quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Terei que esperar sentada?

O ensino tendencialmente gratuito e obrigatório manifesta a sua voracidade por esta altura: para além do material básico (cadernos, estojos, lápis, etc.), há ainda a aquisição obrigatória dos manuais escolares. 
Hoje, nos vários diários portugueses, é anunciado que o preço dos manuais* do ensino básico sofreu um aumento abaixo da inflação e que o preço dos manuais do ensino secundário não sofreu qualquer alteração. Aparentemente, boas notícias para as famílias de um País em que os aumentos se têm anunciado vertiginosos. Efetivamente seria uma boa notícia, se não estivéssemos perante produtos que são detentores de preços que roçam o absurdo e que provocam graves desequilíbrios na maioria dos orçamentos familiares.
O negócio dos manuais escolares é um escândalo. A obrigatoriedade da sua utilização torna-o extremamente apetecível e até agora não houve vontade política para regulamentar este sector em que as editoras dispõem como muito bem entendem da carteira do consumidor. O excesso é, claramente, palavra de ordem.
Em primeiro lugar, fico perplexa  perante a quantidade de títulos que são propostos por cada disciplina (e que se tenha em conta que me refiro ao número de títulos por editora). De salientar que todos esses títulos devem ser analisados pelas várias escolas (ou seja, por quem lecciona). Ora, a avaliação que os/as docentes têm que fazer dos mesmos é praticamente nula, já que os exemplares chegam às escolas tardiamente e com prazos para análise escolha que são risíveis face à quantidade de títulos recebidos. 
Em segundo lugar, a qualidade dos manuais que são produzidos, no que diz respeito ao material que é utilizado. Comecemos pelo papel utilizado pela esmagadora maioria das editoras - o papel couché - que para além de não ser o melhor para o que se destina (ora sublinhem/escrevam sobre este tipo de papel), é um tipo de papel que é excessivamente pesado e é dos mais caros do mercado. Acresce o facto de estarmos a falar de publicações em que o uso da cor é muito comum, o que aumenta os custos de produção. Obviamente que em determinados casos as cores são importantes (caso dos manuais de Biologia, ou  Física e Química, entre outros exemplos) mas noutros casos é praticamente dispensável (um manual de Filosofia, ou de Português não necessita de ser abundantemente ilustrado).
Em terceiro lugar, o carnaval que é montado em torno das apresentações dos manuais, que certamente é pago e bem pago pelo consumidor final. E refiro-me aos brindes, às apresentações em hotéis com beberetes e afins.
Não esqueçamos que o consumidor final não são apenas as famílias - é também o Estado, que tem a obrigação de fornecer manuais aos/às alunos/as carenciados/as. Por tudo isto, não percebo por que razão o Estado, que se imiscui em quase tudo, não regulamenta este sector. A começar pela exigência que a produção destes objetos seja feita com custos controlados, a fim de que não se produzam objetos de luxo quando na verdade estamos perante bens essenciais (e, repito, de consumo obrigatório).
Também a este respeito, fico à espera de novidades por parte do novo Ministério...

*Sem esquecer a novidade dos blocos pedagógicos, com uma profusão de materiais que, com mais um esforço, aparentam dispensar a presença de um/a docente em sala de aula.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Letícia, essa grande pecadora


O que é que Letícia tem que outras mulheres que praticam sexo casual
[with no strings attached/one night stand/sexo descomprometido] não têm?

This isn't happiness

Um blogue.

Letícia, mulher, acabada de entrar nos 30, decide começar a contar os homens que leva para a cama.... e escrever sobre o assunto num blogue. Põe uma meta para este ano: cem. Cem homens. 
Infantil? Talvez, mas não o será menos do que os rankings de deuses do sexo que as revistas masculinas costumam fazer. Como é mais do que lógico, o facto de Lemmy dizer que foi para a cama com 1000 ou "talvez 1200" (na verdade ele não sabe muito bem, e aqui entre nós, se eu contasse com um milhar de parceiros sexuais, provavelmente, eu também não saberia a conta exata) faz dele um deus do sexo. O facto de Letícia apenas ter arrebatado 10% da conta daquele "sex god" faz dela... ora, adivinhem lá... [uma principiante, pensarão alguns/mas de vocês]... uma vadia, claro. Desde que Lola divulgou o blogue de Letícia que a autora se viu confrontada com um aumento exponencial dos insultos já habituais. Sim, habituais, porque há sempre gente com muita dificuldade em aceitar que há pessoas que pensam de formas diferentes da sua, ou seja, pensa pela sua cabeça e não pelas deles/as e, claro, isso é fonte de grande aborrecimento para certas mentes que acham que o universo tem que ser todo da mesma cor. Mas, acima de tudo, há sempre muita gente com enorme dificuldade em aceitar a liberdade pessoal dos outros. Letícia fala de sexo, da sua sexualidade e dos seus parceiros sem revelar as suas identidades. Não tece comentários jocosos ou sequer revela uma atitude predatória. Mais, Letícia não engana ninguém. Não afirma que não quer compromissos para depois os exigir, nem inventa uma paixão assolapada por um rapaz qualquer para o seduzir para a sua cama. Ela - e os seus parceiros - são claros: sabem o que querem, e não o escondem do(s) parceiro(s). Ou seja, ela não está a ser desonesta, não está a mentir, não está a roubar, não está a matar ou a magoar alguém. E, acima de tudo, não está a defender que a sua forma de viver a sexualidade é a única possível. Contudo, a blogger é confrontada com comentários acerca do seu caráter e, naturalmente, da sua moral sexual  - incrível como em pleno séc. XXI ainda haja pessoas que não saibam o que é uma prostituta (para ajudar os/as mais confusos/as, aqui vai uma definição em termos bem simples: mulher que cobra dinheiro em troca da prestação de serviços sexuais - também há a versão masculina: prostituto). Ora, Letícia vai para cama com homens, pedindo em troca apenas respeito. Se isto faz dela uma prostituta? Não, não faz. 
Óóóó... mas, a grande pecadora diz que gosta de sexo - aliás, diz que gosta MUITO de sexo - (o que já é contra-natura, pois todos sabem que as mulheres que gostam muito de sexo são ninfomaníacas - quem é que inventou isto mesmo?) - mas o pior ainda está para vir.... Letícia gosta muito de sexo com homens DIFERENTES!!! e... pior!!! (ainda há pior?), ela ... não os AMA, apenas nutre carinho por alguns deles (por alguns, não se empolguem, ok?). Ah! Como pode ser? Então ela não é mulher!!! Claro. Só pode ser uma prostituta. E como sabemos, as prostitutas não são mulheres, são algo intermédio: entre os objectos que todas as mulheres são e o lixo que muitas pessoas (algumas mulheres incluídas) vêem no sexo e na sexualidade femininas.

Adenda: a leitura do blogue de Letícia deixou alguns participantes de um fórum de "homens honrados" (seja lá o que isso for), cheios de interrogações, algumas tão criativas - e que são exemplificativas da honradez daqueles rapazes, que muito envergonham o sexo masculino - que não me contenho em parafraseá-las aqui: perguntava-se um participante como era possível fazer sexo oral a uma mulher que tinha estado em contacto com o membro viril de outrém 24 horas antes? E tendo em conta, segundo diversos comentadores, que as mulheres são "depósitos de esperma", seria fenomenal se a grande pecadora da Letícia apanhasse uma DST - mas não uma DST qualquer, uma daquelas lixadas, que demora a tratar ou, melhor ainda, que é incurável. Fiquei comovida com tanta honradez!

Ah, para estes honrados a Nadia El Fani também é uma "vadia", com a agravante de ser "feminista".
Outra adenda: em Portugal, Letícia ainda teria outro factor de crucifixação: além de ser mulher, gostar de sexo casual, é brasileira, e, portanto, está explicado porque ela é como é.

Parole

Ao fim de alguns dias, desistiu. 
Ao início ensaiava longos monólogos mentais em que punha em prática a Língua. Imaginava respostas, limpas e certeiras. Treinava o que diria na padaria, no quiosque, como pedir um café ou comprar um livro. Soavam-lhe maravilhosamente bem estes diálogos inventados. E depois, quando interpelada (na padaria, no quiosque, no café ou na livraria) uma profusão de signos (outros) silenciavam-lhe as respostas. 
Desistiu e começou a comunicar maioritariamente por gestos. Na padaria, já lhe conheciam o gosto pelos croissants a que chamavam brioches. Sabiam que os entendia, mas não ouviam redondas palavras da sua boca em resposta. 
As palavras eram silenciadas, cobertas por camadas de outras palavras que ela sabia não serem a Língua. Pode uma Língua ser dita apenas na nossa mente?

(muito!) Boa Semana



domingo, 14 de agosto de 2011

Entre um País e uma Ilha


Um italiano percebe perfeitamente o estado de espírito de uma madeirense sempre que fala do estado da realidade política no local de origem. O inverso também é verdade. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Espírito de Calimero

É confrangedor assistir às filas a pedinchar privilégios. De mão estendida e olhos baixos, não são os/as mesmos/as que, pelos corredores e longe dos ouvidos mais influentes, dizem aos/às de passagem que não gostam de chefias, não se aproximam de hierarquias e não devem nada a ninguém.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

À atenção de NYX(des)VELADA


«(...)é o "olho todo", o todo do olho que chora.»
Jacques Derrida, Memórias de Cego

segunda-feira, 18 de julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Get It On

No passeio marítimo de Algés (dia 8 de Julho), apenas uma desculpa era possível: Grinderman. Num palco dito secundário, ignorando os dramas adolescentes dos/das miúdos/as que suspiravam por uma grua que lhes trouxesse os ídolos do seu contentamento, a quadrilha inicia o concerto pontualmente.
Sem gruas, porque não precisam de artifícios para se elevarem, os Grinderman deram o grande concerto da noite -  não vi os outros, mas acredito em quem o afirma. Afinal de contas, eu não estava ali para mais nada (já o Jools esperava também por Thievery Corporation).
Nunca vi Nick Cave And The Bad Seeds ao vivo, mas não cometeria a ingenuidade de achar que seriam parecidos. Grinderman poderá ser the dark side of the moon destes putos de meia-idade. São viscerais, sem quaisquer laivos de questionamento sobre a existência de Deus ou de crença no amor que acabou ou vai iniciar.  Com Grinderman, não existem quaisquer filtros: é a libido à solta, sem qualquer mecanismo de defesa. Perante isto, Grinderman nunca poderiam estar em palco como Nick Cave And The Bad Seeds*. A distorção das guitarras e as líricas desenfreadas não o permitem (para não invocar tudo o resto...).

*(mesmo quando estamos perante líricas menos consensuais)



Zoriah

Da Russia, com Amor.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Disciplina Amansada 2

Têm sido tempos aparentemente mansos, os que medeiam este post e estes outros, escritos há tanto tempo. Mas esta mansidão esconde um turbilhão latente, contido por estratégias mais comedidas face às resistências que aqui e ali surgiram (e que culminou com a suspensão do exame nacional - uma espécie de agora ninguém brinca). 
A verdade, é que a filosofia está cada vez mais amansada e temo que os próximos tempos revelem o trabalho ardiloso de quem apenas sussurra. Eficazmente. 

Esta semana, descobri nos escaparates das tabacarias uma revista sobre Filosofia (ignorância minha). Comprei-a por curiosidade e a primeira coisa que li foi a entrevista a Daniel Lins, que originou a repescagem dos posts acima lembrados. É que Lins, a determinada altura afirma (relativamente ao Brasil, mas que poderia perfeitamente ser em relação ao nosso País) que «a Filosofia, salvo exceções, é marcadamente teológica, com seu cortejo de 'padres', os novos padres 'ateus', comentadores atrelados à Filosofia do Estado (...)» e mais à frente continua «'Isto não é Filosofia', diz o filósofo do Estado. Pode-se até mesmo sorrir desses mestres da significação, mas são eles que nos altos arraiais da burocracia emperram o pensamento e instalam a sua representação:'Isto não é Filosofia, mas literatura.'», tendo como referência a obra de Nietszche - entre outros -  por oposição ao modelo de conhecimento defendido pelas teorias ontológicas  (e analíticas, acrescento eu). E percebo como a minha análise na altura foi ingénua, que julgava tratar-se de uma seita. Mas Lins tem razão: é, cada vez mais, a Filosofia do Estado. 

*Pormenor de O Grito, de Edvard Munch

terça-feira, 28 de junho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"It is not so easy to fool little girls nowadays as it used to be"

terça-feira, 21 de junho de 2011

Disse o quê? É que não me lembro


Fernando Nobre faz questão de não nos surpreender quanto ao peso que atribui à (sua) palavra dada: ao que parece, manter-se-á como deputado (quem aprecia este registo é o Sócrates, que vai ser feliz para França - e continua a apostar em denegrir a Filosofia).

terça-feira, 14 de junho de 2011

Bruno Nogueira oscula o espelho todas as manhãs antes de sair de casa


O dia começa bem quando ouço Fernando Alves. Mas hoje, a TSF (madeira) fez o favor de o preceder com o anúncio ao programazito Tubo de Ensaio. A entoação que emprega quando fala aos(às) preguiçosos(as) mentais deste País (vulgo portugueses) causa-me náuseas. Parece-me claramente que é essa a premissa da qual parte o criativo Bruno Nogueira quando performa os seus programazinhos (suponho que muito bem pagos) para os(as) idiotas do seu País. Ou não tivesse feito tão grande elogio à sua obra em detrimento da inteligência do público-alvo, quando entrevistado há umas semanas pela Visão.

Perplexidades

Anuncia-se a IV Corrida da Mulher, sob o alto patrocínio do Grupo Sá e organizada pela Associação de Atletismo da Madeira. O que me faz espécie é que a receita resultante da iniciativa reverta para a Criamar, quando existem associações e instituições direccionadas para os direitos das mulheres, com trabalho feito e manifesta falta de verbas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Boa Semana

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Post-it de uma gata quase adormecida


Afinal não sou a única (e só por isso interrompo o meu longo silêncio, que já não vos visitava há que tempos). Mas voltemos ao assunto que me trouxe de volta ao teclado; ao que parece, a caríssima companheira para quem trabalha esta I. também não gosta de visitas de quatro. É para verem, para saberem o que nós sofremos. O meu perseguidor também era o demo, que eu bem sei que era, apesar de cá em casa começarem logo com o  "coitadinho, sem pai nem mãe". Insuportáveis, é o que vos digo, essa gatalha toda que nos entra pelo asseio dentro de pata estendida e com miaus de o "peixe para o povo". Mas não, comigo não, que sou gata desocupada, mas nada estúpida. Não há cá biscoitos para mais ninguém, nem lata para outros que não eu. 
Conselho à felina em apuros (peço imensa desculpa por lhe desconhecer o nome): ponha-o a mexer e reeduque as criaturas que trabalham para si. Coloque o proletariado no seu devido lugar, companheira de agruras. É que hoje dão um prato, amanhã dão-lhe cama e não tarda nada tem que dormir acompanhada. E mal acompanhada. Não se meta nisso, cara amiga. Ouça o meu conselho, que já cá ando há uns aninhos e tive uns quantos a rondar-me a propriedade. Xô gato!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um lançamento é para despachar

No átrio do Teatro Municipal Baltazar Dias, em meia hora, falou-se de Mulheres e Teologia. O pretexto, o lançamento do livro E Deus Criou a Mulher – Mulheres e Teologia. O convidado, Anselmo Borges, um dos organizadores do Congresso agora foi apresentado em livro. O contexto, a Festa do Livro do Funchal. 
Uma apresentação que estava agendada para as 17:30 mas que começou muito depois das 17:45, por ajustes de agenda de última hora. A eles voltaremos.

Anselmo Borges começou por chamar a atenção de que o/a leitor/a não pode esquecer o contexto histórico na leitura dos textos sagrados, que é perigosa quando literal. Assim, um/a leitor/a atenta está consciente que se tratam de textos que procuram responder à pergunta fundamental que é também a da religião, a saber, o quê ou quem traz liberdade e sentido último ao ser humano. E que, portanto, a finalidade das religiões e dos seus textos é trazer liberdade e não opressão e quando se tornam o seu inverso – quando se tornam opressão em vez de libertação, então deve ser posta de lado.
Deste modo, continua Anselmo Borges, uma hermenêutica feminista dos textos sagrados deve ser uma hermenêutica da suspeita, em que é preciso não esquecer que os seus escritores e intérpretes foram, ao longo, dos tempos, os homens, os varões. Assim, reiterou, uma hermenêutica feminista tem que ter uma leitura crítica da História e tem que ser uma hermenêutica da memória, que procura o lado esquecido da História, que vai para além da História dos vencedores porque são os que dominam o discurso. E a verdade é que durante muito tempo, a mulher não deteve qualquer poder.
Exortou também à reformulação dos próprios rituais religiosos, que influenciam a auto-identidade da mulher: batizada pelo padre, pelo bispo, pelo papa, em nome do pai, do filho e do espírito santo. É necessário desconstruir essa imagem masculina de Deus, porque «se Deus é masculino, então o masculino é divino, porque é Deus.»
É preciso não esquecer (como tem acontecido) que deus é assexuado e não a imagem patriarcal dominante, que é apresentada muitas vezes como opressora, autoritária; Deus Pai, que é juiz, rei e soberano.
Exortou ainda à urgência de que a crítica hermenêutica faça parte de todas as religiões, para que estas tenham capacidade de se reformularem em função do tempo em que estamos e não em função do tempo em que estivemos. E este trabalho é um trabalho de toda a humanidade, porque de direitos humanos se trata - «nada daquilo que é humano me é estranho». E lembrou Kant que, já no século XVIII,  considerou que o ser humano deve ser sempre um fim em si mesmo e nunca um meio.

Finda a apresentação, o ajuste de agenda  proibiu questões ao público (que só depois veio saber porque não havia sido aberto espaço para debate) e convidou o autor a abandonar a mesa em que assinava livros aos/às assistentes que o solicitavam, pelo que a tarefa que teve continuar em cima do joelho, ao fundo da sala. 
Ao que parece, o ajuste de agenda apenas disse respeito ao lançamento deste livro. Tudo o resto, continuou placidamente na mesma. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

O poder da gravata

Caravaggio

Nos últimos dias, a clássica abertura dos telejornais nacionais -  que costuma ser um campo verde com uns atletas a correr atrás de uma bola - tem sido substituída pelo drama privado - com consequências públicas - do  futuro ex-director do FMI. 
Um Dominique Strauss-Kahn (DSK) algemado, sem gravata e, sobretudo, sem sorriso ou sem ironia,  tem invadido os ecrãs e suscitado reacções acesas. Segundo o correspondente do canal do Estado em Paris, @s frances@s não gostaram nada de ver um cidadão da República naqueles preparos e "mostram grande indignação e pouca empatia com a alegada vítima". O pivôt da RTP precisou de confirmar o que ouvira: "demonstram pouca solidariedade com a (alegada) vítima?". A explicação é que @s frances@s não esperavam ver tal cidadão ser tratado com um "criminoso comum" - afinal de contas, aquela coisa - muito comum na legislação do hemisfério norte - de tod@s serem iguais perante a lei, independentemente da classe profissional e/ou da casta social não é para ser aplicada: deve ser só porque fica bem estar na lei. Podemos então deduzir que se, sob a mesma acusação, fosse detido e filmado algemado lado a lado com outros acusados, um 'comum' cidadão francês os seus conterrâneos abanariam a cabeça em sinal de assentimento e se calhar até organizavam uma claque de apoio ao apedrejamento à condenação do citoyen.
A República francesa pode ter tido o seu início há 219 anos, no seguimento de uma Revolução que decapitou sem piedade nobreza e o povo ralé, contudo, a mentalidade que concede privilégios segundo as castas continua a residir.
Por cá, podemos apenas especular com humor como lidaria a justiça lusa com tal caso. Contudo, o ex-presidente Mário Soares (MS) - num canal televisivo - afirmou não estar "surpreendido com a acusação" uma vez que "já lhe eram conhecidos outros casos" . Porém, quando o repórter lhe perguntou se DSK estaria ainda em condições de ser candidato à presidência francesa, MS não se excusou a tecer elogios ao grande homem político e ao grande homem socialista.
É que por cá, o pessoal não é político. No fundo, tudo se resume num belo ditado popular: "faz o que eu digo não faças o que eu faço".

domingo, 15 de maio de 2011

Lullaby de Domingo


Parece que estará em Lx  dia 17. Eu recalco, como é óbvio.

sábado, 14 de maio de 2011

«E morderam-se as bocas abrasadas»*

Na história da nossa poesia, há traços de injustiça que teimam em desenhar os contornos da nossa (falta de) memória.
Judith Teixeira, a mulher desavergonhada cujos poemas Marcelo Caetano se gabou de queimar é continuamente lançada na fogueira do nosso esquecimento. Essa poeta de Sodoma, que juntamente com António Botto (com Canções) e Raúl Leal (com Sodoma Divinizada), acendeu a pira do jovem Marcelo, indignado com a versalhada ignóbil que empestava a sua cidade - o mesmo Marcelo Caetano que, sensivelmente 50 anos depois, tentaria queimar essa outra papelada imunda que empestava o seu País, as Novas Cartas Portuguesas, da autoria das três Marias (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa).
Voltemos a Judith Teixeira, mulher poeta que nos anos 20 do século passado desafiou com a sua obra poética e incendiou a veia inquisitorial do que se avizinhava. Arrisco dizer que se não foi ainda devidamente resgatada, tal deve-se ao facto de ainda hoje não se perdoar a uma mulher ter escrito o que escreveu na época em que o fez. O cânone continua a sacrificá-la e Castelo de Sombras, Decadência e Nua, continuam a sustentar o peso das cinzas do esquecimento.

Adeus
Sim, vou partir.
E não levo saudade
de ninguém...
Nem em ti penso agora!...
Julgavas que a tristeza desta hora
fosse maior que a firme vontade
que eu pus em destruir
o luminoso fio da ternura
que me prendia ao teu olhar?...
Julgaste mal;
Eu sei amar,
mas meu amor,
o que eu não sei,
é ser banal!
(...)

*Do poema Perfis Decadentes



sábado, 7 de maio de 2011

A Voz [feminina] Humana

Não é certamente por acaso que a primeira parte de 'Maina Mendes' é consagrada à automutilação da voz. Poucas coisas foram oferecidas com mais condescendência ao sexo feminino do que a palavra como glosa infinitamente reversível e nula de uma situação que podia suportar «falando-a», com a condição de não a transformar. (...)

Solve Sundsbo

É [essa] palavra absoluta, por sua, que Maina Mendes reclama, herdeira de séculos de silêncio e de ira sob eles soterrada, fazendo própria e grosseria libertadora que da rua masculina sobe até à sua janela de prisioneira carregada de asas precoces e de sonhos de «atilada fêmea». (...)

A mudez de Maina Mendes é negação de negação, um refluir mágico para o ponto zero a partir do qual poderá, mais tarde, inventar a fala, nem masculina, nem feminina, apenas autónoma e soberana, que os homens usufruem sem riscos e desde sempre, por «direito divino». 

Maina Mendes, o romance, é justamente a epopeia, muito portuguesmente elegíaca, da invenção dessa fala, a sua inevitável e magistral recuperação.

Eduardo Lourenço, 1977, sobre o romance Maina Mendes, de Maria Velho da Costa

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Nós e Eles

Acordo com a notícia do dia. O inimigo n.º 1  foi abatido. O Presidente anuncia o feito invocando o nome de Deus, que abençoa uma vez mais aquele País (que é grande, unido e justo - como Deus). O povo rejubila aos milhares nas ruas, dando graças pelo estrondoso sucesso de toda a operação. Exultam perante a notícia da morte do infiel, abençoam o duro golpe na estrutura do inimigo. Só faltou mesmo  incendiar a bandeira (mas o inimigo n.º 1 não tinha bandeira).

Boa Semana

Walk with the Cave Bear

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um doce de Páscoa ou da triste campanha eleitoral que nos espera

A seriedade não será assim tanta, se se presta a este papel (aliás, a seriedade da personagem foi plenamente esclarecida aquando  da discussão que não existiu sobre o PEC IV). Quanto ao seu percurso de vida que é guiado pelo bom senso (não terá Passos confundido bom senso com senso comum?), temos tido uma bela amostra dessa propalada qualidade nas últimas semanas*.

*mas é bonito ver a honestidade aliada ao rigor financeiro. O Otelo há-de gostar.

Boa Semana

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Abocanhar com as palavras não é uma arte nem VPV é um artista

Volto a ler o Público religiosamente. E com ele, o regresso à autoflagelação através da mórbida leitura da crónica de VPV. Não sei porque me surpreendo; após este interregno, apenas mais do mesmo: o mesmo desprezo pelo Outro e pelo chão que pisa. 
VPV não discorre no sentido de um contributo saudável; apenas pretende destilar peçonha e reiterar a alucinada diferença que acredita existir entre si mesmo e todos os outros, entre o seu universo  e o País em que habita. Faz lembrar Tom Edison, essa personagem execrável de Dogville, o (aspirante a) intelectual que analisa exaustivamente a vila e as gentes da sua vila como se dela não fizesse parte. Assim é VPV, que pateticamente perora como se de um isento observador se tratasse - e sabemos que não o é. Ao lermos VPV, temos que ter sempre presente esta premissa prévia - a de uma miserável e esquizofrénica tentativa de não pertença, de ser o mero espetador que afinal não é.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Girls&Boys

Por força das minhas obrigações enquanto tia-madrinha, sou frequentadora assídua de lojas para crianças; desde roupas a brinquedos, tudo vale; tornei-me uma sôfrega consumidora destes produtos miniatura aos quais não resisto, principalmente em vésperas de viagem.
Não tenho grande memória em relação a este universo comercial. Quando criança, não tinha as devidas competências desenvolvidas para analisar o mercado; queria e pronto, sem qualquer preocupação pedagógica (cruzes credo), económica (que é isso?) ou estética (os suspiros por uma barbie ainda hoje constituem irremediável vergonha). 
A transição para a maioridade (mental) pautou-se pelo completo desinteresse por este universo. Durante anos passei incólume por tais catedrais, sem arfar ou salivar perante qualquer item que me fizesse lembrar uma miniatura de gente. Até ao nascimento de L., foi universo do qual me mantive confortavelmente arredada. Portanto, podemos falar de um tempo a.L e d.L. 
A época d.L. não tem sido de todo má; confesso que me divirto à procura do brinquedo com mais piada, ou do sapato mais irreverente. Mas invariavelmente, estas minhas incursões são pautadas pela mais pura incompreensão e categórico desprezo por parte de quem me atende. Primeiro, porque rezingo imenso com a dicotomia patente em quase todas as lojas de crianças (refiro-me à faixa etária até aos 2 anos). Desconhece-se praticamente as cores; apenas o azul e o rosa imperam e é tarefa hercúlea encontrar qualquer outra cor para além destas duas. Procura-se até ao enjoo e só depois de muito chafurdar é que se encontram itens que escapem ao padrão. No que diz respeito aos brinquedos, é impressionante a profusão de cozinhas e kits de limpeza que infesta as prateleiras: para as meninas, claro, que para os meninos temos os berbequins fictícios, as estações de carros, garagens e afins. Na hora de embrulhar, a pergunta da praxe, é pr'a menina ou p'ra menino e o invariável sobrolho perante o meu (nosso, quando estás comigo) "não interessa". É dificil decidir qual a cor do balão ou do chupa-chupa que rematará o embrulho com clientes tão difíceis que se recusam a esta informação simples, mas eficaz.
Tudo isto porque quero recomendar a interessante experiência aqui explicada, sobre estereótipos, construções e afins. 




E não me venham dizer que nascemos homens ou mulheres...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

No princípio era o verbo e agora nada?

Pieter Brueghel

Se é verdade que dedico parte da minha vida à leitura, também é verdade que as palavras insistem em não se deixarem reduzir ao seu significado. Depois de um dia passado a rever textos, possibilidade queria à força tornar-se publicidade - e publicidade outra coisa qualquer. Penso em branco. 
Um dia tão cheio de palavras que a determinada altura desaparecem por completo, um enorme vazio e uma sensação babélica. Como se pensa sem palavras (ou pelo menos, sem as certas)? 

domingo, 10 de abril de 2011

Lullaby de Domingo

Fim-de-semana de Congressos:
The likely lads
Are picking up the uglies
Yesterday they were just puppies
Beery slurs
Now life's a blur

terça-feira, 5 de abril de 2011

A Crise não chegou à Madeira

No Domingo à noite, a Rotunda do Infante foi lugar perigoso para uma condutora incauta como eu. É verdade que o FCP tinha acabado de ficar às escuras no Estádio da Luz (que não se aguentou à bronca e tratou de esclarecer o quanto estas coisas têm de desportivismo - Sancho, anda cá ver isto). Mas, que raios, eu estou na Madeira, cansada e o trânsito às dez da noite não costuma ser coisa complicada. 
De repente estou rodeada de gente (??) aos urros, carros que não andam mas saracoteiam a estupidez dos/das seus/suas ocupantes. E de nada serve buzinar contra a acefalia generalizada porque, como sempre, a mão na buzina a ver quem é que berra mais estava em alta. O meu singelo e irritado protesto limitou-se ao ato desligar o motor, praguejar contra todas aquelas criaturas e desejar-lhes uma ida à casa-de-banho tão incómoda quanto aqueles infindáveis minutos foram para mim. E que raio, que ninguém se atreva a reclamar sobre o preço do gasóleo e afins. É que a crise, a atestar por aquela dantesca noite, ainda não chegou à Madeira.

Festival Literário da Madeira - a Fotografia de Família


«A arte parece ser o desejo veemente de decifrar ou procurar a pegada deixada por uma forma perdida de existência. Testemunho de que o homem gozou alguma vez de uma vida diferente.»
Maria Zambrano, A Metáfora do Coração E Outros Escritos, Assírio e Alvim, p. 42

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Confissões Festivaleiras

Quem lê este blog há algum tempo - e atende a quem assina os posts - sabe que sou moça para figuras lamentáveis. A ter uma boa memória, o encontro infeliz com o pai do Centro das Artes da Calheta deveria despoletar um pico de timidez confortável (para além da que já é habitual), que impedisse esta infeliz escriba de renovar certas figuras muito tristes. Mas se há algo que me caracteriza é a pobreza da memória que permite que, em tão curto espaço de tempo, repita a proeza.
Um festival com trinta escritores é uma experiência alucinante - para agudizar os sentidos, relembrar paixões e, num registo muito mais mundano, para a conta bancária (a perigar os últimos dias deste mês que ainda vai no início); uma banca de livros num festival literário é um verdadeiro assalto (quase) à mão armada e um perigoso estimulante para comportamentos compulsivos.

Ler é sempre um ato de injustiça. De cada vez que escolhemos um livro numa livraria e não o do lado, cometêmo-la em relação ao autor que ficou abandonado a outra sorte. Não foi a primeira vez que ouvi falar de Afonso Cruz; na preparação do Festival, tratei de conhecer o percurso dos intervenientes, mas a sinopse não me preparou para o que viria. Não lhe reconheci o nome, mas reconheci um dos seus títulos; há muito que lia sobre este livro, mas o nome do seu autor permaneceu obscurecido por qualquer mecanismo de defesa (da minha carteira). No segundo dia do Festival, vi os seus livros na bancada da Bertrand mas, como é (injusto) hábito, resisti-lhe. Escolhi outros, comprei livros para oferecer a algumas alunas (tive a graça de ter alunas a assistir a algumas mesas do Festival). 
O Domingo e a mesa subordinada ao tema "Os Escritores Esquecidos" (excelentes intervenientes) fizeram-me querer ler Afonso Cruz. Nada de grave, uma benção até, porque adivinhar afinidade com a escrita de alguém é sempre um pequeno milagre. Mas não contente com a compra do título que lhe conhecia - A Boneca de Kokoschka - encomendei a voz amiga que lhe solicitasse assinatura por e para mim (esta minha impossibilidade de me dirigir naturalmente às pessoas que não conheço tem destes inconvenientes.) E lá estive frente a frente com o autor que não li, num triste papel de justificar a minha ignorância perante a sua escrita e o meu fascínio pela palavra acabada de dizer. Leitura a iniciar assim que abandone a literatura que tenho em mãos - as cerca de 50 fichas de avaliação que aguardam pela minha justiceira mão.

Boa Semana

vamos tod@s (bem, há alguns/algumas que podemos deixar por cá) para Kokomo :)

domingo, 3 de abril de 2011

O Festival Acontece 6

Na última mesa, Os Escritores Maltratados, Graça Alves lança o repto para que os/as escritores/as da Ilha possam finalmente atravessar o oceano e Pedro Vieira* manifesta profunda admiração pela escritora que ainda não está traduzida para Português (Margarida Rebelo Pinto). Mário Zambujal fala-nos por um lado dos maus tratos à liberdade da palavra e por outro do sarau  de ontem, que teve toda a poncha e circunstância.


*E ninguém para fazer bonecos na plateia!

O Festival Acontece 5

Sobre Escritores Esquecidos, Antonio Scurati abre as hostilidades com uma reflexão sobre a palavra (do perigo do esquecimento da palavra) numa realidade política que privilegia a imagem.

O Festival Segue Dentro de Momentos


O sono não tem sido muito, mas a insónia tem valido a pena - como atesta o sorriso de valter hugo mãe ao apanhar o Rui Zink (entre outros) numa pequena, mas intensiva, recolha etnográfica:

sábado, 2 de abril de 2011

O Festival Acontece 4

Os Escritores Inconstantes e os ouvintes resistentes (muitos). Raquel Ochoa mata-nos ao afirmar que "normalmente aquilo que procuramos no amor é aquilo que ele não tem para nos dar." Não só, mas também (acrescento eu).

O Festival Acontece 3


Acabou-se Dead Combo.

O Festival Acontece 2


A minha querida Isabela, com uma intervenção brilhante. "Para mim não há nenhuma arte que não seja maldita" e brilhantemente continua "a arte é sempre amoral e muitas vezes imoral – não se rege pelos padrões do nosso quotidiano – se se regesse não seria arte." (citação de memória e, portanto, sempre infiel e traidora).

O Festival Acontece 1

José Mario Silva, Rui Nepomuceno, Patrícia Portela e Rui Zink. Moderados por Miguel Albuquerque. Os Escritores que fogem da fama )e se fogem é porque a conseguiram...).

O Festival na Jaime Moniz


As nossas escolhas, leituras, escritas em debate. Oferenda da Inês Pedrosa e da Isabela Figueiredo (muito bem acompanhada pela Jane Eyre).

domingo, 27 de março de 2011

Lullaby de Domingo


Bonnie Prince Billy, Strange Form Of Life
(quando o trabalho corre lento porque é domingo e queríamos fazer outra coisa qualquer)

A salivar

Passos Coelho, perante a perspetiva de chegar a Governo, entrou nitidamente em curto-circuito.

sábado, 26 de março de 2011

A celebração

Do amor.
Leio-te e reconheço o que quem esteve de fora sempre viu e ouviu contar. Os teus pais são das mais belas histórias de amor da família e reconheço-a em cada palavra tua, em cada relato da minha mãe, quando imagino o teu pai a afagar a tua mãe cansada.
Mas é preciso celebrar o amor. Que atravessou a usura do tempo, a rotina, a doença - há poesia no teu pai quando olha a tua mãe exausta e vê a mulher por quem se apaixonou, a mulher assertiva, desempoeirada que sempre lutou pela paixão de ambos.
Tenho uma fotografia dos teus pais num piquenique. Os dois mini's na berma da estrada (o dos teus pais e o dos meus) e todos a pousar para a fotografia. Na fotografia acho que existimos as duas, tu e eu. Ou então só existes tu e a memória trai-me e julgo que também lá estou. Já não sei. Mas recordo a tua Mãe, cabelos longos, vestido curto, sentada em cima da toalha de piquenique e o teu pai a adorá-la.
Tivemos sorte, tu e eu. Nascemos de criaturas que se amaram e amam para a vida. E é isso que temos que celebrar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Terra à vista

O discurso do Portas também foi interessante; anunciou pomposamente uma campanha positiva, por Portugal.
Não convém cuspir nos pratos em que podemos vir a comer, pois não?

Provavelmente o melhor chocolate do mundo

O discurso de demissão Sócrates foi um triste exercício de campanha eleitoral.* Juro que tentei ouvi-lo, mas como apenas repetia o discurso dos últimos dias (eu sou um pobre existente), que apenas repete o discurso dos últimos seis anos (eu sou um grandessíssimo pobre existente), concentrei-me nos três quadradinhos de chocolate que celebravam a demissão. O chocolate de cereja tem destas coisas: oblitera completamente o que não é novidade.

*E se o homem for reeleito, apenas reiteramos o quão estúpidos somos.

Elogio à Gratidão

Eu acredito que Angela Merkel esteja profundamente grata pelo facto de Sócrates a manter informada no que diz respeito à governação de Portugal. Muito mais informada que os restantes órgãos de Soberania Nacional.
Até poderia ter ido mais longe: poderia ter agradecido o facto de Sócrates  ter permitido uma governação bicéfala. Se houver eleições (o Presidente ainda não aceitou a demissão do PM que o desrespeitou), apresentarão candidatura conjunta?

segunda-feira, 21 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Lullaby de Domingo (antecipa-se e é de sábado)


Porque sim.

Why are women still sexually harassed?


"Será que na tua linguagem corporal não havia qualquer sinal de que estaria receptiva aquele avanço?" é a pergunta feita a uma mulher que contou ter sido assediada no trabalho. Aprendemos também que, segundo um homem que participava no debate, "não há forma de criminalizar as condutas impróprias porque....as   mulheres não podem (talvez por não saberem) explicar à polícia o que é ser tocada de forma imprópria". E também que a solução para o assédio passa pela educação das mulheres.... que têm que deixar de se vestir de forma provocante (as malandras): "se querem ser respeitadas, têm que se vestir de forma respeitosa", esclarece um participante. Tanto por fazer.

Eolo Perfido
* Uma assistência presencial ganesa, moderada por uma mulher que - testemunhou ter, quando adolescente, presenciado um homem a masturbar-se dentro do autocarro - e alimentada por tweets, comentários no facebook e telefonemas de vários locais do mundo.

A musicalidade das moedas

Em ano(s) de crise, o Optimus Alive coloca bilhetes diários a 50 euros e passes que não permitem as combinações que quisermos em relação aos dias. Convenhamos, que gente que trabalha assim só merece um epíteto: mercenários. 


quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre a blasfémia


Todos os dados que possuímos nos levam a crer que, neste final da Idade Média e no início da Época Moderna, os portugueses, como os naturais dos outros reinos da Europa, têm a jura fácil e tratam Deus, a Virgem e os santos com grande familiaridade, quando não com rude aspereza.

Luís Miguel Duarte
in Justiça e Criminalidade no Portugal Medievo (1459-1481)

domingo, 13 de março de 2011

Lullaby de Domingo


Há muito que não ouvia Sex Pistols. E parece-me ser um mote interessante para os dias que correm.

sábado, 12 de março de 2011

Nojo

«O que vigora hoje nas oligarquias é o esbanjamento em que vivem os filhos dos magistrados; aos filhos dos desfavorecidos só lhes resta entregarem-se a trabalhos árduos e fatigantes (mesmo que sejam mais ambiciosos e capazes de se lançar em reformas). 
Mesmo nas democracias que se presumem as mais representativas das massas populares, acaba por acontecer o contrário do que é mais adequado ao interesse comum.»
Aristóteles, Política, 1310a 10-35

Trabalho há cerca de 10 anos. Estive um ano desempregada, um ano desesperante em que a minha auto-estima era praticamente inexistente. Já candidata a um curso de mestrado em Coimbra, na minha área, fui chamada para uma substituição. Na verdade, fazia malas para regressar a Coimbra, já que a candidatura havia sido aceite e apenas faltava formalizar a matrícula. As malas serviram para outro sítio que não Coimbra. Não hesitei e ainda bem. 
Eu sou das que teve sorte.Um ano depois, quem ingressou na carreira já não a teve. Muito menos nos anos subsequentes. Tenho amigas e amigos que, não sendo da minha área, não tiveram a sorte que eu tive. Trabalham menos? Mentira. Trabalharam e trabalham tanto ou mais. Apenas estava no sítio certo à hora certa.
Por tudo isto tenho imensa dificuldade em entender os discursos que por todo o lado propagam. Temos quase duas décadas de gente cujo futuro está absolutamente hipotecado (e nem falo dos que ainda estão a preparar-se para a idade adulta). 
Somos governados por uma corja que não entende a política como serviço público que se escuda numa crise internacional para nos colocar a corda no pescoço. E as vozes mais ferozes não vociferam contra este estado de coisas. Queixam-se dos que reclamam. Que são preguiçosos. Que não se fizeram à vida. Que são uns privilegiados de barriga cheia que esperam viver às custas do Estado. A maior parte destas vozes não tem um ordenado mínimo ou um emprego precário (pelo menos não no sentido em que a maioria dos que hoje se manifestam tem). Estas vozes têm salário certo no final do mês, segurança social assegurada e a quase certeza de que no próximo ano o emprego continuará lá. Estas vozes esquecem que a nossa validação passa pelo trabalho que temos (ou não temos) e porque nunca lá estiveram ou então esqueceram, não conseguem ser suficientemente humanos para perceber o quão terrível uma situação de desemprego ou de precariedade pode ser para a auto-estima de cada um. 
A maior parte destas vozes ouve e lê a lírica de "Parva que sou" e finge não compreender que a parvoeira não está em estudar, mas sim em aceitar que um País permita que a entidade empregadora abuse dos/das seus/suas empregados/as para cegamente lucrar. Em aceitar que um País pague aos gestores o que paga, os mesmos que vociferam que o salário mínimo é demasiado alto (o Jools tem razão quando o diz) ou que os despedimentos devem ser flexibilizados, ou que indemnizações de miséria devem ser ainda mais miseráveis. 
É por tudo isto que a Ana Bacalhau canta que somos todos/as parvos/as. Porque aceitamos que quem nos governa feche os olhos à vergonha que é este Estado Social em que muita gente paga para trabalhar na esperança de um dia vir a ser pago. Aceitamos que a crise seja paga por quem menos pode e que os que mais poderiam fazer continuem como se deste País não fizessem parte. Somos parvos/as quando ouvimos placidamente o Sócrates no Parlamento, com a mesma cara de pau com que diz que é engenheiro, a dizer que as suas políticas reduziram o número de falsos recibos verdes, quando é o próprio Estado a contratar desta forma. Nojo, muito nojo!
Mas não. As vozes bem pensantes e instaladas discordam moderadamente em relação a tudo isto. A sua verdadeira indignação é dirigida para os/as escravos/as, os/as que se revoltam contra este País miserável a que estamos reduzidos/as - não por falta de dinheiro, mas por falta de capital verdadeiramente humano, que saiba o que é ser Pessoa e que ainda seja capaz de ver no rosto do/a outro/a um Ser Humano e não apenas uma forma de aumentar o seu capital ou os seus privilégios.
Na verdade, a lírica dos Deolinda é até demasiado branda com este País. 

Gravura de Paula Rego