terça-feira, 18 de março de 2014

Queria de ti um País

Chegou o
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A 4.ª Edição do Festival Literário da Madeira «adotou como porta-estandarte os versos» de Mário Cesariny:

Queria de ti um país de bondade e de bruma
Queria de ti o mar de uma rosa de espuma






quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Vamos fingir que a questão é o aborto"







Portugal costuma ser um país onde as tendências demoram a chegar. Talvez seja da posição geográfica. 
No entanto, desta vez - talvez pelo efeito globalizante da União Europeia - certas correntes não tardaram a dar o ar de sua graça. O post da Isabel Moreira trata precisamente disso.
Os ventos ultraconservadores que assolam alguns países europeus (para além de Espanha, agora em França gritam-se coisas divertidíssimas como «não toquem nos nossos estereótipos de género» - uma verdadeira ternura, embora eu prefira a versão de que a «teoria do género visa destruir a Criação e libertar todas as perversões humanas»: uns demónios, portanto. Ou melhor, umas filhas do demo, que já se sabe que onde há maldade há mulheres). Da Polónia também não vêm melhores ventos.


De notar que não tenho nada contra quem não aceita o aborto como uma solução ou que não compreenda orientações sexuais diferentes da sua. Desde que se mantenham na sua vida. Eu, que sou a favor da IVG, e que defendo que todas as mulheres têm o direito (dentro das condições previstas na atual lei) a decidir pela continuidade ou não de uma gravidez, não impeço ninguém de ter filhos. Aliás, quem está minimamente familiarizado com o processo sabe bem que é muito mais fácil apoiar uma grávida em desespero e indecisa que vá a um hospital para interromper uma gravidez - porque há uma equipa que se encarrega de lhe dar soluções que ela desconhece e à qual seria impossível recorrendo à clandestinidade.


Não me incomoda minimamente que alguém diga (e aja em conformidade) que jamais abortaria (porque é contra as suas convicções ou por outro motivo qualquer). Agora, não se venham meter na minha vida e na vida alheia. E sim, acho que é dever do Estado criar condições e apoiar toda a gente que queira ter filhos e que não os ter (quando se quer ser mãe e pai) por falta de apoio do Estado é um redondo falhanço das funções do Estado e dos direitos de cidadania. Apoio do Estado passa por políticas amigas da família, por uam carga fiscal menos pesada e pela facilidade de acesso a estruturas de apoio educativo a custos acessíveis. Da mesma maneira não me incomoda que alguém afirme que discorda do casamento entre pessoas do mesmo sexo e que a ICAR não o reconheça no direito canónico. É-me indiferente. Estão no seu direito. Agora, vamos lá ver: a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que eu saiba, não veio prejudicar o contrato conjugal heterossexual. Portanto, a única coisa que vejo que possa motivar a oposição é uma grosseira intromissão na vida privada de outra pessoa. Eu posso achar um disparate alguém fazer um contrato de compra e venda com condições que considere obscenas. Se isso me dá o direito de impedir a celebração daquele contrato? Não, não dá. Portanto, meninos/as concentrem-se lá nas vossas vidinhas e deixem que cada um cuide da sua, ok?

Ah, e poupem lá na conversinha de que «se trata de uma vida». É que quando papagueiam essa conversa quer-me parecer que não é da vida da grávida que estão a falar. Pelos vistos, há vidas mais importantes que outras. Savita Halappanavar. Ouviram falar? Está morta. Porque, apesar de nem ser católica, uma cambada de obscurantistas se recusou a fazer-lhe um aborto porque o coração do feto ainda batia. Um feto de 17 semanas. O coração desta mulher de 31 anos também bateu até ao dia 28 de Outubro de 2012. 
Não se atrevam a falar em respeito pela vida.

Ah, no meu caso, não é só a barriga que é minha, a vida também. Não, a minha vida não pertence a deus, que se ele quiser, há-de ter muito mais que fazer que andar a fiscalizar as alcovas e consciências alheias. Há muito certamente para deus fazer no planeta. Estou em crer que ele não quer saber de sexo para nada.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014


Após todas entrevistas, conferências de imprensa, reportagens, discussões, denúncias, artigos de opinião, e processo-crime, nem se cumpre um período de nojo. 
Hoje, havia praxantes e praxados/as no jardim do Campo Grande.

Como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse um antes e um pós-Meco. É como se, vestidos daquela maneira - em contraste com os vestidos à futrica - dissessem: queremos lá saber do Meco para alguma coisa. Quem manda aqui somos nós. 

Não, não é um ato de coragem ou de rebeldia. Quem precisa de se afirmar à custa da humilhação alheia está condenado/a a ser um/a cobarde para sempre.
É um ato de cobardia - precisamente porque sabem de antemão que nada irá acontecer. Porque nunca nada aconteceu, exceto para as vítimas e,  nos casos mortais, também para  as suas famílias.

Reblogged from This isn't Happiness


Ah, esqueci-me, era tudo integração. Em Fevereiro ainda precisam de (mandar) rastejar e comer relva para (se) integrarem. E eu achar que era só no início das aulas.

Julgo que, contrariamente ao que fui ouvindo, em Setembro nada mudará. Para quem não quer participar mas se sente coagido/a ou pressionado/a a fazê-lo não haverá diferenças. A hostilidade permanecerá igual.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Alucinação


E se, ao entrar na cafetaria da Biblioteca Nacional, vir o Jeremy Irons a beber um café isso é...
uma alucinação, evidentemente.


Acontece-me frequentemente, não necessariamente com o Jeremy Irons, mas a minha propensão para ver pessoas em objetos e vice-versa é já um clássico.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014




Isso não é verdade (para além de ser um argumento totalmente idiota).

O Estado proíbe a condução a pessoas sem habilitação legal e que estejam sob efeito de um determinado valor de substância alcoolizante ou estupefaciente. Aliás, é precisamente porque «morrem pessoas nas estradas» e com o objetivo de dissuadir certas condutas consideradas perigosas para si e para os/as outros/as, que o Estado as criminaliza. Adicionalmente, pode haver cassação da carta de condução... portanto, sim, proibe-se muita gente de andar na estrada! Mais, a ignorância da lei (desconhecer que sem um título legal não se pode conduzir) não inibe a culpa (embora a possa atenuar) pelo crime. E sim, dependendo do grau de intoxicação e do comportamento do/a condutor pode ser crime, e portanto, ser punido com pena privativa da liberdade, que é como quem diz, cadeia. 

Há coisas fantásticas, não há?

As pessoas às vezes dizem cada coisa. Se o administrador não é favorável à proibição da praxe (e está no seu direito) então que defenda a sua convicção com argumentos... sei lá, intelectualmente honestos e, já agora, racionais.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Oh Boy




A sessão de abertura da Mostra de Cinema de Expressão Alemã - Kino (cinema, em alemão), organizada pelo Goethe Institut - continua a  proporcionar excelentes serões no São Jorge. 

Depois de Barbara (as idiossincrasias, tensões e contradições de uma alemanha dividida), de Almanya (filme maravilha sobre uma família turca a viver há duas gerações na terra da Angela Merkel, cujo patriarca decide fazer uma viagem familiar ao país do Atartürk); Drei, que como o próprio nome indica, relata o encontro e (reencontro) de três pessoas que se relacionam romanticamente (esqueçam as estórias de um gajo que trai a mulher ou da gaja que trai o marido. Este não é um filme de triângulos em que há uma pessoa traída e outra que trai. Esta é uma estória fantástica ao agrado da comunidade poliamorosa) e de Same same but different (a história de Benjamin Prüfer baseada num episódio marcante da sua vida), eis que a Kino traz para o ecrã do São Jorge (e, pela primeira vez, para o Teatro do Campo Alegre no Porto, e para o TAGV em Coimbra), Oh Boy, um filme a preto e branco, com um Tom Schilling verdadeiramente entregue à tarefa de fazer viver Nico Fischer, esse trintinho alemão que não sabe bem o que fazer à vida.

Para além das bandas sonoras (os filmes alemães que vi são um bom exemplo de como uma banda sonora bem escolhida pode melhorar substancialmente a experiência de assistir ao desenrolar de uma estória), os filmes selecionados para abrir as Kino refletem muito da vivência alemã. Apesar de o Drei se poder passar em qualquer país ocidental (sobretudo do norte da Europa), e de a nacionalidade do rapaz do Same same but different facilmente se poder alterar sem adulterar o conteúdo da história, a verdade é que há imensos detalhes que só poderiam passar-se na Alemanha. As reações dos clientes do bar (Oh Boy) onde o velho faz a saudação hitleraiana não poderiam ocorrer noutro local que não na Alemanha. A narração da noite de cristal também não.

Contudo, a Kino é uma mostra de cinema de expressão alemã e não de cinema alemão (apesar de este post poder indiciar outra coisa, mas apenas me refiro a filmes de abertura) e, portanto, as películas em exibição podem ser suiças, luxemburguesas, austríacas e alemãs). Portugal, o Brasil, Timor e os PALOP nunca poderiam fazer uma coisa destas, pois não? Estamos demasiado concentrados/as em provar como o português europeu é melhor que o do Brasil e ignoramos magistralmente Timor e qualquer país dos PALOP. Não, o alemão que se fala no cantão alemão da Suiça, evidentemente, não é igual ao que se fala em Berlim. Aliás, duvido muito que o que se fala em Berlim seja igual ao que se fala em Bona. O português padrão - que se ouve na televisão e nos media - não representa todos/as os/as falantes. A língua é muito mais rica do que aquilo que os media (e alguns/mas intelectuais) nos fazem (querem fazer) crer.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sedução

This isn't happiness


Durante anos (na verdade, séculos), a legislação portuguesa previa o crime de estupro, o qual consistia na relação sexual (ou melhor, na cópula) consentida - e conseguida - através de sedução. Ora, por causa disto, os nossos doutos juízes discorreram linhas e linhas acerca do que seria «seduzir alguém». Alguns sustentavam que sedução seriam atos de «fraude ou engano». Ou seja «um processo de determinar alguém a praticar uma ação contrária ao seu dever ou aos seus interesses, e que, sem a sedução, não teria praticado».

E eu estou aqui a pensar que uma sociedade que acredita e define sedução como um processo com vista à manipulação é uma sociedade com muito pouca imaginação.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Runião geral das pessoas que dizem tufone

The GatheringGlen Tarnowski


Eu bem sei que a Língua é um organismo vivo e, portanto, em permanente mudança. Que o que dita a curva da fertilidade lexical é o uso que os/as falantes fazem da sua Língua. Também estou ciente que é provável que, daqui a uns anos, quinhentas gramas se tenha tornado na fórmula correta, apesar de, atualmente, a palavra [grama] ser (ainda) do género masculino.

Mas estou convicta que no dia em que, por insistência de alguns/mas cidadãos/ãs,  os telefones passarem a tufones e as reuniões a runiões  ter-se-à prestado um estranho [péssimo] serviço à Língua portuguesa.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Hoje a minha deusa deixou de ter o calcanhar em sangue




Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos.

Manuel António Pina



Algures em Março de 2000.
16 de Dezembro de 2013


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Clap! Clap! Clap! Clap!

Porque é que as pessoas aplaudem no cinema?

reblogged from Flickchart

Raramente vou ao cinema, mas que me recorde, não é habitual as pessoas baterem palmas no final de um filme  (muito menos durante o mesmo). Ora, recentemente, numa exibição de curtas, grande parte da assistência desatava a bater palmas como se estivessem a ser ameaçados pelo Passos Coelho em pessoa, no fim de cada película. Tendo em conta que estamos a falar de filmes com a duração de 5 a 9 minutos conseguem imaginar a quantidade de vezes que aquela gente dava à palminha.

Entendendo o ato de bater palmas como um ato comunicacional que, à partida num espetáculo, manifesta o agrado pela criação a que se assistiu e o reconhecimento ao/à criador/a é, no mínímo, estranho que se aplique esse código na ausência do/a criador/a. Os aplausos são também comuns em comícios, exprimindo agrado e concordância com a(s) ideias que o/a líder/orador/a comunica. Mas o que estão os aplausos a fazer numa sala de cinema, se não está lá ninguém da produção do filme? É que tenho quase a certeza que as palmas não são para o/a técnico/a da sala de projeção.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Estalo Novo

I HAVE A DREAM   



«Ao senhor presidente da República, ao senhor primeiro-ministro, à senhora ministra das finanças, a todos os membros do governo: pedimos desculpa por ainda estarmos vivos, boicotando a preservação do Orçamento de Estado»
 


Companhia Maior        
«Ao senhor presidente da República, ao senhor primeiro-ministro, à senhora ministra das finanças: faremos todos os nossos esforços para continuarmos vivos»

 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

sexta-feira, 13 de setembro de 2013



Fernando Alves canta Natália Correia

Espólio Natália Correia da Biblioteca Nacional

[e não lhe contemos os anos, pois a sua poesia - e ela - não têm idade, nem são marcadas pelo tempo]
E por ora, a imagem que quero registar é a dos traços da sua caligrafia.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

E quando chegarem às urnas, lembrem-se: legalidade não é moralidade

O Tribunal Constitucional decidiu, no que diz respeito à Lei de Limitação de Mandatos, que esta tem uma restrição meramente territorial, pelo que os candidatos podem mover-se de uma autarquia para outra quando esgotarem as possibilidades na primeira. Percebo a decisão do TC. Mas este é um dos casos em que não está apenas em causa a legalidade. 
Podemos pensar a questão a partir de outros critérios, nomeadamente ético e político. Primeiro porque cabe a cada um/a de nós, eleitores/as, perguntar se é correto este género de manobra. Se é o melhor para a gestão pública que seja possível este género de troca territorial. Depois, porque é preciso decidirmos se queremos eleger gente que se candidata apenas pelo cargo, e não pela região a que se propõe. Decidirmos se queremos que essa gente carregue os amigos também. E principalmente, cabe a cada um de nós saber se queremos validar a os partidos que permitem e incentivam este género de trafulhice. 
Que gente é esta? Que partidos políticos são estes, que procuram expedientes legais para validarem o que é imoral?
Queremos esta gente à frente dos nossos destinos?

domingo, 18 de agosto de 2013

Yeah, It's Just You

Segundo a historiadora Joanna Bourke, quando em 2006 foram reveladas mais fotos da série tortura em Abu Ghraib, a reação do público terá sido tépida, em parte devido ao cansaço do tema, o qual foi transformado por alguns/mas em espetáculo. Um popular locutor de rádio terá inclusive, comparado as fotos a um espetaculo eroticizado, ao género do de uma cantora pop. Os mitos custam a morrer: 

sim, ele está a ter uma ereção e Sim, tenho a certeza que está aterrorizado.




You know, if you look at - if you, really, if you look at these pictures, I mean, I don't know if it's just me, but it looks like anything you'd see Madonna or Britney Spears do onstage. Maybe I'm - yeah. And get a National Endowment for the Arts (NEA) grant for something like this. I mean, this is something that you see onstage at Lincoln Center form an NEA grant. Maybe on Sex and the City - the movie.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Licenciatura que faz falta em Portugal

Sociological Cinema







Soube, pela Joana Lopes, que o Paulo Moura (Público) publicou uma reportagem sobre Call Centers, em português Centros de Contacto. Uma das fontes de Moura foi um CEO (que isto de se ser administrador ou gestor está totalmente demodé e só se é credível se se disser em estrangeiro). Dizia eu que uma das fontes de Moura foi o CEO da Teleperformance, o senhor João Cardoso. Este defende, entre outras bizarrias, a criação de uma licenciatura em Operador de Call Center (sic).

Além do mais, o sr. Cardoso lança um alerta contra o demónio da regulamentação do setor: é essencial para a sobrevivência dele (do Cardoso e da empresa que dirige) manter «a flexibilidade nas leis laborais».

É que aqui ao lado, quando se tentou regular o setor, as empresas, que é como quem diz os clientes das Teleperfomances espanholas, fugiram todas para a América Latina. Ou seja, segundo se pode ler na reportagem, a Teleperformance tem um regulamento interno – que, por sinal, inclui que pessoas que trabalham sentadas não possam – contra todas as recomendações médicas e de saúde no trabalho – estar de pé, ainda que por breves momentos -, e que obriga toda a gente a cumprir, mas alguém tentar regular o seu setor, ou melhor, o setor onde opera, isso é que não pode ser. Atenção, sr. Cardoso, é que se os seus clientes «fugirem« todos para o Brasil podem vir a ter este problema. Os PALOP, apesar de já albergarem serviços de call center da PT, não têm condições logísticas e mão de obra qualificada comparáveis às portuguesas. Não estou bem a ver para onde é que os clientes da Teleperformance iriam fugir.

O problema pode não ser uma fuga dos clientes para outras paragens. É que regulação pode implicar ter que ser mais competitivo sem ser à custa dos/as colaboradores/as e essa hipótese, pelos vistos, a Teleperformance não admite. Aqui entre nós, ser competitivo à custa da exploração de seres humanos não tem nada de inovador e muito menos de genial. É a génese da maior parte das fortunas dos mais ricos do planeta e faz parte da História da Humanidade, portanto, o CEO da Teleperformance podia poupar no discurso de terem percebido antecipadamente a oportunidade de negócio e tal como se fosse algum guru da gestão.

Vamos lá ver se a gente se entende. É que eu conto com quatro anos e meio de centros de contacto desde que entrei no mercado de trabalho, portanto, sei bem do que falo. Além disso, antes de ter passado por aí, tive outros contactos com o mundo maravilhoso dos contratos temporários. A última vez que trabalhei nesse mundo foi em 2005, portanto, a flexibilidade que senti no contrato e local de trabalho não foi fruto das mais recentes legislações liberais. Já as tínhamos há muito tempo.

E já tínhamos contratos de 15 dias e menos (quando trabalhei em promoções tinha contratos de dois dias), remuneração por objetivos, férias e horas extraordinárias não pagas, horários de oito horas seguidas apenas com meia hora de intervalo, mudanças de entidades patronais quando lhes apetece sem dar cavaco aos trabalhadores/as. Que mais se pretende? Escravatura? Claro que não, que disparate, Ceridwen! Lá estás tu com os teus exageros!

Os centros de contacto têm no seu coração uma coisa chamada ACD – Automatic Caller Display – que decide o destino de cada um/a. É o ACD que mostra o número de chamadas em espera, o número de pessoas a atender, em pausa, os tempos de espera, os tempos… porque num centro de contacto, o tempo é tudo: tempo de log (que é o tempo em que o telefone está a receber chamadas), tempo de pausa, tempo de espera, tempo de chamada, o tempo. Todo o tempo é controlado, os corpos disciplinados sob a colaboração dos/as vigilantes (chefes de equipa perfeitamente doutrinados e que estão logo acima dos/as operadores/as na escala hierárquica, mas que frequentemente, têm aspirações e esperanças de chegar a CEO's da coisa).


Recordo o brilho nos olhos de um jovem chefe de equipa ao falar do que seria o ideal de um centro de contacto: assegurar a presença somente das pessoas necessárias ao trabalho (chamadas, naquele caso) para cada dia. E, à hora que falava, já era possível saber quantas pessoas seriam necessárias para as próximas cinco horas: havia tecnologia que conseguia analisar mediante o padrão de contactos recebidos, quantas pessoas seriam necessárias para cada dia da semana. Ou seja, na segunda precisavam de 50, estavam 50, no domingo 20, e apenas 20 lá estariam. Onde estavam os outros 30? Em casa, sem receber, claro. Ou a receber algum subsídio do Estado, que cabe sempre aos contribuintes pagar ou que estas empresas não gastam. Então porque é que ainda não operavam dessa maneira? Bom… essa porcaria chamada legislação é possível contornar e aldrabar, mas não ignorar totalmente, portanto, havia um limite para a decência. Mas esta decência já na altura não era cumprida noutros centros de contacto: mais pequenos, onde havia sim, este sistema de um calendário semanal e onde as pessoas podem ser requisitadas consoante as necessidades da empresa, a única que conta neste binómio socioeconómico.


Não é por nada, mas nestas condições também eu sou competitiva.


A Licenciatura

«Deveria haver, na universidade, uma licenciatura em Operador de Call Center, defenfe o CEO da Teleperformance, para que as empresas não tenham de ser elas a investir em formação».

Vamos lá ver, segundo o sr. Cardoso, os contribuintes portugueses/as, os/as mesmos/as que a Teleperformance explora e a quem impõe condições indignas de trabalho, é que devem pagar sua formação (seja numa pública, seja numa privada o Estado, ou seja: NÓS, pagamos sempre o ensino), para que empresas pobrezinhas como a Teleperformance não tenham que «investir em formação». Não lhe chega terem à disposição candidatos/as com formação em línguas estrangeiras e na materna, para além das competências de informática na ótica do/a utilizador/a e capacidade de expressão verbal e argumentação para as quais, a Teleperformance terá contribuído apenas com os seus impostos, como todos/as nós e como todas as outras empresas. Não, pelos vistos é preciso que outros paguem a formação específica para trabalhar na Teleperfomance. Mas porquê uma licenciatura em operador de call center e não em operador de supermercado? Porquê aquela e não esta?

Será que este CEO sabe que, a partir do momento em que a profissão adquire estatuto de formação avançada tem que ser paga como tal? 

É que, uma coisa é ter licenciados/as (em arquitetura, engenharia civil, literatura, relações internacionais ou noutra coisa qualquer) a trabalhar em centros de contacto outra, muito diferente, é ter licenciados/as em Operador/a de Call Center, ou seja, pessoas com formação especializada superior e universitária na área específica em que estão a trabalhar.

Ou a ideia do sr. Cardoso é ter funcionários/as especializados com formação superior pagos como operadores não especializados e com formação básica? Estará a Teleperformance disposta a pagar por licenciados/as em Call Center?

Este CEO andou mesmo na universidade?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

«Ele é muito atrevido! Agarrava-me e eu pensava: "Como é que eu vou escapar?"»

A afirmação é de Cuca Roseta, sobre o dueto com Julio Iglesias, plasmada na revista Lux Woman (e que abre o artigo sobre o evento). Esta afirmação é antecedida por: «Durante o dueto com Cuca Roseta, Julio Iglesias mostra que continua um sedutor».
A generosidade do ou da autora do artigo em considerar que estamos perante a confirmação das capacidades de sedução do cantor é óbvia. E ainda mais óbvia se torna quando se lê o texto na íntegra e o humor  com que toda a situação é relatada.
Então, a cantora, que «de forma divertida, refreou as intenções do cantor» que tentava, em cima do palco, beijá-la, afirma: «Ele é muito atrevido! Pensamos que ele é um galã charmoso, um senhor com quase 70 anos que respeitamos, mas ele acha que é novíssimo. Agarrava-me e eu pensava: "Como é que eu vou escapar desta situação de uma forma elegante? (risos). Mas foi giríssimo. Toda a gente se riu imenso e eu também. Até havia umas senhoras que diziam: "Não se ria, deixe, deixe."» 

Todo o teor do artigo é deplorável. Pelo depoimento da cantora que, aparentemente, desvaloriza uma situação de assédio desta natureza, pelo facto de ter acontecido em palco para gáudio das espetadoras que ainda consideraram um exagero a cantora não se deixar agarrar e beijar, pelo facto de considerar que era importante escapar de forma «elegante» às mãozinhas do porcalhão. A inconsciência da jovem está não só patente nas afirmações que reproduzi acima, mas também porque continua a achar que «foi uma honra enorme abrir o concerto dele» e que se trata de «um homem inteligentíssimo». Não surpreende que a cantora não identifique a situação com o que realmente é: assédio, abuso de poder, comportamento machista que deve ser violentamente repudiado e nunca normalizado. Não ficaria surpreendida se questionada com a possibilidade de alguma vez ter sido vítima de comportamentos machistas a cantora responda candidamente que não. Muitas mulheres não têm verdadeiramente consciência de situações que são, de facto, abusivas. E por norma, também respondem que não são feministas, são femininas. Mas o problema não fica por aqui, ou seja, pela total falta de consciência relativamente ao abuso.
Mais grave que as declarações da cantora é o tom do artigo (sem qualquer referência à sua autoria, já que só se identifica os autores das fotografias que o ilustram), que é verdadeiramente vergonhoso. Uma revista para mulheres redige este artigo desvalorizando por completo a noção de que estamos perante uma situação abusiva, chamando de sedução e charme o que não passa de machismo vil, comportamento absolutamente reprovável. Uma revista cujo público alvo são as mulheres continua a passar a mensagem de que é normal, risível, castiço até, que alguns homens tenham comportamentos destes. São charmosos. Sedutores. Másculos. 
Quanto a elas? Quanto às leitoras?É suportá-los com elegância. E palmas, claro.
Palminhas.