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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Post-it de uma gata quase adormecida


Afinal não sou a única (e só por isso interrompo o meu longo silêncio, que já não vos visitava há que tempos). Mas voltemos ao assunto que me trouxe de volta ao teclado; ao que parece, a caríssima companheira para quem trabalha esta I. também não gosta de visitas de quatro. É para verem, para saberem o que nós sofremos. O meu perseguidor também era o demo, que eu bem sei que era, apesar de cá em casa começarem logo com o  "coitadinho, sem pai nem mãe". Insuportáveis, é o que vos digo, essa gatalha toda que nos entra pelo asseio dentro de pata estendida e com miaus de o "peixe para o povo". Mas não, comigo não, que sou gata desocupada, mas nada estúpida. Não há cá biscoitos para mais ninguém, nem lata para outros que não eu. 
Conselho à felina em apuros (peço imensa desculpa por lhe desconhecer o nome): ponha-o a mexer e reeduque as criaturas que trabalham para si. Coloque o proletariado no seu devido lugar, companheira de agruras. É que hoje dão um prato, amanhã dão-lhe cama e não tarda nada tem que dormir acompanhada. E mal acompanhada. Não se meta nisso, cara amiga. Ouça o meu conselho, que já cá ando há uns aninhos e tive uns quantos a rondar-me a propriedade. Xô gato!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Epístola de Kiara aos/às Bloggers

Há muito que não vos dou notícias, bem sei. É simples, ando envolvida numa causa maior. 
Ora espreitem lá o vídeo que se segue. É uma causa nobre ou não?


Imaginem o que conseguirei escrever depois disto. Por isso, caros/as leitores/as, a espera é uma virtude . Desculpem-me a brevidade, mas tenho sessão de fisioterapia. 
Com a vossa licença:
Kiara


domingo, 1 de agosto de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ó gato?

(a gata Deolinda)
Que fazes por aqui, ó gato? Que ambiguidade vens explorar? Senhor de ti, avanças, cauto, meio agastado e sempre a disfarçar o que afinal não tens e eu te empresto, ó gato, pesadelo lento e lesto, fofo pêlo, frio olhar! De que obscura força és a morada? Qual o crime de que foste testemunha? Que deus te deu a repentina unha que rubrica esta mão, aquela cara? Gato cúmplice de um medo ainda sem palavras, sem enredos, quem somos nós, teus donos ou teus servos? de Alexandre O´Neill

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Kiara mãos de tesoura


Mas sem a candura do Eduardo.
A expressão sagaz imediatamente antes do ataque não engana. Uma gata também se irrita e não é de ferro.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Epístola de Kiara às/aos Bloggers


Ora muito boa noite, caras amigas e amigos, ansiosos por notícias minhas.
Como muito bem sabeis, esfalfa-se a Woab diariamente por me dar cama, comida e pêlo lavado, o que não é fácil. É certo que sou adorável e de olhos que lembram os olhos dos S. Bernardo, mas com muito mais piada; afio as unhas sempre que posso (em locais menos próprios, é certo) a fim de cumprir com as minhas obrigações; trinco todas as ervas possíveis a fim de expulsar os pêlos que inadvertidamente engulo; percorro a casa com pezinhos de lá para não perturbar em demasia e tenho outros cuidados similares. Enfim, sou uma gata (quase) exemplar. Mas a verdade é que a minha conta bancária é inexistente e quando tenho que me deslocar ao meu médico de família, a Woab arca com as despesas da brincadeira que nunca é de pouca monta. Vai daí que eu, gata letrada e informaticamente activa, topei esta bonita e muito pertinente petição na caixa de correio da Woab - deixemos o pequeno pormenor de lhe andar a ler os mails para outra altura, que não estou com orelhas para admoestações - que solicita que despesas como as referidas (ida ao médico) sejam dedutíveis. Parece-me da mais elementar justiça. É assinar, caras/os amigas/os, é assinar!

Dedução de despesas com saude animal em IRS

Com gratidão,
Esta gata que vos adora.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cumplicidade ao rubro




Tem nove anos (feitos o mês passado) e já nem preciso balbuciar muita coisa; basta-me esboçar um gesto e - se a preguiça não for muita - percebe exactamente o que lhe (não) digo. É danada, a bichinha gata.





terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Comunicado aos fãs


Chegou-me às orelhas que alguns dos meus fãs mais dedicados têm manifestado aborrecimento pela minha falta de notícias. Não desesperem meus queridos. Apenas atravesso uma fase de adormecimento compulsivo. Sou felino cansado do descanso do dia-a-dia. Ultimamente, posto-me nas almofadas, em vez de postar no computador; tem-me parecido mais produtivo e agradável. Mas não deixo de vos endereçar estas generosas palavras e de assegurar que não vos manterei sem notícias. Contudo, atentai no seguinte: por enquanto, mantenho-me de licença sabática, por isso recuso este tipo de mundaneidades.
Tenho escrito.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Primeira epístola de Kiara a RPS

Caro amigo:
Pelos vistos sou a única gata que suporta. Assim, a dignidade felina e a amizade que lhe voto obriga-me a comentar o seu último post sobre as olimpíadas, que padece de algumas confusões conceptuais ao que nos diz respeito. Nada de grave, mas a sua inimizade quanto à espécie (que não é extensível a mim, bem sei) pode provocar este tipo de equívocos quanto às nossas preferências.
RPS, se há coisa muito pouco abichanada, são saltos para água (seja esta gelada, fria, tépida ou quente). Nós não a suportamos e, portanto, não andamos aos saltos sincronizados para dentro de uma tigela gigante. Queremos distância, na verdade. Tal perspectiva apenas origina reacções adversas: bigodes torcidos, ameaças guturais, arranhadelas estratégicas pautam a relação de um bichano com a criatura que o quiser amandar para uma situação destas. Portanto, não há treinador que valha, nem treino que miraculosamente ultrapasse esta fobia colectiva.
Quer saber de uma modalidade abichanada? A esgrima, como é óbvio. A aquisição do equipamento sai-nos francamente em conta, desde que não se ponham com a piada de nos apararem o(s) florete(s).

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Desassossegos 4 - Crónica de uma gata tramada


Ao iniciar este meu escrito, já deveis saber qual o meu estado de espírito. Mea culpa. Só vos escrevo quando acometida de grave crise: seja existencial ou não.
O que me traz hoje até vós é, garantidamente, uma tragédia: sou uma gata a descoberto. Apanhada em flagrante delito - que não em flagrante delitro; esse aconteceu logo após o meu primeiro mês de existência. Saídinha do meu quartinho de República Coimbrã, ainda mal segura nas minhas quatro patas, fomos a casa de uma amiga da Woab, ali mesmo ao lado. Fugiu-me a língua para a verdade e afiambrei-me a umas garrafas vazias de cerveja que estavam debaixo da mesa da cozinha: a consciencialização da minha vergonha! A risota das observadoras! Enfim, já lá vai e deixo-me de divagações. Dizia eu que fui apanhada em flagrante delito. Não será propriamente um delito maior. É assim algo pequenino, quase um pormenor. Mas era meu. O meu passe de mágica. O mistério por desvendar.
Fui finalmente apanhada a abrir as portas. Oh desgraça! O meu truque mais recôndito, o meu segredo mais bem guardado comentado displicentemente ao almoço, entre duas garfadas e goles de água, por aquela fulana que aqui aparece uma vez por semana e acciona aspiradores e outros elementos ensurdecedores. E ela, Woab, a ouvi-la atentamente. E eu ali, desesperada para que de repente, Deus misericordioso tornasse aquela cozinha numa nova Babel; que não se entendessem; que de repente a língua se tornasse estranha e que não se descodificasse as palavras proferidas. Ou então uma surdez súbita. Ou uma amnésia temporária. Mas nada. As palavras ressoaram e já não foi possível voltar para trás: Ela - eu - abre a porta no puxador. Estica-se toda e com uma das patas pressiona o puxador da porta.
O meu truque menor já conheciam. Quando encontro uma porta mal fechada, enfio as minhas delicadas patas no fio de abertura até desprender o trinco. Mas este! Este meu truque de escancarar portas exemplarmente fechadas era do desconhecimento total. Acabou-se a magia; as entradas em pés de lã e o espanto nos olhos dos outros. Acabou-se a descrença na minha capacidade de observação e de identificação do puxador como a chave para o outro lado. Tomam-me por perspicaz, senhores. Passei de engraçada a sagaz. Um horror. Agora não vão deixar-me em paz e vão querer que rebole e apanhe paus. Não tarda nada, vão exigir que ladre e obedeça. É que ladrar ainda posso pensar no assunto. Agora obedecer...

domingo, 9 de dezembro de 2007

Gostar de gatos é coisa para gente grande 4

"Tigre, Tigre, brilho ardente,
Lá nas florestas da noite:
Que olho, que mão traçaria
Tua feroz simetria?
Em que infernos, em que céus
Arde o fogo dos teus olhos?
Que fole o pôde soprar?
Que mão tal fogo agarrar?
E que braço, & que arte,
Pôde o coração talhar-te?
E quando a bater se pôs,
Que pés terríveis? Que mãos?
Que martelo? E que malha?
E teu cér'bro em que fornalha?
Que bigorna, ou forças tais
Agarram garras fatais?
Quando as estrelas raiaram
E o céu de pranto inundaram:
Sorriu ele ao ver-te inteiro?
Quem te fez, fez o Cordeiro?
Tigre, Tigre, brilho ardente,
Lá nas florestas da noite:
Que olho, que mão traçaria
Tua feroz simetria?"

William Blake

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Gostar de gatos é coisa para gente grande 3




Via correio electrónico

Pronto, o final é algo exagerado. Ainda assim, anda lá perto.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Gostar de gatos é coisa para gente grande*


"Enquanto bebé, esta gata nunca dormiu em cima da cama. Esperava que eu estivesse deitada, depois andava por cima de mim, considerando as possibilidades. Metia-se no fundo da cama, junto aos meus pés, ou ficava no meu ombro, ou esgueirava-se para debaixo da almofada. Se eu me mexia muito, mudava arrogantemente de lugar, mostrando a sua contrariedade. Quando eu fazia a cama, gostava de ficar dentro dela; e ficava, visível como uma pequena bossa, muito feliz, durante horas, entre dois cobertores. Se eu fazia festas na bossa, ronronava e miava. Mas só saía dali quando precisava.
A bossa mexia-se pela cama, hesitava na beira. Às vezes ouvia-se um mio frenético quando ela escorregava para o chão. Com a dignidade perturbada, lambia-se rapidamente, dardejando os olhos amarelos para os espectadores, que cometeriam um erro se rissem. Depois, consciente de cada um dos seus pêlos, colocava-se em qualquer outro centro de cena."
Doris Lessing, Gatos e Mais Gatos

Gostar de gatos é coisa para gente grande
*Bom, grande não será o termo.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Desassossegos 2 - Crónica de uma gata sitiada


Caros amigos:

Os meus dias continuam sombrios. Sou uma gata cada vez mais confinada aos meus aposentos que, apesar de não serem maus de todo, ainda assim não se comparam ao cheiro da terra, às águas sujas dos vasos de flores ou ao sabor incomparável das ervas de que tanto gosto. Há muito que perdi o travo do exterior, o cheiro e a memória da vida ao ar livre. Continuo entre portas, graças a esse mafioso de que há algum tempo vos deram conta.
No outro dia, o energúmeno apanhou-me numa das minhas raras incursões ao pátio; a aventura custou-me um bocado da perna traseira e por isso ando a antibióticos. Uma situação deveras desagradável e dolorosa, já que é absolutamente humilhante e desagradável enfiarem-nos metade de um comprimido nojento pela garganta. Eu bem esperneio contra a coisa e tento não engoli-lo, espumar até que já nada resista. Nada a fazer; apertam-me os bigodes até que engula em seco. Perdão, até que engula em comprimido.
Mas voltando ao causador dos meus piores pesadelos... A criatura é horrenda, com uma cabeça enorme e uma cauda que nunca mais acaba. Gordo, por vezes confundo-o com um texugo (sou uma gata informada, que tem um gosto particular pelos documentários do Odisseia). Adora ameaçar-me por entre os vidros e volta e meia aparece à porta só para que não me esqueça que ele anda por ali. Certo é que, por norma, não me aventuro sozinha.
Já não sei que faça para além de ficar entre portas e desabafar nas teclas do pc do andar de cima. É a única coisa que ainda me dá algum gozo, principalmente quanto a Woab também está a teclar. Tem muita piada tentar deitar-me em cima do teclado e destabilizar o texto todo, ou morder-lhe delicadamente os dedos que se movimentam. Uma gata tem que passar o tempo com alguma coisa, que isto de só comer e dormir não chega para mim (quase, mas ainda assim não chega).
Pois bem, dado que o meu problema persiste e parece-me que tem tendência a agravar, venho por este meio pedir a Vªs Exas (que toda a gente diz que, por andarem em duas patas, são muito inteligentes) o que devo fazer para me livrar da Besta!
Sem outro assunto de momento, agradeço desde já as vossas sugestões.

Kiara

PS: A única vantagem que o malcheiroso me trouxe foi a de, à força de ficar reduzida ao espaço interior, tornar-me perita na abertura de portas.
Mais um esforço e não tarda nada estou como vós. Em duas patas!

terça-feira, 16 de maio de 2006

Desassossegos



Anda com o terror estampado nos olhos enormes.
No início, tratou-o como trata a todos: a pontapé. Ou melhor, à unhada. O problema é que ele não se deixou ficar. Para além de retribuir, volta sempre.
É feio. Ou pelo menos, não toma conta de si. Anda sempre com um ar sujo, de quem viu água poucas vezes na vida. E ela, que é uma tipa asseada (num grau quase obssessivo, na verdade) não tolera - nem o aspecto, nem o cheiro. Depois daquele primeiro embate, fez por ignorá-lo. Deixou-o do lado de fora do vidro da porta, a observar-lhe os movimentos seguros, as limpezas, o sono. Na verdade, exibia-se para ele, atirando-lhe ao focinho a sorte de cuidar-se entre quatro paredes. Ele, do lado de lá, pacientemente a cozinhar o ódio, com a ameaça a rondar-lhe o olhar: "Se te apanho, estás lixada."
O confronto foi inevitável: primeiramente, numa das suas incursões despreocupadas pelos arredores. De repente, ele salta sabe-se lá de onde e ela só se viu a salvo em casa. Registou que tinha que ter mais cuidado.
Depois, aconteceu a porta ter ficar inadvertidamente aberta, porque ninguém previa a ameaça. Atacou-a em casa, completamente adormecida e, portanto, vulnerável. Precisou de toda a força e garganta para o empurrar dali para fora.
Mas ele volta. Sempre. Por vezes encontra apenas o vidro e ela sente-se confiante e até lhe lança um dos seus esgares de superioridade. Outras vezes tem azar e ele consegue entrar. Aí, tudo de novo, a luta para poder respirar, livrar-se dele, daquele cheiro nauseabundo que quase a faz perder os sentidos.
Sabe-o à espreita. Na esquina mais próxima. Que já não pode sair despreocupadamente para cheirar o aroma da terra e das flores. Sabe que tem que ter cuidado.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

O Cuspido da Maria

Aos mais incautos navegantes deste blog chamamos a atenção para o facto de este ser, por excelência, um post de gaja! Se for impressionável (a este tipo de abordagem), aconselhamos a que respire fundo e evite a leitura do referido. Declinamos qualquer responsabilidade quanto a possíveis enfartes ou ataques agudos de "Macho não lê baboseiras". Considerem-se avisados.
Encontramo-nos no início do meu percurso naquele porto que me oferecia trabalho. Apanhou-o uma colega, numa rua, escondido por entre rodas e medos. Não tinha idade para estar sozinho na rua, muito menos pela noite dentro, quando deambulam cães menos simpáticos, atraídos pelo cheiro da inocência e desamparo.
Levei-o para casa e, durante dois dias, mal disse palavra. Comia, dormia e olhava para mim com aqueles olhos que vieram a revelar-se enormes. Começamos a fazer companhia um ao outro, já que estávamos ambos em terra estranha...
No dia em que mudei de casa, foi comigo e passamos a ser três; foi uma decisão concertada, na qual ele não teve voto na matéria, mas acolheu com o despreendimento que o caracterizava. Passamos para uma casa mais ampla, com jardim, e passou a estar acompanhado também por Nefertiti. Ficou feliz, porque sempre era mais uma divisão para investigar e o acolher quando se aborrecesse.Os dias na Ilha começaram a passar mais rápidos.
Nunca perdeu alma de vagabundo, como se a aventura inicial o tivesse marcado a fogo. O mundo estava lá fora e sabia-o muito bem. Nenhuma de nós conseguia suportá-lo em casa quando se punha em lamentos, porque o chamavam. A vagabundagem meteu-o desde cedo em sarilhos. O espírito inquisitivo levava-o para territórios perigosos e certa noite voltou com ferida de guerra. Dois meses mais tarde, o inevitável - a curiosidade não matou o gato, mas roubou-lhe a cauda. Sem cauda e com um colar, arrastava-se vagarosamente pela casa , a que ficava na outra ilha, povoada por seres estranhos, como a outra gata, sempre altiva e de unha em riste. Dias complicados, em que nem conseguia passar a língua pelo pêlo, enfiar o focinho no aroma da terra e na comida que lhe caía no prato. Tornou-se melancólico.
O dia em que lhe retiraram o colar, foi, provavelmente, o mais marcante da sua infância. Recuperar os movimentos certeiros, a possibilidade de escapar-se à outra depois de se bambolear provocadoramente no focinho dela...
Cupido nunca aprendeu a lição. Foi um gato viajado, dividido entre duas ilhas. Nefertiti achava-o um gato delicado, com um miado que soava a francês, quando se propunha a seduzir uma das duas na esperança de mais comida no prato. Seis meses depois da perda da cauda, Cupido perdeu-se pelos caminhos de areia que o deveriam conduzir a casa. Desapareceu um mês. Graças à peculiaridade da falta que tinha, foi identificado certo dia, raquítico, a mendigar no parque de campismo da "cidade". Foi resgatado por Nefertiti, que nessa altura eu estava em serviço na outra ilha. Fazia a travessia de barco quando ela telefonou-me a anunciar o regresso do azarado compulsivo. Disse-me ela que o resgate foi comovente...
Depois disso, julgamos que a vagabundagem tinha ficado arrumada. Recusava-se a meter a pata fora de casa, provavelmente com medo que tornasse a não descobrir o trilho de volta. O sossego durou três semanas, que só não foram magníficas pela melancolia com que se postava à janela. Depois, decidiu-se e voltou a sair, pular para o muro e ir em busca dos outros como ele, da periferia. Nunca foi um animal tímido. De vez em quando trazia os amigos para casa, para partilhar o prato de comida que ele sabia farto. Outras vezes, trazia também os inimigos, perseguido pelas vielas felinas, refugiando-se em casa, distância de uma unhada.
Cupido acompanhou-me nos três anos em que estive na Ilha dentro da Ilha. Marcou o meu quotidiano muitas vezes aborrecido(e certamente também o de Nefertiti). Quando voltamos para casa, eu e ele, não suportou a ausência da areia, dos amigos que tinha nos telhados, do cheiro a mar mesmo ali. Cupido saiu um dia, como de costume, e não voltou mais.
A fechar...
De vez em quando tinhamos visitas expressamente para ele. Maria, do alto dos seus quatro anos, a ingenuidade aureolada pelos caracóis batia à porta e dizia-nos: "Vim ver o Cuspido".

(Trabalho de Mirek Dziewialtowicz)