segunda-feira, 15 de outubro de 2007

"A Relíquia"


Há uns sete anos, o meu pai disse-me:
- Ofereço-te. Este canivete anda sempre comigo, mas agora é teu. Podes vir a precisar. Guarda-o.
Nunca utilizei o canivete, mas quando abro a gaveta das facas da cozinha vejo-o e lembro-me sempre desse episódio com muito carinho.

Associar um canivete a um acto de ternura é um pouco estranho, mas pode acontecer.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

As mãos dos pretos


"Já não sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar. (...)"

Luís Bernardo Honwana (Moçambique)

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Prioridades

"Quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo."
Gandhi

A dor(mência) da memória


"- A seguir, um estado de alma. «Somos pequenos, modestos, incultos, pobres, (...) a nossa memória é maior do que nós. (...). (...) Mas nós estamos "in memoriam".»"
J. Derrida, citado por Fernanda Bernardo in Derrida Em Coimbra, Palimage, p. 35

No embalo das pestanas que teimam em manter-se apartadas por mais uns minutos revejo as mensagens que guardo no telemóvel. A mais antiga remonta a 9 de Outubro de 2004: "Morreu Derrida." Tornou-se-me uma impossibilidade apagar esta mensagem. De quando em vez releio-a, quase com o espanto da primeira vez.
«Nós estamos "in memoriam"».

Fotografia de Abelardo Morell

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

"Good looks fade. But a bad personality is forever"

domingo, 7 de outubro de 2007

sábado, 6 de outubro de 2007

I " Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho. Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão." Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim: Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Responderam-me: "Por que é que um chapéu faria medo?" Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante."
in O Principezinho, Saint-Exupéry II Uma amiga escreveu no quadro o sinal de menor ( < ) e o sinal maior ( > ) para explicar um exercício, e alguém fez a seguinte observação: " A professora está a desenhar dentes de vampiro!" III - idade do primeiro menino < idade do segundo menino; -os dentes do vampiro são: VV

Constatação - or does a name really matters?


sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Penúltima Vivência

quero só o silêncio da vela. o afogar-me na temperatura da cera. quero só o silêncio de volta: infinituar-me em poros que hajam num chão de ser cera.
Ondajki
Adorei o neologismo: a personalização do infinito, o tornar-se sujeito de e no infinito.

Somewhere over the Rainbow

terça-feira, 2 de outubro de 2007

O que é um nome?

Recebo o link para o Público de última hora, que dá conta do suicídio conjunto. "Filósofo André Gorz e mulher cometeram suicídio." Assim mesmo: primeiro e último nome da parte dele, mulher da parte dela. Em caixa baixa. Percorro o artigo; leio o nome dele e respectiva biografia, apresentada de forma sucinta. Ao longo do pequeno artigo, ela não possui identidade, para além de ser mulher dele. A magnífica declaração de amor ficou por traduzir. Reduzida a pó, em notícia lida num sopro que o chama de filósofo a ele e de pertença a ela. Morre o filósofo e a mulher. Ela, apêndice. Matou-se o filósofo. Matou-se também a mulher. Sem rosto, sem biografia. Sem nome.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

enjoy the silence

Words like violence Break the silence Come crashing in Into my little world Painful to me Pierce right through me Can’t you understand Oh my little girl All I ever wanted All I ever needed Is here in my arms Words are very unnecessary They can only do harm Vows are spoken To be broken Feelings are intense Words are trivial Pleasures remain So does the pain Words are meaningless And forgettable All I ever wanted All I ever needed Is here in my arms Words are very unnecessary They can only do harm Enjoy the silence Depeche Mode

Sem paciência

A citação dos autores começa a enervar-me. Pejada de regras e regrinhas. Normas e formatinhos. Ora sublinhado, ora a bold, ora em itálico. Se for de uma monografia de uma maneira, numa publicação de série de outra, de uma revista ainda outra.

sábado, 29 de setembro de 2007

Cogitações avulsas


Será opção assassinar o autor?
Mais eficaz será a apropriação da obra.
A(ssa)ssiná-la.
Apagar lentamente o tempo e a inscrição na areia.
Esbater a memória.
Sobrepor.

Fotografia de Fernando Lemos

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

indo eu indo eu

Indo eu a caminho das Ilhas Desertas

"(...) o sol semeava punhados de lantejoulas (...)"
in Exortação aos Corcodilos, A. Lobo Antunes

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

e tudo que o vento não leva


Esquecer papelada em cima do tejadilho do carro, não acontece a muita gente.
Querer estar onde não se está e arrancar com carro com a máxima velocidade, não acontece a ninguém.
Olhar pelo retrovisor e ver a papelada a voar, deve ser uma imagem pouco vulgar e não acontece a ninguém!
Parar o carro de repente, sair, arregaçar as mangas do casaco e ir para meio da estrada apanhar os papéis que tinha esquecido no tejadilho enquanto procurava as chaves do carro na bolsa. Às pessoas ditas normais estas coisas não devem acontecer.
Constatar que alguns documentos ficaram com uma marca de pneu para mais tarde recordar. Decididamente, facto inaudito!

Com o ego destroçado, relato o acontecimento a alguns amigos para obter algum consolo, para não me sentir tão desprotegida e só!

Resultado: foi um momento hilariante, digno de ser contado, recontado e analisado. Eu também entrei nessa corrente. “Só tu / só a mim”. Pensei: “pior a emenda que o soneto”.
A outra corrente: “Esquece, pode acontecer a qualquer um. Não te esqueça mas é do jantar que hoje vou fazer em minha casa” ou “ Deixa lá filhinha, eu gosto muito de ti. Andas de certeza muito cansada. Dorme e come bem que isso passa.”

Conclusão: apesar de tudo, há sempre alguém que nos entende.
Afinal, posso ser quase sempre feliz. Venha o que vier. Quantos são?

Post rápido


A fruição de certos prazeres implicou a acumulação de trabalho.
Volto quando tiver tempo para respirar.