sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Do Mundo em Nós - A não consciência de si

Quis que desse nome a este espaço. Mas durante dois meses, foi só isso - a lombada de onde bebi um título, porque não queria sorver mais nada. Não me apetecia, por enquanto, ser feminina. Não me apetecia pensar novamente com que fios tecemos a Diferença de (e em) Nós . Não me apetecia pensar. Ponto.
Esta semana, já não sei bem porquê, alcancei-o, de mão aberta, resgatando-o à obscuridade a que o tinha votado.
" (...), depois de lidos um capítulo ou dois, uma sombra parecia pairar sobre a página. tinha a forma de uma barra escura, uma sombra com a forma de um pronome pessoal. Começava-se uma procura aqui e ali, numa tentativa de saber o que haveria para lá desta paisagem. Não estou certa se seria uma árvore ou uma mulher que caminhava. Havia sempre o tal condicionamento do pronome pessoal. Iniciava-se o cansaço do «eu». Contudo, este «eu» era dos mais respeitáveis, honesto e lógico; duro como uma noz e polido por séculos a fio de bons ensinamentos e boa comida. Respeito e admiro aquele «eu» do fundo do coração. Mas - neste momento, voltei uma ou duas páginas à procura de algo - o pior é que à sombra deste pronome pessoal tudo parece imerso em nevoeiro. «Aquilo é uma árvore? Não. É uma mulher. Mas... não tem um único osso no corpo, pensei (...)."
Um Quarto Que Seja Seu, Virginia Woolf

3 comentários:

bartleby disse...

Andamos sempre à procura de algo, mas só conseguimos ver o que encontramos com o nosso próprio olhar já um tanto viciado. Era isso?

Nefertiti disse...

Que coincidência! também ando a ler Virgínia Woolf, Contos. Há um onde que se intitula uma marca na parede que é um excerto d`Um Quarto Que Seja Seu... bjs e boa leitura.

Woman Once a Bird disse...

Sim, mais ou menos. A forma como nos relacionamos com os outros (no caso a relação entre o género feminino e género masculino) já está marcado (a fogo?) por toda a tradição cultural. No caso do excerto, ela fala sobre um texto escrito por um homem, tão cheio do "Eu" masculino (cultural, social, etc) que desubstanciava por completo a personagem feminina do texto ("não tem um único osso no corpo"). Ver/ler escrever a partir de mim (a partir do pronome pessoal) e não a partir do outro, transforma sempre o outro no mesmo que eu - daí o nevoeiro.
(Esta é a minha leitura, como é óbvio).