sábado, 12 de março de 2011

Nojo

«O que vigora hoje nas oligarquias é o esbanjamento em que vivem os filhos dos magistrados; aos filhos dos desfavorecidos só lhes resta entregarem-se a trabalhos árduos e fatigantes (mesmo que sejam mais ambiciosos e capazes de se lançar em reformas). 
Mesmo nas democracias que se presumem as mais representativas das massas populares, acaba por acontecer o contrário do que é mais adequado ao interesse comum.»
Aristóteles, Política, 1310a 10-35

Trabalho há cerca de 10 anos. Estive um ano desempregada, um ano desesperante em que a minha auto-estima era praticamente inexistente. Já candidata a um curso de mestrado em Coimbra, na minha área, fui chamada para uma substituição. Na verdade, fazia malas para regressar a Coimbra, já que a candidatura havia sido aceite e apenas faltava formalizar a matrícula. As malas serviram para outro sítio que não Coimbra. Não hesitei e ainda bem. 
Eu sou das que teve sorte.Um ano depois, quem ingressou na carreira já não a teve. Muito menos nos anos subsequentes. Tenho amigas e amigos que, não sendo da minha área, não tiveram a sorte que eu tive. Trabalham menos? Mentira. Trabalharam e trabalham tanto ou mais. Apenas estava no sítio certo à hora certa.
Por tudo isto tenho imensa dificuldade em entender os discursos que por todo o lado propagam. Temos quase duas décadas de gente cujo futuro está absolutamente hipotecado (e nem falo dos que ainda estão a preparar-se para a idade adulta). 
Somos governados por uma corja que não entende a política como serviço público que se escuda numa crise internacional para nos colocar a corda no pescoço. E as vozes mais ferozes não vociferam contra este estado de coisas. Queixam-se dos que reclamam. Que são preguiçosos. Que não se fizeram à vida. Que são uns privilegiados de barriga cheia que esperam viver às custas do Estado. A maior parte destas vozes não tem um ordenado mínimo ou um emprego precário (pelo menos não no sentido em que a maioria dos que hoje se manifestam tem). Estas vozes têm salário certo no final do mês, segurança social assegurada e a quase certeza de que no próximo ano o emprego continuará lá. Estas vozes esquecem que a nossa validação passa pelo trabalho que temos (ou não temos) e porque nunca lá estiveram ou então esqueceram, não conseguem ser suficientemente humanos para perceber o quão terrível uma situação de desemprego ou de precariedade pode ser para a auto-estima de cada um. 
A maior parte destas vozes ouve e lê a lírica de "Parva que sou" e finge não compreender que a parvoeira não está em estudar, mas sim em aceitar que um País permita que a entidade empregadora abuse dos/das seus/suas empregados/as para cegamente lucrar. Em aceitar que um País pague aos gestores o que paga, os mesmos que vociferam que o salário mínimo é demasiado alto (o Jools tem razão quando o diz) ou que os despedimentos devem ser flexibilizados, ou que indemnizações de miséria devem ser ainda mais miseráveis. 
É por tudo isto que a Ana Bacalhau canta que somos todos/as parvos/as. Porque aceitamos que quem nos governa feche os olhos à vergonha que é este Estado Social em que muita gente paga para trabalhar na esperança de um dia vir a ser pago. Aceitamos que a crise seja paga por quem menos pode e que os que mais poderiam fazer continuem como se deste País não fizessem parte. Somos parvos/as quando ouvimos placidamente o Sócrates no Parlamento, com a mesma cara de pau com que diz que é engenheiro, a dizer que as suas políticas reduziram o número de falsos recibos verdes, quando é o próprio Estado a contratar desta forma. Nojo, muito nojo!
Mas não. As vozes bem pensantes e instaladas discordam moderadamente em relação a tudo isto. A sua verdadeira indignação é dirigida para os/as escravos/as, os/as que se revoltam contra este País miserável a que estamos reduzidos/as - não por falta de dinheiro, mas por falta de capital verdadeiramente humano, que saiba o que é ser Pessoa e que ainda seja capaz de ver no rosto do/a outro/a um Ser Humano e não apenas uma forma de aumentar o seu capital ou os seus privilégios.
Na verdade, a lírica dos Deolinda é até demasiado branda com este País. 

Gravura de Paula Rego

segunda-feira, 7 de março de 2011

Epístola de Kiara aos/às Bloggers

Há muito que não vos dou notícias, bem sei. É simples, ando envolvida numa causa maior. 
Ora espreitem lá o vídeo que se segue. É uma causa nobre ou não?


Imaginem o que conseguirei escrever depois disto. Por isso, caros/as leitores/as, a espera é uma virtude . Desculpem-me a brevidade, mas tenho sessão de fisioterapia. 
Com a vossa licença:
Kiara


Se é isto uma empresa pública* de um País em crise




Correção:
empresa privada com capitais públicos, assim é que é (diz-me o Jools).

Boa Semana

domingo, 6 de março de 2011

Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã - Olympe de Gouges


Lançamento amanhã na FNAC Madeira, pelas 19 horas, com a presença da Professor Christine Escallier, responsável pelo prefácio desta obra.
Mais aqui.


Lullaby de Domingo (de Carnaval)



Reflexão sobre política partidária em tempo de Carnaval.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os óculos de Sócrates - Um País como o Nosso

O título não engana. Falo-vos do Primeiro Ministro do meu descontentamento (não da maioria, já que o reelegeram). 
Pois o ilustre senhor foi hoje (ontem) ao Parlamento anunciar que a precariedade laboral de gente qualificada é realmente um problema que temos, mas que este problema é comum a muitos países (até aqui bocejo ao volante e pondero mudar de estação). Mas a criatura acrescenta (com uma veemência que me fez pensar no trabalho das empregadas de limpeza quando limparem a sala e tiverem que desencastrar todos os perdigotos lançados pela convicção deste Primeiro Ministro indignado com os seus oponentes) que o problema do desemprego de pessoas qualificadas só existe em países que atingiram um grau de desenvolvimento muito elevado. Como o nosso. Desligo o motor e saio do carro envaidecida por pertencer a essa aventura maravilhosa de viver num País desenvolvido em que os problemas se devem a excesso de gente qualificada. Ao entrar em casa, a vaidade atinge uma percentagem absurda ao deparar-me com o título da Visão desta semana. Ao que parece, a Alemanha, que como bem sabemos é um país que ainda não atingiu o grau de desenvolvimento superior ao qual pertencemos, anda à procura de gente qualificada fora de portas. O Reino Unido a mesma coisa. De uma assentada resolvem-se dois problemas: o pessoal que infelizmente está desempregado porque em Portugal somos um país com um grande desenvolvimento já pode vislumbrar uma luz ao fundo do túnel. E quanto a nós, os empregados que restam no País desenvolvidíssimo (mas em crise), já não precisamos de nos preocupar com a influência da Alemanha na UE (parece que o Sócrates foi chamado à secretária da Angela Merkl, não se sabe se para apanhar reguadas ou elogios). Que medo estúpidozinho este de um país que nem está suficientemente à frente para desempregar gente qualificada. Puff!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Boa Semana

Se isto é um humano

No restaurante onde almoço algumas vezes durante a semana, as mesas estão sempre cheias. Uma enorme televisão sintoniza ora o National Geografic (quando os clientes são maioritariamente turistas), ora a TVI, quando os comensais são da Região. Na sexta-feira, decorria o programa da manhã, conduzido pelo Manuel Luís Goucha que usa um penteado parecido ao que alguns dos meus alunos ostentam (mas sem a gravata e o fato de fino corte) e a outra colega que, sendo muito fotogénica, tem uma voz de bradar aos céus. O programa passa para uma longa reportagem em que o título de rodapé anunciava que aquela senhora a quem filmavam a miserável casa, havia sido violada pelo próprio neto. A televisão não emite som, apenas as imagens. As divisões improvisadas do espaço em que a mulher vivia, as mãos enrugadas pela idade e pelo trabalho, a expressão resignada de uma mulher que trabalhou a vida inteira.Traja de preto, não sei se por morte do marido, se por morte da sua velhice descansada. 
Reparo nos comensais, que momentaneamente se detêm sobre o que passa na televisão: as imagens e o rodapé. Uns comentam, incrédulos, que aquela velha foi violada pelo neto. Estes que comentam a desgraça da "velha" são na verdade de uma idade muito aproximada à da "velha". Apenas não trajam tão modestamente e estão sentados num restaurante, que parece ser coisa em que aquela mulher muito raramente colocou pés - se é que os colocou. Outros, mal percebem o teor da reportagem riem (é ridículo um homem novo querer meter-se com aquela mulher) e rapidamente desligam do assunto.
Em nenhum momento percebi horror pelo que aquela mulher havia passado, ou empatia pela sua vida miserável. É apenas uma velha violada pelo neto. E que raio de neto aquele, que se deita com uma mulher assim.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lullaby de Domingo



Ainda sobre as ideologias à solta, que esta gente é perigosa...


Sim, Sr.ª Ministra

Obviamente, a Sr.ª Ministra de nada sabia. Obviamente a posição será revista. Mas não tivesse a rede Ex-Aequo trazido o assunto aos jornais e o rótulo de campanha ideológica interferiria com a divulgação destes cartazes. Sobre as agressões sucessivas sofridas por alunos/as cuja orientação sexual é diferente da maioria. Para algumas escolas, as interpretações vão mais longe: são cartazes promotores da homossexualidade. Imagine-se o que mais não vai por aquelas cabecinhas...


O oficial, a divorciada, a erudição do legislador e a sabedoria do deputado




O legislador viu e pensou que se
 a mulher foi a ré na acção do divórcio e mostrou que não possuía a honorabilidade e as qualidades morais necessárias para constituir família não está indicado, que possa casar com um oficial do exército. 
Há agora o caso da mulher honrada, da mulher que teve uma conduta irrepreensível, mas que pediu o divórcio contra o marido, e então o legislador pensou: esta mulher é impecável no seu passado, mas não teve a resignação necessária não soube suportar as vicissitudes e tormentas do lar, isto é, não soube manter-se; embora com sacrifício.



Eu vejo sorrisos, mas devo dizer a V. Ex.as que há mulheres que sabem proceder de maneira a evitar o divórcio, embora tenham às vezes motivos para o pedir quase todos os dias. Neste caso o legislador pode pensar que se a mulher não teve resignação para aturar o primeiro marido é de supor que igualmente o não tenha com relação ao segundo, e é por isso que não distingue um caso do outro e é talvez esta a razão por que vem tal disposição no decreto. No entanto, nesta parte, ainda aceitaria que se fizesse uma modificação no sentido de um oficial poder casar com uma mulher divorciada quando não tenha sido condenada na acção de divórcio.                

                                                                                                              Tamara Lempicka
http://debates.parlamento.pt/page.aspx?cid=r2.dan



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Apoplexia*


Um aluno generoso dá-me a conhecer a notícia do ano (mas desde quanto, Senhor, há esta novidade e eu nada sabia? Eu que até lhe recebo as newsletter e diabo a quatro?)
My Private Lord e os desbragados Grinderman estarão no Optimus Alive. E eu, que até tenho TMN e Vodafone, espero poder lá estar. 

*Ainda não foi desta, mas nada garanto quanto a 8 de Julho. Se conseguir lá estar, claro está.


(muitoooooooo) Boa Semanaaaaaaaaaaaaa!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Odete ou Odile

1.º Ato


Amante da palavra confessa, sou surpreendida com Cisne Negro de Darren Aronofsky. Não conheço nenhum dos seus filmes e já aqui confessei a minha quase insensibilidade para a realização. Apreendo-a num todo, como se fosse a malha invisível daquilo que realmente me interessa: o argumento e os diálogos. Mas este é um filme extremamente visual, num registo em que as palavras apenas suportam a mimética, real protagonista da película. E a música, a relembrar-nos o óbvio acerca  da genialidade de Tchaikovsky. 


2.º Ato

Este é um filme suportado inteiramente pela forma como é filmado e pelos desempenho dos seus protagonistas, com Natalie Portman à cabeça. A cena inicial é absolutamente premonitória de como nos colaremos a Nina, como respiraremos com ela (e quase por ela), como também nós sentiremos o colete de forças que a sufoca. Tal como a protagonista, a dissociação é de tal ordem que não conseguimos destrinçar a realidade do assustadoramente onírico.   
O filme é absolutamente claustrofóbico.  Desde o momento em que Nina é tocada pelo seu Rothbart (na figura de Thomas Leroy, o encenador e mentor e que também podia ser Mefistófeles)  até ao momento em que cede lugar a Odile, filha das exigências de Thomas Leroy, sustemos a respiração para suportar a espiral da dolorosa e demente transformação, juntamente com a protagonista. E no final, finalmente respiramos. Ou não.

3.º Ato

Odete ou Odile, ou também Eva ou Lilith, a dualidade de papéis que é exigido a esta mulher, à mulher, a todas as mulheres. Metade Eva, metade Lilith, no fio da navalha, nem demasiado Lilith, nem demasiado Eva, um pouco Odete e qualquer coisa de Odile.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Maiores de 18

As salas de cinema deviam ser, na sua maioria, interditas a adolescentes. Com as crianças não há problema. Por norma ficam quietas e as intervenções são esporádicas. Impossíveis são as criaturas que quando entram num espaço desta natureza miraculosamente esquecem a comunicação por sms que por norma utilizam e desatam a conversar (um eufemismo, na verdade é mais um monólogo coletivo). Sessões para adolescentes. E nas restantes salas, acesso vedado a criaturas que ainda se riem desalmadamente com alguma cena que lhes pareça, vagamente, uma cena de sexo. E que não sabem quando parar para pensar que a restante sala pagou bilhete para o filme e não para as suas palhaçadas.

Argumentos da Classe Médica

- Acha que os médicos conhecem melhor os pacientes do que os farmacêuticos?
- Claro.
- Porquê?
- Porque um tem o curso de medicina e outro tem o curso de farmácia.

Disclaimer: (este post é independente das propostas governamentais para os genéricos vs. vetos presidenciais)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Lullaby de Domingo


Novo álbum em Março, com um primeiro videoclip que é um mimo. Por enquanto, como lullaby desta semana um clássico. Sem palavras, que hoje é um domingo especialmente cansado.


Palavra da Semana

Só para seleccionad@s.... ;-)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Boa Semana

Da arte de ser laçado

Usava gravata como quem bebe um copo de água. Não era um uso importante. Simplesmente todos os dias da sua vida, desde os 18 anos, saíra de gravata ao pescoço e nem mesmo quando as gravatas caíram em desuso, se lembrou de as deixar de usar.
No ano em que mudou de departamento, comprou uma nova para juntar às demais. Não era muito vistosa, era até discreta, mas decidiu estreá-la no primeiro dia de trabalho no novo local, em jeito de sorte. 
O novo departamento não era muito grande; era até mediano, mas como os seus funcionários nunca haviam trabalhado nem sequer haviam espreitado outro departamento, julgavam que aquele departamento era o maior e o mais importante entre todos os departamentos. E, para o diferenciarem dos restantes decidiram, mais ou menos em conjunto, que aquele departamento usaria laços em vez de gravatas. Esta decisão era uma não decisão, porque na verdade ninguém conversou sobre isto. Apenas começaram a usar laços e os restantes acharam que o adereço realmente combinava com os bigodes retorcidos de gente séria. E portanto, na loja em frente ao departamento, esgotaram-se os laços, porque todos quiseram parecer mais sérios que nos outros departamentos.
Depois dos laços, os funcionários acharam que seria interessante colocar espelhos por todo o lado, para que pudessem a qualquer hora admirar os laços que os tornavam tão distintos.
Depois dos espelhos, alguém teve a ideia de que seria interessante organizar reuniões semanais para conversarem sobre as diversas cores e feitios que os laços podem ter. Desenvolveram-se grandes solilóquios em que alguns funcionários mais entusiasmados contemplavam-se ao espelho enquanto peroravam sobre a beleza do seu laço.

Ora, foi exactamente a este departamento que chegou com a sua gravata nova, discreta. E dia após dia, naturalmente, continuou a usar as suas gravatas como quem usa um laço. Isto não seria um problema em qualquer outro departamento, menos naquele. Primeiro, porque o departamento estava habituado a uma determinada estrutura. A distribuição do material naquele departamento sempre foi muito complicada, porque todos queriam lapiseiras, mas alguns tinham que ficar também com lápis. E, pensavam, o homem da gravata também tinha direito a escolher e poderia querer também lapiseiras em vez de lápis. Mas o homem da gravata chegou e não disse nada, nem lápis nem lapiseira e os outros ficaram desconfiados, por ele ser assim tão calado. Mais a mais, não conseguiam deixar de olhar para a gravata, muito comprida, a cair-lhe no peito. 
Primeiro mexeram-se nas cadeiras, incomodados. Depois, lentamente, quando o homem da gravata estava alheado das conversas e concentrado no trabalho, começaram a bichanar sobre as gravatas do homem.
Onde já se viu, diziam, aparecer assim neste departamento, sem laço, quando já se sabe que o nosso departamento é o melhor por causa dos laços. Alguns mais distraídos não tinham pensado mais na gravata, mas, porque nos departamentos é preciso arranjar com que os funcionários se entretenham, começaram a ser cada vez mais os que se juntavam no corredor a bilhardar sobre a gravata do novo funcionário. A cusquice foi de tal ordem que chegou  aos ouvidos do chefe do departamento, que não sendo propriamente um amante de laços, entendia que se a maioria os queria, então a maioria devia usá-los. Assim, preocupado com os funcionários incomodados com a gravata, e que por causa disso já não conseguiam trabalhar em condições, decidiu admoestar o funcionário das gravatas , explicando-lhe que do uso dos laços dependia o prestígio de todo o departamento.
O funcionário engravatado não se deixou laçar; não porque gostasse por aí além das gravatas, ou porque detestasse os laços. O que ele não suportava é que confundissem a história dos homens laçados com a competência do departamento, o que ele não gostava é que tentassem tolher-lhe o direito de escolher entre um laço e uma gravata. 
A polémica acabou por esmorecer, não sem antes alguns funcionários que até achavam piada ao homem da gravata se terem afastado dele logo que souberam que o chefe havia manifestado desagrado. Com medo de retaliações, durante uns tempos trouxeram uns laços ainda maiores, para que ficasse bem claro que eram homens genuinamente laçados. O chefe, esse, depois de lhe passar o azedume, nunca mais pensou nisso. E há quem diga que em determinadas alturas também aparecia no departamento sem laço. 

domingo, 30 de janeiro de 2011

Lullaby de Domingo

Difícil foi escolher, apesar de a moça ter editado apenas o primeiro álbum. 
Promete.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Eins, Zwei, DREI

Não é só a Sofia Coppola que sabe a importância de uma banda sonora. O realizador de O Perfume e de Corra, Lola, Corra - Tom Tykwer - também. Drei (Três), que abriu a Mostra de Cinema de Expressão Alemã, é um claro exemplo disso.
Um filme de simpatia ao Poliamor. Com uma óptima fotografia e uma fantástica banda sonora.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O erro

Mário Soares não resistiu a mostrar publicamente o seu ressabiamento em relação a Alegre. Mas ao contrário do que Soares venenosamente defende, tenho para mim que o erro não foi de Sócrates (ao apoiar a candidatura de Alegre às Presidenciais). O erro foi de Alegre, ao permitir que a sua candidatura fosse apoiada por gente tão pouco séria e empenhada como Sócrates - já para não falar do Jacinto que mostrou a fibra de que é feito na noite das Presidenciais - faz parte da sabedoria popular a noção de que os ratos são os primeiros a abandonar o navio. Com líderes assim, quem precisa de inimigos?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

Tudo está bem

Tal como nas Legislativas, os e as Portuguesas deslocaram-se às urnas para dar o seu aval a quem nos tem governado até aqui. Se está tudo muito satisfeitinho(a), quem sou eu para contrariar?
E por cá reiteramos o nosso calibre ao eleger o Coelho em segundo lugar. Maravilha! Uma banda sonora a condizer com o nosso Portugalinho:
Vénia a V, que me apresentou a estas pérolas condizentes com o espírito geral da coisa.


sábado, 22 de janeiro de 2011

Lullaby de Domingo que se antecipa

Para quem não conseguir nascer duas vezes, aqui fica um cheirinho do que ficam a perder.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Coelho e a sua candidatura apoiada apenas pelo povo*

De cada vez que ouço o Coelho perorar, de cada vez que ouço os seus discursos inflamados num rosto muito pouco expressivo, lembro-me sempre desta magnífica cena:


*Nomeadamente por pequenos (tiny,tiny,tiny, ou seja pequeninos mesmo muito pequenininhos) comerciantes do Funchal.

Agora é que é a looocura!

Dr. Jekyll or Mr Hide?
Durante o primeiro mandato (e espero que único), tivemos um Presidente conivente com o executivo, a discordar de mansinho em relação a algumas questões secundárias (umas discordânciazinhas,  coisinhas de nada). Durante o primeiro mandato (e espero que único), o Presidente Cavaco não esteve demasiadamente preocupado com a justiça social e muito menos com os ataques sistemáticos que lhe eram feitos. No primeiro mandato, quase podemos imaginar Sócrates do alto do seu paternalismo a afagar carinhosamente o cocuruto de Cavaco enquanto sussurrava um carinhoso good boy.

Mr. Hide or Dr. Jekyll?
Entretanto, a campanha eleitoral para que Cavaco continue a poder sustentar a senhora sua esposa, de cognome a coitadinha, revela-nos um Cavaco desconhecido do povo que ele tão bem conhece (ou pelo menos um Cavaco esquecido, que este homem não conseguiu maiorias absolutas só com bolo-rei). O Cavaco cinzento do aguenta o tacho desapareceu e de repente temos um autêntico easy rider a calcorrear o País e a ameaçar rebelião. Ele é o defensor sempiterno da justiça social, ele é o homem que vai dar o murro na mesa (e quem sabe, diretamente a Sócrates), ele é o homem saído do povo e que ao povo regressa em alturas de absoluta necessidade (como é o caso das campanhas eleitorais). Ele é uma lenda viva da contracoltura aos restantes políticos cinzentões que apenas prometem o que não podem cumprir. Cavaco é o homem que vai conseguir transcender os poderes do Presidente da República num segundo mandato, já que no primeiro nem os que tinha exerceu. Ou melhor, até exerceu. Um manso e santo exercício.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Há Domingos assim,

em que se espera impacientemente pela segunda. 
Num ano particularmente difícil, inaugurei a rubrica lullaby de domingo porque os queria mais longos. Porque as segundas eram o começo de algo difícil, num ambiente de trabalho que detestei. Muda-se o ser, muda-se a confiança*  e gosto do início dos domingos, na maior parte das vezes o único dia que temos verdadeiramente para nós. Mas depois, de vez em quando, há domingos assim. Demasiado longos porque não são nossos. E em vez de uma lullaby, preciso de duas (ou três). Uma que seja extraordinária, para que o domingo finalmente passe e chegue a segunda, e com ela chegues tu também - e depois podia ser feriado



*Camões.

Diário de Campanha

Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

(fotografia retirada daqui, desse insuspeito órgão de comunicação social)

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.

(poema de Pedro Homem de Melo)


Lullaby de Domingo


Na ordem do dia, como sempre. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Até onde se consegue ir? - ou da absoluta falta de vergonha

O beato Cavaco confessa as suas desgraças (só algumas, só algumas, que de outras fecha-se em copas). Como  bom português sustenta generosamente a mulher, que ganha uns míseros 800 euros de reforma, certamente muito menos que a Maria de Fátima da Conceição Pereira. Então têm a lata de pedir ajuda ao candidato Cavaco e ninguém ajuda Cavaco, o pobrezinho?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Isto não é um País

Agrava-se a situação. Sabemos que em caso de despedimento são, por norma, as primeiras; sabemos que na contratação, a maternidade é um factor desfavorável; sabemos que continuam a receber menos por trabalho igual. Sabemos, sabemos, sabemos. E no entanto, persistimos no erro, assobiamos para o lado e fechamos os olhos, os ouvidos e, principalmente, a boca. Se isto é um País...

Não és uma invenção e não quero esquecer o teu nome

I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

Sylvia Plath

Em tempos, desejaste que este poema te fosse dedicado. Hoje é o dia.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Pedras no Caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo" Ou Com o Google me enganas e com o Google me desengano?



A frase citada no título é o último verso de um poema, que circula na Internet, atribuído a Fernando Pessoa.
Não sendo uma especialista em Literatura Portuguesa, muito menos em Fernando Pessoa, desde a altura em que me falaram nesta frase, aludindo ao tal poema, que o mesmo me pareceu um simples testemunho de auto-ajuda. Ora, na escola, aprendera que Pessoa era complexo, como a sua obra; portanto, muito diferente destas palavras. Também aprendera que uma parte considerável da sua obra ainda era desconhecida do grande público - por isso, existia a possibilidade de este ser um dos poemas desconhecidos. Porém, apesar da "arca sem fundo".....ainda não conhecera nenhum heterónimo dedicado a ser conselheiro da felicidade. Ora, imaginar Pessoa a escrever um receituário para a boa ventura, reconhecendo o valor da sua vida e "agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida", continua hoje - como quando li o poema pela primeira vez, a soar, no mínimo, extraordinário.
Contudo, em 2007, quando tomei conhecimento do texto, procurei a verdade no sítio errado - cingi-me ao Google - o qual confirma a autoria do texto devolvendo inúmeras páginas que escrevem "Fernando Pessoa após estes versos:


"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, 
mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. 
E que posso evitar que ela vá a falência. 
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, 
incompreensões e períodos de crise. 
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas ese tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrarum oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. 
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. 
É ter coragem para ouvir um 'não'. 
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Hoje, quando vi o poema no facebook, a sensação de estranheza ainda foi maior: "É ter coragem para ouvir um 'não'? É ter segurança para receber uma crítica mesmo que injusta????" - decididamente, isto não é Pessoa, o poeta português é muito mais complexo que isto.
E, claro, outros houve que duvidaram igualmente (quem, conhecendo um pouco de Pessoa, não duvidaria?) e, através deles, percebi que os versos são de Augusto Cury ("Dez Leis para ser Feliz") à qual se juntou o último verso, da autoria de nemonox. A história integral está aqui. (Obviamente, em 2007, devia ter feito como eles, que contactaram a Casa Fernando Pessoa).


Boa Semana

domingo, 9 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Campanhas eleitorais - qualquer semelhança...

Por cá, ouço apelos ao voto em dois candidatos: se não Cavaco, pelo menos Coelho. Lá está o dilema a funcionar em pleno: o povo superior à toa graças a adestramentos...

sábado, 1 de janeiro de 2011

Primeiras Pérolas a Porcos (2011)

A partir de agora, muitos de nós estarão mais pobres, sendo que muitos já nem tinham condições para que os seus magros rendimentos fossem reduzidos. E temos um executivo que se diz socialista. Num ano em que se avizinham eleições e convulsões várias, isto dá que pensar:

«adoptamos sub-repticiamente um vocabulário 'ético' enganador para reforçar os nossos argumentos económicos, condecendo-nos uma aurazinha de satisfação pessoal a partir de cálculos grosseiramente utilitários. Ao impor cortes na segurança social dos pobres, por exemplo, os legisladores, tanto no Reino Unido como nos EUA, sentiram um orgulho singular pelas 'escolhas difíceis' que haviam tido que fazer.
Os pobres votam em número muito menor do que todos os outros. Não há por isso grande risco político em penalizá-los: qual é a 'dificuldade' dessas escolhas? Hoje em dia ficamos orgulhosos ao ser suficientemente duros para inflingir dor nos outros. Se ainda vigorasse um costume mais antigo, pelo qual ser duro consistia em suportar a dor, e não em impô-la, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de preferir com tanta insensibilidade a eficiência à compaixão.»
Tony Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70, pp. 48-49

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Adeus

Este é o último post em que utilizo a grafia da Língua Portuguesa tal como sempre a conheci. Por defeito profissional, sou obrigada a adaptar-me ao novo acordo ortográfico. Não é só o corte no salário, ou a subida de IVA que me vai afectar no Novo Ano. A minha Língua também deixará de ser a minha.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Últimas Pérolas a Porcos do Ano (2010)

Qualquer semelhança com a nossa realidade, não é coincidência:

«Os nossos sentimentos morais foram na verdade corrompidos. Tornámo-nos insensíveis aos custos humanos de políticas sociais aparentemente racionais, especialmente quando nos asseguram que elas irão contribuir para a prosperidade geral e assim - implicitamente - para os nossos interesses separados. (...).
Hoje voltamos às atitudes dos nossos primeiros antepassados vitorianos. Mais uma vez, só acreditamos em incentivos, "esforço" e recompensa - juntamente com castigos pela desaquação. (...). Se os trabalhadores não estiverem desesperados, porque hão-de trabalhar? Se o Estado pagar para que as pessoas fiquem ociosas, que incentivo elas terão para procurar emprego remunerado? Regredimos ao mundo duro e frio da racionalidade económica do Iluminismo, expresso pela primeira vez, e melhor, em 1732 n'A Fábula das Abelhas, (...). Na opinião de Manderville, os trabalhadores "nada têm que os faça mexer além das suas carências, que é prudente aliviar, mas loucura remediar."»
Tony Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70, pp. 36-39

O autor continua com a afirmação de que Tony Blair não o diria melhor. Sócrates também não, acrescento eu.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Dize aos filhos da Madeira que votem*


A partir de hoje, muitos/as madeirenses estão atormentados/as por um autêntico dilema que terá de ser resolvido até à próxima ida às urnas.Como muitos/as compraram a tese de que os madeirenses são efectivamente um povo superior, de repente são confrontados/as com uma escolha que se afigurará difícil:
Por um lado, há um madeirense na corrida às Presidenciais, o que significa que  um cidadão cujo BI atesta pertencer a este povo superior seria uma escolha natural para todo(a) o(a) madeirense saudável e bem regimentado/a (os/as judeus/judias andaram estes milénios todos muito enganadinhos/as com a história do povo escolhido - afinal havia outro). Por outro lado,  os/as fiéis seguidores/as da crença em Madeirenses, Jardim e PSD, constatam que se o candidato supracitado cumpre o primeiro requisito e tem uma actuação pública muito parecida com o segundo, na verdade anda distante do terceiro. Aliás, quanto ao terceiro, este tem um outro candidato que,desgraçadamente, é continental e, portanto, cubano. Como se vê, o dilema moral é enorme e julgo que provocará dolorosas insónias e consecutivas idas à igreja à procura de uma alumiação divina porque os povos superiormente alumiados geralmente são muito bem relacionados com o divino - ou pelo menos, com os que se dizem seus representantes directos (ai Teodoro, Teodoro, ai Carrilho, Carrilho).

*Adulteração de "Dize aos filhos de Israel que marchem." Livro do Êxodo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diz que é um País laico

Eles por lá
Leio num jornal que um professor, em Espanha, foi interrogado pela Polícia por ter falado de presunto, em uma das suas aulas. Um aluno e respectivos pais acusam-no de comportamento xenófobo e falta de respeito para com a sua religião (pelos vistos o profeta não tem especial apreço por carne de porco).


Nós por cá
Em contrapartida, na minha terra, chegamos à época de inferno. Eu, que vivo num Estado pretensamente laico, acordo agora todas as manhãs com uma cerimónia religiosa berrada aos meus ouvidos. Note-se bem: estou deitada, no meu quarto, noite escura, e acordo estremunhada com um virgem do parto, ó maria, seenhooora da conceiçããão. E a coisa persiste em nome do pai, do filho e do espírito santo. Mais à frente (e eu às voltas) o sermão do padre, que como todos os sermões de padres desta altura falam de luz, de candeias e velinhas a alumiar o caminho dos(as) pobres pecadores(as) - que somos todos(as) nós, principalmente os(as) que praguejam na cama porque a liberdade religiosa lhes invade o seu espaço privado - desde as 5.30 da matina, que a salvação quer-se bem cedo. 
Esta redenção é-me impingida todos os dias, uma tradicional salvação que acontece todos os Natais. A esta salvação não chega remir os(as) que cheios(as) de boa vontade (e outras coisas mais) preenchem os bancos da igreja a horas de se estar a dormir; esta salvação obriga também os(as) que estão em casa e que não querem nem precisam ser salvos(as) a fazer parte de tudo isto. Porque num Estado que se diz laico, as Câmaras ainda acham que podem privilegiar desta forma indecorosa uma confissão religiosa e permitir-lhe a propagação da boa nova mesmo para quem não quer ser evangelizado(a). Num Estado que se diz laico, eu não tenho opção de escolha e na época do natal ouço re-li-gio-sa-men-te a missa todos os dias, que é para aprender a não ter a mania que estou num País livre.

(pintura de Hieronymus Bosch)

O exame que (não) era e que se julga que passará a ser (e respectivas trapalhadas)

Acaba-se o primeiro período com a sensação de que tudo mudou. Saúda-se o regresso do exame nacional de Filosofia, já com um primeiro ensaio no próximo dia 22 de Fevereiro para quem ingressou este ano no 10.º ano de escolaridade, em que se realizará (a nível nacional) o teste intermédio à disciplina.
Tudo estaria bem, se não tivéssemos iniciado o ano lectivo sem a informação de que arrancariam este ano testes intermédios na disciplina e que apontam (mas não confirmam) para a possibilidade de exame no ano terminal da disciplina (11.º ano).
Tudo estaria bem se esta calendarização (22 de Fevereiro) não fosse tão perniciosa para quem começa agora o seu percurso pela disciplina. Um agendamento muito pouco cuidado face aos conteúdos contemplados implica um ritmo nas aulas que é muito pouco razoável. A primeira unidade teve que ser em muito sacrificada e é possível que este ritmo alucinante leve os(as) alunos(as) a adquirir alguns (mais) anticorpos à disciplina. 

Perante tudo isto, não é possível deixar de questionar o intento desta planificação trapalhona. Esperemos que quem elaborou (ou está a elaborar) o teste intermédio que aí vem tenha tido em conta o currículo da disciplina, e não a orientação de determinados manuais. Esperemos que todas estas andanças não sejam apenas para engendrar desculpas para acabar com a disciplina.
 Sabemos a possibilidade de ter gente a pensar pode ser incomodativo...

Sobre a saga dos exames de Filosofia, ver aqui, aqui e aqui.

(pintura de Rembrandt)



Boa Semana

domingo, 19 de dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Galardão Natalício: a solidariedade em todo o seu esplendor


As crianças andam doidas, completamente apaixonadas por essa figura que surge sempre por esta altura do ano, muito cor-de-rosa, bamboleante, cada vez mais Lolita, embaixadora da caridade natalícia. Minto; as crianças dividem-se, entre uma paixão assolapada pela Popota, essa hipopótama cada vez menos hipo e uma paixão mais comedida, mas ainda assim intensa, pela Leopoldina, uma avestruz pensada para fazer com que os/as portugueses/as enfiem a cabeça na areia. Ambas sérias candidatas a beneméritas, senão da humanidade, pelo menos de Portugal, apregoam as fabulosas doações do seu patrão para causas sociais. São assalariadas, as bichinhas, e trabalham intensamente por esta altura, numa exortação pungente aos esvaziamento dos bolsos dos/das portugueses/as. 
Este ano (não sei se acontecia também o ano passado) a instituição de solidariedade social que é a Sonae continua a sua demanda de fazer caridade com o dinheiro que é dos outros; e propõe, para além de todas as quinquilharias usuais, um telemóvel da Popota, pela módica quantia de 59 euros. As crianças deliram, os pais um bocadinho menos, mas a verdade é que estas coisas vendem e fazem com que as pessoas passem um Natal mais apaziguado, na ilusão de que fizeram a sua parte. Esquecem o mais importante: ano após ano, a Sonae apregoa uma solidariedade que não é a sua: paga o/a cliente para que, com toda a pompa e circunstância, se apresentem cheques caridosos a instituições, num festival de exibicionismo atroz. Todos sorriem, inclusive o consumidor, o único que nada ganha com tudo isto. A solidariedade não é para todos/as. E principalmente, só dá lucros a alguns.

domingo, 12 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"A Calçada da Corticeira é o Calvário das Carquejeiras do Porto"


Outro testemunho de um observador - Hugo Rocha - do 'calvário' das carquejeiras publicado no
 Século Ilustrado, a 19 de Abril de 1947, retirado daqui.
Para eventuais interessad@s, pode ler-se, no Centro de Documentação Movimento Operário e Popular do Porto, no âmbito do projecto "Memórias do Porto: testemunhos do Porto laboral do séc. XX", o testemunho de Palmira de Sousa, que percorreu a Calçada desde os 10 anos de idade.


As Carquejeiras


Eram mulheres, umas fortes, outras nem por isso, que subiam e desciam de madrugada até à noite a Calçada da Corticeira (a rampa, cuja nunca ninguém subiu de automóvel ou de bicicleta, embora tivessem tentado, façanha que ficaria nos anais do burgo). As carquejeiras descarregavam molhos de 40, 50 ou mais quilos de carqueja (ou chamiça) dos barcos que a transportavam Douro abaixo.


Depois, com os molhos às costas, dobradas, subiam a calçada (210 metros, 22 por cento de inclinação) até às Fontainhas. Ali, descansavam pousando a carga no muro da Alameda, bebiam água num fontanário e lavavam os rostos - sujos do pó da chamiça, e escorrendo suor. E prosseguiam viagem até ao centro da cidade, às Antas, a Paranhos, à Boavista, aos sítios onde havia padarias de que a carqueja era acendalha para os fornos. Entre os anos 30 e 50 passaram centenas de mulheres pela Corticeira. Num ano, em 1940 e tal, chegou a haver noventa, todo o dia, em bicha e em ziguezague, para compensar a agrura da subida.

Falavam pouco e contaram pouco. Pouca gente, aliás, estava interessada em ler coisas tristes e, além disso, as histórias delas não tinham o 'charme', nem o sumo requinte dos dramas traduzidos do francês. Por tal motivo a tragédia das carquejeiras ficou por contar. Dos temps em que andávamos na praia do Borras a tomar banho, em frente à Corticeira, guardei a imagem daquele formigueiro, daquele funicular de mulheres ocultas sob o carrego da carqueja eriçado de hastes com o aspecto dos ouriços. Um formigueiro a que éramos indiferentes: o rio chamava-nos na aventura da travessia e os desgostos interessam pouco aos meninos. Mas, ainda assim, recordo os seus rostos quando as vi de perto, no alto da Corticeira (tão inclinada que nunca a palmilhei de alto a baixo). Rostos amargos....

Histórias poucas. Não eram comédias de costumes e arranhavam em demasia a boa consciência das pessoas. Ficaram, no entanto, alguns nomes: a Blandina, que aceitou dizer quanto ganhava e os carretos que fazia (dez diários, a 50 quilos, dão meia tonelada, multipliquem por doze meses, durante dez anos - e terão ideia do peso do calvário). A Ermelinda, que ficou assinalada por ter dado à luz em plena subida, e a Elisa, que ficou mais assinalada por ter morrido de repente, aos trinta anos, a meio da Calçada, debaixo do carrego. Pessoalmente não as esqueço e, quando vou à Corticeira ver os crepúsculos recortarem a Ponte, lembro-me delas. E aqui deixo a evocação. Serve de homenagem à dignidade, porque, se a dignidade tem um rosto, é, com certeza, o das carquejeiras.

Helder Pacheco, As Carquejeiras, 1988
Calçada da Corticeira, Helena Reis




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Para ti, sabes porquê


"We should write as we dream; we should even try and write, we should all do it for ourselves (...)"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Boa Semana


Não é só a banda sonora deste filme que é recomendável.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pergunta da semana

Estava no google. Como é que está errado, se tirei do google?
(ao dizê-lo tinha um ar triunfante, uma espécie de Agora toma! E como é que te safas desta?)

Ainda não é o espírito de Natal*

Neste primeiro fim-de-semana de Dezembro, já a cheirar a Natal, apenas um desejo: que amanhã, na ida para a escola, quando sintonizar o rádio do carro na TSF, estejam a noticiar a morte das bilhardeiras:
Imagino uma história bem escabrosa, em que provocam a morte uma da outra apertando os infindos cordões de ouro que andam a vender por tudo o que é ourivesaria da Ilha**. 
Que as últimas palavras das criaturas sejam um curto pedido de desculpas pela falta de talento propagada em todos os intervalos dos noticiários. Que sejam breves, que farta de as ouvir ando eu.

* mas é a prenda ideal.

**Já agora, é um bocadinho idiota tanta ourivesaria julgar que estes senhores encaminharão clientes para a sua porta. 33 mil ourivesarias anunciam da mesma forma e esperam que alguém as distinga? Já para não referir a coerência destes parodiantes: uma no cravo outra na ferradura, não é?


Lullaby de Domingo


Banda sonora para um fim-de-semana de tempestades: lá fora e na luta contra a vontade de nada fazer apesar da pilha de fichas para corrigir.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Inverno do nosso Contentamento*

Há dias que o céu não nos deixa em paz, num lamento constante, ritmado pela lentidão ou por vezes (felizmente só por vezes) violentamente zangado. Não há grande diferença entre o dia e a noite, a não ser no que diz respeito ao conforto de sentir-lhe a zanga lá fora, longe do nosso quarto.
Não percebo este céu por cima de nós; há dois meses e meio que entro sistematicamente em salas abafadas, apinhadas de adolescentes que transpiram tanto ou mais do que eu.
Não nos chega frio, apenas a água que escorre dos nossos corpos acalorados, o esforço de pensar com os pingos de suor a caírem o mais discretamente possível (acreditamos nós). As gargantas secas e os poros a trabalhar freneticamente, a reclamar o espaço do outro que está mesmo ali, quase colado, com o bafo quente a queimar-nos as orelhas.
As salas de aula são lugares terríveis, em dias como os que temos tido. E por vezes, a tristeza do céu rouba-nos o espaço lá fora, nos intervalos, quando poderíamos respirar mais livremente por escassos minutos. Uma tristeza quente, sempre quente, sem esperança.
Há dias que chove e finalmente começa a ser uma chuva que anuncia o frio. Pelo menos já se respira outra vez.

*Título inspirado num título de Steinbeck.


domingo, 28 de novembro de 2010

Lullaby de Domingo


Uma das coisas de que mais gostei em The Social Network foi exactamente a banda sonora, a cargo de Trent Reznor. E mais ainda desta faixa que brinca com Grieg (um dos meus compositores favoritos).

sábado, 27 de novembro de 2010

Matrix

Já não estamos num País constituído por cidadãos e cidadãs, nem numa Europa para as pessoas. Somos agora apenas escravos dessa entidade sem rosto que é o mercado e existimos com o único propósito de alimentá-lo. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Matem as Mulheres Primeiro

Voltamos a ter um ano negro. 39 mulheres assassinadas, 11 "danos colaterais" e 38 tentativas de homicídio (uma delas já esta semana). 
É a crise, dizem muitos/as. As pessoas andam muito mais agressivas por causa da crise. Mas esta questão, a da violência nas relações amorosas sempre foi um problema subjacente ao modo como nos relacionamos, com ou  sem crise, com ou sem informação com mais ou menos punição. 
A verdade é que continuamos a validar estes comportamentos de cada vez que procuramos justificações, de cada vez que chafurdamos nos contornos do crime à procura de motivos.  Ela provocava, ela estava a pedi-las, ela também nunca se foi embora continuam a ecoar mais alto que ele matou-a. 


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em greve

(imagem roubada ao blog Rua do Patrocínio)

A minha participação cívica não se resume aos queixumes à mesa do café.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dos Mexeriqueiros



Por se evitarem os inconvenientes, que dos mexericos (1) nascem, mandamos, que se alguma pessoa disser à outra, que outrem disse mal delle, haja a mesma pena, assi civil, como crime, que mereceria, se elle mesmo lhe dissesse aquellas palavras, que diz, que o outro terceiro delle disse, posto que queira provar que o outro o disse.



1) Chama-se Mexerico, a acção de contar, dizer, ou referir o que se ouvio em segredo, ou em confiança a alguem, a seu inimigo, ou ao amigo, para os inimisar.
Como os mexericos, diz João de Barros, pela mór parte sempre são fundados em algumas conjecturas provaveis, quasi sempre produzem effeito.
Ordenações Filipinas, Livro XXXV

Imagem de Hieronymus Bosch

Boa Semana

domingo, 21 de novembro de 2010

Declaração de interesses


Colaborei para a presente edição do Projecto 10, dedicada aos anos 90. 
Fica aqui o agradecimento pelo convite, ao Aires Gouveia, que conheci num feliz jantar de blogger's aqui na Região (vai já para um ano). 

Lullaby de Domingo


A propósito de Cimeiras, t'shirts, FMI e gente que não sabe o que é contar tostões ao final do mês, mas que nos fala da necessidade de fazermos isso. Flexibilizemos nós as relações laborais dessa gente.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ainda a Cimeira

é uma novidade tão grande, mas tão grande, ver os governantes do mundo em reunião a queimar os seus neuroniozinhos enquanto as primeiras-damas vão ao MUDE. Sei lá, apetece-me ser chata (é assim que se diz, não é?) pois bem sei, que até já há mulheres em cargos de chefia de nações (olha a Merkel, o que é que queres mais, hã?). Afinal de contas, elas não têm cabecinha para pensar nos destinos das armas do planeta. Aliás, foi lindo ver, durante a Cimeira Ibero-Americana cada um(a) no seu papel. Ah! É tão boa esta igualdade! Uns pensam e as outras passeiam. Cada qual no seu lugar.
Segundo entrevistada na SIC, um grupo de filandes@s foi impedido de entrar em território nacional. Declararam ir participar nas manifestações anti-NATO e "faziam-se acompanhar de tarjas e t-shirts.... "

tarjas e t-shirts? É legal impedir a entrada de cidadãos que declaram ir participar em manifestações legais e que se fazem acompanhar de "t-shirts" e "tarjas"?

sábado, 13 de novembro de 2010

Lullaby de Domingo (ou sábado)


Ainda não decidimos (programado para as 23:59). 
10.

Novas Cartas Portuguesas - "Há 38 Anos foi histórico, agora é contemporâneo."*

Está já ao virar da esquina,  As Novas Cartas Portuguesas, edição anotada da responsabilidade do grupo de trabalho da Ana Luísa Amaral. Ainda não a tenho, porque só estará nas livrarias a 15 de Novembro e já se sabe que na Ilha as coisas tendem a ser ainda mais morosas, mas está formalizada a encomenda. De qualquer modo, nem a própria D. Quixote nos agraciou com a capa do livro no site. Imperdoável.

*Da entrevista dada por Ana Luísa Amaral, para a Ípsilon.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Da obrigatoriedade

Apesar de ter passado vergonha esta semana com a alegada virilidade da Chaterine Deneuve (afirmação idiota postada no facebook) e apesar da abada que a Shyz Nogud lhe deu com a maior das pintas (e não foi preciso recorrer de qualquer propriedade viril), ainda assim a Ípsilon de hoje é obrigatória. Tem as Três Marias e Grinderman. I rest my case.