terça-feira, 6 de novembro de 2007

"Mãos que falam"



Já sei dizer os dias, os mês, os números e outras palavras.
Acho que hoje vou aprender o alfabeto! Estou ansiosa.
Estou a gostar muito de aprender esta língua(LGP).

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

por falar em Educação, conceda-me esta dança!

JÁ NÃO ME AMAS?


A minha vizinha tem dois rapazinhos que, como todas as crianças normais, fazem birras, dão gargalhadas, lutam e gritam muito.
Ouço também as sucessivas repreensões da “mãe educadeira” e, logo a seguir, a choradeira habitual de uma das crianças.
Este festival sonoro é só aos fins-de-semana, e só quando estou ou vou à cozinha. Mas o mais engraçado disto tudo é quando o menino (não sei qual, pois nunca os vi!) vai interrompendo o seu choro contestatário para se certificar de algo que o preocupa ou, melhor, o desespera: “ MÃE, TU JÁ NÃO ME AMAS?!”. Nessas alturas, saio sempre da cozinha a correr para não ouvirem as minhas gargalhadas.

Da voz na escrita - uma audição a partir de um texto de um (antigo) professor

"O estilo é portanto o lugar onde aparece o autor. E é-o pelo que há nele de propriamente técnico: uma certa maneira de tratar uma matéria, de reunir e ordenar as pedras, as cores ou os sons para fabricar o objecto (...)."
Mikel Dufrenne
Abro-lhe as páginas. Inicio a leitura, lenta e compassadamente. Deixo de me ouvir. O soar da palavra é já dele, das aulas e comunicações que lhe ouvi. Já não leio. Escuto. O discurso anima-se. Vejo-o sentado, a desaparecer lentamente na cadeira por oposição ao entusiasmo que emprega às palavras. Ouço-o dizer o texto, com as pausas que lhe são características, as de quem procura no último momento pelo termo certo. Só faltam mesmo as piadas, a servir de intermezzo.

domingo, 4 de novembro de 2007

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicamente ao missionário da cozinha que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para a rua. Quem sabe o que isso quer dizer? Eu não sei, e foi comigo... (...) Sei isso muitas vezes, Mas, se eu pedi amor, por que é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria? Não é prato que se possa comer frio, Mas trouxeram-mo frio. Não me queixei, mas estava frio, Nunca se pode comer frio, mas veio frio. Álvaro Campos

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Pérolas a porcos

"(...) Como a vida seria bela e a nossa miséria suportável se nos contentássemos com os males reais e não prestássemos ouvidos aos fantasmas e aos monstros do nosso espírito."
jjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjgkiggtiugg
gkuguguifui
A Sinfonia Pastoral, André Gide

Ele está de volta.


E eu aplaudo exaustivamente.
(imagem retirada daqui)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

"Uma coisa é uma coisa" que é outra completamente diferente.


Corro o risco de me tornar repetitiva, ano após ano, mas não resisto a meter a colher nessa história dos rankings das escolas. Depois de todas as análises exaustivas, das comparações, justificações, altercações e sabichões na matéria...
Só a título de exemplo, no DN (25 de Outubro de 2007), reportagem exaustiva escola a escola. Na escola onde lecciono, a CIF (classificação interna final da disciplina) de Psicologia B é comparada com a NE (nota de exame) a Psicologia (programa antigo). Note-se que os alunos concorrem só com a nota de exame, já que estamos perante disciplinas cujos conteúdos programáticos são diferentes. Ora, este caso é muito óbvio. Mas já agora, parece que não é tão óbvio para os analistas de ponteiro em riste que os rankings quando apontam CIF's e NE's, referem-se a avaliações radicalmente diferentes: por um lado, a avaliação efectuada ao longo do ano, com múltiplas provas, trabalhos individuais, trabalho na sala de aula, em casa. Por outro lado, temos os resuldados de um exame de 120 minutos.
Considero que os exames são um instrumento a fomentar. No entanto, os apologistas deste tipo de comparações parecem-me pouco dotados de inteligência, já que nem conseguem perceber as diferenças essenciais entre diferentes instrumentos de avaliação. Por outro lado, candidamente apontam a sábia batuta aleatoriamente entre colégios públicos e privados, com diferenças sociais brutais. Será muito diferente o contexto de um aluno cujo encarregado de educação pode assegurar uma mensalidade de 400 euros de um outro que tem que trabalhar nas férias para sustentar os estudos ao longo do ano (casos destes existem mais do que gostamos de admitir).
Mas enfim, eles lá (a) sabem (toda).

Pintura de Max Ernst

domingo, 28 de outubro de 2007

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Levava ele com o jarrinho

Pena que o jarrinho Tenha caído ao chão. Assentava melhor Na fronte do rapaz Que correu atrás Da menina que levava a fita Para ir bonita.

Paradoxos... 2


Os locais de trabalho são sítios estranhos. Com estranhos que partilham mesas, cafés e sobretudo, rotinas. Nas escolas, os toques de saída e entrada encerram malevolamente minutos de perfeita imbecilidade, trocados a um balcão ou a uma mesa de café.
Em Janeiro, acabam-se as salas de chuto que, de certo modo, até agora têm preservado os seus frequentadores das enchentes engalfinhadas em conseguir uma mesa, ou das conversas sobre nada: das crianças impossíveis, das odiosas, das brilhantes, dos maridos, das mulheres, filhos e filhas, netos e netas, genros, cunhadas, sogras. Dos namoros dos miúdos, das querelas, das disputas, dos horários, apoios, clubes, projectos... Um burburinho ensurdecedor.
É claro que é sempre necessário passar pela fila interminável da compra do café, a espera tremenda pela senha e pelo serviço lento de quem tem apenas duas mãos em luta com cem que lhes estende as senhas.
No meio de tudo isto, destacam-se os paradoxos. O paradoxo, neste contexto, é um conceito que engloba os tipinhos de mãozinhas pegajosas. De labiozinhos apertados pela lascívia e gulodice. Lambões de olhos miudinhos, a denunciar a jarretice. Em quase todos os espaços, suponho que se encontrem personagens destas que instintivamente nos fazem limpar as mãos depois de os cumprimentar.
O título do presente post tem um duplo sentido: segundo post sobre Paradoxos desta natureza. E também porque, pelos vistos, por vezes andam aos pares. Dupla calamidade. Passam os anos a saltitar por entre escolas, a formar quem está efectivamente em sala, munidos de projectos manhosos que apenas servem para entreter. Passeiam por entre corredores a santa idiotice, srs. inspectores da treta, incompetentes que só papagueiam sobre competências e ped(em)agogias. E entretanto, o elogio fácil dos tipinhos que se julgam inteligentes e confortavelmente camuflados pelos anos que já lhes pesam nas carecas. Enfim, lá vão sendo (in)suportáveis, por dois ou três dias, que mais que isso é humanamente impossível.

Pintura de Ignacio Lloret

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Deolinda

Estou numa de sugestões. Grupo catita, para dizer o mínimo, cheio de energia e piada. E que melhor nome para fadista do que Ana Sofia Bacalhau?!? A Shakira de Alfama, com a anca mais bombástica do fado português!!! http://www.myspace.com/deolindalisboa P.S.- Pensava fazer esta sugestão daqui a uns dias. Mas foi antecipada de modo a evitar penas eriçadas...

domingo, 21 de outubro de 2007

Lullaby de Domingo

Day off. SILÊNCIO, por favor.

Retratos do Portugal de Salazar. Anos 60



"Quando me pergunta acerca da discriminação... é o medo de andar na rua sozinha, e não é o medo de ser assaltada, é um medo muito pior, que é o medo de ser visto como um naco de carne, é o medo de não ser visto como um Ser Humano. As mulheres não eram vistas como seres humanos em Portugal. Eram objectos da concupiscência dos homens que eram totalmente frustrados sob todos os pontos de vista, e portanto, a única coisa que tinham na cabeça era sexo. Se calhar na vida também não tinham, mas na cabeça... era uma coisa completamente insustentável."

Diana Andringa


O dia internacional contra a violência machista comemora-se a 25 de Novembro, mas deveria ser relembrado todos os dias.

sábado, 20 de outubro de 2007

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Ora dá cá um beijinho...

...pediu ele a babar pelo canto dos lábios. Viam-se todos os dias, na aterradora fila para o café que se tornava insuportável nos intervalos. Ela não sabe bem o que fazer. Tenta recuar, ele já se aproxima, beiçolas ameaçadoramente em riste, certeiramente apontadas para as suas bochechas. Rende-se à situação e, resignada, obriga-se a aceitar o cumprimento baboso do patético homenzinho. Ele agarra-lhe no braço, como que a assegurar que os lábios assentem exemplarmente nas faces dela, um beijo carregado da espuma que lhe enche os beiços. O mo(vi)mento prolonga-se para a outra face. A criatura, matemático de profissão, tem problemas com o cálculo; elenca um, pespega-lhe dois. Dupla agonia. Instintivamente, limpa a face conspurcada; só lhe ocorre ripostar com "Pois é, não nos vemos todos os dias." E ainda bem, acrescenta mentalmente.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Lullaby a Z.

Para ti. Estivemos juntas há um ano. Deixa-me evocar o teu nome como se cá estivesses.

Bem pelo contrário.

Alguém culpa-a por ceder à demência graças à obrigação contratual de partilhar uma cama com um desconhecido? Já que estamos nisto, evoquemos essa outra, Tosca, que beija com punhais. So what? Palavra de feminista.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A Paixão Segundo Clarice

Muitas vezes, quando assaltada pela angústia, consulta Clarice. Tacteia o livro, sente-lhe primeiramente a textura, toma-lhe o cheiro para finalmente soletrar (como quem não sabe ler) o título. Degusta-o lentamente, letra a letra. O livro da paixão é a sua superstição. Abre-o e procura pelas palavras que lhe atenuarão a insónia. Sorri mentalmente quando as descobre: "Não que eu estivesse presa mas estava localizada. Tão localizada como se ali me tivessem fixado com o simples e único gesto de me apontar com o dedo, apontar a mim e a um lugar."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.