Aos mais incautos navegantes deste blog chamamos a atenção para o facto de este ser, por excelência, um post de gaja! Se for impressionável (a este tipo de abordagem), aconselhamos a que respire fundo e evite a leitura do referido. Declinamos qualquer responsabilidade quanto a possíveis enfartes ou ataques agudos de "Macho não lê baboseiras". Considerem-se avisados.
Encontramo-nos no início do meu percurso naquele porto que me oferecia trabalho. Apanhou-o uma colega, numa rua, escondido por entre rodas e medos. Não tinha idade para estar sozinho na rua, muito menos pela noite dentro, quando deambulam cães menos simpáticos, atraídos pelo cheiro da inocência e desamparo.
Levei-o para casa e, durante dois dias, mal disse palavra. Comia, dormia e olhava para mim com aqueles olhos que vieram a revelar-se enormes. Começamos a fazer companhia um ao outro, já que estávamos ambos em terra estranha...
No dia em que mudei de casa, foi comigo e passamos a ser três; foi uma decisão concertada, na qual ele não teve voto na matéria, mas acolheu com o despreendimento que o caracterizava. Passamos para uma casa mais ampla, com jardim, e passou a estar acompanhado também por Nefertiti. Ficou feliz, porque sempre era mais uma divisão para investigar e o acolher quando se aborrecesse.Os dias na Ilha começaram

a passar mais rápidos.
Nunca perdeu alma de vagabundo, como se a aventura inicial o tivesse marcado a fogo. O mundo estava lá fora e sabia-o muito bem. Nenhuma de nós conseguia suportá-lo em casa quando se punha em lamentos, porque o chamavam. A vagabundagem meteu-o desde cedo em sarilhos. O espírito inquisitivo levava-o para territórios perigosos e certa noite voltou com ferida de guerra. Dois meses mais tarde, o inevitável - a curiosidade não matou o gato, mas roubou-lhe a cauda. Sem cauda e com um colar, arrastava-se vagarosamente pela casa , a que ficava na outra ilha, povoada por seres estranhos, como a outra gata, sempre altiva e de unha em riste. Dias complicados, em que nem conseguia passar a língua pelo pêlo, enfiar o focinho no aroma da terra e na comida que lhe caía no prato. Tornou-se melancólico.
O dia em que lhe retiraram o colar, foi, provavelmente, o mais marcante da sua infância. Recuperar os movimentos certeiros, a possibilidade de escapar-se à outra depois de se bambolear provocadoramente no focinho dela...
Cupido nunca aprendeu a lição. Foi um gato viajado, dividido entre duas ilhas. Nefertiti achava-o um gato delicado, com um miado que soava a francês, quando se propunha a seduzir uma das duas na esperança de mais comida no prato. Seis meses depois da perda da cauda, Cupido perdeu-se pelos caminhos de areia que o deveriam conduzir a casa. Desapareceu um mês. Graças à peculiaridade da falta que tinha, foi identificado certo dia, raquítico, a mendigar no parque de campismo da "cidade". Foi resgatado por Nefertiti, que nessa altura eu estava em serviço na outra ilha. Fazia a travessia de barco quando ela telefonou-me a anunciar o regresso do azarado compulsivo. Disse-me ela que o resgate foi comovente...
Depois disso, julgamos que a vagabundagem tinha ficado arrumada. Recusava-se a meter a pata fora de casa, provavelmente com medo que tornasse a não descobrir o trilho de volta. O sossego durou três semanas, que só não foram magníficas pela melancolia com que se postava à janela. Depois, decidiu-se e voltou a sair, pular para o muro e ir em busca dos outros como ele, da periferia. Nunca foi um animal tímido. De vez em quando trazia os amigos para casa, para partilhar o prato de comida que ele sabia farto. Outras vezes, trazia também os inimigos, perseguido pelas vielas felinas, refugiando-se em casa, distância de uma unhada.
Cupido acompanhou-me nos três anos em que estive na Ilha dentro da Ilha. Marcou o meu quotidiano muitas vezes aborrecido(e certamente também o de Nefertiti). Quando voltamos para casa, eu e ele, não suportou a ausência da areia, dos amigos que tinha nos telhados, do cheiro a mar mesmo ali. Cupido saiu um dia, como de costume, e não voltou mais.
A fechar...
De vez em quando tinhamos visitas expressamente para ele. Maria, do alto dos seus quatro anos, a ingenuidade aureolada pelos caracóis batia à porta e dizia-nos: "Vim ver o Cuspido".
(Trabalho de Mirek Dziewialtowicz)