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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

domingo, 5 de abril de 2015

Os excessos das feministas de segunda vaga



A Elle deste mês traz um artigo sobre o «novo feminismo». De acordo com a diretora da revista, cuja citação encerra o texto, ficamos a saber que «o feminismo de agora» é «solto, relevante e livre». E eu aqui a achar que os feminismos, desde a sua origem, sempre tinham sido relevantes, mas afinal, parece que é só "agora". O que não deixa de ser irónico, uma vez que vivemos numa altura em que muita gente defende que os feminismos deixaram de fazer sentido, precisamente, por já se ter conquistado a igualdade formal.

Entrevistadas pela revista, as fundadoras da página Maria Capaz acreditam estar a contribuir para «as pessoas» deixarem de temer a «palavra 'feminismo'». A plataforma Maria Capaz tem subjacente uma ideia que me parece louvável e que poderia ser de extrema utilidade, para informar e contribuir para as reivindicações feministas, caso não repetissem ad nauseam uma mão cheia de senso comum, que reforçam essencialismos, sobre os quais urge refletir e desconstruir. Sim, há alguns contributos interessantes na plataforma e algumas tentativas de incentivar a reflexão. Julgo, no entanto, que estas são neutralizadas pelo tom generalizadamente essencialista e acrítico da maioria das narrativas. Aliás, a Rita Dantas fez um post maravilhoso sobre o assunto.

Que as palavras feminismo e feminista metem medo até mesmo às cobras, sobretudo em Portugal, já se sabe há muito. Aliás, as Actas do Congresso Feminista de 2008 intitulam-se precisamente «Quem tem medo dos feminismos?». Algumas pessoas poderão ilustrar, de viva voz, os motivos pelos quais ser feminista, em Portugal, é coisa para se ser proscrita. Se falarem com a Maria Teresa Horta ela explicará - ilustrando com a sua experiência própria, porque é que assim é. Do lado académico, várias pessoas abordaram o assunto também. Apesar de haver, em Portugal, um trabalho de desconstrução de que feminismo não é o contrário de machismo, a propaganda com vista à desinformação rende até hoje. São comuns as respostas a garantir que são «humanistas» e não «feministas», porque são muito «femininas» e outras ignorâncias similares.

A explicação avançada por Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues, fundadoras do Maria Capaz, e reproduzida pela Elle, é que, pelo menos para mim, é inovadora. De acordo com o citado na revista, aquelas afirmam que o mau nome do feminismo se deve ao feminismo de segunda vaga:

«(...) na segunda grande vaga destes movimentos (que aconteceu entre o final dos anos 60 e os anos 70), acabaram por ser cometidos alguns excessos e isso, de certa maneira, acabou por contaminar a palavra».

Podem repetir?

Jill Posener fotografa o resultado do vandalismo feminista que comprova os excessos cometidos por feministas de segunda vaga.
Claro, como é que nunca tinha pensado nisso? Foram as feministas que deram mau nome ao feminismo! 

Um pouco de conhecimento de história dos feminismos permite perceber que as feministas da chamada primeira vaga, frequentemente chamadas sufragistas, também não caíram bem no goto da maior parte das pessoas. E a palavra feminismo - entre a primeira e a segunda vaga - nunca foi bem vista (tal como ainda não é hoje, basta pensar no facto de, após o discurso na ONU, a Emma Watson ter recebido inúmeras ameaças). 

A revista não explica que excessos das feministas de segunda vaga são esses e que Rita Rodrigues e Iva Domingues acreditam terem «contaminado» a palavra  (terá sido exigir liberdade e autodeterminação sexual? Terá sido a exigência de acesso a direitos sexuais e reprodutivos? Terá sido a exigência de eliminação de cláusulas discriminatórias no direito da família, e no direito penal? Terá sido a exigência da criminalização da violação marital? Terá sido a exigência da criminalização dos maus tratos conjugais? Terá sido a exigência de que o trabalho doméstico fosse pago? Que para trabalho igual houvesse salário igual? ....) Qual das exigências das feministas de segunda vaga terá sido o(s) excesso(s)? Não sabemos o que querem as fundadoras do Maria Capaz dizer com aquela frase enigmática porque, ainda que a tenham explicado à autora do artigo, a revista não o esclarece.

Se estavam a pensar em queimas de sutiãs, convinha começarem por investigar um pouco mais acerca do mito da queima. Não há, evidentemente, garantias de que uma (ou várias) feministas não tenham nunca queimado sutiãs, mas, por cá, decididamente, nunca o fizeram. Não sei que excessos* é que as citadas se referem, mas a ideia de que foram as feministas a dar mau nome ao feminismo é coisa de fazer chorar, de tão perverso que me parece. Acredito até que não tenha sido essa a intenção das autoras, ou mesmo da diretora da revista ao afirmar que o feminismo «agora» é que é «relevante», «solto» (seja lá o que isso for) e «livre» - mas que a apropriação dos feminismos por parte da indústria da moda, moldando-o para ser um produto vendável, pode causar mais danos ao «nome» do que alguma vez antes, lá isso pode.

Para além de remeter para um mundo ainda mais obscuro as mulheres e os homens que lutaram pela igualdade, de forma pioneira e absolutamente corajosa, o maior perigo é, precisamente, o da confusão de que ser feminista é acreditar que as mulheres (ou a mulher, como tanto gostam de escrever no Maria Capaz, como se todas as mulheres fossem iguais e uma massa uniforme de gente. Aliás, sobre isto já a autora do 30epicos escreveu uma crítica contundente.) podem fazer tudo o que quiserem, como se a igualdade se resumisse a uma qualquer liberdade individual de uma mulher «mãe, profissional (bem-sucedida), consciente, empreendedora, reivindicativa, na medida certa, feminina, feminista (...)». Como se todas as mulheres partissem [e estivessem] do/no mesmo ponto.

Os feminismos partem de uma base comum, que é a do reconhecimento da existência de um sistema social de ordem patriarcal que prejudica mulheres e homens, com especial incidência nas primeiras. Os feminismos diferem nas abordagens que apresentam e nas soluções que preconizam para lutar (sim, lutar) contra as desigualdades (re)produzidas por esse mesmo sistema social.

Independentemente de que tipo de feminismos estejamos a falar, o objetivo é que uma pessoa possa tomar as decisões que entender sobre a sua vida sem ser prejudicada apenas porque é mulher. Alguns feminismos salientam outras categorias além do género (etnia, orientação sexual, orientação religiosa, aspeto físico, classe social, orientação política, nacionalidade, entre outras). Alguns feminismos centram-se em problemas globais nos quais acreditam que as mulheres podem ter um papel preponderante (ecofeminismo, p.e.). Há temas que dividem as feministas: a prostituição é um deles, a pornografia é outro, entre vários. Decididamente, há espaço para toda a gente e todos os contributos sérios e bem intencionados são desejáveis. A discussão, a reflexão e a (auto) crítica são pontos fulcrais de desenvolvimento de ideias e das suas concretizações. Convém, no entanto, que se tente não reforçar os estereótipos e a ignorância que se tenta combater.

everydayfeminism.com

Seja «novo» ou «velho», não há UM feminismo. HÁ FEMINISMOS 
(não sei qual das ligações "se inspirou" na outra, uma vez que têm conteúdos muito similares, ainda assim, a wiki parece-me mais completa).

*saliente-se, p.e., que a ação de feministas, usando máscaras a representarem cães, e que forçaram a entrada de um estabelecimento comercial, em Lisboa, que ilegalmente e impunemente, interdita a entrada a cidadãs, foi também apelidada de «excessiva» por parte de muita boa gente que se diz «humanista» e «defensora dos direitos humanos de homens e de mulheres».

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Men of quality do not fear equality

Ser mulher na Turquia.


Ter o azar de viver num país presidido por alguém com as visões do Tayyip Erdogan, acerca das mulheres e das relações de género, e ter a sorte de partilhar o país com homens que se insurgem perante a violência contra as mulheres, e solidarizam com a luta pela igualdade.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Em Portugal há 33 violações por mês

Em 2004, Susana Maria publicou a sua tese de mestrado sobre sobreviventes de violação. Durante a investigação, a Susana falou entrevistou polícias, médicos/as e sobreviventes - algumas das quais com denúncia e processo a decorrer, outras que optaram pelo silêncio e tentaram o esquecimento procurando apoio numa das Organizações Não Governamentais de apoio a vítimas e sobreviventes.

Henrique Monteiro

Uma das conclusões do seu trabalho é a de que é necessário um centro especializado para vítimas de crimes sexuais. Não, o instituto de medicina legal (IML) é tudo menos suficiente. Não, as ONG's não têm condições para prestar este apoio imediato e essencial. Como explicou uma das médicas entrevistadas à autora deste trabalho:

"Não existe um serviço especializado para atendimento a vítimas de violação. Não conheço nenhum hospital que o tenha. A mesma médica refere, ainda, ter algumas dificuldades em lidar com situações de violação: "não com as lesões físicas, mas para dar encaminhamento ou aconselhamento sim".

completa referindo "Nestas situações de violação a mais urgente é a criação de apoios imediatos, ou seja, apoio na crise (. ..), porque é a partir daí que a pessoa começa a organizar as coisas, os sentimentos, toda a situação; porque naquele momento eu penso que a pessoa não consegue entender a que lhe aconteceu conscientemente e, posteriormente, traz-lhe problemas [consequências mais tarde]. As pessoas deveriam receber esse apoio no momento em que são vistas pelos médicos.». 

Naturalmente, sabemos que muitas vítimas não são vistas por médicos/as. Sabemos que muitas não denunciam a ninguém ou que o fazem passado muito tempo. Para que todas as pessoas vítimas de crimes sexuais possam ter apoio na crise. Para que todas as mulheres - sim, há homens violados, mas a assimetria é abissal [mesmo considerando as violações intraprisionais] - possam ter apoio neste momento crucial.

É por sabermos que estes momentos são fundamentais para que a vítima possa gerir o momento traumático, que foi criada uma PETIÇÃO com a exigência da criação de um centro especializado no apoio a vítimas de violação. Para assinarem e divulgarem, caso concordem.


domingo, 23 de novembro de 2014

"Listeners of Atrocity"


Pergunto-me frequentemente como é que se consegue conhecer - no sentido de tomar conhecimento, ter notícia - a maldade humana e lhe sobreviver. Não falo de a experienciar, de ser vítima. Mas de testemunhar - ainda que indiretamente - essa mesma maldade. Jeanne Sarson e Linda MacDonald dedicam grande parte do seu quotidiano a ouvir vítimas de tortura [não estatal]; a descrição do «no gag reflex» foi apenas uma.


Jennifer McClure
«“No gag reflex.” This is a statement about the pedophilic crime of oral rape. One woman explained how her mother and father ‘trained’ her not to gag. Why? They were ‘preparing’ her for oral raping not only by her father but also for all the other insider like-minded torturers who were connected to her family. These were the ‘secret’ organized pedophilic in-house group or criminal ring. Additionally, Linda and I have also been told by those so tortured that their parent(s) frequently trafficked them to ‘client-perpetrators’ who wanted a child who was conditioned to withstand sexualized physical torturing. This is how one woman described her “no gag reflex” training;
Everything got twisted in “the family” - even food. For example, mashed potatoes were a very effective training tool. “The family” would stuff and stuff mashed potatoes into my mouth and throat, massage my throat while speaking ever so softly in voice tones that were trance and hypnotic-inducing. This exercise trained me to let the mashed potatoes slide down my throat without gagging, which taught and conditioned me not to gag during experiences of oral rape; something my father and others did very frequently to me.


Hoje, ao ouvir como é que uma criança lhes havia explicado que tinha o rosto negro por se ter magoado a jogar basebol, fechei os olhos por momentos, com força, na esperança de, de alguma forma, parar de visualizar o que elas me estavam a explicar que a criança mostrara quando lhe pediram para ela demonstrar como é que tinha jogado basebol. Alguém segurava o taco.... 

Não sei como é que se sobrevive a isto.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

#ElaporEla [Jessica Athayde]


"O que é que há de ERRADO nesta imagem?
ABSOLUTAMENTE NADA"
#Stopthebeautymadness & #ElaporEla

Até hoje não fazia ideia de quem é a Jessica Athayde. É uma atriz portuguesa. Em Portugal e, um pouco por todo o mundo ocidentalizado, há uma enorme conexão entre o mundo da moda e o mundo do espectáculo com as agências de modelos a enviarem regularmente para os castings televisivos e de cinema os/as seus/suas modelos. Isso sucede porque se privilegia a imagem sobre a formação em representação.

Esta lógica está instalada há tantos anos que muitos/as profissionais não questionam sequer a coerência ou a utilidade disto. Quando há uma década questionei a minha diretora porque é que ela pediu um apresentador a agências de modelos em vez de a escolas de teatro e de cinema, ela olhou-me perplexa e respondeu: «não me ocorreu tal coisa».

Quando se diz «as mamas dela estão a vender» a propósito de uma apresentadora com enorme dificuldade de articulação, percebe-se bem o papel que atribuem áquela pessoa. A televisão e os media são fábricas de produção de estrelas cadentes. No dia em que as mamas dela não venderem, ela cai. Porque ela É o seu corpo. Os homens têm um corpo, as mulheres são o corpo. E é sobre esta questão que a Jessica fala num texto em resposta às críticas que recebeu a propósito da sua participação num desfile de moda.

Claro que algumas críticas terão fonte feminina. As mulheres são rápidas a criticar o [seu] corpo e o de outras. Não porque haja alguma maldade particular em todas as mulheres [isso é coisa da Idade Média, ok? Já passou, podem guardar as ideias medievais sobre a malícia que habita o sexo feminino; embora haja, naturalmente mulheres más e mulheres que têm comportamentos que revelam crueldade isso não é uma característica extensível a todo o grupo de seres humanos do sexo feminino; portanto, viajem até à contemporaneidade: vão ver que vos vai fazer bem];

     também não acho que as considerações negativas tenham como motivação a inveja. Essa coisa do quem desdenha quer comprar é uma interpretação básica e duvidosa do processo de projeção [transferência para o/a outro/a o que nós fazemos ou queremos]. A inveja não explica tudo. Quando criticamos a rapariga que diz nos media que o seu desejo é ter uma mala da channel não é a inveja que origina a crítica. É um pouco mais complexo que isso. E sim, nada disto invalida que haja mulheres com inveja de outras mulheres, simplesmente nem todas as críticas têm como motivação a inveja.

As mulheres autopoliciam-se constantemente. E esse autopoliciamento implica também uma avaliação constante do corpo das outras mulheres. As capas das revistas femininas não são assim tão diferentes das capas das revistas masculinas e, no entanto, o público alvo é diferente. O olhar desses públicos também é diferente, apesar de todos/as avaliarem. E porque as mulheres são avaliadas não pelo que sabem fazer ou pelo que são, mas pelo que parecem, a avaliação sobre o corpo feminino é constante.

Jessica Athayde, num texto da sua página pessoal, convida as mulheres a resistir ao simplismo da redução da pessoa ao seu corpo. E eu estou com ela.


#Ela por Ela. 

& Claro, o 




sexta-feira, 11 de julho de 2014

# Stop the Beauty Madness




É claro que sim, que esta campanha merece mais do que uma imagem e uma ligação, mas o tempo escasseia. Não é apenas uma ideia à la Dove, como quando a marca mostra que há mais tipos de beleza do que os media nos mostram.
A #Stop the Beauty Madness não pretende apenas mostrar que há diferentes tipos de beleza e de corpos, mas sim questionar a importância da beleza nas nossas sociedades.  

sábado, 21 de junho de 2014

Audre Lorde e o nosso silêncio


«And of course I am afraid, because the transformation of silence into language and action is an act of self-revelation, and that always seems fraught with danger.(...).
In the cause of silence, each of us draws the face of her own fear - fear of contempt, of censure, or some judgment, or recognition, of challenge of annihilation. But most of all, I think, we fear the visibility without which we cannot truly live. (...). Because the machine will try to grind you into dust anyway, whether or not we speak. We can sit in our corners mute forever while our sisters and ourselves are wasted, while our children are distorted,while our earth is poisoned; we can sit in our safe corners mute as bottles, and we will still be no less afraid.»

Audre Lorde (2007).«Transformation of Silence» In Sister Outsider. Berkeley: Crossing Press, p.42


Este ensaio em particular, «Transformation of Silence», datado de 1977 é absolutamente atual e atinge qualquer um de nós, homens ou mulheres, que sustentamos nos nossos quotidianos silêncios, os nossos e os de outros, Exatamente por medo. 
Cada qual escolha o(s) seu(s).

Tem sido um verdadeiro prazer, conhecer a escrita de Audre Lorde. No que diz respeito a este livro, uma compilação de ensaios e discursos da poetisa (uso a palavra poetisa, sem qualquer desmerecimento. Os poetas não são maiores ou melhores do que as poetisas. As poetisas são mulheres, os poetas são homens. Nada mais.). Mulher, negra e lésbica, é realmente muito interessante ler uma voz que nos guia pelos meandros de uma tripla discriminação . E sim, é feminista.

segunda-feira, 2 de junho de 2014


Em 2014 ainda há tanta gente em Portugal que se confunde [que já não há paciência].





Acho que, juntamente com prostituta (sim, no feminino) feminismo(s) deve ser dos termos que mais confunde certas pessoas.
Ah, e já agora: insisto no plural: Feminismo(s). 
No entanto, a noção RADICAL de que as mulheres também são PESSOAS com direitos é comum a todas as correntes feministas.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Realmente, os/as portugueses/as já pagam tantos impostos... mas, felizmente, o "feminismo"* passa factura



«esta história do feminismo está-se a tornar ridículo [sic]... todos vamos pagar a fatura desta «ideologia de género», e não demora muito»

(comentário assinado por curto5litros, no JN, à notícia da apresentação de Helena Costa, treinadora do Clermont, à imprensa)

Thierry Zoccolan fotografa Helena Costa, uma das primeiras mulheres (a primeira terá sido Carolina Morace) a treinar uma equipa masculina de futebol profissional

*Pus entre aspas porque não há tal coisa como Feminismo no singular. Há Feminismos.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

sexta-feira, 13 de setembro de 2013



Fernando Alves canta Natália Correia

Espólio Natália Correia da Biblioteca Nacional

[e não lhe contemos os anos, pois a sua poesia - e ela - não têm idade, nem são marcadas pelo tempo]
E por ora, a imagem que quero registar é a dos traços da sua caligrafia.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

«Ele é muito atrevido! Agarrava-me e eu pensava: "Como é que eu vou escapar?"»

A afirmação é de Cuca Roseta, sobre o dueto com Julio Iglesias, plasmada na revista Lux Woman (e que abre o artigo sobre o evento). Esta afirmação é antecedida por: «Durante o dueto com Cuca Roseta, Julio Iglesias mostra que continua um sedutor».
A generosidade do ou da autora do artigo em considerar que estamos perante a confirmação das capacidades de sedução do cantor é óbvia. E ainda mais óbvia se torna quando se lê o texto na íntegra e o humor  com que toda a situação é relatada.
Então, a cantora, que «de forma divertida, refreou as intenções do cantor» que tentava, em cima do palco, beijá-la, afirma: «Ele é muito atrevido! Pensamos que ele é um galã charmoso, um senhor com quase 70 anos que respeitamos, mas ele acha que é novíssimo. Agarrava-me e eu pensava: "Como é que eu vou escapar desta situação de uma forma elegante? (risos). Mas foi giríssimo. Toda a gente se riu imenso e eu também. Até havia umas senhoras que diziam: "Não se ria, deixe, deixe."» 

Todo o teor do artigo é deplorável. Pelo depoimento da cantora que, aparentemente, desvaloriza uma situação de assédio desta natureza, pelo facto de ter acontecido em palco para gáudio das espetadoras que ainda consideraram um exagero a cantora não se deixar agarrar e beijar, pelo facto de considerar que era importante escapar de forma «elegante» às mãozinhas do porcalhão. A inconsciência da jovem está não só patente nas afirmações que reproduzi acima, mas também porque continua a achar que «foi uma honra enorme abrir o concerto dele» e que se trata de «um homem inteligentíssimo». Não surpreende que a cantora não identifique a situação com o que realmente é: assédio, abuso de poder, comportamento machista que deve ser violentamente repudiado e nunca normalizado. Não ficaria surpreendida se questionada com a possibilidade de alguma vez ter sido vítima de comportamentos machistas a cantora responda candidamente que não. Muitas mulheres não têm verdadeiramente consciência de situações que são, de facto, abusivas. E por norma, também respondem que não são feministas, são femininas. Mas o problema não fica por aqui, ou seja, pela total falta de consciência relativamente ao abuso.
Mais grave que as declarações da cantora é o tom do artigo (sem qualquer referência à sua autoria, já que só se identifica os autores das fotografias que o ilustram), que é verdadeiramente vergonhoso. Uma revista para mulheres redige este artigo desvalorizando por completo a noção de que estamos perante uma situação abusiva, chamando de sedução e charme o que não passa de machismo vil, comportamento absolutamente reprovável. Uma revista cujo público alvo são as mulheres continua a passar a mensagem de que é normal, risível, castiço até, que alguns homens tenham comportamentos destes. São charmosos. Sedutores. Másculos. 
Quanto a elas? Quanto às leitoras?É suportá-los com elegância. E palmas, claro.
Palminhas.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Amamentação - isto também é feminismo(s)

Eu e o meu companheiro tivemos um filho há quatro meses. Daí que este tema esteja na ordem do dia no que diz respeito à realidade dos nossos dias. E se sempre mantive os temas demasiadamente pessoais longe deste blog (pelo menos de forma tão explícita), abrirei exceção quanto a este tema.
Enquanto grávida, li muito do que havia para ler sobre o que me esperava, inclusive sobre amamentação. Conheci as recomendações da OMS, li muito sobre «conselheiras de amamentação», sobre o que funciona e não funciona, sobre o que se deve ou não fazer... 
Este é um post na ótica da utilizadora/provedora. Ou seja, ignora em absoluto a maior parte do que é conhecimento científico sobre amamentação e apenas partilha a minha experiência pessoal e as reflexões que tenho feito a partir da minha experiência.

1 - A amamentação não é fácil. Nem natural. 
Por muito que me dissessem isto durante a gravidez, nunca percebi bem o alcance destes avisos. De facto, nem o bebé sabe o que fazer nem é fácil e natural para quem amamenta. 
Para o bebé, a pega não é instintiva. Tem que ser dirigido e os compêndios explicam o que depois é muito difícil pôr em prática (até porque o bebé não os leu e também tem ele um papel fundamental no meio disto tudo).
Para quem amamenta, o processo é doloroso - muito doloroso.
E porque não se tem noção do que é consumido, e como o bebé tende a adormecer ao peito, nunca se tem a noção se está alimentado ou apenas vencido pelo cansaço. 

2 - Não existe mau leite. Mas existe pouca quantidade de leite - e não, o corpo feminino não é essa oitava maravilha que produz sempre tudo o que o bebé necessita, como se ouve e lê por aí. E a falta de leite não se resolve com o tradicional: ponha o bebé na mama. Apenas estamos a adiar o problema: o bebé continua com fome, choroso e a baixar perigosamente de peso. A mãe fica exausta, stressada, com os mamilos em sangue e com uma enorme vontade de fazer uma mastectomia. 

3 - As bombas extratoras de leite, os mamilos de silicone e toda a restante parafernália são, efetivamente, nossos amigos. Tudo o que promova a alimentação da criança e a manutenção da saúde da mãe é de louvar. Não é verdade que as bombas extratoras de leite macerem mais a mama que a boca do bebé e piorem a situação. Bem pelo contrário. 

4 - Não é verdade que as mulheres que amamentem e suplementem com leite adaptado, ou que simplesmente usem apenas leite adaptado o façam por preguiça (como tanto se lê e ouve). Só quem desconhece o processo de alimentação com leite adaptado pode considerar que é menos trabalhoso que a amamentação. 

5 - A amamentação não é um momento místico, em que ambos os envolvidos se sentem a flutuar com um processo de vinculação «extra-ordinário». A vinculação estabelece-se para além do ato de alimentar - e nesta equação, o biberão também é um veículo para a vinculação (ótima oportunidade para fomentar também o relacionamento pai-filho/a, avô/ó-neto/a, tio/a - sobrinho/a, etc.).

6 - A amamentação não torna as mulheres especiais (a maternidade também não, de resto). Ser mãe é diferente de ser pai, mas ser diferente não significa uma tábua de valores que eleve a maternidade a uma experiência sobre-humana . 

7 - Com o biberão certo, o bebé não corre o risco de recusar a mama. Esta é a minha experiência (optamos pelas tetinas da medela calm). Nada posso dizer sobre outras tetinas porque apenas usamos estas. Mas a verdade é que o nosso filho nunca recusou nem mama nem biberão. 

8 - Os bebés não precisam ser amamentados até aos 18 anos para serem saudáveis. Uma das razões porque nunca me dirigi a uma conselheira de amamentação é porque tenho lido muito do que escrevem por aí. E os fundamentalismos fazem-me sempre muita confusão. Quando se põe em causa, constantemente, o que é aconselhado pelos pediatras porque as «conselheiras» é que sabem... enfim, passo.

9 - Sabendo que o leite materno é precioso para, entre outras coisas, o sistema imunitário do bebé, importa não tornar a não amamentação como um crime perpetrado contra uma criança entregue a uma mãe negligente, preguiçosa e mal aconselhada 
(leio tanto isto por aí. Não tem leite? É porque foi mal aconselhada. Deixou de amamentar porque engravidou e não quis continuar a amamentar? É porque foi mal aconselhada. Incluiu suplemento porque o leite não era suficiente? É porque foi mal aconselhada).

 Esta insistência fundamentalista quanto à amamentação, a condenação das mulheres que optam por não o fazer, cheira-me também a tentativa de pôr as mulheres no seu devido lugar. Como sabemos, houve sempre tendência para tornar tudo o que diga respeito às mulheres como uma decisão coletiva em que elas tinham/têm sempre muito pouco a acrescentar. E isto de se acharem senhoras de si tem muito que se lhe diga...

terça-feira, 28 de maio de 2013

Quem são as mulheres que abortam?





E enquanto Espanha se prepara para restringir as condições de acesso ao aborto seguro e legal (ainda não se sabe bem em que moldes, já que há quem diga que a restrição irá ser total, e há quem jure que se manterá a possibilidade de interrupção em caso de violação ou em competição de interesses, leia-se mãe versus feto), alguém esclarece quem são as mulheres que abortam.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Who cares?


 «Não houve ejaculação da parte do arguido conforme as provas constantes dos autos. esse facto só por si devia servir de atenuante para o arguido.»

Mariel Clayton


Não ignoro que o dever de um/a defensor/a é o de assegurar a defesa - e uma defesa  justa e o mais eficaz possível - ao/à seu/sua cliente, mas, sinceramente, é mesmo necessário ser tão idiota?