domingo, 24 de janeiro de 2010

Dit D'un Jour

Pour cerner d'un peu plus de tendresse ton nom

(Paul Éluard)

Faça-se a sua vontade

Anda tristonho, o Funes, que  rememora os tempos em que se deparava com o prazer secreto de uma frase - ou mesmo duas -  de Derrida, aqui no blog que seja seu.  É que aqui não é pecado, não precisa tocar nas bordas do livro ou sequer abri-lo. Apenas passar os olhos, como quem não quer ver ou ler, com a desculpa perfeita de eu o obrigar a deparar-se com tais textos indecifráveis. É verdade que nos últimos tempos não tenho trazido até aqui (que é como quem diz, até ao Funes) nada que (lhe) permita a degustação lenta e pouco culposa que reclama.
Assim, porque não o quero triste, ainda por cima hoje, cá vai um excertozinho com dedicatória:

"Quando me comprometo a dizer a verdade, comprometo-me a repetir a mesma coisa, um instante depois, dois instantes depois, no dia seguinte e, de certo modo, por toda a eternidade. "
O Gosto do Segredo, p. 97

Mais calminho agora?

Lullaby de Domingo


Bom dia.

Everybody knows
The dong that silence sings
And this was how it goes


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ó gato?

(a gata Deolinda)
Que fazes por aqui, ó gato? Que ambiguidade vens explorar? Senhor de ti, avanças, cauto, meio agastado e sempre a disfarçar o que afinal não tens e eu te empresto, ó gato, pesadelo lento e lesto, fofo pêlo, frio olhar! De que obscura força és a morada? Qual o crime de que foste testemunha? Que deus te deu a repentina unha que rubrica esta mão, aquela cara? Gato cúmplice de um medo ainda sem palavras, sem enredos, quem somos nós, teus donos ou teus servos? de Alexandre O´Neill

domingo, 17 de janeiro de 2010

...

Man Ray (Emanuel Rabinovitch)
In loco: "Casa das Mudas", Calheta (Madeira)
Alinhar ao centro

Como elas passaram por ali


E a isto se chama, com sobranceria paternalista, de divertimento. Porque há História e História. E alguma não interessa nada que se documente e inscreva nos anais.

(vídeo roubado no Jugular)

Lullaby de Domingo


(Lorenzo Mattotti)



Bom dia.

sábado, 16 de janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Não sei o que fazer com isto

"Mulher minha, se me enganar, leva um tiro a meio da testa", ou "as mulheres só chulam os homens", "se uma mulher trabalhar depois anda pelos cafés e não quero uma mulher jogada aos outros" "Eu não digo mulheres como a professora, que são estudadas" e poderia continuar. Tem 17 anos, uma Mãe que alimenta estas sentenças e eu não sei o que fazer com isto.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A Manifestação dos Impotentes, 18 Janeiro 1975, Expresso

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"Por outro lado, ficou ali publicamente demonstrado que numa sociedade com a portuguesa o proletariado feminino tem uma grande (e sem dúvida longo) trabalho a realizar. Nesta sociedade onde, com o maior dos à-vontades, se proclamam como conquistas elevadas aumentos de salários onde, para trabalho igual, as mulheres recebem dois terços dos dos homens. Nesta sociedade onde a mulher que se permite uma elementar independência é, potencialmente, uma puta. Nesta sociedade onde, sistematicamente, a mulher se encontra na mó de baixo. É precisamente esta sociedade filha da puta que o proletariado feminino precisa de lançar à cara dos honestos cidadãos e cidadãs que nela escondem a sua impotência e podridão inconsciente. Porque "na História, como na Natureza, a podridão é o laboratório da vida".

Nunca se queimaram sutiãs no Parque Eduardo VII

A história também se faz de mitos e mentiras que passam a factos sem nunca terem ocorrido. A memória é um processo que tende a ser trapalhão, com falta de rigor, a tropeçar nas nossas vontades e/ou receios.
Em Janeiro de 1975, o Movimento de Libertação das Mulheres (MLM) convoca uma manifestação no Parque Eduardo VII, na qual se previa a queima de vários símbolos da opressão das mulheres portuguesas, os quais incluiam tachos e panelas e um código civil, livros de autores machistas, entre outros (não li em parte alguma que os sutiãs estivessem incluídos). O que se terá passado, segundo testemunhas, foi vergonhoso. Uma contra-manifestação esperava as mulheres, talvez para lhes lembrar que a liberdade quando nasce, nem sempre é para tod@s. Num artigo de opinião, no Expresso, Júlio Henriques é claro: "Paradoxalmente, a esta manifestação responderam não as mulheres (em número mínimo), mas os homens. E a manifestação original (a convocada) transformou-se numa outra: a dos impotentes. A dos que têm como valores sagrados a sagrada trilogia 'trabalho, família e pátria (a que, em versão lusitaníssima, se deve acrescentar: deus). (...) Homens, jovens e de meia idade, que na miséria feminina não vêem senão a miséria, sem ver nela o seu lado subversivo - e muito menos a sua própria miséria de escravos assalariados". A UMAR relembra (mais uma vez) o evento.

"Elas entraram por aqui"

No dia em que se assinala 35 anos passados desde que a primeira manifestação feminista aconteceu, a UMAR retornará ao local do crime a fim de colocar os pontos em alguns i's:
Relembrar o opróbrio que constituiu a reacção de muitas pessoas que ali se reuniram para as insultar e vilipendiar. Desde então, fala-se nos soutiãs que (NÃO) foram queimados, em jeito de caricatura sobre o ocorrido (e que se tivessem queimado, que cada um responde pela sua própria roupa interior). Fala-se do que não aconteceu para ocultar o que de facto se passou: uma manifestação de mulheres que se viram, uma vez mais, agredidas em função das suas reivindicações que apenas reclamavam o óbvio: o fim das discriminações relativas à Mulher que o 25 de Abril não tinha reclamado.

*No Parque Eduardo VII, hoje, pelas 12h e 30min.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O dia não foi dia



Raúl Perez, claro 
(e sim, pela segunda vez no blog, mas tem mesmo que ser)

 Somaram-se horas nas paredes do edifício cor-de-rosa. E a porta ali mesmo, escancaradamente interdita pelas horas, as horas, uma pilha enorme de horas.

E já que está(mos) em Estádio de Sítio...

Podemos ir um pouco mais longe e imaginar o escriba a cantar a plenos pulmões "All By Myself" (deixo à vossa consideração qualquer outro exercício de imaginação).

Boa Semana

(na ordem do dia)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Por que razão não caem os céus?

Que fazer quando queremos escrever sobre algo e as palavras não são generosas connosco? Com frequência cada vez maior sou apenas tomada pelo assombro das experiências e sobre elas pouco consigo verbalizar. Emudecida. Pior - desapalavrada (permitam-me a liberdade, mas se me escapam posso também traí-las). Tudo isto porque queria aqui deixar algo em defesa de Ágora, que fui ver ontem, e não encontro a forma de o fazer. É que é difícil  não calar o aperto que senti ao ver estantes substituídas por estábulos, gente estrangulada por (em nome de) deus ; que me entendam, refiro-me àquele momento específico em que  queremos chorar copiosamente, soltar a angústia estrangulada na garganta e nada sobrevém a não ser uma tímida lágrima (ou duas) discretamente limpa na abençoada escuridão.
E naquela sala evoquei não só Hipátia (de que quase nada é sabido), mas também Sócrates, Tomás Morus, Tomás Campanella, Giordano Bruno, Galileu, Espinoza, Olympe de Gouges, Simone Weil e tantos/as outros/as que tiveram a coragem que a maior parte de nós, em circunstâncias semelhantes, seríamos incapazes de ter.

E agora, como então, com aflitiva persistência se ouve a secular e perigosa pergunta: afinal de contas, para que serve o conhecimento se não tiver utilidade imediata?

Cogitações avulsas de uma esquerdina

O elevado nível que tem pautado os posts sobre a vitória do novo líder do PS - Madeira diz muito do que por aí vem. Riem-se muito, dizem eles/elas. É um bonito e elevado espectáculo.