terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A paciência dos doentes e a sapiência de uma equipa ministerial

Segundo o ministro Paulo Macedo e outras vozes apoiantes da actual linha condutora para a saúde, as taxas moderadoras servem, como o próprio nome indica, para moderar o acesso aos serviços, sobretudo ao de urgência hospitalar, a qual, segundo palavras do ministro e seu séquito, são usadas abusivamente pelos/as utentes (os quais, por certo, devem dar como bem passadas as horas nos corredores e salas de espera de um hospital público). É, manifestamente, um abuso, e há que pôr esta gente na ordem e informar que se se tem uma dorzinha no rim, isso não significa que se esteja a morrer, porque só quem está com o pé para a cova é que pode ir às urgências.


Ora, segundo entendi das palavras do ministro, no programa Prós e Contras, palavras essas repetidas nos meios de comunicação social, nomeadamente no Expresso, tudo irá depender da capacidade de auto-diagnóstico do doente: "as taxas moderadoras vão depender do facto de ser uma urgência ou de ser uma consulta de cuidados primários". Ora, uma vez que o raciocínio é: aumentando a taxa de acesso às urgências as pessoas irão pensar duas vezes antes de desembolsar 20€ para ser tratado como gado e irão aguardar pela consulta no centro de saúde. Assim a ser, não consigo perceber o porquê da duplicação da taxa moderadora de acesso a estes serviços. E, por muito, que a deputada Teresa Caeiro venha dizer, aos microfones da TSF, que o número de pessoas abrangidas pela isenção irá aumentar (talvez já estejam a contar com os futuros desempregados), há que sublinhar que se está a colocar uma baliza nos 624€ para a isenção (para além das grávidas e crianças até aos 12 anos, desempregados/as e doentes crónicos cujas consultas sejam referentes a essa mesma doença). Ou seja, uma família cujo rendimento per capita seja 650€* não estará isenta. As taxas moderadoras não farão mossa caso os membros desta família usem o Centro de Saúde uma a duas vezes por ano, mas... e se for mais vezes? É que, sinceramente, não consigo entender a lógica do: "ah, e queremos que as pessoas só vão às urgências hospitalares quando realmente for caso de urgência, porque quando se trata de cuidados primários têm de ir ao Centro de Saúde". É que isto até poderia ter fazer todo o sentido se, aumentando (imensamente!) a taxa de acesso às urgências se se mantivesse a dos Centros de Saúde ou, pelo menos, não a duplicassem (isto para não falar do facto de haver uma enormidade de gente sem médico/a de família, ou sequer sem acesso a um centro de saúde que funcione todos os dias da semana, como é o caso do interior do território nacional).

Nota*: Eu já ganhei (e não foi assim há tanto tempo) 650€/mês e por vezes não dava sequer para pagar as despesas fixas: renda, água, luz, gás, passe, combustível, Internet.
Supermercado? Pois...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Boa Semana [de melancolia]





Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os Homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner, 1958

E isto é só o início



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Matem as Mulheres Primeiro - e de todas as maneiras.

Depois de Lara Logan (e quantas mais terá havido, sem que delas se ouvisse falar), outras repórteres ocidentais foram atacadas física e sexualmente, no cumprimento da sua função, na praça Tahir. 

Entretanto, a associação Repórteres Sem Fronteiras (RSF), tão ciente da importância da liberdade de imprensa, não vê outra solução para o problema que não o afastamento das mulheres repórteres da zona. 
Mas, se a questão é a segurança d@s profissionais de imprensa, então porque vem a RSF recomendar que se retirem as mulheres (esses seres que provocam perturbações incontroláveis no sexo oposto) da praça Tahir ao invés de colocar a tónica no aumento das condições de segurança para @s trabalhador@s da imprensa? A não ser que os homens estejam livres de perigo, esta recomendação não parece fazer muito sentido. Alás, um breve passar de olhos na página da associação, que costuma colocar apontar o dedo a quem agride, mata ou censura jornalistas, permite perceber que também OS jornalistas não estão isentos de perigos. Eles também são censurados, isolados, perseguidos, torturados e atacados sexualmente (parece que os homens jornalistas provocam o mesmo efeito junto de certos meios, que as mulheres repórteres junto do sexo oposto, na Praça Tahir). Alguma vez, ouvimos a RSF proclamar que as agências, jornais e televisões deveriam parar de enviar repórteres para cobrir a guerra do Iraque ou do Afeganistão devido aos repetidos ataques aos profissionais da imprensa? Alguma vez a RSF recomendou o não envio de repórteres para uma zona de guerra alegando que... sei lá, entre outras coisas, existia uma enorme probabilidade de... serem mortos? Então porquê agora esta posição?


Imaginando que a imprensa substituiria os membros femininos das suas equipas (temos muitos exemplos portugueses de mulheres em zonas de conflito), estariam os homens mais seguros? Ou iriam estes com mais condições de segurança? Mas, em que se baseia a RSF para acreditar que os jornalistas estrangeiros estarão em segurança na Praça Tahir, desde que sejam homens? E quando forem os homens jornalistas a ser atacados, irá a RSF aconselhar: "não enviem repórteres para a Praça Tahir? Enviem só as câmaras, os computadores e microfones, os homens que fiquem em casa"? Será que a RSF acha que isto é um 'assunto de mulheres'? É que, enquanto no mundo francófono europeu se legisla para proibir o uso da burqua, alegadamente, em "nome da liberdade individual das mulheres e da segurança nacional", a RSF acha que o ataque aos profissionais da imprensa (desde que estes sejam mulheres) se resolve fechando-as nas redacções. Será isto um ataque contra as mulheres - e por isso, a RSF descarta-se dizendo simplesmente: "não enviem mulheres e o assunto fica resolvido" - ou é isto um ataque à liberdade de imprensa e, em simultâneo, um ataque às mulheres repórteres?


As mulheres (jornalistas ou não) já adoptam uma série de comportamentos 'preventivos' de ataques sexuais (evitar certos percursos, evitar sair a certas horas, entre uma longa lista de coisas e comportamentos a 'evitar' e que não inibem a incidência do crime de violação), revelando uma adaptação do comportamento à prevalência deste crime. Já vi, diversas vezes, mulheres repórteres em directos a partir de países islâmicos menos moderados, com a cabeça coberta com um lenço, porém, jamais vi um repórter ocidental, no mesmo país com a barba comprida ou com a cabeça coberta (não são só as mulheres que cobrem a cabeça no Islão). São sempre as vítimas que se têm que adaptar ao comportamento do agressor. O mais grave parece-me quando uma instituição que defende a liberdade, adopta uma posição tão desigual em termos de liberdade, ferindo claramente o direito das redacções à escolha d@ enviad@ e não protegendo o direito a informar em condições de dignidade que tod@s têm.

Boa Semana



"In this economy, we all need more...."


Sábado de festa, com a K. dar o seu terceiro concerto (com baquetas a voar), domingo em reflexão,
e a longa semana a ler sobre misérias humanas.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Barbara Kruger

O homem tem um corpo, a rapariga é o corpo

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

EM GREVE

Ainda tenho esperança que esta minha Ilha atinja a maioridade. Ainda tenho esperança que esta minha Ilha seja capaz de dizer que não é feita de gente que aceita, acriticamente, um executivo que lhes diz que este País (e esta ilha) tem gente a mais, que os que trabalham não são grande coisa porque são despesa. 
Ainda tenho esperança que esta minha gente, HOJE, manifeste o seu descontentamento perante um executivo que lhe diz que andou a gastar de mais, quando a maior parte apenas tem sobrevivido. Tenho esperança que esta minha gente entenda que a greve é um imperativo, que não pense apenas «com o meu rico dinheirinho (do dia de hoje) eles não ficam».
Ainda tenho esperança que a gente desta minha Ilha perceba que não basta que outros combatam por ela.


I believe everything we dream 
can come to pass through our union 
we can turn the world around 
we can turn the earth's revolution 
we have the power 
People have the power

(e os que só agora se preocupam com o que isto fará à economia que vão dar banho ao cão. 
Mas amanhã, que hoje é dia de greve.)

sábado, 12 de novembro de 2011

Já chegamos a Abril - O perfume da Filosofia

O Ministério da Educação, com o seu muito aclamado Ministro, já veio provar que é muito diferente das suas anteriores responsáveis.
No que diz respeito à disciplina de Filosofia, começamos o ano já com toda a informação relativa aos exames nacionais e testes intermédios.
 Este ano, percebemos que as coisas tinham realmente mudado por lá e teremos um exame norteado pelo programa de Filosofia (goste-se ou não) e não apenas por grupos de influência. Este ano, os/as docentes não terão que retroceder na matéria para lecionar conteúdos que não fazem parte do programa, mas que surgem nos conteúdos previstos para o teste intermédio (e que fazem parte de um ou outro manual). Este ano, a terminologia utilizada não versa apenas sobre a terminologia de uma corrente, com um  ou outro manual. Este ano, os conteúdos previstos para o teste intermédio não indicam o privilégio de conteúdos (lógica e argumentação) em detrimento de outros (Kant, mas quem é esse, que não interessa nada, principalmente no que diz respeito ao Conhecimento? O Conhecimento Científico? Mas por alma de quem é que se aborda em Filosofia o conhecimento científico?)
Não, este ano, tem-se provado que o Ministério tem gente séria e que o que de lá emana é completamente diferente do que se viu anteriormente. E a Filosofia continua a ser perfumada.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Da reiterada falta de vergonha - é uma casa de ministro, com certeza

Miguel Macedo que, ao que parece, tem algumas dificuldades em saber o significado de alguns termos, veio agora a público dizer que por decisão pessoal dele vai apresentar amanhã a renúncia a um direito que lhe assiste - o subsídio de alojamento que pelos vistos apenas alguns funcionários públicos têm, e apesar de ter um apartamento seu (onde fica quando está deslocado). Deve ser bonito, mês após mês, Miguel Macedo, o Ministro, entregar a Miguel Macedo, o proprietário, o arrendamento do apartamento que ocupa durante a semana quando anda a ministeriar pela Capital. Resta saber se Miguel Macedo, o proprietário, passa recibo a Miguel Macedo, o ministro...

Ainda que não concorde com o facto de se autointitular como agente decisor neste caso - já que a decisão pessoal dele só surgiu depois de a situação ter sido escarrapachada nos escaparates dos jornais - concedo que foi mais agente decisor que qualquer um de nós (funcionários públicos/as que não têm subsídio de alojamento quando estamos deslocados): é que a nós, não houve qualquer problema de nem nos consultarem sobre a decisão de perdermos um direito que também a nós nos assistia. 

Faltam 8 (como este Miguel Macedo) renunciarem, por decisão pessoal deles, ao direito que os assiste de serem pagos pela casa que é deles.

A decisão pessoal que deles se exige não é esta. Mas tenho para mim que nenhum é suficientemente sério para tomar a única decisão séria no meio desta palhaçada. É que a esta altura ainda não deverão ter direito a subsídio de reintegração.

sábado, 22 de outubro de 2011

É uma casa de ministro, com certeza

Qualquer professor/a que neste País (parto deste exemplo porque é o que conheço melhor) seja colocado em zona que não contemple a sua área de residência, tem que contar com o facto de ter que arranjar alojamento na área em que ficou colocado. Muitas das vezes, tal implica assegurar duas rendas: a da própria casa e a renda do alojamento perto do local de trabalho. Suponho que em outras profissões o mesmo se passe, principalmente desde que este princípio de a zona de residência do trabalhador não contar para quase nada. O regime de mobilidade e a necessidade de colocar comida na mesa assim obrigam.
Há cerca de uma semana, soubemos que seremos obrigados a ceder os nossos subsídios nos próximos 2 anos (período mínimo) em nome da quase bancarrota em que o País se encontra (dizem-nos que vivemos acima das nossas posses, nós os que ganhamos mais de 500 euros). Para não haver despedimentos, há que cortar na gordura - os funcionários públicos, nomeadamente aqueles que ganham mais de 500 euros por mês (progressivamente) e aqueles que ganham mais de 1000 euros por mês, que como toda a gente sabe, no primeiro caso é uma fortuna e no segundo roça o ordenado de um milionário. A justiça assim o exige, diz-nos o governo, constituído pelos partidos PSD e CDS, gente séria e preocupada.
Pois é exatamente esta gente séria que se atreve a atribuir aos da matilha subsídios de alojamento, que coitadinhos estão deslocados. E vai daí, toma lá 1400 euros mensais, que esta coisa de arrendar casa está pela hora da morte e o teu vencimento justifica este pequeno presente no sapatinho (mensal, que o Natal é sempre que um membro do executivo quiser). E não interessa nada que até tenhas segunda casa na zona. 
E aqui fica, para memória futura, os carenciados que se fazem pagar pelos contribuintes portugueses - aqueles que perderam qualquer margem de manobra em nome de uma austeridade que a estes  não bate à porta de certeza (todos pertencentes ao executivo que nos diz que somos milionários com 1000 euros mês):

Miguel Macedo
Aguiar Branco
Juvenal Peneda
Paulo Júlio
Cecília Meireles
Daniel Campelo
Marco António Costa
Vânia Barros

Com gente séria desta, só mesmo à lei da bala.

sábado, 15 de outubro de 2011

Larry Fink, 1967

O Segredo (nova edição)

Uma escola em Barcelos, desolada com a posição que obteve no ano transato nos afamados rankings, decidiu oferecer uma recompensa monetária aos alunos que obtivessem, nos exames, notas superiores a 13 valores. Resultou. Tendo gasto ao todo 700 euros com a estratégia, os/as alunos/as com notas superiores a 16 valores receberam 60 euros; os/as alunos/as que conseguiram notas entre os 13 e 16 valores, receberam 40 euros.
Ao que parece, o que faz falta à malta é pagamento imediato, que com objetivos a longo prazo já não vai lá.

PS:
Nem quero pensar no que irá acontecer aos/às alunos/as que ficaram pendurados/as no boicote do Crato ao prémio que lhes havia sido prometido.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

«Só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes qualquer segurança razoável»*

No dia em que Passos Coelho deita por terra tudo o que serviu de bandeira para forçar a queda do governo anterior, no dia em que Passos Coelho anuncia que toda a sua campanha eleitoral foi uma gigantesca fraude, deixo um excerto de Tony Judt. E só tenho pena de no dia 15 de Outubro não poder estar em nenhuma das cidades que aderiu ao protesto.

«Os ricos não querem o mesmo que os pobres. Os que dependem do seu emprego para viver não querem o mesmo que os que vivem de investimentos e dividendos. Os que não precisam de serviços públicos - porque podem adquirir educação, proteção e transportes privados - não procuram o mesmo que os que dependem exclusivamente do sector público. 
(...).
Os mercados têm uma disposição natural para favorecer necessidades e desejos que podem ser reduzidos a critérios comerciais ou medições económicas. Se se puder vender ou comprar, então é quantificável e podemos avaliar a sua contribuição para medidas (quantitativas) de bem estar coletivo. Mas, e aqueles bens que o ser humano sempre valorizou mas que não se conseguem quantificar? 
(...).
Por outras palavras, e se tomássemos em consideração nas nossas estimativas de produtividade, eficiência ou bem estar a diferença entre uma escolha humilhante e um benefício de direito?»
Tony Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Descontentamentos, pp. 162-163

*Karl Popper, citado por Tony Judt