segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Futilidades e Necessidades


Ao fim de um esforço sobre-humano para evitar a ruína do consumo - prometi a mim própria uma cura de desintoxicação - cedo à primeira espreitadela na Fnac..... os meus ouvidos regalam-se e o banco ri-se das minhas necessidades, as quais apelida de futilidades.

13 de Agosto é uma data profícua


Pelo menos para os membros deste blog.
Lady
missing on the Lake selou "estranha" aliança com Nosferatu há exactamente dois anos.
O que uma dentadinha no pescoço provoca...

(Fotografia de Berengo Gardin)

The beautiful woman as come

Em Agosto, a 13. Só para apreciadores requintados. E faz-se anunciar desta forma.

domingo, 12 de agosto de 2007

Tinha ar de sapatona. Sem dúvida, uma sapatona. O termo foi introduzido no meu léxico há cerca de um ano. Significa "lésbica", explicaram-me. Naquela altura, o ar de uma lésbica era uma incógnita para mim. Naquela altura era e continua, hoje, a sê-lo. Se um judeu ou um muçulmano podem ser mais ou menos identificáveis pela indumentária - tal como um padre católico o é pelos seus paramentos, não se pode dizer o mesmo de uma lésbica, ou de um homosexual, falando genericamente. O certo é que ela tinha/tem esse ar. Estranho dizê-lo, porque quando o escrevo não significa que ela seja lésbica, ou sequer que eu consiga entender ou identificar as preferências sexuais de alguém somente pela forma de vestir, ou pelas suas atitudes. Significa tão somente que tem um ar de sapatona. Tem um ar feio, apesar de ser bonita. É feia por se perceber que gosta de sentir o controlo sobre alguém. Porque sabe mais, porque domina o que está a fazer. E porque se sente confortável por esse conhecimento lhe conferir o poder - temporário - sobre o outro. Estranho porque me concentro no ar dela como forma de a criticar, sendo que não é isto que quero dizer. O ser é sempre indissociável do parecer.

Centenário do nascimento de Miguel Torga



Oferenda

Abre as mãos e recebe
Esta serôdia oferta
De um poema de amor.
Ilusões refloridas a desoras
Num toco carcomido.
São assim os poetas:
Dão no pino do Inverno
Versos de primavera.
A razão?
Talvez seja
Que neles o coração
Mesmo velho viceja.
S. Leonardo de Galafura
Miguel Torga

Lullaby de Domingo

"I dreamed you were a cosmonaut Of the space between our chairs..."

sábado, 11 de agosto de 2007

olá Malta!


http://pt.wikipedia.org/wiki/Malta


- Ó Sr. Ministro Sócrates, a malta soube que vai prà Malta. Tem muito bom gosto, tem sim senhor. A malta está orgulhosa disso.
NOTA: também quero!

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Nem Ruth nem Tony

Há tempos referi a estranheza por alguns dos visitantes deste blog aqui se dirigirem ao engano, falsamente induzidos por esse google encegueirado. A peregrinação continua: visitantes que, de joelhos, arrastam velas a essa Ruth Marlene dos seus pecados, desejadamente nua. Há que reconhecer os ardores estéticos desses crentes que, à má fé, aterram como tordos a este local de infiéis. Mas nem só de mulheres desnudas é feita a dita MPP; também encerra nos seus corredores homens garbosos de camisa aberta e de pêlo (na venta) abençoado pelo crucifixo de ouro a coroar a lati(ni)ce própria de macho. O expoente máximo dessa súcia de conquistadores responde pelo nome de Tony Carreira que, ao que parece, já nos presenteia com descendência agarrada ao microfone e à camisa havaiana (a não ser, parece). Sei que arrasta atrás de si uma legião de fãs que lhe enche as salas e os bolsos. E rio-me dessa massa amorfa que sei existir espalhada pelo País e gosto adjacente. E até aí, o perigo é mínimo. O drama só se intensifica quando ganha rosto. E se, de repente, quando menos esperar, alguém me confessar amar perdidamente as cordas vocais de uma dessas criaturas? E se alguém me diz, com ar enlevado, que se deixa apanhar pelas líricas manhosas e pelas melodias enfadonhas produzidas por estes "artistas"? Fujo ou mantenho estoicamente um sorrisinho incrédulo? Temo que algum dia tal me venha a acontecer e que tenha o mais deplorável dos comportamentos possíveis: rir-me a bandeiras despregadas, envergonhando primeiramente o interlocutor e, logo de seguida, envergonhar-me a mim pelo meu grau de intolerância. Parafraseando um dos meus professores, os gostos são o que mais se discute. E se goza, acrescento eu.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Suspiros de Verão

Para quando um filme em cartaz que seja minimamente aceitável? Francamente, acho que já nem reconheço uma sala de cinema.

Cogitações avulsas

Concedo que seja uma obra magistral, a de Tolkien, apesar de nunca ter conseguido ler (fiquei-me pelo Silmarillion). Aliás, a leitura de um excerto ontem na Antena 2 despertou-me para a musicalidade do texto no original. Desde que a triologia de O Senhor dos Anéis provocou febris enchentes às salas de cinema e (mais comedidamente) às livrarias, que se criou uma espécie de culto fantástico em relação à literatura do fantástico. Desde então, qualquer livro que remeta para a espécie tem que ter, na contra capa, a promessa de que é O digno sucessor da obra de Tolkien. Boring! Desconfio sempre de um livro que remeta para o imaginário e a cuja editora não ocorra um elogio mais original.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007


"Li hoje quase duas páginas
Do livro de um poeta místico,
e ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a natureza não tem dentro;
Senão não era Natureza. "

Alberto Caeiro
Fotografia de Floria Sigismondi

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Pérolas a Porcos

"Eu não quero ter filhos. Eu quero morrer no singular, sem formas transitivas ou reflexas. Eu quero morrer egoistamente só. E finito."
Este é o meu corpo, Filipa Melo

Da credulidade

Este não ficou nada satisfeito com as orelhas moucas. Compreende-se; se fala a uns, porque não escutar outros? Afinal de contas, não são todos filhos (de Deus)?

terça-feira, 31 de julho de 2007

Subsídios para uma educação contemporânea

Chocam-se sempre os outros quando afirmo esta minha vontade de não ter filhos. O olhar de incredulidade é avassalador porque continua a conceber-se que uma mulher não poderá desejar outra coisa; quantas vezes ouvimos rasgadas exclamações quanto à maternidade como condição necessária à concretização feminina? Portanto, após o movimento inicial de incredulidade, imediatamente ouço o inevitável "Isso é agora, porque ainda não sentiste o apelo." E o encolher de ombros imaginário é mútuo.
Não tendo especial inclinação para a maternidade, admiro a coragem de quem assume o passo. Ter um filho é um compromisso vitalício, um gesto de dádiva ao outro (quase) ímpar. Assumo assim, que a decisão da maternidade excede-me, implica um acto de responsabilização radical absoluto para o qual não me sinto preparada. Ao acolher uma criança em mim, acolho o compromisso de a acompanhar até onde ela queira e possa. Decisão difícil, assustadora. Não tendo vocação para uma dádiva tão extensa, mantenho-me quieta, ocupada pela educação criteriosa de uma gata.
O apelo de que todos falam, o relógio biológico que desperta em todos - homens e mulheres - é, portanto, inevitável. Pelo menos no imaginário da maior parte dos mortais. E, portanto, as crianças nascem orgulhosamente embaladas pelos olhares da Mãe orgulhosa e do Pai babado.


Frequentadora assídua dos corredores das instituições públicas de educação, também sei que o fascínio inicial muitas vezes esbate-se perante as necessidades da criança. É que a criança chora; adoece; tem birras. Bate o pé e exige atenção. E o olhar embevecido muitas vezes torna-se um olhar desesperado. Mais, a criança tem que ser alimentada, vestida. A criança exige a última playstation. E, portanto, os progenitores muitas das vezes bem intencionados encontram-se em conflito aberto entre as birras da criança e as birras da entidade patronal.
Os pais extremosos saem todas as manhãs e regressam às noite; acompanham o pequeno almoço e o jantar dos meninos. Quando acompanham. Tudo o mais, passa-se na instituição que os acolhe, substituindo-os enquanto procuram pagar o pão e a estadia na tal instituição. Para colmatar esta lacuna - dos pais que ainda passam um fim de tarde com as suas crianças - cogita-se a hipótese de o horário das creches ser prolongado até às 22 horas. Diz-se que para garantir que os Pais com horário nocturno também sejam abrangidos. Os horários nocturnos não terminam às 21.30, nem sequer às 22. Mas certamente as entidades patronais agradecem o desvelo. A criança das 8.30 às 22 horas no jardim de infância. Que maravilha!
Ainda assim, é pouco. Proponho então que as educadoras tenham também a tarefa de ir deitar as crianças nas suas caminhas, já que tal pode roubar tempo aos Pais. Vamos até mais longe: as crianças só deverão regressar a casa aos fins de semana - e só no caso de não constituir entrave para a vida profissional dos progenitores. Na verdade, o ideal reside na possibilidade dos Pais só retirarem as crianças do infantário ao fim de semana se tal lhes apetecer. Porque nem só de trabalho vive um casal, convém que possam ter tempo só para si, sem os berros de uma criança que reinvindica atenção. Estamos no bom caminho.

Fotografia de Jan Saudek

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Cogitações avulsas

Em determinadas alturas do ano, preferia que os dias galopassem e que não deixassem memória. Que os altifalantes e microfones se recusassem a difundir os dislates, que as máquinas fotográficas, por artes mágicas, não disparassem figuras mais que lamentáveis. Infelizmente, nunca acontece.

domingo, 29 de julho de 2007

com os olhos bem fechados

" parábola dos cegos" de Peter Bruegel (1530-1569)
(...) A dignidade humana reside na dúvida; esta é certamente incómoda, mas o conforto é o privilégio das feras (e eu digo mal disso), dos loucos e dos assassinos. Os exemplos da arrogância foram-nos prodigalizados por todas as religiões que reivindicaram o privilégio de ter visto Deus e de o ter ouvido. Os exegetas mais prudentes concordaram que Ezequiel, por exemplo, é um destrambelhado. Recuso-me a qualquer Revelação. Não acredito que Ezequiel tenha alguma vez ouvido Deus dizer-lhe que arrancaria os pêlos púbicos de Israel, e digo-o com toda a moderação. Acredito que os olhos de Ezequiel estavam fechados.
(...)
in História Geral de Deus - Da Antiguidade à Época Comtemporânea, Gerald Messadié

Lullaby de Domingo

Aproxima-se o mês das horas lentas. Não sei que faça com elas.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Mudam-se os tempos, mudam-se também os "trucas"

Nós Pimba
Rapazes da vida airada
oiçam bem com atenção
todos temos o dever
de dar às nossas mulheres
muito carinho e afeição.
são as mais lindas do mundo
donas do nosso coração
se somos meigos p'ra elas
dão-nos tudo tudo tudo
com toda a dedicação.
e se elas querem um abraço ou um beijinho
nós pimba, nós pimba
e se elas querem muito amor muito carinho
nós pimba, nós pimba
e se elas querem um encosto à maneira
nós pimba, nós pimba
e se elas querem à noitinha brincadeira
nós pimba, nós pimba
(...)
Emanuel
Nota: não passei o resto da letra porque tenho problemas em digerir certos "ditos", fico sempre com muitas náuseas! Isto para mim é muito violento!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sentir na pele o peso da palavra dos outros (cont)

A náusea provocada pela consciência de estar a contribuir para o ordenado mensal destas criaturas! Sugere-se que sejam pedidas contas a esta senhora por estas afirmações ofensivas, negligentes e hipócritas. Percebes agora, caro Sancho, porque quis esclarecer-te quanto à "matança dos inocentes"? Só se te referias à inocência de não pensar. Essa, é andrógena. E grassa pelas bancadas partidárias.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Ministério de Morangos 3

Piada, piada seria se a aula fosse de Inglês Técnico.

Ministério de Morangos 2

Será que o professor era titular?

Ministério de Morangos

Suponho que o episódio passe à mesma hora ( ou integrado) que os Morangos com Açúcar. Resta saber se o prof era fixe ou era um daqueles ranhosos abominado pelos alunos. A dúvida surge porque supostamente não é de Educação Física. Ainda assim, precisamos ver como se apresentou para perceber o tipo de estereótipo foi representado.

indo eu...

Partir é bom, mas, pensar em partir, melhor ainda. Quanto a mim, acho que tenho sempre chegado. Partir é esperança. Chegar, desencanto."
in Estátua de Sal, Maria Ondina Braga

Sentir na pele o peso da palavra dos outros.

Ainda que as urnas por cá tenham revelado que se prefere esconder a miséria do que resolvê-la, é absolutamente escandaloso que as mulheres madeirenses sejam e - pior que isso - consintam na discriminação e alienação democrática em curso. Estamos perante uma questão de saúde pública, não perante um espectaculozinho qualquer para estrangeiro ver e o argumento evocado é, no mínimo, ridículo (ponderemos as verbas que são gastas em cerimónias e eventos bacocos e provavelmente o orçamento não seja assim tão impeditivo). Há anos que me parece indecoroso que determinadas áreas (pensemos, por exemplo, no desporto regional) sejam privilegiadas relativamente a outras bem mais prementes. Mas obviamente, as escolhas pautam-se pelos aplausos e sorrisos. Quanto ao eleitor, é preciso é mantê-lo razoavelmente contentinho e pouco informadinho.

domingo, 22 de julho de 2007

Cogitações avulsas

Pedir desculpa é tão doloroso que quase prefere que lhe torçam um braço. Infelizmente, na maior parte das vezes, não tem a graça de poder escolher.

Lullaby de Domingo

Sei que a dicção não é a melhor. Ainda assim... Je t'inventerai Des mots insensés Que tu comprendras

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Cogitações avulsas

Imperioso fechar o dia com Wagner, preferencialmente com o prelúdio de Tristão e Isolda. Suster a respiração, mergulhar até ao fundo e voltar mais serena. Amanhã.
Se a liberdade tem um sabor adocicado, por vezes, a libertação tem um sabor agri-doce.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O meu pobre coração não aguenta - In the end

Novamente, Pulo incólume no final desta série (ainda que bem mais astuto que na primeira). Não terá sido um grande episódio. Esta Cleópatra miúda convenceu pouco, já que é quase impossível suplantar a interpretação de Vivien Leigh e o texto de Bernard Shaw. Certo é que a menina só esteve bem aquando da conversa final com Octávio, em que o desnuda completamente ao afirmar que este tem uma alma podre. Octávio fica surpreso mas não ofendido, pelo que supomos que a criatura ou não valoriza a ideia de alma ou então até reconhece alguma verdade nas palavras da moribunda.
A rainha do episódio é na verdade Átia (ou melhor, de toda a série, na verdade), que no final recupera do golpe mortal de Marco António e protagoniza a cena mais marcante: perante os dentinhos afiados de Lívia (a esposa perfeita de Octávio, que tem um ar de roedora raivosa), explica-lhe pacientemente que outras já tentaram, sem sucesso, provocar a sua queda. Concordamos: na verdade, Átia é imortal. E ainda bem.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Do poder do BCE

Dizem que o dinheiro não traz felicidade. Pode ser. Mas tenho para mim, que dá outra cor, outro cheiro à infelicidade. Esta (a infelicidade) - por muito que me tentem convencer do contrário -, escolhe classes e castas, sim senhora. E tem umas bem em melhor conta que outras. Um rico deprimido compra um cruzeiro, bronzeia o couro nas bahamas ou numa outra qualquer ilha paradisíaca, o da classe privilegiada pela infelicidade pousa os pés nas praias da linha - se tiver dinheiro para o comboio; lava o pêlo no chafariz comum do bairro, que há muito que se sabe que a água é um bem escasso. Um próspero desanimado pode procurar um tesouro nos territórios incas ou nas pirâmides do México ou escolher ver o metal dourado no Museu do Ouro na Colômbia, em vez de se contentar em olhar pelas montras de uma qualquer ourivesaria da rua da prata. Pode gabar-se de conhecer as cores genuínas dos quadros dos pintores famosos. Sabe de cór os museus com os maiores escultores do século e até pode regalar-se com as melhores bibliotecas de todo o mundo. Quando o desalento bate à porta de um milionário este pode atirar-se aos melhores pratos do mundo, escolher ir à janela em vez da coxia ou apanhar um autocarro apinhado. Um abatido endinheirado vai buscar a sua cura a uns mergulhos turísticos nas águas gélidas do Titanic. Perde a graça dos mergulhos ali do cais da rocha, podem dizer. Pois claro, que as águas castanhas do rio também têm o seu encanto. Sobretudo o desafio de dizer que o pobre também combate a infelicidade - tem é um bocado mais de trabalho. Tenho para mim que o dinheiro traz outra cor à infelicidade. Outro cheiro. Não que a praça do Rossio não sirva de regalo - mas para turista, que para quem lá mora, os fontanários e o dona maria já perderam a graça de tanto olhar para o mesmo. Acima de tudo, traz o poder de escolha. Da escolha de um tratamento médico em vez de outro, de uma carreira em vez de nenhuma. E isto, caríssimos, faz toda a diferença.

M. Butterfly

O amante adia o segundo olhar. O primeiro encegueira. Em rigor, não é um olhar. É êxtase, que vai para além do que o amado pode ser: representação fantasmática do desejo. O amado (quase) nunca pede esse primeiro olhar. Sabe que merece apenas o segundo, apesar de o temer, de implorar pelo seu adiamento. Sempre tardio, é um olhar a nú e crú. Suicida.
Uma das mais belas áreas de Puccini, um Jeremy Irons soberbo e um final magnífico.

Só cá faltava isto!

Como já é habitual, a minha mãe telefona-me: - Já sabes quem é o Presidente da Câmara em Lisboa? - Sim, acabei de ver agora na televisão. Bem, aqueles… -Espera, o teu pai está a dizer para não falares mal ao telefone! Está a dizer que pode ser perigoso!! Eu soltei uma gargalhada mas, depois, fiquei deveras pensativa e apreensiva.

domingo, 15 de julho de 2007

Dos nomes e dos Homens


"(...) Um parto. A injecções, a ferros, a gritos e lágrimas da povoação inteira, mas um parto.
Um bicho de pernas gordas e olhinho azul. O Senhor Newton.
O pai, ninguém sabe porquê, mal o agarrou cá fora, que se havia de chamar Newton.
Queria Newton.
E o Conservador do Registo - uma fera de erudição - achou que o pai exagerava. Newton! Logo Newton!!! Mas eu disse que sim senhor. Newton, que tinha lá?
De enxada na mão, é quase certo que o novo homem não vai descobrir outra lei da gravidade universal. Mas vai de certeza descobrir o que é o sofrimento, e isso, cá no meu entender, chega perfeitamente para ele ter direito a usar na Terra seja que nome for".

In Diário I. Miguel Torga.
Foto: Mak Remisa

Lullaby de Domingo

Espero que entretanto se confirme a presença destes senhores em Paredes.


"(...) sentimos a prisão que é ser-se rapariga, a maneira como isso tornava a mente activa e sonhadora e como se acabava por saber quais as cores que combinavam umas com as outras. Sabíamos que as raparigas eram nossas gémeas, que todos existíamos no espaço como animais de pele idêntica e que elas sabiam tudo sobre nós, apesar de não conseguirmos de forma alguma penetrar na mente delas.

Percebemos, finalmente, que as raparigas eram, na verdade, mulheres disfarçadas, que compreendiam o amor até à morte, e que a nossa tarefa era simplesmente a de criar o barulho que parecia fasciná-las tanto (...)

In As Virgens Suicidas, by Jeffrey Eugenides


Vezes há em que sinto que somente expiro.

E o que expiro já nada é senão o terror de não o poder fazer de novo.
Dias tenho em que acordo sobressaltada com o ruído de um carro que não consegui confundir com o simples vento a passar.
Leio textos que se assomam de uma velocidade in-extremis - o imediato já lá atrás - e esqueço-me que posso reler a frase que passou para um passado junto à memória de expirar.

Horas há em que fico frente à janela. à espera não sei de quê. Talvez do carro que levou o ar que me fazia inspirar.

Foto: Estrela do Mar, Luís Quintas

sábado, 14 de julho de 2007

Sexta feira - 13.

"Foi desconvocada." - dizem placidamente, afastando o pardo dos meus dedos pouco ansiosos por lhe pegar. Não acredito. Não estou habituada a benesses. Sento-me, ainda incrédula. Confirmam. "Foi desconvocada". Sorrio. Não muito, porque a ordem para dispersar não contempla a todos. Outros permanecem, em silêncio. Cheiro-lhes a inveja (que eu sentiria, na cadeira deles); mantenho-me mais algum tempo sentada, por cortesia. Balbucio algumas generalidades, trocamos impressões. Eu saio. Não fico cá. Não revejo nada, não discuto nada, não tenho que voltar cá para o entregar. Eu saio. Eu saio. - Só isto me ocupa o pensamento na meia dúzia de minutos em que me deixo ficar ali. Arrasto levemente a cadeira; preparo-me para a saída. De mãos leves. Sem pardo a sustê-las, a empurrá-las para o desânimo. Estão livres. PS: Sancho, ainda não estou de férias.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

No dia 13 a 13ª arte!

13ª arte é um blog que já consta na minha lista de favoritos. Ficam aqui as coordenadas:http://13arte.blogspot.com/

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Eu cá tenho um GTI

O sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa de que marca
de que cor
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa se inglês ou japonês
eu ando pensativo
porque não tenho esse sonho
ando a pensar qual o motivo
porque não sonho com um GTI
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa de que marca
de que cor
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa se inglês ou japonês
os meus amigos riem-se de mim
por ser feliz assim
sem sonhar com um GTI
eles não sonham que me basta ter-te a ti
a sonhar comigo desde que te conheci
o sonho dos meus amigos é ter um GTI
não importa de que marca
de que cor
o sonho dos meus amigos é ter um GTI
não importa se inglês ou japonês
desde que seja um GTI
desde que seja um GTI
p'ra que quero eu um GTI
se me basta ter-te a ti
eu não quero um GTI
deita fora o GTI
p'ra que quero o GTI
só me basta ter-te a ti
dos Clã
Eu tenho um GTI.
Os meus amigos não gostam do meu GTI.
...
Não me basta ter-te só a ti, GTI.
de Moi-même

terça-feira, 10 de julho de 2007

Entre o Altar e a Fogueira

Bem sei que prometi "amena" mas exaustiva conversa frente a uma boa refeição e vinho a condizer. Mas a verdade é que fiquei a ruminar nesta questão e apetece-me aqui deixar um apontamento sobre a impossibilidade da feminilidade em Maria. A concepção tradicional de Maria - concebida sem pecado por homens de batina - provoca uma extrapolação absoluta da feminilidade; torna-a assexuada. Só é Mulher na altura de dar à luz, porque é momento absolutamente necessário para o surgimento do "Filho do Homem"(??). Assim, sublimada de tal modo que deixou de ser Mulher, para única e exclusivamente ser Mãe - com os lirismos decorrentes: uma Mulher não está completa enquanto não dá à luz. A concepção Mariana é, portanto, uma impossibilidade, o excesso, um obstáculo artificial, inacessível, desprovida de substância real mas apresentada como a possibilidade para todas as outras: inaugura-se assim uma assimetria absoluta entre o que a Mulher deve ser (o ideal mariano) e o que a Mulher realmente é. Esta idealização condena-a a ser sempre precedida por uma cena predicativa: tornar-se apenas no que é dito ser-lhe permitido ser: "Cheia de Graça" e de virtude, claro está. Por tudo isto, Maria que concebeu "sem pecado" tornou-se a companheira inumana, descorporizada que ensinou a tradição cristã a apontar o dedo (isto para ser suave) à Mulher que assume/reinvindica o corpo como seu.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

era uma vez...

O príncipe Sapo "Era uma vez uma princesinha que quando se cansava da sua luta inglória contra a estrutura machista do poder que vigorava no castelo, se descontraía passeando a pé pelo bosque e sentando-se à beira de um pequeno lago. Aí se entretinha a brincar com a bola de ouro preferida, que atirava ao ar para depois apanhar, e a reflectir sobre o papel da militante eco-feminista na sua época. Certo dia, enquanto acalentava a utopia em que o seu reino se transformaria se coubessem às mulheres as rédeas do poder, deixou cair a bola, que rolou para dentro do lago. Ora, o lago era tão fundo e a água tão turva que ela não teve hipóteses de ver para onde a bola tinha ido. (…) De repente ouviu uma voz dizer: - Eu posso ir buscar a vossa bola, princesa. A princesa olhou em volta e viu a cabeça de um sapo que rompia a superfície do lago. - Não, não- disse ela. – longe de mim escravizar um membro de outra espécie, para, com o produto do seu trabalho, satisfazer os meus desejos egoístas. - Então e se fizéssemos um contrato de reciprocidade? (…) – A questão é esta: eu não sou realmente um sapo. Sou um homem a quem um feiticeiro mau lançou um feitiço. Embora a minha forma de sapo não seja melhor nem pior (apenas diferente) da minha forma de homem, adorava regressar ao convívio das pessoas. E a única coisa capaz de quebrar o feitiço é um beijo dado por uma princesa. A princesa reflectiu um pouco sobre a possibilidade da ocorrência de assédio sexual entre espécies, mas a difícil situação comoveu-a. (…) Ali estava, um homem em camisa de golfe e calças aos quadrados de cores berrantes – meia-idade, estatura média e dando sinais incipientes, mas já visíveis, de calvície . A princesa ficou siderada e recuou: - Desculpe… vai talvez achar que tenho preconceitos classistas, mas… Não é costume nestes casos os feitiços serem feitos em príncipes? - Lá costume é (…), mas eu sou construtor civil e o feiticeiro pensou que estava a enganá-lo num negócio de terrenos. Vai daí convidou-me para uma partida de golfe e, quando eu ia para dar a primeira tacada, transformou-me. Mas (…) não foi tempo perdido. Aproveitei para conhecer o terreno, que considero ideal para a construção de um complexo de escritórios/habitação/ lazer. (…) Basta esvaziar o lago, cortar oitenta por cento das árvores, conseguir licenças de… A carreira do sapo bravo acabou no momento em que a princesa lhe voltou a enfiar a bola na boca, o empurrou para debaixo da água e ali manteve preso até que ele parou de estrebuchar. Durante o seu passeio de regresso ao castelo, a princesa pensou, espantada, na quantidade de boas acções que uma pessoa pode praticar em apenas uma manhã. (…)" James Finn Garner, Histórias Tradicionais Politicamente Correctas Achei a estória muito engraçada, contudo não a explorei nas aulas, apesar de constar no manual do oitavo ano de Língua Portuguesa. Por questões que achei óbvias, virei a página… Não fosse alguém querer também praticar boas acções logo pela manhã. Pouco provável, mas…
No próximo o ano lectivo, vou pedir aos meus alunos para alterarem o final desta estória.

domingo, 8 de julho de 2007

O ritmo da asfixia

Sob o título de "PS contra Ps", a Visão desta semana apresenta um artigo sobre o "desconforto" que alguns membros do Partido Socialista têm vindo a manifestar perante os tiques de intolerância que a máquina governamental tem vomitado nos últimos tempos. Obviamente, um desconforto; porque incómodo sério só para os despedidos, dispensados ou processados com esta brincadeira de julgar que estão num regime democrático. A Imprensa Portuguesa começa a acordar para estas questões; mas não esquecemos as posições tomadas, ainda há um ano, em relação à maior parte das medidas que já indiciavam o (des)norte dos titulares das várias pastas. O tabuleiro muda radicalmente quando as movimentações começam a chegar-se também aos meandros dos média. Durante algum tempo assistiram de camarote, com aplausos de incentivo; agora colocam-se em bicos de pés, porque começou a tocar-lhes também a eles. Desapareceram os editoriais de elogios rasgados à acção governamental. Pois. Estes comportamentos revelam muito do que somos; só nos movimentamos, só nos indignamos ou rebelamos quando nos sentimos directamente lesados. O que é lamentável, como é óbvio, já que indicia absoluta insensibilidade para com o problema (enquanto é só) dos outros. Não será por acaso que o artigo que referi ao início termina da seguinte forma: "Arons de Carvalho, um dos desagradados com o caso de Vieira do Minho, prefere realçar, no entanto, a coesão da bancada socialista, apesar das divergências. «Temos liberdade interna e nada nos impede de questionar posições concretas. Mas no grupo parlamentar continua a haver grande entusiasmo com as políticas do governo.»" Não me parece saudável este tipo de linha de pensamento. Que se considere que enquanto os seus direitos estiverem salvaguardados, estamos bem. Não é aceitável que se desvalorize os comportamentos verificados só porque alguns, internamente, ainda não sentiram a corda a apertar no seu pescoço.

Lullaby de Domingo

Uma ternura de melodia, com travo amargo na palavra.

sábado, 7 de julho de 2007

Wonderful World

(O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry)


I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world...

Louis Armstrong

ceci n´ est pas une pipe



A humidade e o calor pesavam-me na alma.
Com os olhos presos num ponto indefinido, estava looooooonge, looooooooooonge… muito loooooooooooonge… Ai que prazer…
Entretanto, alguém com um sorriso muito airoso, vaporoso e ruidoso interrompeu-me:
- Ah! Encontrei-a! Aleluia, tive mesmo que perguntar a uma funcionária onde estava uma senhora… Desculpe, como é mesmo o seu nome? Não me recordo do seu nome! Perguntei, então, por uma senhora professora pequenininha, moreninha e, pelo falar, é continental. Só assim é que consegui encontrá-la!
Eu, claro, lá consegui disfarçar o quanto estava incomodada.
Enquanto fazia o trabalho que me levava a estar ali, pensava: “ Eu não sou nada “pequenininha”, tenho 1.68 de altura! Zsou morena, admito! Agora com pronúnzcia?! EU NÃO TENHO PRONÚNZZCIA!
Azcho que a zsenhora anda a enxergar e a ouvir mal. Pode zser da idade!!! Eu, por ezxemplo, szou mais nova e já tenho problemaszz de audição!”

Há situações na minha vida que me fazem lembrar a pintura de Magritte. Por um lado, sou aquilo que eu julgo ser, por outro lado, sou o que os outros julgam que eu seja. Sinceramente, não sei qual é o lado mais verdadeiro, mas eu nem sempre concordo com a imagem que os outros fazem ou têm de mim.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

quinta-feira, 5 de julho de 2007

As escolhas são inevitavelmente trágicas. Cientes desta condição, da última vez que nos vimos com este trabalho escolhemos, de uma assentada, a nossa listinha de links. Nada mais justo, porque estão ali ao lado por algum motivo. Contudo, desta vez o caso é mais tramado. Somos chamadas a eleger blogues com grelos. E perante tal não queremos, de modo algum, ferir a susceptibilidade de nenhum dos blogues escritos por dedos exclusivamente masculinos (e que são geralmente muito sensíveis a este tipo de comichões). Contudo, não resistimos a uma provocação: ninguém se surpreende com a expressão "é uma mulher com tomates", pelo que seria plausível instituir também "um homem com grelo". Não pretendemos chegar tão longe. Por agora, seguimos a norma. Assim, as nossas nomeadas são: 1 - Cusquices de gajas (como não poderia deixar de ser). 2 - Ana de Amsterdam. 3 - D'ama. 4 - Speak Corner. 5 - Alma Nômade. 6 - Troca de olhares. Isto significa que os blogues que constam na lista acima poderão dar continuidade à tarefa.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Concílio das moçoilas cá do sítio... e do moçoilo também.

Reunião geral a fim de respondermos à graça com que fomos presenteados pela Isabella do Mundo Perfeito. Ainda quase sem forças na ponta dos dedos pela gentileza de uma das minhas bloggers favoritas.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Carta aberta a Sancho

Aconselhas-me a ser como Tomé. O post abaixo é apenas uma caricatura da engrenagem, tal como este outro aqui. Ou até por essa outra novidade de há uns tempos atrás, de que o ilustre representante decretou que o Limbo deixou de existir. Caso para perguntar: e que aconteceu com todas as criancinhas que lá estiveram de castigo até agora? Terão direito a indemnização e pedido oficial de desculpas? Mas se queres conversar sobre a Igreja Católica, então conversemos. Deixei de ser católica quando comecei a compreender o que significa ser mulher. E isso implica tomar consciência de que na estrutura da máquina não existe lugar para pessoas como eu. Clarifico. Há lugar: a esfregar o chão das catedrais e igrejas, a compôr os arranjos florais e a ministrar catequese aos meninos e meninas, a fim de lhes formatar o espírito. Mais do que isso, só em silêncio e de preferência com os braços e pernas cobertas (já para não falar nos decotes). A mulher não tem lugar nesta Igreja que aconselhas a ouvir com atenção. À representação feminina, amordaçaram o clítoris e profanaram o útero, fecundado por um Espírito Santo criado para o efeito. Portanto, uma mulher que não é aceite enquanto mulher. Tornada Outra, nem mulher nem homem. Desfeminilizada por decreto ou concílio, whatever. Decidido por homens, claro está. Passemos à galeria de mulheres beatificadas ou santificadas (ainda não percebi a diferença). A maior parte virgens, castas, mulheres piedosas e cientes da preciosidade que é o seu desprazer. Vês, como estou atenta às orientações desta Igreja? Reafirmei a minha profissão de fé ao NÃO ao catolicismo no dia em que ouvi afirmar que as mulheres participam exactamente como deve ser, sob pena de que mais do que isso não saberiam o que ou como fazer. Ora, tenho por hábito banir do meu léxico indivíduos, instituições e organizações que insistem em atestar-me como mentalmente menor. Tens razão. A Igreja não é risível. É patética. E só tenho pena que a maior parte das mulheres ainda não o tenha percebido. Porque veríamos então o número de fiéis predispostos a sustentar os sapatos do piedoso Bento.
Ainda me estou a rir com a última notícia do Vaticano. Vou ali recompor-me e depois volto para conversar sobre isto. Alguém pode passar-me um lenço?

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Repulsa, verdade e maldizer.

Tenho recebido algumas reclamações relativamente ao post ilustrado com a fotografia de Witkin. Reconheço que não será particularmente simpática. O facto de a criatura estar nua, claro. Não é coisa bonita de se ver, eu sei. Mas, minhas amigas, que fazer quando esta é realmente a fotografia perfeita para ilustrar o post? Não digo que todos os exemplares que tento descrever no post sejam tão barrigudos. Ou que se sentem com tanta graciosidade (tenho a certeza que não). Mas tenho quase a certeza que, a despirem-se, conservariam as peúgas. Quanto à cabeça... exactamente como esta! Mas concedo que realmente lhe falta o tal copo na mão.

domingo, 1 de julho de 2007

Lullaby de Domingo.

Quem mais? Melhor que isto, só lá estar. Como tal não é possível, ouvimos por cá, (quase) conformadinhas.

sábado, 30 de junho de 2007

Cogitações avulsas

Babam no canto da boca, enquanto bamboleiam as ancas e sinalizam a (in)existência de cérebro com piscares insistentes de olhos.
São às dúzias, aos molhes. De copo na mão cirandam pelos recinto; introduzem-se insidiosamente como se de humidade se tratassem. Interrompem e querem fazer-se notados através de vocábulos guturais berrados aos ouvidos. E tocam. Colocam-nos a mão no ombro ou tentam rodear a cintura com as suas mãozinhas gordurosas e ansiosas, mostrando os dentinhos por entre os lábios que supostamente esboçam um esgar sedutor. No final, ainda têm a lata de perguntar "se ofenderam".
Cara criatura, como fazer-te entender que não ofendes? Que apenas provocas uma incrível sensação de asco?

(Fotografia de Joel-Peter Witkin)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Depois da espera, vieram os bordões!

Hoje, nas matrículas, senti as costuras da minha paciência rebentarem...
Faltava uma aluna. Que nervos! Faltava só T. para completar a minha "listinha". Eu estava cheia de fome e bastante saturada.
Eu poderia ter ido embora e ela depois que pagasse multa. Mas fiquei, esperei e esperei.
Eu sou mesmo assim, não gosto, mas farto-me de esperar. Nunca desisto de esperar e de desesperar.
Por fim, lá veio a sr.ª T. toda contentinha. Eu dei-lhe o sermão e ela ouviu-me muito sorridente, pois era-lhe familiar, não fosse ela uma aluna especializada em faltar. Uma verdadeira "faltista".
................
- Vá lá, despache-se! A secretaria vai fechar e eu tenho coisas para fazer!
- Mas à vinda houve tipo um acidente! E não deu para chegar mais cedo.
- Mas é sempre o mesmo tipo de justificações que dá!
- Professora, tipo, eu sou de longe e, tipo, eu, por vezes, tipo, perco o autocarro.
- Ó T., se é uma pessoa adulta, tipo 18 anos, deveria ser mais responsável.
- Mas eu sei, professora, eu, prò ano, tipo, vou logo atinar no início! Vai ver.
- Ok, mas agora despache-se porque eu estou com um tipo de fome que já nem consigo ver.
....................
E, no bar, eu continuei, tipo:
- O que deseja sr. ª professora?
- Nem sei.... Olhe, dê-me... tipo uma sopa!
Conclusão: QUERO FÉRIAS!!

Pérolas a porcos

"Amor. Claro, o amor. Fogo e chamas durante um ano, cinzas durante trinta. Ele bem sabia o que era o amor..."
O Leopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa

terça-feira, 26 de junho de 2007

Habituados ao lado sombrio da existência colectiva...

( pintura de Paula Rego)

"(...)
Sem pretendermos formular causas primeiras que originariam todas estas modalidades de violência, parece-nos que a acumulação, ao longo dos séculos, de muitas práticas não criticadas, nem erradicadas, em que o antigo sempre se misturou com o que já foi moderno e um e outro sempre se misturaram com o moderno que " está a dar", conduziu a maior parte dos Portugueses a uma vida social e cultural medíocre, em que vivemos:
-habituados a uma grande impotência individual e colectiva;


-habituados a péssimos seviços públicos, como se fossem de favor;


- habituados a suportar um urbanismo caótico e sistemas de transporte absurdos;


- habituados a ler pouco e a pouco debater;


- habituados a uma quase nula vida assocativa e interventora;


- habituados à "cunha", ao "desenrascanso" e à pequena corrupção activa;


- habituados... aos brandos costumes que tudo corróem sem dar nas vistas.


Este é o lado sombrio da existência colectiva.


Augusto Joaquim"


JEAN, Georges, "E, em Portugal, como é?(excerto)" in O Racismo Contado às Crianças, 1ª edição portuguesa: Terramar, Junho de 1997

O meu pobre coração não aguenta 5


Ok, ok. Certo é que à História não podemos fugir. Portanto, plenamente ciente que Marco António vai apanhar com a fúria do engomadinho do Octávio, de que vai enamorar-se da egípcia (que não a nossa) e andar mais uma data de episódios a bater-se contra o puto. Mas a verdade é que aqui não interessa o final da História, mas sim como a(s) estória(s) se desenrolam.
No episódio anterior - muito, mas mesmo muito bom (ao ponto de me pespegar com uma insónia incrível), assistimos à execução de Cícero. Só percebemos Cícero nos momentos de crise; em todos os outros conspira e acobarda-se. Conhecemos o executante e desculpamos a infantilidade com que enterra a espada no pescoço do advogado, logo após ter-lhe pedido para apanhar os pêssegos maduros da sua casa.
Octávio cansa-me com tanto aprumo - deliciosa a tirada de Átia "Todos sabemos como és inteligente. Não precisas recordá-lo".
Marco António enoja-me com os seus arrotos de cérebro a vazio. Tão vazio, que ainda não percebeu a índole de Octávio, que será a sua perdição.

As mulheres. As mulheres são sublimes. No episódio que rodou ontem, Átia caminha lentamente para a decadência, profetizada/lançada/prometida por Servília, que se imola à porta da eterna inimiga. O olhar de morte de Servília alcança imediatamente Átia, que sabemos começar lentamente a morrer ali mesmo. Nada escapa ao olhar (de morte).
"Send her bitterness and despair for all of her life". Nem à palavra (mal)dita.

domingo, 24 de junho de 2007

Tigres e Dragões (de papel)

Estamos bem cientes das acusações do Ministério da Educação. Na verdade, apenas revela a astúcia dos corredores do chico-espertismo, que já todos percebemos ser condição dos elementos constituintes deste Executivo que, infelizmente, elegemos. O Ministério, dizia eu, mais não faz que alimentar a fogueira da opinião pública em relação à classe docente. Razão tem em algumas considerações; como em todos os ramos, a docência tem a sua cota parte de incompetentes, de parasitas e de alienados. Como em outras áreas, repito. O Ministério - porque não falamos apenas da Ministra - acusa-nos de pouco trabalho. De laxismo, de incompetência. Passo o ano a tentar equilibrar planificações, documentação burocrática, elaboração de fichas para os alunos, grelhas e avaliações. Raramente tenho um fim de semana despreocupado. Se o digo não será porque não gosto de o fazer; adoro leccionar e só lamento o excesso de burocracia que, infelizmente, tal implica. Por tudo isto, não compreendo como uma equipa que passa o ano inteiro com o intuito de elaborar um exame nacional, ainda assim o faz com erros grosseiros: não leccionam, não têm aulas para preparar, não estão obrigados a reuniões de coordenação pedagógica semana sim, semana sim senhor. Então, porque falham na única coisa que fazem? Como explicar o erro do exame nacional de História, que ainda por cima foi desvalorizado? Como explicar que quem elaborou o exame de Filosofia fizesse o impensável, ou seja, ater-se especificamente em dois filósofos, quando o programa é aberto? Como explicar o erro crasso do exame de Físico-Química? E a lata dos meios de comunicação em congratular o GAVE pela prontidão com que detectou o erro. Patético, se não fosse tão grave. Mais um ano que passa e nada é tirado a limpo? Onde reside a excelência e o rigor que se reinvindica ao resto da classe docente?

É muito bom, adorei! Boa música, Woman. Merci.

Lullaby de Domingo

What I choose is my voice (...) I send this smile over to you

sábado, 23 de junho de 2007

E quando descobrir o gato das botas...

Sendo gata - e loira - Kiara é atípica. Alguns generosos visitantes deste blog já o sabem. É introspectiva e ligeiramente desequilibrada. "Posta" e tem direito de resposta. Envolve-se em discussões fundamentadas com outros escribas do sítio. Em suma, falta-lhe estar em duas patas ou então colocar-nos a nós de quatro. Há muito que sei que tenta enriquecer os conhecimentos que adquiriu ao longo destes sete anos de vida. É fã absoluta do Odisseia e de alguns documentários da 2, sobretudo os que versam sobre vida selvagem, espécie estranha para a moça, como já foi dito por cá. Pois bem, descubro-lhe hoje uma faceta bem mais lúdica. Kiara encontra-se a assistir ao Shrek que passa neste momento na SIC. Está arregalada e completamente deliciada, ao ponto de não tratar do pêlo há, pelo menos, 30 minutos. Suponho que seja a primeira vez que vê um burro que fala.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

10 Mandamentos, se faça favor!

(pintura de Magritte)

Estávamos todos no café a partilhar os nossos fados. Algumas melodias eram bem tristes, mas ninguém estava com vontade de chorar, muito pelo contrário.
Fados castiços, pois então.
A história mais castiça foi a do ente de sexo feminino que tinha sido colocado num centro prisional para dar aulas de Português. Os responsáveis por aquele estabelecimento tinham já avisado que ali não era aconselhável usar vestimentas demasiado… femininas. Foram-lhe dadas informações concisas, directas e claras acerca do que era saber-estar entre penitentes.
Naquele momento, a roupa era um mal menor, pois já tinha reformulado o seu guarda- roupa. Agora o problema era o programa, os conteúdos programáticos, ou, para ser mais clara, que textos iria explorar com aqueles alunos?
Todos discutimos, reflectimos, meditámos sobre aquele processo de ensino-aprendizagem específico, com o objectivo de darmos soluções, ideias e, no caso de ser preciso, saídas rápidas e eficazes.
Quando o assunto já só vagueava nos olhares, alguém de manha só reconhecida pelos seus mais chegados e queridos diz: “ -Por que não começas a analisar a morfologia e a sintaxe dos Dez Mandamentos do Antigo Testamento? “Não matarás; Não roubarás; Não…”
O serão prolongou-se muito agradável; os sons jazzísticos que por ali pairavam, por fim, tinham penetrado nos nossos espíritos e, de vez em quando, alguém lembrava ou inventava um mandamento e pronunciava-o em alto e bom som para gáudio dos presentes.


Os Dez Mandamentos Católicos:
Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
Não invocar o Seu santo nome em vão.
Guardar os domingos e festas.
Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
Não pecar contra a castidade (em palavras ou em obras).
Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo)
Não desejar a mulher do próximo.

domingo, 17 de junho de 2007

A sabedoria do rei Salomão

(Em momentos de crise, os sábios de hoje em vez de utilizarem espadas, abrem janelas...)

Qualquer coisa começa emitir sons. O professor tenta perceber de onde vêm os sons. Passado algum tempo, encontra na gaveta da sua secretária um aparelho parecido com um rádio, que talvez até fosse… sei lá.
Na fase seguinte, o professor pergunta de quem é o “radiozinho”, pois quer devolvê-lo.
Depois de várias tentativas e pela confusão que se instala, abre a janela e diz: - ok, meus meninos, já que isto não tem dono, eu vou atirá-lo! Será de quem o apanhar.
Por fim, uma voz bastante atarantada interrompe aquela acção: - NÃO ATIRE! NÃO ATIRE!!! É MEU!

Nota: a voz da experiência diz-me que há métodos que resultam sempre, são intemporais!

Lullaby de Domingo

Voz quente a embalar um fim de semana de chuva. (Genuinamente, uma lullaby)

sábado, 16 de junho de 2007

OTArios

As politiquices dos OTArios:http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1296714 Nota: ponham os acentos, se quiserem...

Dor que desatina sem doer 4

Se compararmos o retrato de Orlando homem com o de Orlando mulher, veremos que embora os dois sejam indubitavelmente uma mesma e única pessoa, são de assinalar certas mudanças. (...). O homem olha de frente o mundo, como se este fosse feito para seu usufruto e talhado a seu gosto. A mulher deita-lhe um olhar enviesado, cheio de subtileza, ou mesmo de desconfiança. Se usassem os dois as mesmas roupas, é possível que a sua visão do mundo fosse a mesma. É a opinião de alguns filósofos e sábios, mas bem vistas as coisas inclinamo-nos para outra explicação. A diferença entre os sexos é, felizmente, uma diferença de grande profundidade. A diferença entre os sexos é, felizmente, uma diferença de grande profundidade. As roupas são apenas o símbolo de algo que se oculta mais fundo. Foi uma mudança operada na própria Orlando que ditou a sua escolha do trajo e do sexo feminino. e talvez com isso estivesse apenas a exprimir mais francamente do que é hábito - a franqueza era, de facto, a alma do seu carácter - algo que sucede à maioria das pessoas, sem ser assim claramente expresso."
Orlando, Virginia Woolf

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Cogitações avulsas

Gostava mesmo de saber de quem foi a brilhante ideia de colocar uma data de marmanjos estranjas (desses que aparecem nos filmes a falar ingalês) a mandar "beejeinhos à Ana Maaarrquex". E com aquele remate da moça no final a sorrir, muito contentinha (supostamente com os beijinhos, pois então). Credo, que mau. Eu bem sei o que pensaria se me dissessem para mandar beijinhos, frente a uma câmara, para uma gaja que não conheço e ainda por cima numa língua assim, sei lá, a lembrar o russo. (PS: Refiro-me a um separador que passa na Sic Mulher)

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Adeus, não afastes os teus olhos dos meus

Quando dormes E te esqueces O que vês Tu quem és Quando eu voltar O que vais dizer? Vou sentar no meu lugar Adeus Não afastes os teus olhos dos meus Isolar para sempre este tempo É tudo o que tenho para dar Quando acordas Por que quem chamas tu? Vou esperar Eu vou ficar Nos teus braços Eu vou conseguir fixar O teu ar A tua surpresa Adeus Não afastes os teus olhos dos meus Eu vou agarrar este tempo E nunca mais largar Adeus Não afastes os teus braços dos meus Vou ficar para sempre neste tempo Eu vou, vou conseguir pará-lo Vou conseguir pará-lo Vou conseguir Adeus Não afastes os teus olhos dos meus Vou ficar para sempre neste tempo Eu vou conseguir pará-lo Eu vou conseguir guardá-lo Eu vou conseguir ficar Música de David Fonseca nota: Woman, eu apenas gosto da música... Vinha a ouvi-la no carro e gostei.

Tomar-lhes o pulso

10:55, aula de substituição a uma turma de 6º ano. Distribuo uma ficha de trabalho de Língua Portuguesa pelos alunos. Irrequietos, dispersos na possibilidade da aula que não teriam e afinal têm. Lá fora, no pátio, uma orquestra improvisada de instrumentos de percussão. Um quadro e a leitura rítmica de um excerto da Marcha Turca de Mozart (no intervalo, para minha delícia, tocava-se The Hall of The Mountain King, de Grieg), para quem quiser experimentar seguir a batuta do maestro de sapatilhas. Cá dentro, a inquietude de (ter de) fazer a ficha. Ouve-se o início do concerto. As cabeças começam instintivamente a acompanhar a melodia e ouço um incontido "É Mozart!" Acompanham cada vez mais a música que invade pelas janelas e afasta as cortinas. Afinal de contas, onde os perdemos? Quando começa Mozart a ser aborrecido? (E não gosto particularmente de Mozart, mas ontem amei o que a sua música provocou nos corpos dos alunos daquela turma.)

Dor que desatina sem doer 3

"Recordava como, no tempo em que era homem, exigia das mulheres que fossem obedientes, castas, perfumadas e primorosamente ataviadas. «Agora vou ter que pagar na minha própria carne esses desejos», reflectiu; «porque as mulheres não são (a ajuizar pela minha breve experiência de pertença ao sexo) obedientes, castas, perfumadas e primorosamente ataviadas por natureza. Só podem alcançar essas graças, sem as quais não gozam nenhum dos prazeres da vida, mediante a mais enfadonha disciplina."
Orlando, Virginia Woolf

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Sobre o amor. Venha o diabo e escolha, porque eu não consigo.

Os nadas a preencherem os vazios…

- Lembras-te de mim? - Foste o meu grande-amor-nunca-vivido-e-depois-esquecido. De ti lembrar-me-ei sempre! - Ai sim, como é que eu era? - Lembro-me que tinhas os olhos azuis, eras especial… e… - Desculpa, eu tenho os olhos verdes! - Verdes?!... Não importa a cor, eras tu, disso eu lembro-me! - E depois? - Depois…lembro-me como nós gostávamos de baralhar os provérbios e de jogar xadrez com a condição de eu ganhar sempre. - Pois… - Nunca iria resultar… Dei-te muitas oportunidades, mas tu nunca fizeste um esforço, ganhaste-me sempre naqueles jogos. Ainda hoje recordo… Credo! Ainda bem que o tempo apaga algumas coisas, não achas?

Da maldição de certas palavras:

Estratégias para conversarmos a dois.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Cogitações avulsas

Faz-me sempre muita confusão o pessoal que insiste em cuspir no prato onde sofregamente come. Admiro-lhes o estilo, o desdém aparente, a (suposta) superioridade moral e intelectual. In the end, frequentam os mesmos corredores, solicitam as mesmas audiências e suplicam ao sistema que os mantenha por favor, obrigadinho.

O meu pobre coração não aguenta 4


Octávio é um copinho de leite armado a mete nojo. Aos 19 anos, a pregar sobre como quer romanos honestos e romanas virtuosas (já para não referir a vassoura que certamente engoliu).*
Fora com o puto! Com mais vinte anos em cima, certamente ninguém o aguentará. Dass.

*Eu bem sei que Freud explica, provavelmente com aquele episódio em que a Mãe lhe dizia, divertidíssima, que ele precisava ser bem ******.

Acerca dos Professores Titulares

Quem não lecciona algures nos jardins atlânticos, vê-se confrontado com a figura de professor titular. Deixarei considerações mais profundas sobre a temática para outros posts, mas deixo-vos um cheirinho das infinitas possibilidades que tal proporciona. Eu, por mim, ainda jogo nas reservas!!!

Cupido Sénior

De regresso a casa, recordo-me dele(s) porque vislumbro um altivamente sentado a afinar as cordas sedosas do pêlo. Terei certamente outros gatos. Os nomes dos gatos amaldiçoam-se, e as pegadas dos predecessores assombram os seguintes. O primeiro Cupido não era meu, mas ajudei a dar-lhe nome. Preto e vadio, como este outro. Não nasceu em ilha, porque era gato de bairro a feder a mofo, de casas altas de soalho podre. Cupido sénior era o marialva da travessa, provocador nato dos outros gatos das redondezas, engatatão das gatas mais aristocratas. Convencido que era lorde, regressava a casa onde sabia ser pacientemente esperado. Trazia amigos, que em desespero morreram-nos nos braços; trazia inimigos, que num golpe bem calculado ainda o conseguiam puxar ao postigo. Cupido do Mondego era um verdadeiro estudante, sempre em fuga dos acéfalos que de capa e batina lhe queriam ensinar a palavra caloiro. Nunca lhe bateram nas unhas, mas apanharam-lhe diversas vezes o lombo e foi sempre salvo por mulheres. Por nós. Perdi-o quando saí da viela. Cupido ficou, pertença de outras que por lá também ficaram. Amei-o como se fosse meu ao ponto de, anos mais tarde, ao encontrar na ilha dentro da ilha outro com aquele mesmo ar de mafioso, não resistir a repetir-lhe o nome. Outro negro cintilante com sede de rua não poderia ser de forma diferente. Também lhe perdi o rasto. Nunca mais repito nomes aos gatos.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

eu gosto do meu país

A Europa jaz, posta nos cotovelos: De Oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos Olhos gregos, lembrando. O cotovelo esquerdo é recuado; O direito é em ângulo disposto. Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglatrra onde, afastado, A mão sustenta, em que se apoia o rosto. Fita, com olhar esfíngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado. O rosto com que fita é Portugal. Fernando Pessoa, Mensagem (1934)

domingo, 10 de junho de 2007

Novamente com um surto de audição compulsiva de Cave. Chega de mansinho, e depois arrasta-se, prolonga-se, em repeat, por minutos, horas, dias seguidos. Eu disfarço, assobio para o lado, obrigo-me a cantarolar outras coisas, a ouvir outros registos, mas a ele regresso, sempre. Inconscientemente. Hoje foi assim. E já é a quarta vez que ouço, a subversiva I'm Your Man. Passo agora a "Weeping song". Parece-me adequada.


Today.... I have dreamed with words.

Lullaby de Domingo

Os domingos querem-se bem dispostos, agora que nos ameaçam com os dias azuis (receita mais abaixo). E antes que o trabalho aperte, uma lullaby a escapar ao habitual.

sábado, 9 de junho de 2007

o amante e o amado

John Waterhouse, Eco e Narciso

"O amante é mais divino que o amado, visto que naquele existe o deus e nestoutro não."
in Morte em Veneza, Thomas Mann

Receita para fazer o azul

Vi este poema e lembrei-me logo de ti, Woman. Lê com muita atenção: Se quiseres fazer azul, pega num pedaço de céu e mete-o numa panela, que possas levar ao lume do horizonte; depois mexe o azul com um resto de vermelho da madrugada, até que ele se desfaça; despeja tudo num bacio bem limpo, para que nada reste das impurezas da tarde. Por fim, peneira um resto de ouro da areia do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal. Se quiseres, para que as cores se não desprendam com tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado. Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico. Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que possas distinguir entre uma e outra. Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Hain, iluminador de LOulé - e deixei a receita a quem quiser, algum dia, imitar o céu. de Nuno Júdice

quinta-feira, 7 de junho de 2007

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Mademoiselle de La Palisse em noite de Quarta

Percebo a gravidade do meu estado quando olho para o relógio que assinala 22h e 40 minutos e penso que é tarde. A gravidade ainda é mais acentuada pelo facto de estarmos em véspera de feriado e supostamente não ter que acordar tão cedo. O funcionário da reprografia* diz-me que a culpa é da idade. Eu acredito. * Esquecimentos e paragens cerebrais animam o nosso relacionamento. Eu esqueço e ele ampara o jogo, claro. Sem a preciosa ajuda do dito, estaria perdida. PS: Cedo aprendi que a sobrevivência de um docente depende em grande parte dos funcionários da reprografia. E eu tenho tido sorte.

terça-feira, 5 de junho de 2007

A brincar a brincar. 2

É extremamente "amassador" corrigir provas e trabalhos.

O meu pobre coração não aguenta. 3

Conservou a cabeça. Continuaremos, pois, a acompanhar os movimentos de arena das duas "senhoras". Queremo-las vivas.
Se no episódio anterior Servília destilou puro ódio na infâmia de uma tentativa de assassinato, no de hoje esteve magnífica ao enfrentar a resposta de Átia:
Perante a eminência da tortura, sugere que o medo da sua carrasca é maior que o seu. E atreve-se a profetisar que a ignomínia do que está prestes a acontecer ensombrará o futuro da rival. (Será?)
Mesmo de joelhos, ou melhor, só de joelhos, Servília soube ser soberba.
(Segunda chegou e passou).

domingo, 3 de junho de 2007

Curioso...

...que o único homem que publica neste blog tenha escolhido o nick que escolheu. Alguém arrisca sobre o significado de LEKKER? Ps 1: Andamos nós aqui armadas aos cágados, inspiradas em história egípcia, mitologia grega, poemas medievais e fotografias com leituras feministas e aparece um único fulano que, de uma penada, confere um carácter gastronómico ao sítio. Reinvindicamos o "quarto". Resta-te a cozinha? Ps 2: Este post é uma tentativa descarada de fazer com que o rapaz dê sinal de vida. Afinal de contas, não é pago para estar quieto. Nem para se mexer, de resto. Por cá não pagamos. Só exigimos.

pois, eu até concordo!

a publicidade deveria ter mais homens e de preferência como este! vejam como resulta tão bem: (Que regalo... de café)

devo ter apanhado sol a mais...

( deveria ter ficado à sombra, como esta lagartixa.)
Esplanada com vista para o Atlântico, muito sol e um grupo de amigos é o melhor programa para o sábado, depois do almoço (para quem se esforça, não é senhora Woman?).

Enquanto esperamos pelo café, falamos que os gays qualquer dia são a maioria (o disparate reina na conversação).
Mais tarde, alguém diz que quer fazer uma revelação, e eu, no gozo, digo: “- Não me digas agora que és lésbica?”- e dou uma gargalhada bem idiota. Depois, faz-se silêncio. Por fim, ela esboça um grande sorriso e diz: “- Sim, eu sou lésbica!”.
Entretanto, vem o empregado e pergunta como queremos o café. Eu precipito-me e peço “o normal”, ela, logo a seguir, pede “o usual”. A mim,só ocorre-me o comentário: “- Estiveste bem…”

Enfim, eu fui a anedota da tarde.

SUSPIRO!

Não existe coisa que me enerve tanto (pronto, existem mais alguns pontos igualmente enervantes), quanto esse lugar comum de que trabalhar com muitas mulheres só pode dar chatice, porque: Muitas mulheres juntas só pode originar confusão. As mulheres são conflituosas. As mulheres são competitivas. As mulheres são cuscas (não no sentido das minhas queridas, mas no outro). As mulheres... Ora, não posso acreditar na honestidade intelectual de alguém que parts de tais premissas. Cada qual vê apenas o que quer ver e raciocínio toldado por tanta porcaria não poderá tirar conclusão isenta e criteriosa. E só nos livraremos das etiquetas que insistimos em perpetuar quando decidirmos ser mais críticos quanto ao que nos incitam a tomar como certo. Trabalho com homens e mulheres. Não me parece que a competência, sobriedade, mesquinhez ou estupidez seja uma questão de género. Agora, acredito que uma mulher que chegue ao local de trabalho com a ideia pré-concebida de que encontrará chatices por trabalhar com outras mulheres, efectivamente as encontre. Só muito raramente não encontramos o que procuramos. Mas isto sou eu, que tenho a mania que sou Ista.

desculpem-me, mas até tem piada...

Lullaby de Domingo