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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Felicidade, Eternidade e Férias Grandes, segundo José Eduardo Agualusa


Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, 'e foram felizes para sempre'.
Isto depois de o Princípe casar com a Princesa e terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As princesas casam com os guarda-costas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, inevitavelmente, morrem. 
Apenas somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo dilatado no qual todas as coisas duram eternamente. Eu fui feliz para sempre em alguns breves instantes da minha infância, sobretudo nas férias grandes, enquanto tentava construir uma cabana suspensa nos troncos de um velho abacateiro. Fui feliz para sempre nas margens de um riacho tão humilde que dispensava o luxo de um nome, embora orgulhoso o suficiente para que o achássemos mais do que simples riacho - era o rio. (...) Fui feliz com o meu cão, o 'Moreno', fomos os dois felizes para sempre, correndo como loucos por entre a poeira dourada das tardes perpétuas, perseguindo rolas e coelhos, jogando às escondidas em meio do capim alto. Fui feliz no convés do 'Princípe Perfeito', numa viagem sem fim entre Luanda e Lisboa, lançando ao mar garrafas com mensagens ingénuas: 'A quem encontrar esta garrafa agradeço que me escreva'. Nunca ninguém me escreveu.
Nas aulas de catequese, um velho padre de voz sumida e olhar cansado tentou, sem convicção, explicar-me em que consistia a eternidade. Eu achava que era um outro nome para as férias grandes. (...)

Letters to Dead People
É isto a eternidade, senhor padre, é isto que perdemos depois que nos expulsam da infância. Passamos o resto das nossas vidas a tentar, desastradamente, regressar a este tempo. Tenho andado à procura de garrafas, com mensagens ingénuas lá dentro, em todas as praias do mundo. Não vale a pena. Nunca mais seremos felizes para sempre. Nunca mais teremos férias grandes. As mais belas estórias são aquelas que começam no fim e terminam no princípio. E depois, papá, que aconteceu depois? E depois, meu filho, o menino fez sete anos, ofereceram-lhe um cão chamado 'Moreno' e foram felizes para sempre.

José Eduardo Agualusa, 2002

Entre as vantagens de olhar para trás - atrás no tempo - estão as descobertas que não fizemos na altura. Passados dez anos, encontrei uma das garrafas que a criança Agualusa atirou ao mar. Apenas falta escrever-lhe.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Um rosto para a poesia



A fechar o dia, uma das minhas poetas preferidas, Maria Teresa Horta. Porque nestas comemorações as mulheres poetas não são lembradas e ficamos todas (as outras) mais sozinhas. 

INCITAÇÃO À FALA
Não é mais o espesso silêncio
que se cala
É o poema

Curto, turvo
incompleto na pele da página

que me incita à fala.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Cecile had been seduction itself in college....

Liang Su


The construction of a woman:
a woman is not made of flesh
of bone and sinew
belly and breasts, elbows and liver and toe.
She is manufactured like a sports sedan.
She is retooled, refitted and redesigned
every decade.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A História num instante - ou num instante, a História


Passados dois anos, a Nova Delphi publica um ensaio que resulta da investigação e reflexão de Violante Saramago Matos, bióloga, sobre o 20 de Fevereiro de 2010. 
A obra «resulta de uma interpretação crítica de acontecimentos passados e presentes, e reflete sobre a procura de novos caminhos. Não se esgota, nestas folhas, a solução dos problemas, mas se puder ser um contributo para avaliar realidades e corrigir erros, já terá merecido a pena escrever». 

domingo, 1 de janeiro de 2012

O Evangelho segundo Clarice

(Sabine Weiss)

«As pessoas se chocavam no escuro, toda luz desorientava cegando, e a verdade só servia para um dia. Todas as nossas dificuldades esbarravam logo com uma solução. Estávamos perdidos com as soluções que nos antecediam, para falar a verdade o mundo nos antecedia a cada passo.»
Clarice Lispector, A Maçã no Escuro, Relógio d'Água, p. 44

sábado, 10 de dezembro de 2011

A escolha é fundamental


Seus olhos se encheram de lágrimas. «Ingrata», pensou ele escolhendo mal uma palavra de acusação. Como a palavra era um símbolo de queixa mais do que de raiva, ele se confundiu um pouco e sua raiva acalmou-se.
Clarice Lispector, Laços de Família

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Boa Semana [de melancolia]





Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os Homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner, 1958

E isto é só o início



terça-feira, 27 de setembro de 2011




In a room where people unanimously maintain a conspiracy of silence,
one word of thruth sounds like a pistol shot.

Czeslaw Milosz



domingo, 28 de agosto de 2011

A ditadura é uma arte

Entrevista a Susie Orbach, na Revista Pública de hoje:

«Não há nenhuma mulher imune - eu não sou diferente. Abram-se os jornais, as revistas e há uma cultura visual que representa algumas mulheres icónicas — portanto há uma representação física — vezes e vezes sem conta. Depois, há uma constante auto-representação de mulheres que precisam de estar no centro do consumo, olhar-se a si próprias, apresentarem-se de certa forma, fazer determinadas coisas, ter 'este emprego' — como se o corpo e a pessoa fossem uma produção.»

Não deixa de ser curioso (para ser simpática) que a revista  tenha optado por, a par com a entrevista à Susan Orbach, colocar uma página de publicidade ao seu canal LifeStyle, que anuncia ser «um canal cheio de estilo e glamour que lhe mostra as novas tendências que vão melhorar o seu estilo de vida. Conheça em primeira mão a última criações de moda, os tratamentos de beleza e as personalidades mais badaladas.» 

sábado, 27 de agosto de 2011

O Direito é um mundo estranho

Rosie Hardy

O Direito é um mundo estranho. Subjuga e liberta, confina e abre horizontes, cria identidades e destrói-as. Não haverá talvez zona do seu discurso em que isto seja mais verdade do que a da formação de relações sociais de género, ou seja, produção normativa de hierarquias e propriedades nas posições e competências relativas de homens e mulheres.

Teresa Beleza in Clitemnestra por uma noite


terça-feira, 24 de maio de 2011

Um lançamento é para despachar

No átrio do Teatro Municipal Baltazar Dias, em meia hora, falou-se de Mulheres e Teologia. O pretexto, o lançamento do livro E Deus Criou a Mulher – Mulheres e Teologia. O convidado, Anselmo Borges, um dos organizadores do Congresso agora foi apresentado em livro. O contexto, a Festa do Livro do Funchal. 
Uma apresentação que estava agendada para as 17:30 mas que começou muito depois das 17:45, por ajustes de agenda de última hora. A eles voltaremos.

Anselmo Borges começou por chamar a atenção de que o/a leitor/a não pode esquecer o contexto histórico na leitura dos textos sagrados, que é perigosa quando literal. Assim, um/a leitor/a atenta está consciente que se tratam de textos que procuram responder à pergunta fundamental que é também a da religião, a saber, o quê ou quem traz liberdade e sentido último ao ser humano. E que, portanto, a finalidade das religiões e dos seus textos é trazer liberdade e não opressão e quando se tornam o seu inverso – quando se tornam opressão em vez de libertação, então deve ser posta de lado.
Deste modo, continua Anselmo Borges, uma hermenêutica feminista dos textos sagrados deve ser uma hermenêutica da suspeita, em que é preciso não esquecer que os seus escritores e intérpretes foram, ao longo, dos tempos, os homens, os varões. Assim, reiterou, uma hermenêutica feminista tem que ter uma leitura crítica da História e tem que ser uma hermenêutica da memória, que procura o lado esquecido da História, que vai para além da História dos vencedores porque são os que dominam o discurso. E a verdade é que durante muito tempo, a mulher não deteve qualquer poder.
Exortou também à reformulação dos próprios rituais religiosos, que influenciam a auto-identidade da mulher: batizada pelo padre, pelo bispo, pelo papa, em nome do pai, do filho e do espírito santo. É necessário desconstruir essa imagem masculina de Deus, porque «se Deus é masculino, então o masculino é divino, porque é Deus.»
É preciso não esquecer (como tem acontecido) que deus é assexuado e não a imagem patriarcal dominante, que é apresentada muitas vezes como opressora, autoritária; Deus Pai, que é juiz, rei e soberano.
Exortou ainda à urgência de que a crítica hermenêutica faça parte de todas as religiões, para que estas tenham capacidade de se reformularem em função do tempo em que estamos e não em função do tempo em que estivemos. E este trabalho é um trabalho de toda a humanidade, porque de direitos humanos se trata - «nada daquilo que é humano me é estranho». E lembrou Kant que, já no século XVIII,  considerou que o ser humano deve ser sempre um fim em si mesmo e nunca um meio.

Finda a apresentação, o ajuste de agenda  proibiu questões ao público (que só depois veio saber porque não havia sido aberto espaço para debate) e convidou o autor a abandonar a mesa em que assinava livros aos/às assistentes que o solicitavam, pelo que a tarefa que teve continuar em cima do joelho, ao fundo da sala. 
Ao que parece, o ajuste de agenda apenas disse respeito ao lançamento deste livro. Tudo o resto, continuou placidamente na mesma. 

sábado, 14 de maio de 2011

«E morderam-se as bocas abrasadas»*

Na história da nossa poesia, há traços de injustiça que teimam em desenhar os contornos da nossa (falta de) memória.
Judith Teixeira, a mulher desavergonhada cujos poemas Marcelo Caetano se gabou de queimar é continuamente lançada na fogueira do nosso esquecimento. Essa poeta de Sodoma, que juntamente com António Botto (com Canções) e Raúl Leal (com Sodoma Divinizada), acendeu a pira do jovem Marcelo, indignado com a versalhada ignóbil que empestava a sua cidade - o mesmo Marcelo Caetano que, sensivelmente 50 anos depois, tentaria queimar essa outra papelada imunda que empestava o seu País, as Novas Cartas Portuguesas, da autoria das três Marias (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa).
Voltemos a Judith Teixeira, mulher poeta que nos anos 20 do século passado desafiou com a sua obra poética e incendiou a veia inquisitorial do que se avizinhava. Arrisco dizer que se não foi ainda devidamente resgatada, tal deve-se ao facto de ainda hoje não se perdoar a uma mulher ter escrito o que escreveu na época em que o fez. O cânone continua a sacrificá-la e Castelo de Sombras, Decadência e Nua, continuam a sustentar o peso das cinzas do esquecimento.

Adeus
Sim, vou partir.
E não levo saudade
de ninguém...
Nem em ti penso agora!...
Julgavas que a tristeza desta hora
fosse maior que a firme vontade
que eu pus em destruir
o luminoso fio da ternura
que me prendia ao teu olhar?...
Julgaste mal;
Eu sei amar,
mas meu amor,
o que eu não sei,
é ser banal!
(...)

*Do poema Perfis Decadentes



sábado, 7 de maio de 2011

A Voz [feminina] Humana

Não é certamente por acaso que a primeira parte de 'Maina Mendes' é consagrada à automutilação da voz. Poucas coisas foram oferecidas com mais condescendência ao sexo feminino do que a palavra como glosa infinitamente reversível e nula de uma situação que podia suportar «falando-a», com a condição de não a transformar. (...)

Solve Sundsbo

É [essa] palavra absoluta, por sua, que Maina Mendes reclama, herdeira de séculos de silêncio e de ira sob eles soterrada, fazendo própria e grosseria libertadora que da rua masculina sobe até à sua janela de prisioneira carregada de asas precoces e de sonhos de «atilada fêmea». (...)

A mudez de Maina Mendes é negação de negação, um refluir mágico para o ponto zero a partir do qual poderá, mais tarde, inventar a fala, nem masculina, nem feminina, apenas autónoma e soberana, que os homens usufruem sem riscos e desde sempre, por «direito divino». 

Maina Mendes, o romance, é justamente a epopeia, muito portuguesmente elegíaca, da invenção dessa fala, a sua inevitável e magistral recuperação.

Eduardo Lourenço, 1977, sobre o romance Maina Mendes, de Maria Velho da Costa

terça-feira, 5 de abril de 2011

Festival Literário da Madeira - a Fotografia de Família


«A arte parece ser o desejo veemente de decifrar ou procurar a pegada deixada por uma forma perdida de existência. Testemunho de que o homem gozou alguma vez de uma vida diferente.»
Maria Zambrano, A Metáfora do Coração E Outros Escritos, Assírio e Alvim, p. 42

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Confissões Festivaleiras

Quem lê este blog há algum tempo - e atende a quem assina os posts - sabe que sou moça para figuras lamentáveis. A ter uma boa memória, o encontro infeliz com o pai do Centro das Artes da Calheta deveria despoletar um pico de timidez confortável (para além da que já é habitual), que impedisse esta infeliz escriba de renovar certas figuras muito tristes. Mas se há algo que me caracteriza é a pobreza da memória que permite que, em tão curto espaço de tempo, repita a proeza.
Um festival com trinta escritores é uma experiência alucinante - para agudizar os sentidos, relembrar paixões e, num registo muito mais mundano, para a conta bancária (a perigar os últimos dias deste mês que ainda vai no início); uma banca de livros num festival literário é um verdadeiro assalto (quase) à mão armada e um perigoso estimulante para comportamentos compulsivos.

Ler é sempre um ato de injustiça. De cada vez que escolhemos um livro numa livraria e não o do lado, cometêmo-la em relação ao autor que ficou abandonado a outra sorte. Não foi a primeira vez que ouvi falar de Afonso Cruz; na preparação do Festival, tratei de conhecer o percurso dos intervenientes, mas a sinopse não me preparou para o que viria. Não lhe reconheci o nome, mas reconheci um dos seus títulos; há muito que lia sobre este livro, mas o nome do seu autor permaneceu obscurecido por qualquer mecanismo de defesa (da minha carteira). No segundo dia do Festival, vi os seus livros na bancada da Bertrand mas, como é (injusto) hábito, resisti-lhe. Escolhi outros, comprei livros para oferecer a algumas alunas (tive a graça de ter alunas a assistir a algumas mesas do Festival). 
O Domingo e a mesa subordinada ao tema "Os Escritores Esquecidos" (excelentes intervenientes) fizeram-me querer ler Afonso Cruz. Nada de grave, uma benção até, porque adivinhar afinidade com a escrita de alguém é sempre um pequeno milagre. Mas não contente com a compra do título que lhe conhecia - A Boneca de Kokoschka - encomendei a voz amiga que lhe solicitasse assinatura por e para mim (esta minha impossibilidade de me dirigir naturalmente às pessoas que não conheço tem destes inconvenientes.) E lá estive frente a frente com o autor que não li, num triste papel de justificar a minha ignorância perante a sua escrita e o meu fascínio pela palavra acabada de dizer. Leitura a iniciar assim que abandone a literatura que tenho em mãos - as cerca de 50 fichas de avaliação que aguardam pela minha justiceira mão.

domingo, 3 de abril de 2011

O Festival Acontece 6

Na última mesa, Os Escritores Maltratados, Graça Alves lança o repto para que os/as escritores/as da Ilha possam finalmente atravessar o oceano e Pedro Vieira* manifesta profunda admiração pela escritora que ainda não está traduzida para Português (Margarida Rebelo Pinto). Mário Zambujal fala-nos por um lado dos maus tratos à liberdade da palavra e por outro do sarau  de ontem, que teve toda a poncha e circunstância.


*E ninguém para fazer bonecos na plateia!

O Festival Acontece 5

Sobre Escritores Esquecidos, Antonio Scurati abre as hostilidades com uma reflexão sobre a palavra (do perigo do esquecimento da palavra) numa realidade política que privilegia a imagem.

O Festival Segue Dentro de Momentos


O sono não tem sido muito, mas a insónia tem valido a pena - como atesta o sorriso de valter hugo mãe ao apanhar o Rui Zink (entre outros) numa pequena, mas intensiva, recolha etnográfica:

sábado, 2 de abril de 2011

O Festival Acontece 4

Os Escritores Inconstantes e os ouvintes resistentes (muitos). Raquel Ochoa mata-nos ao afirmar que "normalmente aquilo que procuramos no amor é aquilo que ele não tem para nos dar." Não só, mas também (acrescento eu).