quinta-feira, 18 de agosto de 2011

À atenção da Comissão Nacional de Eleições


Artigo 57.º *
Início e termo da campanha eleitoral 
O período da campanha eleitoral inicia-se no 14.º dia anterior ao dia designado para a 
eleição e finda às vinte e quatro horas da antevéspera do dia marcado para a eleição.  

É normal que as ruas do Funchal estejam já carregadas de cartazes com apelo ao voto para as eleições que acontecerão apenas a 9 de Outubro de 2011?

*da Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa Regional.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Terei que esperar sentada?

O ensino tendencialmente gratuito e obrigatório manifesta a sua voracidade por esta altura: para além do material básico (cadernos, estojos, lápis, etc.), há ainda a aquisição obrigatória dos manuais escolares. 
Hoje, nos vários diários portugueses, é anunciado que o preço dos manuais* do ensino básico sofreu um aumento abaixo da inflação e que o preço dos manuais do ensino secundário não sofreu qualquer alteração. Aparentemente, boas notícias para as famílias de um País em que os aumentos se têm anunciado vertiginosos. Efetivamente seria uma boa notícia, se não estivéssemos perante produtos que são detentores de preços que roçam o absurdo e que provocam graves desequilíbrios na maioria dos orçamentos familiares.
O negócio dos manuais escolares é um escândalo. A obrigatoriedade da sua utilização torna-o extremamente apetecível e até agora não houve vontade política para regulamentar este sector em que as editoras dispõem como muito bem entendem da carteira do consumidor. O excesso é, claramente, palavra de ordem.
Em primeiro lugar, fico perplexa  perante a quantidade de títulos que são propostos por cada disciplina (e que se tenha em conta que me refiro ao número de títulos por editora). De salientar que todos esses títulos devem ser analisados pelas várias escolas (ou seja, por quem lecciona). Ora, a avaliação que os/as docentes têm que fazer dos mesmos é praticamente nula, já que os exemplares chegam às escolas tardiamente e com prazos para análise escolha que são risíveis face à quantidade de títulos recebidos. 
Em segundo lugar, a qualidade dos manuais que são produzidos, no que diz respeito ao material que é utilizado. Comecemos pelo papel utilizado pela esmagadora maioria das editoras - o papel couché - que para além de não ser o melhor para o que se destina (ora sublinhem/escrevam sobre este tipo de papel), é um tipo de papel que é excessivamente pesado e é dos mais caros do mercado. Acresce o facto de estarmos a falar de publicações em que o uso da cor é muito comum, o que aumenta os custos de produção. Obviamente que em determinados casos as cores são importantes (caso dos manuais de Biologia, ou  Física e Química, entre outros exemplos) mas noutros casos é praticamente dispensável (um manual de Filosofia, ou de Português não necessita de ser abundantemente ilustrado).
Em terceiro lugar, o carnaval que é montado em torno das apresentações dos manuais, que certamente é pago e bem pago pelo consumidor final. E refiro-me aos brindes, às apresentações em hotéis com beberetes e afins.
Não esqueçamos que o consumidor final não são apenas as famílias - é também o Estado, que tem a obrigação de fornecer manuais aos/às alunos/as carenciados/as. Por tudo isto, não percebo por que razão o Estado, que se imiscui em quase tudo, não regulamenta este sector. A começar pela exigência que a produção destes objetos seja feita com custos controlados, a fim de que não se produzam objetos de luxo quando na verdade estamos perante bens essenciais (e, repito, de consumo obrigatório).
Também a este respeito, fico à espera de novidades por parte do novo Ministério...

*Sem esquecer a novidade dos blocos pedagógicos, com uma profusão de materiais que, com mais um esforço, aparentam dispensar a presença de um/a docente em sala de aula.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Letícia, essa grande pecadora


O que é que Letícia tem que outras mulheres que praticam sexo casual
[with no strings attached/one night stand/sexo descomprometido] não têm?

This isn't happiness

Um blogue.

Letícia, mulher, acabada de entrar nos 30, decide começar a contar os homens que leva para a cama.... e escrever sobre o assunto num blogue. Põe uma meta para este ano: cem. Cem homens. 
Infantil? Talvez, mas não o será menos do que os rankings de deuses do sexo que as revistas masculinas costumam fazer. Como é mais do que lógico, o facto de Lemmy dizer que foi para a cama com 1000 ou "talvez 1200" (na verdade ele não sabe muito bem, e aqui entre nós, se eu contasse com um milhar de parceiros sexuais, provavelmente, eu também não saberia a conta exata) faz dele um deus do sexo. O facto de Letícia apenas ter arrebatado 10% da conta daquele "sex god" faz dela... ora, adivinhem lá... [uma principiante, pensarão alguns/mas de vocês]... uma vadia, claro. Desde que Lola divulgou o blogue de Letícia que a autora se viu confrontada com um aumento exponencial dos insultos já habituais. Sim, habituais, porque há sempre gente com muita dificuldade em aceitar que há pessoas que pensam de formas diferentes da sua, ou seja, pensa pela sua cabeça e não pelas deles/as e, claro, isso é fonte de grande aborrecimento para certas mentes que acham que o universo tem que ser todo da mesma cor. Mas, acima de tudo, há sempre muita gente com enorme dificuldade em aceitar a liberdade pessoal dos outros. Letícia fala de sexo, da sua sexualidade e dos seus parceiros sem revelar as suas identidades. Não tece comentários jocosos ou sequer revela uma atitude predatória. Mais, Letícia não engana ninguém. Não afirma que não quer compromissos para depois os exigir, nem inventa uma paixão assolapada por um rapaz qualquer para o seduzir para a sua cama. Ela - e os seus parceiros - são claros: sabem o que querem, e não o escondem do(s) parceiro(s). Ou seja, ela não está a ser desonesta, não está a mentir, não está a roubar, não está a matar ou a magoar alguém. E, acima de tudo, não está a defender que a sua forma de viver a sexualidade é a única possível. Contudo, a blogger é confrontada com comentários acerca do seu caráter e, naturalmente, da sua moral sexual  - incrível como em pleno séc. XXI ainda haja pessoas que não saibam o que é uma prostituta (para ajudar os/as mais confusos/as, aqui vai uma definição em termos bem simples: mulher que cobra dinheiro em troca da prestação de serviços sexuais - também há a versão masculina: prostituto). Ora, Letícia vai para cama com homens, pedindo em troca apenas respeito. Se isto faz dela uma prostituta? Não, não faz. 
Óóóó... mas, a grande pecadora diz que gosta de sexo - aliás, diz que gosta MUITO de sexo - (o que já é contra-natura, pois todos sabem que as mulheres que gostam muito de sexo são ninfomaníacas - quem é que inventou isto mesmo?) - mas o pior ainda está para vir.... Letícia gosta muito de sexo com homens DIFERENTES!!! e... pior!!! (ainda há pior?), ela ... não os AMA, apenas nutre carinho por alguns deles (por alguns, não se empolguem, ok?). Ah! Como pode ser? Então ela não é mulher!!! Claro. Só pode ser uma prostituta. E como sabemos, as prostitutas não são mulheres, são algo intermédio: entre os objectos que todas as mulheres são e o lixo que muitas pessoas (algumas mulheres incluídas) vêem no sexo e na sexualidade femininas.

Adenda: a leitura do blogue de Letícia deixou alguns participantes de um fórum de "homens honrados" (seja lá o que isso for), cheios de interrogações, algumas tão criativas - e que são exemplificativas da honradez daqueles rapazes, que muito envergonham o sexo masculino - que não me contenho em parafraseá-las aqui: perguntava-se um participante como era possível fazer sexo oral a uma mulher que tinha estado em contacto com o membro viril de outrém 24 horas antes? E tendo em conta, segundo diversos comentadores, que as mulheres são "depósitos de esperma", seria fenomenal se a grande pecadora da Letícia apanhasse uma DST - mas não uma DST qualquer, uma daquelas lixadas, que demora a tratar ou, melhor ainda, que é incurável. Fiquei comovida com tanta honradez!

Ah, para estes honrados a Nadia El Fani também é uma "vadia", com a agravante de ser "feminista".
Outra adenda: em Portugal, Letícia ainda teria outro factor de crucifixação: além de ser mulher, gostar de sexo casual, é brasileira, e, portanto, está explicado porque ela é como é.

Parole

Ao fim de alguns dias, desistiu. 
Ao início ensaiava longos monólogos mentais em que punha em prática a Língua. Imaginava respostas, limpas e certeiras. Treinava o que diria na padaria, no quiosque, como pedir um café ou comprar um livro. Soavam-lhe maravilhosamente bem estes diálogos inventados. E depois, quando interpelada (na padaria, no quiosque, no café ou na livraria) uma profusão de signos (outros) silenciavam-lhe as respostas. 
Desistiu e começou a comunicar maioritariamente por gestos. Na padaria, já lhe conheciam o gosto pelos croissants a que chamavam brioches. Sabiam que os entendia, mas não ouviam redondas palavras da sua boca em resposta. 
As palavras eram silenciadas, cobertas por camadas de outras palavras que ela sabia não serem a Língua. Pode uma Língua ser dita apenas na nossa mente?

(muito!) Boa Semana



domingo, 14 de agosto de 2011

Entre um País e uma Ilha


Um italiano percebe perfeitamente o estado de espírito de uma madeirense sempre que fala do estado da realidade política no local de origem. O inverso também é verdade. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Espírito de Calimero

É confrangedor assistir às filas a pedinchar privilégios. De mão estendida e olhos baixos, não são os/as mesmos/as que, pelos corredores e longe dos ouvidos mais influentes, dizem aos/às de passagem que não gostam de chefias, não se aproximam de hierarquias e não devem nada a ninguém.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

À atenção de NYX(des)VELADA


«(...)é o "olho todo", o todo do olho que chora.»
Jacques Derrida, Memórias de Cego

segunda-feira, 18 de julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Get It On

No passeio marítimo de Algés (dia 8 de Julho), apenas uma desculpa era possível: Grinderman. Num palco dito secundário, ignorando os dramas adolescentes dos/das miúdos/as que suspiravam por uma grua que lhes trouxesse os ídolos do seu contentamento, a quadrilha inicia o concerto pontualmente.
Sem gruas, porque não precisam de artifícios para se elevarem, os Grinderman deram o grande concerto da noite -  não vi os outros, mas acredito em quem o afirma. Afinal de contas, eu não estava ali para mais nada (já o Jools esperava também por Thievery Corporation).
Nunca vi Nick Cave And The Bad Seeds ao vivo, mas não cometeria a ingenuidade de achar que seriam parecidos. Grinderman poderá ser the dark side of the moon destes putos de meia-idade. São viscerais, sem quaisquer laivos de questionamento sobre a existência de Deus ou de crença no amor que acabou ou vai iniciar.  Com Grinderman, não existem quaisquer filtros: é a libido à solta, sem qualquer mecanismo de defesa. Perante isto, Grinderman nunca poderiam estar em palco como Nick Cave And The Bad Seeds*. A distorção das guitarras e as líricas desenfreadas não o permitem (para não invocar tudo o resto...).

*(mesmo quando estamos perante líricas menos consensuais)



Zoriah

Da Russia, com Amor.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Disciplina Amansada 2

Têm sido tempos aparentemente mansos, os que medeiam este post e estes outros, escritos há tanto tempo. Mas esta mansidão esconde um turbilhão latente, contido por estratégias mais comedidas face às resistências que aqui e ali surgiram (e que culminou com a suspensão do exame nacional - uma espécie de agora ninguém brinca). 
A verdade, é que a filosofia está cada vez mais amansada e temo que os próximos tempos revelem o trabalho ardiloso de quem apenas sussurra. Eficazmente. 

Esta semana, descobri nos escaparates das tabacarias uma revista sobre Filosofia (ignorância minha). Comprei-a por curiosidade e a primeira coisa que li foi a entrevista a Daniel Lins, que originou a repescagem dos posts acima lembrados. É que Lins, a determinada altura afirma (relativamente ao Brasil, mas que poderia perfeitamente ser em relação ao nosso País) que «a Filosofia, salvo exceções, é marcadamente teológica, com seu cortejo de 'padres', os novos padres 'ateus', comentadores atrelados à Filosofia do Estado (...)» e mais à frente continua «'Isto não é Filosofia', diz o filósofo do Estado. Pode-se até mesmo sorrir desses mestres da significação, mas são eles que nos altos arraiais da burocracia emperram o pensamento e instalam a sua representação:'Isto não é Filosofia, mas literatura.'», tendo como referência a obra de Nietszche - entre outros -  por oposição ao modelo de conhecimento defendido pelas teorias ontológicas  (e analíticas, acrescento eu). E percebo como a minha análise na altura foi ingénua, que julgava tratar-se de uma seita. Mas Lins tem razão: é, cada vez mais, a Filosofia do Estado. 

*Pormenor de O Grito, de Edvard Munch

terça-feira, 28 de junho de 2011