domingo, 5 de abril de 2015

Os excessos das feministas de segunda vaga



A Elle deste mês traz um artigo sobre o «novo feminismo». De acordo com a diretora da revista, cuja citação encerra o texto, ficamos a saber que «o feminismo de agora» é «solto, relevante e livre». E eu aqui a achar que os feminismos, desde a sua origem, sempre tinham sido relevantes, mas afinal, parece que é só "agora". O que não deixa de ser irónico, uma vez que vivemos numa altura em que muita gente defende que os feminismos deixaram de fazer sentido, precisamente, por já se ter conquistado a igualdade formal.

Entrevistadas pela revista, as fundadoras da página Maria Capaz acreditam estar a contribuir para «as pessoas» deixarem de temer a «palavra 'feminismo'». A plataforma Maria Capaz tem subjacente uma ideia que me parece louvável e que poderia ser de extrema utilidade, para informar e contribuir para as reivindicações feministas, caso não repetissem ad nauseam uma mão cheia de senso comum, que reforçam essencialismos, sobre os quais urge refletir e desconstruir. Sim, há alguns contributos interessantes na plataforma e algumas tentativas de incentivar a reflexão. Julgo, no entanto, que estas são neutralizadas pelo tom generalizadamente essencialista e acrítico da maioria das narrativas. Aliás, a Rita Dantas fez um post maravilhoso sobre o assunto.

Que as palavras feminismo e feminista metem medo até mesmo às cobras, sobretudo em Portugal, já se sabe há muito. Aliás, as Actas do Congresso Feminista de 2008 intitulam-se precisamente «Quem tem medo dos feminismos?». Algumas pessoas poderão ilustrar, de viva voz, os motivos pelos quais ser feminista, em Portugal, é coisa para se ser proscrita. Se falarem com a Maria Teresa Horta ela explicará - ilustrando com a sua experiência própria, porque é que assim é. Do lado académico, várias pessoas abordaram o assunto também. Apesar de haver, em Portugal, um trabalho de desconstrução de que feminismo não é o contrário de machismo, a propaganda com vista à desinformação rende até hoje. São comuns as respostas a garantir que são «humanistas» e não «feministas», porque são muito «femininas» e outras ignorâncias similares.

A explicação avançada por Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues, fundadoras do Maria Capaz, e reproduzida pela Elle, é que, pelo menos para mim, é inovadora. De acordo com o citado na revista, aquelas afirmam que o mau nome do feminismo se deve ao feminismo de segunda vaga:

«(...) na segunda grande vaga destes movimentos (que aconteceu entre o final dos anos 60 e os anos 70), acabaram por ser cometidos alguns excessos e isso, de certa maneira, acabou por contaminar a palavra».

Podem repetir?

Jill Posener fotografa o resultado do vandalismo feminista que comprova os excessos cometidos por feministas de segunda vaga.
Claro, como é que nunca tinha pensado nisso? Foram as feministas que deram mau nome ao feminismo! 

Um pouco de conhecimento de história dos feminismos permite perceber que as feministas da chamada primeira vaga, frequentemente chamadas sufragistas, também não caíram bem no goto da maior parte das pessoas. E a palavra feminismo - entre a primeira e a segunda vaga - nunca foi bem vista (tal como ainda não é hoje, basta pensar no facto de, após o discurso na ONU, a Emma Watson ter recebido inúmeras ameaças). 

A revista não explica que excessos das feministas de segunda vaga são esses e que Rita Rodrigues e Iva Domingues acreditam terem «contaminado» a palavra  (terá sido exigir liberdade e autodeterminação sexual? Terá sido a exigência de acesso a direitos sexuais e reprodutivos? Terá sido a exigência de eliminação de cláusulas discriminatórias no direito da família, e no direito penal? Terá sido a exigência da criminalização da violação marital? Terá sido a exigência da criminalização dos maus tratos conjugais? Terá sido a exigência de que o trabalho doméstico fosse pago? Que para trabalho igual houvesse salário igual? ....) Qual das exigências das feministas de segunda vaga terá sido o(s) excesso(s)? Não sabemos o que querem as fundadoras do Maria Capaz dizer com aquela frase enigmática porque, ainda que a tenham explicado à autora do artigo, a revista não o esclarece.

Se estavam a pensar em queimas de sutiãs, convinha começarem por investigar um pouco mais acerca do mito da queima. Não há, evidentemente, garantias de que uma (ou várias) feministas não tenham nunca queimado sutiãs, mas, por cá, decididamente, nunca o fizeram. Não sei que excessos* é que as citadas se referem, mas a ideia de que foram as feministas a dar mau nome ao feminismo é coisa de fazer chorar, de tão perverso que me parece. Acredito até que não tenha sido essa a intenção das autoras, ou mesmo da diretora da revista ao afirmar que o feminismo «agora» é que é «relevante», «solto» (seja lá o que isso for) e «livre» - mas que a apropriação dos feminismos por parte da indústria da moda, moldando-o para ser um produto vendável, pode causar mais danos ao «nome» do que alguma vez antes, lá isso pode.

Para além de remeter para um mundo ainda mais obscuro as mulheres e os homens que lutaram pela igualdade, de forma pioneira e absolutamente corajosa, o maior perigo é, precisamente, o da confusão de que ser feminista é acreditar que as mulheres (ou a mulher, como tanto gostam de escrever no Maria Capaz, como se todas as mulheres fossem iguais e uma massa uniforme de gente. Aliás, sobre isto já a autora do 30epicos escreveu uma crítica contundente.) podem fazer tudo o que quiserem, como se a igualdade se resumisse a uma qualquer liberdade individual de uma mulher «mãe, profissional (bem-sucedida), consciente, empreendedora, reivindicativa, na medida certa, feminina, feminista (...)». Como se todas as mulheres partissem [e estivessem] do/no mesmo ponto.

Os feminismos partem de uma base comum, que é a do reconhecimento da existência de um sistema social de ordem patriarcal que prejudica mulheres e homens, com especial incidência nas primeiras. Os feminismos diferem nas abordagens que apresentam e nas soluções que preconizam para lutar (sim, lutar) contra as desigualdades (re)produzidas por esse mesmo sistema social.

Independentemente de que tipo de feminismos estejamos a falar, o objetivo é que uma pessoa possa tomar as decisões que entender sobre a sua vida sem ser prejudicada apenas porque é mulher. Alguns feminismos salientam outras categorias além do género (etnia, orientação sexual, orientação religiosa, aspeto físico, classe social, orientação política, nacionalidade, entre outras). Alguns feminismos centram-se em problemas globais nos quais acreditam que as mulheres podem ter um papel preponderante (ecofeminismo, p.e.). Há temas que dividem as feministas: a prostituição é um deles, a pornografia é outro, entre vários. Decididamente, há espaço para toda a gente e todos os contributos sérios e bem intencionados são desejáveis. A discussão, a reflexão e a (auto) crítica são pontos fulcrais de desenvolvimento de ideias e das suas concretizações. Convém, no entanto, que se tente não reforçar os estereótipos e a ignorância que se tenta combater.

everydayfeminism.com

Seja «novo» ou «velho», não há UM feminismo. HÁ FEMINISMOS 
(não sei qual das ligações "se inspirou" na outra, uma vez que têm conteúdos muito similares, ainda assim, a wiki parece-me mais completa).

*saliente-se, p.e., que a ação de feministas, usando máscaras a representarem cães, e que forçaram a entrada de um estabelecimento comercial, em Lisboa, que ilegalmente e impunemente, interdita a entrada a cidadãs, foi também apelidada de «excessiva» por parte de muita boa gente que se diz «humanista» e «defensora dos direitos humanos de homens e de mulheres».

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Hermética?

Elisa Imperi


«Ganhei o troféu da criança-1967 com o meu livro infantil O Mistério do Coelho Pensante. Fiquei contente, é claro. Mas muito mais contente ainda ao me ocorrer que me chamam de escritora hermética. Como é? Quando escrevo para crianças, sou compreendida, mas quando escrevo para adultos fico difícil? Deveria eu escrever para os adultos com as palavras e os sentimentos adequados a uma criança? Não posso falar de igual para igual?
(...).»
Clarice Lispector (2013). A Descoberta do Mundo - Crónicas. Relógio D'Água, p. 104.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A Queima dos/as nabos/as

A Associação Académica da Universidade da Beira Interior (UBI) publicou no youtube o seu vídeo promocional à Semana Académica da UBI. O João Mineiro (JM), do Bloco de Esquerda (BE), afirmou que o vídeo era misógino, e houve alguém - aparentemente, um dos autores do vídeo -, que o acusou de estar a seguir modas. Parece que misoginia agora é uma palavra popular, deve ser como troika, sei lá (e a julgar pelo vídeo, a misoginia vai de muito boa saúde, sim senhora). É nesta troca de conversa entre o João Mineiro e o autor do vídeo (que o JM nunca nomeia), que este ensina que um vídeo promocional:


Espera... 

se bem entendi, o vídeo dirige-se a um target, [em português: público-alvo], que são "miúdas bêbedas"?

Pode repetir? Espera, é às miúdas bêbebas, «com decotes grandes e que cravam beijos em troca de uma passa por um charro» que este vídeo se dirige? Ah, bom... ainda bem que esclarecem, por momentos cheguei a pensar que era a quem estuda na Universidade da Beira Interior (UBI) e à população em geral que que costuma frequentar as Queimas, independentemente de usar decotes e de se embriagar, ou não.

Mas pelos vistos não, e atenção que não basta estar bêbeda. É preciso também usar decotes - mas não é qualquer decote, tem que ser dos grandes. Ah, e não se esqueçam de cravar uma passa num charro, se não reunirem as três características, estão safos/as - este vídeo não é para vocês.








É todo um mundo de poesia nos objetivos na promo da Queima de 2015, nas palavras de um dos autores desta obra prima, que tanto envergonha o cérebro de qualquer publicitário/a. Ah, e anotem bem a lição do génio criativo: um vídeo promocional está-se nas tintas para o politicamente correto. É todo um poço de profundidade e de iluminação técnica nestes ensinamentos. Na verdade, explica o autor, um vídeo promocional está-se nas tintas para o facto de as mulheres, bêbedas, ou não, com decotes, ou sem eles, a cravar shots na noite - ou de dia - ou o que bem lhes apetecer serem pessoas (porque, sei lá, assim de repente, ocorre-me que sejam sujeitos com direitos e garantias iguais aos de qualquer outro cidadão/ã; seres autodeterminados, cuja liberdade sexual é um bem jurídico reconhecido como a qualquer outra pessoa, independentemente do tamanho do decote e do grau de álcool no sangue). Nã, nã, meninos/as. É o target - e o target é uma mistura de qualquer coisa - porque «é feito de miúdas bêbebas» - que estão representadas no vídeo por miúdas em calções a passear uma cabra e que representam essas mesmas miúdas bêbedas.... ou seja, o vídeo dirige-se ao grupo que representa. Estou confusa (deve ser por ser da quantidade de shots que já ingeri enquanto escrevia este texto). Então a Semana Académica é para  miúdas bêbedas, que usam decotes grandes e cravam shots e uns bafos em charros. Hum.. então e se cravarem pastilhas? Ou LSD, já não dá?

Digam-me que ninguém recebeu dinheiro para fazer isto, por favor. A ideia por si só já é muito má, a imagem é péssima, a luz horrenda, e os planos nem na companhia do «senhor humor» se safam. Só faltava alguém da AAUBI ter pago para isto.

Alguém traga um mapa do século XXI para estes/as cavalheiros/damas da AAUBI acabadinhos/as de chegar do século XVIII.


quinta-feira, 19 de março de 2015

Passos Coelho, o Indeciso



Informa a TSF que Passos Coelho quer «"remover num par de anos" todas as medidas extraordinárias do tempo da troika». Nem sei se ria agora, ou espere pelas eleições.


domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional das Mulheres

Esta caricatura publicada no Charlie Hebdo demonstra maravilhosamente a atitude do mundo ocidental face à comodificação [peço emprestada a palavra ao Fairclough] do corpo das mulheres.

Enquanto este serve para ser olhado, cobiçado, tocado, manipulado para o prazer do outro, tudo bem. Quando as proprietárias desses corpos reclamam para si o poder de os usar como bem entendem, inclusivamente, desnudando-se [pasme-se!] para si ou como forma de luta, e não para serem vistas pelo olhar masculino, então é o nosso senhor nos acuda, que o mundo acabou e é tudo uma pouca vergonha.

FEMEN par Charlie Hebdo
E não, contrariamente ao que sugere Inês Ferreira Leite, no Maria Capaz, não são as mulheres que impõem às outras o modelo de perfeição. Não basta ela perguntar aos homens que se conhece se eles valorizam ou não a celulite nas pernas de uma mulher. Convém observar a publicidade e as revistas - é que, que  eu tenha notado, nem a Playboy ou qualquer outra revista masculina apresentam modelos diversos de beleza feminina. É sempre o mesmo modelo monolítico da mulher [preferencialmente branca], magra, ou muito magra, pele uniforme, sem poros e só com alguns sinais estratégicos, de cabelo arranjado e de boca semiaberta; e não, não têm celulite. Toda a gente no ocidente sabe reconhecer o modelo de beleza feminina dominante. Precisamente, porque ele se impõe. Contrariamente ao que IFL faz, não se pode avaliar a realidade a partir das opiniões e comportamentos dos amigos - à partida, se são amigos, logo [pelo menos os meus] são homens maravilhosos [e seres humanos que eu muito admiro]. Mas há mais mundo para além do umbigo. Nem sempre é bonito, mas está lá. Ignorá-lo e dizer que são as mulheres a principal força da sua própria opressão é pura e simplesmente ignorar todos os dados empíricos que vão além do umbigo de quem investiga. Eu também conheço homens cretinos. Mas não os chamo de amigos e, sempre que posso, evito-os. (ah! E culpar as mulheres por serem a fonte da sua própria opressão não é feminismo; é apenas um reflexo da ideia medieval de que as mulheres são todas más como às cobras e invejosaassss).

E neste dia Internacional das mulheres, se calhar, podíamos aproveitar e refletir sobre a facilidade com que aceitamos a discriminação contra as mulheres como conceito comercial, em pleno século XXI. O que li sobre a intervenção das feministas na barbearia causou-me perplexidade. Uma coisa é criticar a ação (por se defender outros tipos de intervenções); outra, muito diferente, é defender como admissível um conceito comercial que coloca as mulheres abaixo de cães e que, ilegalmente, lhes interdita a entrada, com base na ideia ser muito gira, e os tipos até são empreendedores e, ah, claro, o conceito está disseminado na Europa (se os outros têm é porque deve ser bom). Ah, e já agora aproveitar a onda da reflexão e olhar bem para a capa da Lux Woman que tem duas «feministas assumidas» - o assumida (o adjetivo usado para revelar publicamente alguma característica que se sabe ser reprovável pela maioria) deixa antever a confusão que vai nas cabecinhas de muita gente a propósito do conceito de feminismo. O Priberam sabe o que é, já o Ciberdúvidas, cujos conhecimentos da língua portuguesa são incontestáveis, está um pouco confuso.

terça-feira, 3 de março de 2015

Ai não?


Segundo o Público, estas são palavras de Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara do Porto. Estas declarações foram ditas a propósito da crítica de Carla Miranda, vereadora sem pelouro, da mesma autarquia, a quem, segundo o jornal, o presidente da Câmara, Rui Moreira, mandou ter "dois pingos de vergonha".

This isn't happiness


De acordo com a notícia, Miranda terá criticado a atribuição de uma medalha municipal de mérito a Sindika Dokolo, marido da oligarca Isabel dos Santos. Dokolo é um poderoso colecionador de arte, que passeia as suas aquisições um pouco por todo o mundo. Predispôs-se a levá-las à Invicta. Pelo que consegui perceber, a oposição de Miranda incide na atribuição da medalha de mérito. O que, decididamente, ultrapassa a minha compreensão são as declarações de Cunha e Silva, vereador da cultura. Então não importa a origem da coleção? Se o produto tiver sido roubado pode ser exposto? Se for comprado com recurso à exploração de mão de obra escrava também não há problema? E se vier do Estado Islâmico também pode ser? (eu sei que é pouco provável, que eles optam por destruir a arte, mas vá, estamos no campo da imaginação). Se for oferta do Mubarak ou do Yanukovych também marcham? 

O que me parece inaceitável não é sequer a atribuição de uma medalha de mérito a um colecionador de arte (isso pode ser discutível, e parece-me bem que seja discutido e que se discuta sim, a qualificação da pessoa a quem se vai atribuir o mérito, evidentemente! Afinal de contas, a medalha é suposto simbolizar o mérito, logo, mais que natural que se avalie se a pessoa a merece ou não). Se Dokolo tem ou não mérito? Não faço ideia. Mas espero que, quem vai atribuir a medalha, não o faça somente por ele ser casado com uma das mulheres mais poderosas do planeta, cujo pai lidera um país com desigualdades sociais gritantes e com atropelos muito graves à liberdade de expressão, conforme denúncias da Amnistia Internacional. Ou apenas por ele ser dono de uma ótima coleção de arte, porque embora ele seja o único marido de Isabel dos Santos, não é o único colecionador de arte do mundo, de resto, só no país temos vários, um dos quais com uma coleção particularmente bem cotada.

O que realmente me parece intolerável é que uma pessoa com responsabilidades, no poder local, venha dizer publicamente que "não importa a origem da coleção"? Ai não? Olhe, na altura em que as oligarquias caem há sempre gente que se desvincula. Deve ser dos «macaquinhos no sótão».


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Men of quality do not fear equality

Ser mulher na Turquia.


Ter o azar de viver num país presidido por alguém com as visões do Tayyip Erdogan, acerca das mulheres e das relações de género, e ter a sorte de partilhar o país com homens que se insurgem perante a violência contra as mulheres, e solidarizam com a luta pela igualdade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

1999



Todos os dias o relógio marcava 06:20, sinal de que era hora de arrastar o corpo até à cozinha. Enquanto tentava lembrar-se de que o mundo não era apenas aquele quotidiano repetitivo, a Euronews passava este vídeo. Aliviava um pouco o peso da existência. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Em Portugal há 33 violações por mês

Em 2004, Susana Maria publicou a sua tese de mestrado sobre sobreviventes de violação. Durante a investigação, a Susana falou entrevistou polícias, médicos/as e sobreviventes - algumas das quais com denúncia e processo a decorrer, outras que optaram pelo silêncio e tentaram o esquecimento procurando apoio numa das Organizações Não Governamentais de apoio a vítimas e sobreviventes.

Henrique Monteiro

Uma das conclusões do seu trabalho é a de que é necessário um centro especializado para vítimas de crimes sexuais. Não, o instituto de medicina legal (IML) é tudo menos suficiente. Não, as ONG's não têm condições para prestar este apoio imediato e essencial. Como explicou uma das médicas entrevistadas à autora deste trabalho:

"Não existe um serviço especializado para atendimento a vítimas de violação. Não conheço nenhum hospital que o tenha. A mesma médica refere, ainda, ter algumas dificuldades em lidar com situações de violação: "não com as lesões físicas, mas para dar encaminhamento ou aconselhamento sim".

completa referindo "Nestas situações de violação a mais urgente é a criação de apoios imediatos, ou seja, apoio na crise (. ..), porque é a partir daí que a pessoa começa a organizar as coisas, os sentimentos, toda a situação; porque naquele momento eu penso que a pessoa não consegue entender a que lhe aconteceu conscientemente e, posteriormente, traz-lhe problemas [consequências mais tarde]. As pessoas deveriam receber esse apoio no momento em que são vistas pelos médicos.». 

Naturalmente, sabemos que muitas vítimas não são vistas por médicos/as. Sabemos que muitas não denunciam a ninguém ou que o fazem passado muito tempo. Para que todas as pessoas vítimas de crimes sexuais possam ter apoio na crise. Para que todas as mulheres - sim, há homens violados, mas a assimetria é abissal [mesmo considerando as violações intraprisionais] - possam ter apoio neste momento crucial.

É por sabermos que estes momentos são fundamentais para que a vítima possa gerir o momento traumático, que foi criada uma PETIÇÃO com a exigência da criação de um centro especializado no apoio a vítimas de violação. Para assinarem e divulgarem, caso concordem.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Strawberry Fields Forever





Não sou aderente da crença do in vino veritas por saber que, para além de desinibidor, o álcool também tem como efeito a distorção da percepção do sujeito que está alcoolizado. Contrariamente ao que a expressão latina parece induzir, o álcool não é uma poção da verdade. Assim, não é de espantar que a maior parte das coisas que me tenham sido ditas por pessoas embriagadas estivessem longe de corresponder à verdade. Ainda que, frequentemente, a realidade não correspondesse ao oposto das suas declarações, estas representavam um cenário muito, muito distante dos factos. No entanto, não foi o álcool que fez as pessoas dizerem-me aquelas coisas. Era da sua personalidade mentir; simplesmente, etilizadas, mentiam mais [não necessariamente melhor, apenas mais].

domingo, 23 de novembro de 2014

"Listeners of Atrocity"


Pergunto-me frequentemente como é que se consegue conhecer - no sentido de tomar conhecimento, ter notícia - a maldade humana e lhe sobreviver. Não falo de a experienciar, de ser vítima. Mas de testemunhar - ainda que indiretamente - essa mesma maldade. Jeanne Sarson e Linda MacDonald dedicam grande parte do seu quotidiano a ouvir vítimas de tortura [não estatal]; a descrição do «no gag reflex» foi apenas uma.


Jennifer McClure
«“No gag reflex.” This is a statement about the pedophilic crime of oral rape. One woman explained how her mother and father ‘trained’ her not to gag. Why? They were ‘preparing’ her for oral raping not only by her father but also for all the other insider like-minded torturers who were connected to her family. These were the ‘secret’ organized pedophilic in-house group or criminal ring. Additionally, Linda and I have also been told by those so tortured that their parent(s) frequently trafficked them to ‘client-perpetrators’ who wanted a child who was conditioned to withstand sexualized physical torturing. This is how one woman described her “no gag reflex” training;
Everything got twisted in “the family” - even food. For example, mashed potatoes were a very effective training tool. “The family” would stuff and stuff mashed potatoes into my mouth and throat, massage my throat while speaking ever so softly in voice tones that were trance and hypnotic-inducing. This exercise trained me to let the mashed potatoes slide down my throat without gagging, which taught and conditioned me not to gag during experiences of oral rape; something my father and others did very frequently to me.


Hoje, ao ouvir como é que uma criança lhes havia explicado que tinha o rosto negro por se ter magoado a jogar basebol, fechei os olhos por momentos, com força, na esperança de, de alguma forma, parar de visualizar o que elas me estavam a explicar que a criança mostrara quando lhe pediram para ela demonstrar como é que tinha jogado basebol. Alguém segurava o taco.... 

Não sei como é que se sobrevive a isto.

domingo, 9 de novembro de 2014




e depois veio o concerto dos Pink Floyd :)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

#ElaporEla [Jessica Athayde]


"O que é que há de ERRADO nesta imagem?
ABSOLUTAMENTE NADA"
#Stopthebeautymadness & #ElaporEla

Até hoje não fazia ideia de quem é a Jessica Athayde. É uma atriz portuguesa. Em Portugal e, um pouco por todo o mundo ocidentalizado, há uma enorme conexão entre o mundo da moda e o mundo do espectáculo com as agências de modelos a enviarem regularmente para os castings televisivos e de cinema os/as seus/suas modelos. Isso sucede porque se privilegia a imagem sobre a formação em representação.

Esta lógica está instalada há tantos anos que muitos/as profissionais não questionam sequer a coerência ou a utilidade disto. Quando há uma década questionei a minha diretora porque é que ela pediu um apresentador a agências de modelos em vez de a escolas de teatro e de cinema, ela olhou-me perplexa e respondeu: «não me ocorreu tal coisa».

Quando se diz «as mamas dela estão a vender» a propósito de uma apresentadora com enorme dificuldade de articulação, percebe-se bem o papel que atribuem áquela pessoa. A televisão e os media são fábricas de produção de estrelas cadentes. No dia em que as mamas dela não venderem, ela cai. Porque ela É o seu corpo. Os homens têm um corpo, as mulheres são o corpo. E é sobre esta questão que a Jessica fala num texto em resposta às críticas que recebeu a propósito da sua participação num desfile de moda.

Claro que algumas críticas terão fonte feminina. As mulheres são rápidas a criticar o [seu] corpo e o de outras. Não porque haja alguma maldade particular em todas as mulheres [isso é coisa da Idade Média, ok? Já passou, podem guardar as ideias medievais sobre a malícia que habita o sexo feminino; embora haja, naturalmente mulheres más e mulheres que têm comportamentos que revelam crueldade isso não é uma característica extensível a todo o grupo de seres humanos do sexo feminino; portanto, viajem até à contemporaneidade: vão ver que vos vai fazer bem];

     também não acho que as considerações negativas tenham como motivação a inveja. Essa coisa do quem desdenha quer comprar é uma interpretação básica e duvidosa do processo de projeção [transferência para o/a outro/a o que nós fazemos ou queremos]. A inveja não explica tudo. Quando criticamos a rapariga que diz nos media que o seu desejo é ter uma mala da channel não é a inveja que origina a crítica. É um pouco mais complexo que isso. E sim, nada disto invalida que haja mulheres com inveja de outras mulheres, simplesmente nem todas as críticas têm como motivação a inveja.

As mulheres autopoliciam-se constantemente. E esse autopoliciamento implica também uma avaliação constante do corpo das outras mulheres. As capas das revistas femininas não são assim tão diferentes das capas das revistas masculinas e, no entanto, o público alvo é diferente. O olhar desses públicos também é diferente, apesar de todos/as avaliarem. E porque as mulheres são avaliadas não pelo que sabem fazer ou pelo que são, mas pelo que parecem, a avaliação sobre o corpo feminino é constante.

Jessica Athayde, num texto da sua página pessoal, convida as mulheres a resistir ao simplismo da redução da pessoa ao seu corpo. E eu estou com ela.


#Ela por Ela. 

& Claro, o 




segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Recado à Câmara Municipal de Lisboa

Caríssimos/as da autarquia,

A sério que não dava para antecipar que sem limpeza [ou sem limpeza de jeito] qualquer metro cúbico de pluviosidade vale por quilómetros cúbicos de águadeiro? 

Se, sempre que chover a cântaros, a rotunda do Marquês ficar no estado em que estava há duas horas, só por causa da chuvada que são pedro lá deixou cair, então o melhor é preparmos muitas câmaras de ar para tornar os carros híbridos - mas do hibridismo terra/mar e não gasolina/eletricidade.

A rotunda [e a avenida da Liberdade!] pareciam maravilhas de um país onde não se pagam impostos. Nem imagino como estaria a estação do metro....

domingo, 14 de setembro de 2014

O vício da pobreza



«Em Portugal há aquilo a que chamamos a transmissão intergeracional da pobreza e temos que quebrar com essa transmissão.» Isabel Jonet


reblogged from thisisn'thappiness


Absolutamente verdadeira, esta declaração apenas surpreende pela frase que lhe segue. 

Jonet considera que é por uma espécie de deficiência genética que a alguém que nasce, cresce - vive - numa família pobre, não consiga sair do ciclo de pobreza. Jonet fala de pobres como se a pobreza fosse a sua identidade. É como se a pobreza fosse uma nação com cidadãos/ãs - os/as pobres. Estes/as parecem ter uma lacuna, uma falha no desenvolvimento - talvez um vírus, quem sabe - porque insistem em «manter-se na pobreza». Afinal de contas, de acordo com a presidente do Banco Alimentar (BA), nesse país chamado pobreza «há profissionais  habituados a andar de mão estendida, sem qualquer preocupação em mudar». E não pode ser, não é, Jonet? Isso de ser pobrezinho por opção tem que acabar. A solução? «quando se ajuda uma família pobre, deve-se procurar que essa família queira deixar de ser pobre». A pobreza é uma doença, o assistencialismo um dependência.