sexta-feira, 9 de novembro de 2012

«É a abstracta vida que me assalta»*


Desde a transmissão das palavras de Isabel Jonet na SIC Notícias, tem sido um corrupio de exageros. O exagero dos que são adeptos da condenação em praça pública (e com ela, a condenação do Banco Alimentar) é proporcional ao exagero no branqueamento do discurso (como é exemplo o texto de Henrique Monteiro, no Expresso). 

Sobre o discurso da senhora (e já agora, de outros que têm marcado ponto na televisão e jornais)...

Há pessoas que viveram acima das possibilidades? Certamente que sim. O curioso é que são principalmente as que agora dizem que temos que empobrecer, ou aguentar. O drama é que em muitos casos este discurso é proferido por quem efetivamente não empobrece (no verdadeiro sentido da palavra) ou não tem que gerir um salário mínimo ou - que digo eu - um salário mileurista. Obviamente que determinados salários ou rendimentos aguentariam e aguentariam o aniquilamento do Estado Social. Muitas das vezes, aqueles que conseguiram fugir até agora ao pagamento devido a esse Estado através de esquemas e transações muito bem geridas por especialistas na matéria (não falo, portanto, de quem recebe o RSI ou o subsídio de desemprego). O que aflige neste e outros discursos é a abstração com que se fala do povo, dos pobres, dos jovens que estão sem emprego, do cidadão em geral. São exatamente os que comem bifes todos os dias - que digo eu - os que reúnem em hotéis de luxo, frequentam restaurantes de luxo, viajam em executiva e têm motorista que os leva a todo o lado (em alguns casos com direito a despesas de representação, ajudas de custo e outras benesses que o resto dos cidadãos contribuintes não tem acesso, mas aguenta) que pautam o seu discurso com este tom miserabilista, com este tom de que todos os outros (os que não vivem dessa forma) devem abdicar do prato ao jantar (de bife, de sopa, ou até mesmo de nestum). São esses que eles e elas acham que devem aguentar o peso da derrocada do Estado Social.
Voltemos especificamente a Jonet. O trabalho que fez e faz é, obviamente, um trabalho válido. Não faço ideia se a senhora aufere de remuneração por isso ou não, nem me choca que receba. Mas isso também não a isenta de crítica. É tão livre de expressar o seu ponto de vista quanto os restantes são livres de discordar (veementemente) do mesmo. 
É que se há muitos que vão a concertos, ou compram compulsivamente, ou fazem férias 5 vezes ao ano, muitos outros há que não têm (nem tiveram) sequer o que pôr no prato ou pagar contas ou medicamentos. E muitos deles trabalharam a vida toda e nunca viveram à custa de bifes diários.

*Roubado a Manuel António Pina

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Bocejo livresco

Com honrosa exceção da livraria Almedina, faz-me confusão que as campanhas de promoção das livrarias versem, invariavelmente, exatamente sobre os livros rotulados como sendo os livros mais vendáveis, os que lemos e rapidamente esquecemos. Invariavelmente (com exceção da Almedina, sublinho) , bocejo perante as newsletter's sobre as fantásticas promoções dos livros que empestam as montras das livrarias.
Este esquema no universo livreiro faz-me lembrar essa outra pescadinha de rabo na boca da televisão portuguesa, que serve lixo ao jantar televisivo dos e das portuguesas a coberto da justificação de que é o que os e as portuguesas querem. Pois.

Abelardo Morrel

O que não se deve fazer a Clarice

Como leitora compulsiva de Clarice Lispector, é com pena que registo que as edições de Água Viva e O Lustre são dececionantes. Não pelo texto da autora, mas pelo que a Relógio d'Água não fez: uma revisão digna, que permita ler ideia em vez de idéia e em que o trema não tremelique pelo texto (a título de exemplo). 
Se quisesse uma edição em Português do Brasil (tenho, por exemplo, o Correspondências, oferecido por mão querida) teria comprado uma edição da editora original, a Rocco. Mas tal não é o caso. Não estava preparada para isto. 
Sei que publicarão mais, nomeadamente os livros infantis de Clarice. Espero sinceramente que sejam edições mais cuidadas. A bem da minha saúde.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Boa Semana




[numa breve incursão a uma fnac a menina que me atendeu definiu Maria Teresa Horta como uma autora feminista - do feminismo bom]



Na sexta, dia 9, oportunidade para ir à 2.ª Sessão de OPENSHOW, em Coimbra, na maravilhosa Casa das Caldeiras. O nosso agradecimento à produção: The Portfolio Project

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Boa Semana



Ornatos Violeta - Capitão Romance from MPAGDP on Vimeo.


Lobo Antunes fala sobre a vida e as suas vicissitudes na TSF.
Nunca consegui ler Lobo Antunes
Tanta coisa para dizer desta semana que se inicia e eu sem palavras para usar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Boa Semana



Perdemos mais um escritor.
Por favor, alguém me dê boas notícias.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Boa Semana


«estive aqui o dia todo numa grande angústia»



O que se sente quando se perde tudo? 
Tudo: a consciência de si, a consciência d@ outr@. O que se vê quando o mundo passa ser um enorme chão armadilhado? 
Milhares de pessoas por todo o mundo devem ter respostas para estas perguntas: algumas estão bem próximas de cada um(a) de nós.
Não os/as vemos? Não os/as ouvimos?


Dias de viagens, de cansaço gravado no corpo, de vozes distantes e alarmes familiares. Poucas horas de sono, planos para mais viagens e alguém que não sabe o que esperar para além do tormento de ver o seu quotidiano [a sua zona de conforto, como diriam os nossos governantes] a ruir, a rir-se de si. As perguntas (que poderei mais eu fazer? Que sabem mais os meus dedos fazer para além disto que me ocupa os dias há anos? Onde poderei exercer um trabalho remunerado? Que farei agora?) pairam num enorme balão por cima da sua cabeça - e eu consigo lê-las. Ainda ao longe.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Continuem a assobiar para o lado que há quem vos cante olhos nos olhos

Hoje uma cantora lírica sobrepôs a sua voz à de Cavaco. Certamente mais límpida e mais acertada sobre o que há a relembrar aos portugueses e portuguesas. 
E o que cantou para os que (ainda) se julgam nossos donos, foi isto:


«Sem frases de desânimo,

Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,

Presente e seguro do que vale.


Pedra em que a vida se alicerça,
Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas
Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.



Olha que a vida nos acena
Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.»


Poema de João José Cochofel


Resgatar o Futuro




Hoje estou na Aula Magna. 
Para quem não pode acompanhar os trabalhos presencialmente, o Congresso está a ser transmitido em direto, aqui.





segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Boa Semana

Brian Oh foi a minha mais maravilhosa descoberta durante a minha existência no Second Life (SL) e costumo pensar nele como tendo um pouco de Manoel de Oliveira (pela lentidão de certos planos), mas sobretudo, como um Burton do segundo mundo.

Esta é apenas uma das suas muitas estórias. Brian é pintor, mas o seu mundo há muito que não cabia nas telas, de modo que, apostou na tecnologia do SL para dar corpo a certas ideias «que não funcionariam tão bem numa tela a óleo».

Eis Anna, who:
was a quiet girl
who through eyelashes
watched the world

And though she appeared 
to be quiet meek
inside she harboured
a dark streak



tired of body apps
that people used
to feel their gaps

so with a touch
of profound sadness
Anna embraced 
what we've call madness

Acho que agora bem que estava a calhar um segundo mundo, um segundo país - será este irrecuperável?


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Boa Semana






And a Man sat alone, drenched deep in sadness. And all the animals drew near to him and said, "We do not like to see you so sad. Ask us for whatever you wish and you shall have it." The Man said, "I want to have good sight." The vulture replied, "You shall have mine." The Man said, "I want to be strong." The jaguar said, "You shall be strong like me." Then the Man said, "I long to know the secrets of the earth." The serpent replied, "I will show them to you." And so it went with all the animals. And when the Man had all the gifts that they could give, he left. Then the owl said to the other animals, "Now the Man knows much, he'll be able to do many things. Suddenly I am afraid." The deer said, "The Man has all that he needs. Now his sadness will stop." But the owl replied, "No. I saw a hole in the Man, deep like a hunger he will never fill. It is what makes him sad and what makes him want. He will go on taking and taking, until one day the World will say, 'I am no more and I have nothing left to give.'

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ousar dizer - Maria Teresa Horta

«Quem ousa dizer
tirano
sem contornar a palavra?

(os olhos firmes e espessos)

quem ousa dizer
tirano 
com a janela entreaberta?

(os dedos duros e secos)

Quem ousa dizer
tirano
sem ter a porta fechada?

(os lábios brancos e presos)

Quem ousa dizer
tirano
sem ter a arma firmada?

(os sentidos bem despertos)

Quem ousa dizer
tirano
sem lhe contornar a casa?

(a espingarda sob os dedos)

Quem ousa dizer 
tirano
sem ter violado o medo?»

Ela. Recusou hoje receber o prémio D. Dinis (merecidíssimo) das mãos de um dos homens que está empenhado em destruir o País.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Boa Semana



Gostava muito de estar esperançada. Mas não estou.

Enquanto não há esperança, contribuições para o riso.

domingo, 16 de setembro de 2012

Match point: Passos e Portas (2)

Não há casamentos grátis.

Match point: Passos e Portas (1)


Portas até queria que o cds-PP fosse um partido de bem, mas infelizmente também tem que ser patriota.

Lullaby de Domingo revisitada - esta é para ti, ó Portas


Também Pôncio Pilatos ficou para a História como aquele que lavou as mãos


Mas faz-me um favor, ó Passos, quando anunciares a coisa, deixa-me estar bem longe daqui, ok? Afinal de contas, isto não é um casamento



«Portugueses estão dispostos a fazer mais sacrifícios»



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

(N)Ellie, o Presidente







Cavaco Silva enquanto Presidente da República faz lembrar a Ellie, o mamute fêmea que aparece pela primeira vez no segundo filme da Idade do Gelo. Sempre que achava estar em risco a sua sobrevivência, e porque achava que era uma gambá, Ellie fingia estar morta. O problema é que um mamute (ou um elefante) dificilmente passa despercebido... mesmo que se mantenha imóvel dentro de uma loja de loiças.

Ou então esta outra,  mais atual, (N)Ellie the Elephant, que...

Night by night she danced to the circus band
When (N)Ellie was leading the big parade
She looked so proud and grand

No more tricks for (N)Ellie to perform
They taught her how to take a bow
And she took the crowd by storm

oooohhhhh

(N)Ellie the elephant packed her trunk
and said goodbye to the circus...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Boa Semana

Enquanto isso, o Público anuncia que os cortes salariais não bastam... vêm aí ainda mais medidas de austeridade.. mas não para todos claro. 

domingo, 9 de setembro de 2012

Canibais à solta

Théodore Géricault

É urgente haver consequências para os casos em que uma eleição acontece sob falsos pretextos. A criatura que ocupa agora o cargo limita-se a não cumprir nada do que foi o programa eleitoral que apresentou (e pelo qual foi eleito). Isto tem que ter consequências. E se não há mecanismos de autorregulação do Estado para casos graves como estes, chega a altura de todos nós, os números, aqueles que estas criaturas (não esqueçamos que é um governo de coligação psd-pp) querem  tornar progressivamente em escravos, pormos esta gente na ordem. Ou seja, dali para fora. Nem que seja a pontapé.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Boa Semana: «A única guerra que temos é a guerra económica»

O medo acaba com o desejo
José Gil



«Portugal parece estar submetido a uma prova de resistência de um povo inteiro, até que ponto aceitará ele vergar?»

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Escândalo da Aldeia




Tamara Dean

Eu vi uma criada de servir. (....) As [crianças] do sexo feminino, sobretudo, envelhecem prematuramente, graças ao esforço que lhes é exigido logo a partir dos 5 ou 6 anos. Os rapazes são mais poupados. Mesmo as famílias de teres e haveres, quando têm de mandar um filho para a cidade, para os estudos, escolhem sempre o varão. As filhas ficam a trabalhar nos campos ou a vender ao balcão da mercearia ou mesmo na taberna.
Encontrávamo-nos de visita em casa de uma família da terra. A servir à mesa, uma jovem de 12 anos, fresca, de olhos brilhantes e tristes. (...) um dos circunstantes perguntou ao dono da casa, (...), porque não a mandava continuar os estudos, visto ter concluído a instrução primária com brilho. O homem mal conseguiu dissimular o escândalo que o alvitre lhe causara. «Qual quê? Vai servir que tem bom corpo. Era o que faltava! Gastar dinheiro com gente desta. Era um escândalo aí na aldeia. O que havia o povo de dizer».

António dos Santos, in Notícias da Amadora, 11 de Janeiro de 1969


Como era bom viver no Portugal salazarinho

Adenda: a Inês Brasão acaba de publicar um maravilhoso ensaio sobre este tema.

Boa Semana





Semana(s) cheias de palavras de pecado. O discurso médico do século XVIII a garantir que a masturbação era fonte de «palpitações, perda de vista, dores de cabeça, vertigens, convulsões como no caso dos epiléticos e até frequentemente a autêntica epilepsia; dores espalhadas pelos membros ou fixadas na nuca, na espinha dorsal, no peito, no ventre; grande fraqueza nos rins e, às vezes, um entorpecimento quase geral». 
Não muito longe deste andam alguns personagens do cenário político estadounidense, os quais garantem que os corpos das mulheres conseguem feitos extraordinários apenas, eventualmente, previstos por estes médicos ou, antes deles, pela santa igreja que dominou/a a Europa. Ainda nesta linha de raciocínio, de lembrar este caso e perceber qual a relação com isto. Aparentemente, nenhuma. I.e. que relação pode haver entre a condenação de uma mulher vítima de gang-rape em 200 chicotadas (o homem que estava com ela - que também foi raptado e violado - recebeu 90 chicotadas - pela acusação de estar com uma mulher que não era sua familiar em privado - leia-se: no carro) e uma mulher republicana que fez uma proposta de lei no Arizona na qual defende que as entidades patronais têm o direito de escolher quem trabalha nas suas empresas, com base nas suas convicções religiosas, i.e., se acreditar que as mulheres não devem tomar a pílula, e elas a usarem (e não tiverem uma declaração médica a comprovar que o seu uso é para controlo de acne, p.e.) para efeitos de contracepção (sei lá, o uso para o qual foi inventado) podem despedi-las. Nem uma palavra acerca do uso do preservativo para os homens.. ou a vasectomia. Obviamente, que, por trás das convicções religiosas (em ambos os casos) esconde-se um enorme desprezo e ódio pelas mulheres. As palavras do ministro saudita para justificar o castigo aplicado: total concordância com «o livro de deus e os ensinamentos do profeta maomé» servem perfeitamente para a situação anterior: basta mudar o nome do profeta.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Some things never change

Cartier Bresson

«(...) A 'feudalidade' é um sistema de exploração dos trabalhadores por um pequeno grupo de especialistas da guerra, que nada produzem e que são alimentados por outros. (...)»

Georges Duby, 1991

sábado, 18 de agosto de 2012

Ouvi Dizer




às horas que bato o dedinho nas teclas, estão os rapazes a tocar o som da reunião - e eu aqui a ter uma apoplexia (bendita Antena 3 - seis é melhor que nada). Não sei como sobreviverei a Outubro.
E canto como, se num repente, voltasse a estar na Aula Magna..... (bendita Antena 3)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Boa Semana






Porque, às vezes, nada pode ser alguma coisa.
«nothing can be truly something»



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Boa Semana




Em semana em que se anuncia a reforma espanhola nos conteúdos da antiga disciplina de Educação para a  Cidadania, por instrução da santa madre igreja, é com um sorriso cínico que lemos que José Ignacio Wert (ministro da educação) ganhou um enorme aplauso na Conferência Episcopal. O que deu em troca? Ora, ora, nada de mais, apenas a garantia de exclusão de conteúdos relacionados com a homofobia, conflitos sociais ou a desigualdade de género - tudo temas blasfemos, já se vê, daqueles que se quer bem afastados de uma monarquia católica. A ICAR manda? Espanha obedece, monsenhor! Veremos quanto demora até cá chegar.

Por cá as coisas não estão muito melhores. O prof. Marcelo diz que o partido laranja não pode mostrar medo na rua. Eu vejo com muito bons olhos que o Passinhos e restante turma vão mostrar o medo ou que quiserem à porta fechada, pelo menos aliviam o ar. 

A esperança na humanidade chega agora do Mali.

domingo, 5 de agosto de 2012



O líder de um grupo «asiático» acusado de aliciar, abusar sexualmente e violar «jovens britânicas» (entre os 13 anos e os 15 anos) viu a sua pena de prisão ser aumentada em três anos por ter abusado de uma jovem «asiática».  Shabir Ahmed, 59 anos, irá agora cumprir 22 anos de cadeia. Durante o tempo em que o julgamento se arrastou, os jornais britânicos relatavam as atrocidades cometidas - 47 vítimas - pelo grupo de oito paquistaneses e um afegão. A primeira denúncia data de 2008, mas a polícia e o Ministério Público acharam que jamais um «júri iria acreditar na rapariga» (ela podia não ser credível... mas estava a dizer a verdade) - e o caso foi abandonado até haver uma mudança de chefia. As vozes críticas fizeram-se ouvir, com particular acutilância a extrema-direita, que organizou grupos de protesto junto ao tribunal: alegadamente, o caso não terá sido investigado por as autoridades recearem a acusação de 'racismo' (i.e. a obsessão pelo 'politicamente correcto' terá permitido que mais raparigas se tornassem vítimas); que os jornais optam por tornar vaga a nacionalidade dos arguidos, apelidando-os de «asiáticos», pela mesma razão (obsessão pelo politicamente correto); que os crimes cometidos contra a «jovem asiática» mereceram apenas mais três anos de cadeia, o que coloca em causa o valor do bem jurídico protegido (autodeterminação e liberdade sexual) quando o mesmo é cometido contra uma britânica ou contra uma «asiática».

Uma das coisas que salta à vista neste caso é o quão discricional pode ser o ato de investigar e de acusar.  O Ministério Público - que tem o poder de levar ou não alguém a tribunal - de acreditar ou não na(s) testemunhas, de pedir as perícias que entender - pode errar. E como vimos - e nem seria necessário ir até às ilhas britânicas - erra. Seria natural, caso não fosse muito, muito grave. E particularmente grave uma vez que, acreditar ou não na testemunha é algo subjetivo, i.e, sujeito aos nossos preconceitos e contradições.

Barbara Kruger


Outra questão que me ocorre é o receio da acusação de racismo e preconceito. Palavras facilmente arremessadas quando se trata de descredibilizar @ outr@.
Patriarcado é uma palavra e um conceito muito usado pel@s cientistas sociais, com particular incidência para quem trabalha questões de género. De uma forma simplista, define uma organização social em que a autoridade é exercida pelos homens. Continuando no registo simplista, é mais ou menos consensual que o patriarcado é responsável por uma série de crenças e atos que prejudicam as mulheres e que, a violência de género, bem como a violência praticada contra minorias sexuais, é motivada pelas crenças alimentadas pelo patriarcado. Os programas de tratamento para arguidos acusados e violência doméstica incluem módulos que visam alterar a representação que os agressores têm das mulheres (seres inferiores e que precisam - e podem - ser disciplinados fisicamente e que precisam de ser controladas dada a sua natureza emocional e instável - isto de ter útero e ovários provoca cá uns humores....). Nos países ocidentais ouvem-se críticas à hiper-sexualização das crianças - em particular das raparigas - e do abuso dos corpos (ou partes deles) para vender: seja o que for e ainda que nada tenha que ver com mulheres ou com os corpos delas. Responsabiliza-se a cultura patriarcal pela violência doméstica e sexual.

Contudo, parece haver um pudor excessivo quando se trata de equacionar se os crimes praticados pelo gangue de Rochdale merecem também uma abordagem étnica/cultural. Obviamente que nem todos os paquistaneses e afegãos são agressores sexuais ou pais dispostos a matar as mulheres pela honra familiar (o caso de Lal Bibi está aí para o provar). Contudo, parece-me um pouco óbvio que estes arguidos não só têm um enorme desprezo pelas mulheres, como em particular pelas mulheres cujo estilo de vida pode ser encarado como particularmente indigno e cujo comportamento e assemelha mais ao dos homens - o que as torna, aos olhos da sua cultura, menos mulheres, menos humanas reforçando a sua indignidade face a qualquer atitude de respeito. Em muitos países as mulheres são inferiores por letra da lei: não lhes é reconhecido direito de propriedade, direitos sexuais, de trabalho, ou outros direitos básicos de cidadania, noutros países, menos atrasados alguns destes direitos estão garantidos mas são limitados. Ora, não me parece totalmente descabido que os cidadãos desses mesmos países tenham crenças misóginas (tal como, de resto, acontece no Ocidente) e que vejam as mulheres ocidentais - que desrespeitam todos os valores defendidos nos seus países de origem - como seres particularmente desprezíveis e indignos de respeito. Contudo, quando se diz isto, surge logo a enorme sombra da palavra racismo. É um mistério compreender como é que reconhecemos que um sistema de organização social ocidental prejudica e promove a violência contras as mulheres, mas somos preconceituos@s se  dizemos o mesmo de pessoas cuja cultura que faz exatamente o mesmo que o ocidente - mas a triplicar.  De notar que não estou a referir que é uma questão religiosa (embora não conheça todas as religiões do mundo, estou em crer que não há uma única que promova ou garanta a igualdade entre homens e mulheres, pelo contrário, tendem a reforçar preconceitos de género). Curioso que se acuse de racismo quem afirma que este caso tem um lado cultural/etnico, mas que tudo se cale quando uma «jovem britânica» não foi levada a sério quando denunciou um crime gravíssimo como é o do abuso sexual. É que os preconceitos contra as mulheres parecem ser sempre menores face a todos os outros preconceitos.

Adenda: todos os arguidos eram respeitados na comunidade. A maioria tinha emprego e um deles desempenhava funções de líder espiritual. Alguns tinham famílias com filh@s. Ou seja: o perfil normal de um agressor sexual. As vítimas eram raparigas pobres e oriundas de famílias desestruturadas, algumas das quais ao cuidado dos Serviços Sociais britânicos e em casas de acolhimento. Com excepção do caso da menina «asiática», todas as outras eram, segundo a imprensa, britânicas - em alguns jornais podia ler-se 'brancas'. Porque as vítimas eram brancas - originárias do país de acolhimento - e os agressores estrangeiros o caso serviu de pano acusações mútuas de racismo: extrema direita acusa estrangeiros de serem violadores de mulheres brancas - como se a extrema direita se importasse com o direito à autodeterminação sexual das mulheres! - e enquanto isso, o líder do grupo acusou o tribunal de racismo e perguntou porque é que o júri era constituído, em exclusivo, por pessoas brancas.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Boa Semana


Halima Bashir, uma médica sudanesa vítima de perseguição política, tortura e violaçãoficou conhecida durante o decurso do seu pedido de asilo no R.UA sua biografia é contada por voz própria (em co-autoria) no livro Lágrimas do Darfur Nele, a autora descreve o estado de choque, de alienação e profunda vergonha que a dominaram após a violação. Apesar de ter crescido no seio de uma família liderada por um pai moderno que a apoiou e incentivou a estudar, Halima teme pelo seu futuro.  Não tem dúvidas que, sendo médica, conseguirá assegurar a sua subsistência, mas o resto «um marido, filhos....(...) que homem quererá desposar uma mulher que foi violada»? O pai - que lhe adivinha os pensamentos - irá tratar do assunto. Halima irá unir-se a um antigo conhecido que entretanto fugira do regime viajando para Inglaterra - país que ela aprendera na escola ter sido «o berço da democracia» -, portanto, ela irá contrair matrimónio com um marido ausente. Já na Europa - e devido às dificuldades que estava a ter para conseguir o reconhecimento como asilada (o qual lhe foi recusado duas vezes) -, foi aconselhada pelo advogado a falar com os media. Será esta opção que determinará que se torne o rosto da denúncia das atrocidades cometidas no Darfur, em particular, as agressões contra as mulheres.
No seu livro, Bashir descreve a sua infância numa aldeia e relata a sua experiência enquanto aluna numa escola onde as meninas árabes recebiam tratamento privilegiado contrastando com as negras, as quais eram constantemente castigadas e obrigadas a realizar todo o tipo de tarefas (incluindo limpar a escola). Curioso que na sua obra Halima caia na tentação de um discurso discriminatório e estereotipado em relação a outras nacionalidades: p.e. quando acusa os somali de abusarem do sistema de asilo inglês, ou quando se queixa das suas vizinhas iraquianas que reclamavam do tamanho exíguo do apartamento.


E agora, mais perto de casa...

O que dizer disto? Ou disto?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

As Primeiras Mulheres Repórteres - da Isabel Ventura


Quero apresentar-vos um livro. 
Da Isabel Ventura. E não o recomendo só porque ela é-me muito próxima (que é). Devem lê-lo, porque resulta de um trabalho sério sobre as primeiras mulheres que se atreveram a entrar nas redações de jornais, mesmo quando os outros repórteres alegavam que não deviam porque assim não poderiam praguejar, ou quando lhes gozavam as meias de vidro, ou eram apoucadas porque sim. A Isabel traz-nos relatos que não conhecíamos de um país aparentemente distante, de mulheres e homens que fizeram este País ser menos pequenino do que era.

O livro da Isabel é muito bom. Tão bom que foi prefaciado pelo Fernando Alves, que o apresenta com o jeito que lhe conhecemos. Só dele.





segunda-feira, 23 de julho de 2012

Boa Semana




As últimas duas semanas têm sido recheadas de emoções fortes. Esta, que agora se inicia, promete uma ida ao inferno.

Never quit

segunda-feira, 16 de julho de 2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Boa Sexta Feira




Esta semana - a correr à velocidade com que nos cortam direitos - tive a oportunidade de me certificar que ainda não me consegui habituar à maldade humana. Senti-me afogar na descrença e foi então que a lembrança da notícia com que iniciei a semana me salvou de ser engolida pela desesperança.

my valentine for you two/too


segunda-feira, 2 de julho de 2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Boa Semana



A-mil

Ainda não acabou a telenovela do euro, pois não?


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Um «lugar para cada um e cada um no seu lugar»*


«Dentro do lar, a mulher não é escrava, deve ser acarinhada, amada e respeitada, porque a sua função de mãe, de educadora dos seus filhos, não é inferior à do homem. Nos países ou nos lugares onde a mulher casada concorre com o trabalho do homem (...), a instituição da família pela qual nos batemos como pedra fundamental de uma sociedade bem organizada ameaça ruína (...). Deixemos, portanto, o homem a lutar com a vida no exterior, na rua... e a mulher a defendê-la, (...) no interior da casa. (...) Não sei, afinal, qual dos dois terá o papel mais belo, mais alto, mais útil.» 





O autor é António Oliveira Salazar, em entrevista datada de 1932, mas é cada vez mais usual ouvir uma linha  de argumentação semelhante, hoje. 
Importa lembrar que Salazar foi pai do regime em que as mulheres não eram indivíduos, eram pertença da família, ou melhor, pertença dos homens, o que lhes dava o direito de lhes violarem a correspondência ou requererem depósito judicial, caso as mulheres abandonassem o lar. Viajar? Só com autorização do marido. Tudo a bem da família, claro...

* Fonte:Irene Flunser Pimentel, sobre uma das normas preferidas de António Carneiro Pacheco, ministro da Educação Nacional de Salazar e responsável pela criação das organizações femininas Obra das Mães pela Educação Nacional e Mocidade Portuguesa Feminina.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Boa Semana



Neste Junho soalheiro, as palavras perdem a nitidez numa verdade absoluta

Banda Sonora da semana patrocinada por N.E. [dankë], as palavras são do poeta maior, F.P.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

terça-feira, 22 de maio de 2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Liberdade de Imprensa





como


[só a garantia de impunidade pode explicar a violência policial na era dos telemóveis-câmaras: por cada um que cai há - haverá - SEMPRE um flash que dispara]

Boa Semana



Talvez tenha sido por os dias andarem negros e as noites expulsarem a confiança. Talvez fosse por falta do ferro ou dos minerais que dizem ser essenciais ao ser humano. Talvez fosse por não ter saído na sexta. Ou por ter perdido a exposição. Talvez fosse por ali ver a estória da curva sinuosa da esperança. Talvez fosse apenas por ser a última das sete. Fosse pelo que fosse, esta foi a mais perturbante das sete.


sexta-feira, 18 de maio de 2012



E depois da saga de ontem, isto.



Oh, take me back to the start

quinta-feira, 17 de maio de 2012




Raramente dou uso à impressora, pelo que, infalivelmente, quando preciso dela… os tinteiros secaram. Vai de ir às compras e eis que me deparo com a amarga realidade: a inflação atingiu os cartuchos, cujo preço está pela hora da morte. Vai de fazer contas à vida e opto pelos reciclados XXL. Sentada em frente ao computador e pronta para imprimir 9 envelopes. Duas horas depois descubro qual o raio da opção que permite à impressora perceber que, se dou ordens para imprimir num envelope DL, logo, estou a colocá-lo no lado para o qual aponta a setinha que está na própria impressora. Depois de aberto o Publisher, o Word, eis que, finalmente, o Acrobat me salva e quando acho que tudo está resolvido, 13 envelopes impróprios para enviar vêm provar-me o contrário.

Após 6 (seis) limpezas de tinteiros (!), o preto continua a deixar rastos por tudo o que é papel por onde passe, mesmo que não seja a área a imprimir…. Decido mudar de tarefa e experimento imprimir as cartas… já a antever que ficassem uma enorme cagada e a equacionar ir à loja reclamar por causa do tinteiro. Eis que as cartas saem em perfeitas condições (de notar que as cartas têm cabeçalho com um logótipo a 3 cores… e a morada do destinatário -, i.e., em tudo igual ao que é suposto ser impresso no envelope). Eis-me sem quaisquer motivos para reclamar do tinteiro… eis-me sem conseguir imprimir os envelopes. Eis-me prestes a explodir....................... 

Adenda: acabo de ser informada da origem do meu problema.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Boa Semana



Au Renouveau

Tout Redevient Beau

inspiração vista pela Susana, na rua de Portugal, em Bruxelas.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Είμαστε όλοι Έλληνες


                                      Somos tod@s greg@s





http://weareallgreeks.tumblr.com/

O responsável pela anedota diária de hoje garante que, contrariamente à Grécia:
«Em Portugal (...) procura-se uma ética social em tempos difíceis, olhando primeiro para os mais desfavorecidos.» Preciso de um pouco de tempo para me recuperar, que ainda estou a rir com esta do olhar primeiro para os 'desfavorecidos'. 

Quanto à ética, Pacheco Pereira talvez dê umas luzes à questão:




Boa Semana



Now it's the only time I know


Primeira semana após as eleições na mais ou menos livre França e numa Grécia amordaçada e constantemente ameaçada.
Última semana para gastar dinheiro na Feira do Livro. (para quem não gastou tudo no Pingo Doce)
 Quinta-feira é dia de estreia da última criação de Burton, nos cinemas portugueses.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Max Aub (ainda)


Reblogged from Mind Garden

Matei-o primeiro em sonhos; depois não descansei enquanto não o fiz de verdade. Era inevitável.

Crimes Exemplares, Max Aub

terça-feira, 1 de maio de 2012

Brevemente, numa rua perto de si

Um dia hão-de tirar-nos tudo.


8 horas de trabalho
8 horas de lazer
8 horas de descanso

Parece simples, não é? Mas ainda há bem pouco tempo isto estava em discussão. Mais, ainda se ouvem vozes de instrumentad@s que acreditam mesmo que a produtividade reside no número de horas que se trabalha. E que defendem que @s portugues@s não querem trabalhar: têm um gene da preguiça muito desenvolvido. Esta gente fica aborrecida que haja gente que goste de ser paga quando trabalha. É uma chatice, concordamos.
Mas claro, isto não é nada. A meia hora pode ter caído, mas vigoram bancos individuais de horas. E isto não é nada. O caminho na destruição dos direitos conquistados na segunda metade da década de 70 está agora a ser percorrido em alta velocidade. Em certos setores do mercado de trabalho as pessoas - ou colaboradores na novilíngua - não passam de matéria prima - permanentemente em saldos.
E, parece-me, ainda não vimos nada. Esta semana, dizia-me uma amiga: «estou mesmo a ver que para o ano que vem só recebemos 11 meses. As pessoas acham tudo normal». Demorei alguns segundos a perceber que ela estava a sugerir que chegará o dia em que os contratos de trabalho não contemplarão o pagamento do mês de férias. Não, não é o subsídio, é o mês de férias. Sim, esse dia chegará, concordei. E nada se dirá. Haverá sempre aquel@s que dirão que faz todo o sentido: que se não se está a trabalhar, logo não se deve receber. E o governo dirá que temos que endireitar as contas públicas. Que não podemos viver acima das nossas possibilidades. E continuaremos a ler que @s portugues@s se habituaram a viver que nem alemães. Não, que nem alemães não, que esses são poupadinhos. Que nem gente do sultanato do Brunei! Como se em Portugal houvesse petróleo! Carro? Onde já se viu? Desde quando pobres têm carro? Metro com mais de 3 carruagens? Mas quem julgam que sois? Julgais por acaso que tendes sangue azul para exigir transportes públicos com o mínimo de condições de dignididade? Casa? Mas desde quando pobre tem casa?

Leio que o governo prevê poupar 250 milhões nas prestações sociais... mas como, pergunto-me, se o desemprego não pára de aumentar? Ah... através do «reforço das regras restritivas de acesso às várias prestações sociais, nomeadamente, o abono de família e o rendimento social de inserção.» percebo. Infelizmente, percebo o que Gaspar quer dizer: «quando aumentamos impostos, para protegermos os menos favorecidos e os mais vulneráveis». Como bem assinalaram os Ladrões, segundo a visão de Gaspar, estes são os mais vulneráveis.
Ouço Passos Coelho, na TSF, a dizer aos/às trabalhador@s que 'não vale a pena fazer greves e manifestações'. As celebrações deste dia começaram após um massacre, não foi?

Max (edição espanhola da Media Vaca)

«Era a sétima vez que me mandava recomeçar aquela carta. Tenho o meu diploma, sou uma dactilógrafa de primeira classe. Da primeira vez, foi por um ponto, que ele disse que devia ser ponto parágrafo. Outra vez, porque alterou o 'possível' para 'talvez'. Outra, porque ficou um v em vez de um b. E outra, porque ele se lembrou de acrescentar um parágrafo. E outras vezes, já não me lembro porquê. O caso é que tive que recomeçar sete vezes. E quando lha levei, olhou para mim com aqueles olhinhos hipócritas de chefe de secção e disse: 'olhe, menina....'. Não o deixei acabar. Há que ter mais respeito pelos trabalhadores.»

Crimes Exemplares, Max Aub
(um dos meus livros de eleição desde que o descobri, nos 90). Agradeço publicamente ao senhor da Antígona que me ofereceu a edição ilustrada (maravilhosa, maravilhosa), na Feira do Livro. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012