". mas com essa dita cuja... é muito elitista!

Woman Once a Bird disse...

Mas aqui o vagabundo não a alicia com esparguete, nem com os encantos da rua. Aqui o vagabundo faz-lhe juras de morte!

Nefertiti disse...

é charme, gajo do antigamente! Macho felino! e tem cuidado porque qualquer dia tens o rapto da "sabina". Mas se isso suceder ele vai-se arrepender profundamente, pois aquela não é flor que se cheire! Como hábitos aristocráticos e soberanos de toda poderosa... não há felino que aguente!

Nefertiti disse...

Errata: vai arrepender-se (sorry

dama disse...

Parabéns. Fez-me lembrar um filme, cujo título agora não me lembro, de um cão raivoso que procurava desesperadamente alguém igual a si, tendo cilindrado diversas criaturas durante a demanda.

Gaia disse...

Li 3 vezes.
Sou lenta a assimilar.
Não percebi, ainda, por que razão volta sempre? Porquê?
E, por que é que,feita surpresa, não o convida, ela, a entrar?
Por que é que,feita cuidado de quem sabe «cheirar o aroma da terra e das flores», não lhe mostra,ela, o acolhimento do lar?

Woman Once a Bird disse...

Achas que ela é menina para acolher alguma coisa que se mova de quatro? Intimamente, quando se olha ao espelho, tenho a certeza que se vê apoiada por duas patas, nunca por quatro. A minha Kiara é uma elitista, com uma visão de si muito distorcida (desconfio que ela acha que não é gata). Nunca daria trela a um fulano de quatro - ainda por cima a preto e branco. Logo ela!

Gaia disse...

Pronto!!!Pronto!!
Li outra vez. saltei do post para o comentário. Já percebi.
Mas olha, eu que já a vi, fiquei, desde logo a pensar, a grande gata que ela é. Não lhe reconheci o elitismo. Asseada, sim. Quase obssessivamente tb.
Espere-se para ver.

Dirim disse...

Olha que eu vivo com um sujeito de quatro patas e que é preto e branco.. tenho a certeza que a ele, a Kiara não resistiria :) :)