sábado, 2 de outubro de 2010

Lullaby de Sábado


(lullaby de sábado para DE)

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
 Clarice Lispector

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Fim e o Princípio (de quê?)

Depois de cada guerra
alguém tem de fazer a limpeza.
As coisas não se limpam
a si próprias, afinal.
Alguém tem de afastar os escombros
Para a berma da estradas,
Para que as carroças com os cadáveres
Possam passar.
Alguém tem de meter-se
por entre a lama e as cinzas
por entre as molas dos sofás
por entre os vidros partidos
por entre os farrapos ensanguentados.
Alguém tem de arrastar a trave
Que escorará a parede,
Alguém tem de por o vidro na janela
E colocar a porta nos gonzos.
Nada disto é digno de ser fotografado
E demora anos.
As máquinas fotográficas partiram já
Para outras guerras.
As pontes têm de ser reconstruídas
E as estações ferroviárias também.
As mangas das camisas ficarão rotas
De tanto serem arregaçadas.
Alguém, vassoura na mão,
Se lembra ainda de como foi.
Outro alguém escuta, acenando que sim
Com a cabeça
Mas já outros, ali perto
Acham tudo aquilo um pouco maçador.
De vez em quando alguém
Desenterra ainda numa moita
Um velho argumento enferrujado
E lança-o na lixeira.
Os que sabem
o porquê e o como
vão ceder lugar
aos que pouco sabem.
E aos que sabem menos ainda.
E por fim mesmo nada.
E na erva que vai crescer
Sobre as causas e os efeitos
Alguém deverá deitar-se
de espiga nos dentes
olhando as nuvens
O Fim e o Princípio por Wislawa Szymborska

Clarice ali, a olhar para mim

aTrouxe o único exemplar que havia na FNAC. Não sei se houve mais.apenas que Clarice estava lá, à minha espera, a detestar a tradução do título que fizeram. A Mulher mistério tem uma biografia cujo título português é demasiado evidente. Why This World transformou-se em Clarice Lispector - Uma Vida. Mau presságio?


Sou invadida pela mesquinhez. Invejo o autor, que tem a minha idade e que se dedicou a esta obra monumental (refiro-me ao volume e às leituras documentadas, que sobre o conteúdo ainda nada posso acrescentar). Folheio o livro a invejar uma paixão idêntica, mas que foi muito mais longe que a minha. Pobre de mim, SÓ leitora.

domingo, 26 de setembro de 2010

Qual o valor de uma biografia?

Curiosa, a forma como esta biografia é apresentada ( ainda não li). Como se a obra de Clarice Lispector não fosse suficiente para esta ser reconhecida ; como se a biografia desenhada por outras mãos suplantasse a escrita da própria. Como se esta fosse a primeira vez que se escreve sobre Clarice.
Título estranho, este. 

Lullaby de Domingo


Semana de apresentações: um admirável mundo novo. O receio estampado em alguns rostos. Noutros, desafio. Aborrecimento. Curiosidade. Entreolham-se: aquele é idiota, aquela tímida.  O do lado é giro. O que está no canto certamente não é de cá. 
Tenho cinco salas repletas de rostos ansiosos que iniciam agora um percurso num espaço que para a maioria é desconhecido (e insuficiente, em alguns casos). 
Cá vamos nós.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Lullaby de Domingo


No can do this!
No can do that!
What a hell can you do, my friend?
In this place that you call your town 

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"A linguagem administrativa é a minha única língua"*

"Reduzir-se-ão todas as relações humanas aos cálculos de prejuízos e de interesses, e todos os problemas à liquidação de contas?"
Lévinas, citado por Chaterine Chalier em Lévinas, a Utopia do Humano


A Comissária Europeia Vivien Reding pronunciou-se sobre a expulsão dos ciganos ordenada pelo governo de Sarkozy e o Eliseu declarou-se profundamente ofendido, apesar das suas  pretensões xenófobas, com as palavras da comissária. Durão Barroso secundou e bem a Comissária.
Por cá, a música é outra. E dos dois principais partidos (o CDS não conta, nem surpreende) temos  vetos a moções de censura à política de Sarkozy e juras de compreensão e clarificação de intenções do mesmo apresentadas por JS e PPC.

O pormenor que parece escapar aos meninos maravilha é a de que a França de Sarkozy (e que não é dele) não expulsa "apenas" os imigrantes ilegais no País. Sarkozy ordena que a prioridade seja dada aos ciganos.  E é esta a diferença fundamental que torna esta uma questão de xenofobia e não apenas questão de segurança, bandeira que é sempre acenada quando alguns Estados pretendem usar de metodologias pouco recomendáveis, em claro choque com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O assentimento que ambos, o efectivo e o aspirante a Primeiro Ministro,  fizeram questão de dar ao seu colega francês apenas esclarece que partilham de uma mesma dificuldade: pensar do ponto de vista do outro. É difícil para esta gente, mas é muito é perigoso para todos nós. Porque é preciso aprender com o que já fomos capazes de fazer, porque não podemos permitir que no seio desta Europa que acreditávamos muito distante da outra, voltemos a expulsar pessoas em função da sua etnia. Porque é preciso, de forma clara e inequívoca esclarecer estes burocratazinhos que nos governam ou que aspiram a governar, que os seus ares graves de estadistas não  nos enganam quanto à pequenez da sua capacidade de entender o Outro como digno de respeito.

*Eichmann, um bom funcionário, citado por Hannah Arendt em Eichmann Em Jerusalém - Uma Reportagem Sobre a Banalidade do Mal.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Já nem me refiro ao masculino neutro...



Uma mensagem com muito amor, da Isabelinha.

(imagem retirada aqui)
(vídeo primeiramente visionado aqui)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Banhado a ouro

Primeiro ri com vontade em relação à vontade do golden boy de que entremos na rota da excelência. 
Depois percebi que a meta é perfeitamente exequível, já que o garçon d'or refere-se a dados percentuais, com efeitos meramente estatísticos. Pelo menos é coerente. O nosso menino d'oiro não quer ser. Apenas parecer.

Renovação de quadros

Passos Coelho continua. Dia sim, dia sim senhor, cá está ele a lançar uma opinião, uma pergunta, um reparo., um petardo sobre quase tudo o que mexe. Até sobre a demora da divulgação do acordão do processo Casa Pia PPC teve algo a dizer. O professor Marcelo e o VPV já devem andar a fazer contas à vida. Afinal, é mais um especialista generalista a rondar-lhes a coutada (agora que as sondagens lhe tiraram a aura de menino prodígio - de ouro é o outro).

Vamos lá ver se isto consome mais 7 anos

Foram 10 dias de atraso? Então, queremos mais 10, por conta de juros de mora.

Boa Semana

Ou 14?





sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Regresso às aulas

Não posso deixar de sorrir perante os problemas de impressão e gravação que atrasam a entrega do acordão do processo Casa Pia na data prevista.
Muitos/as dos/das meus/minhas alunos/as conhecem de cor este tipo de vicissitudes quando têm que entregar algum trabalho escrito. É do tinteiro, dizem eles/as.

Está tudo grosso?

Se fiquei surpreendida com o facto de o Prós e Contra de segunda-feira ter sido dedicado à defesa de Carlos Cruz, ontem fiquei ainda mais perplexa com o facto de perceber que a Grande Entrevista de Judite de Sousa tinha como convidado a mesma personagem. Mas alguém pode perguntar à RTP o que se passa? E já agora, como vai resolver o problema de dar tempo de antena a todos os condenados pelo sistema judicial português que alegam injustiça? Ou a brincadeirinha é só permitida a alguns?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

L'étranger

Here is the scene. It takes place in my native town Oran in Algeria, in 1940 during the war. As a doctor, my father is mobilized suddenly he is a lieutenant of war in front. This necessary misfortune has an advantage: the terrestrial paradise opens before me in the form of the Cercle Militaire, a superb garden reserved for the class of officers. (...). Now I am admitted, at least this is what I think. Joy of the earth, the plants, the trees. I am inside, and yet. A superior force keeps me from being truly inside, and I do not know his name. I see that the other children do not admit me or that something separates me from them, but what? (...). There must be a key, a password, a code, a shibooleth. Until the day I hear these hard angels speaking amongst themselves of an object of desire. This species wants: stamps. Stamps!! Now I understand. What I must give to enter at last into the inside of the inside of the Cercle Militaire, to pass the invisible customs is: Stamps.
In an instant I get up, I step forward and I make my declaration. I'll bring you stamps. My house is full of stamps. Do we not have an immense family that Hitler is disseminating across the earth and in the airs? Those who have managed to escape Germany write from the four corners of the universe. I have all sort of stamps, (...), I know the entire world.
From high in the little sky a six-year-old girl spits on my head: Liar! The word is sharpened, it falls on my brow and makes a gash. I vacillate. Liar! says the voice of flint. You have no stamps. Because: all Jews are liars.
(...). Jew? Liar? I hear the hate and the veredict.
Hélène Cixous, Stigmata

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Hoje os Sinos Dobram Por Ela

 (fotografia encontrada aqui)

A Ilha fica mais pequena quando abriga notícias como esta,  culminar hediondo de muitos casos de violência com porta fechada e vizinhos/as silenciosos.
Não é só este homem que tem as mãos sujas de sangue. Todos/as nós, quando ensinamos aos/às nossos/as filhos/as a lengalenga de que as mulheres são fingidas, matreiras, promíscuas, preguiçosas, idiotas, bonecas decorativas,  mulheres de alguém que não senhoras delas mesmas.; quando desvalorizamos estes casos e procuramos explicações para que um homem se passe desta maneira; quando ensinamos aos nossos/as filhos/as que as mulheres fingem agressões, que são doidas, que alguma coisa fizeram para merecer isto. Temos as mãos sujas de sangue, sempre que apelamos à reconciliação do casal, mesmo sabendo que as agressões sempre existiram.
Ao que parece, o caso estava sinalizado. Ainda assim, aquilo que oferecemos a esta mulher foi esta morte terrível, porque não estivemos à altura de responder ao seu pedido de auxílio.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Também é verdade

Que a maioria dos/as arguidos/as que foram condenados/as neste País não têm a comunicação social a propagar-lhes as declarações de inocência. Cumprem a pena aplicada porque não há ninguém que se interesse pelo que eventualmente têm a dizer.  Portanto,  não me comovem declarações sobre barras inteiras de sabão azul e branco* ou de desbarato de fortunas pessoais que já se sabia serem escassas antes do processo. E não fossem conhecidos os senhores e não tínhamos tanta  gente a consultar-lhes as páginas e a proclamarem realmente ele tem lá tudo, não m'acredito que ele seja culpado.


*E dão tempo de antena à criatura para afirmar que nos centros comerciais vão olhá-lo como se fosse um macaquinho e que quer que o mesmo aconteça a todos os envolvidos do processo, vítimas incluídas. Declarações destas, na infância, dão mesmo direito a que se lave a boca com sabão azul.

Boa Semana

domingo, 5 de setembro de 2010

Lullaby de Domingo

O mês de Agosto não ficou marcado pela saída de Suburbs, dos Arcade Fire (não sei se tornarei a ouvi-lo novamente, tal foi a sensaboria da primeira audição). Fica marcado pela saída do 3.º álbum de Isobel Campbell e Mark Lanegan. Gosto mesmo do que estes dois fazem.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Correntes do Feminismo

Na Fundação Mário Soares, a 25 de Setembro. Mais informações aqui.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Uma Questão de Sobrevivência para o Consumidor

E assim se resolve o problema, tão eloquentemente exposto pelos industriais do sector :



Da Idiotice Elevada a Arte

Já não basta a euforia desenfreada das editoras em relação aos manuais escolares, o sector mais mafioso da indústria. Os manuais escolares, que na forma são topo de gama (melhor papel, coloridos q.b., cheios de recursos pseudo-pedagógicos xpto) e que são enviados para as escolas mesmo em cima do limite de escolha (para que não haja grande tempo para uma verdadeira análise), são vendidos a preços que não escandalizam quase ninguém - a não ser os pais que, por esta altura e muito timidamente, ainda esboçam algumas críticas. Em vão. Nisto não se mete o Ministério, na regulação desta pouca vergonha que cresce a olhos vistos. É dar livre trânsito, que isto mexe com muito dinheiro.
Comecei este post por afirmar que já não basta a euforia do sector mais mafioso da indústria livreira; agora, temos também o restante material escolar a receber honras de projecto moda. O que eu gostei do termo "júnior fashion advisor". Pena que a maior parte dos/as destinatários/as não consiga pronunciá-lo (quanto mais compreendê-lo).

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Uma pergunta para Sancho


Quantos bolos tiveste que comer para subsidiar a visita de Bento XVI?

Um desenho para Sancho

Na caixa de comentários:

"A UMAR é uma entre muitas associações (como a Casa do Brasil, a ILGA, a SOLIM ou os proto-escuteiros de não sei onde) que ocupam espaços cedidos pela câmara, e paga renda - reduzida, é certo, mas paga!
E não esqueçamos que estamos a falar de uma Entidade de Interesse Público, estatuto publicado em Diário da República. Se as actividades desenvolvidas têm significativa relevância pública, o mínimo que o Estado pode garantir é um espaço condigno para o desenvolvimento de tais actividades.
Na primeira página do site aparecem iniciativas relacionadas com direitos LGBT porque foram as últimas iniciativas (públicas, visíveis) da UMAR. Basta olhar para as datas para ver que o critério é, precisamente, a data e a actualidade das "notícias".
(...)
E quanto à tomada de posição sobre a condenação da Sekinah, a UMAR assinou petições, anda há meses a divulgar esta barbárie (bem antes de ela ser "mediática") e divulgou a iniciativa do Camões na página do facebook, onde tem mais de 2000 amig@s. Já foi dito: ainda que os direitos das mulheres não tenham férias, as férias são um direito destas mulheres."
Ass:
Quase-Bolseira da FCT
Beneficiária da Porta 65
Subsidiada de outras coisas
Deficitária de emancipação

O que o Sancho poderia ter encontrado à distância de um click, mas não quis:

 Projecto BIG 
Mudanças Com Arte
OMA
ORGM
Centro de documentação Elina Guimarães
Grupo de trabalho Género e Água 
Iniciativas que não envolvem necessariamente bolos*

 Mas acha pouco e indigna-se com os apoios que a UMAR tem conseguido (apoios a que qualquer associação pode candidatar-se se trabalhar para tal) , como único grande contribuinte deste País que é o Sancho. 
Já agora, caro amigo, que descubro que és um mãos largas e andas a financiar isto tudo, pagas tu o jantar de sexta?

*e não continuo porque acho que já deves ter percebido como funciona um site.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Da Profanação

A terminar o mês de Agosto, as praias começam a ser abandonadas pelos/as banhistas que suspiram secretamente de alívio pelo facto de Setembro anunciar um regresso à normalidade (muito sol também cansa)*.  Faço parte desse número de banhistas de regresso a casa, com a caixa de correio repleta de correspondência mais ou menos endereçada, pouco ou nada pessoal. A revista Visão da semana transacta jaz à espera de ser lida, nem que seja de soslaio (os últimos números não merecem mais do que isso).
Logo a abrir, António Araújo ensaia as boas e más notícias da semana; a inaugurar as más, aponta os hábitos de leitura. E a partir daqui divergimos na "análise". Segundo o jurista e historiador, os/as portugueses/as não têm hábitos de leitura e revelam-no nas praias, em que se dividem  entre os jornais desportivos e as revistas do coração**.
Concordo com a falta de hábitos de leitura; contudo, considero que a praia não será o melhor sítio para aferir o que quer que seja. Por mim falo. Gosto dos meus livros limpos, com as páginas apenas maculadas pelas minhas anotações e não com nódoas de protectores solares,  gosto dos meus livros sem páginas dobradas, sem badanas destruídas pelo uso indevido, sem manchas de humidade a deformar-lhes o texto. Não consigo levar livros para a praia, conspurcá-los com areia a rodos (quando há areia), sal e afins. O objecto livro é ainda para mim um objecto sagrado, que não combina com gelados à beira-mar e com um sol abrasador a encegueirar-me a leitura.

*Esta Woab que vos escreve, que nem é uma banhista a sério, este ano foi a banhos a um ritmo que lhe é anormal, tendo inclusive ganho uma cor que lhe é inusitada: parece menos transparente no que à pele diz respeito e uma abominável cor de cabelo a roçar o louro. A voltar ao normal nos próximos dias.

**Quanto a mim, existem três locais perfeitos para a leitura de revistas do coração: cabeleireiros, consultórios médicos e  praias. Nos dois primeiros casos, regressam à proveniência (nem as pagamos, de resto, constituindo esta uma grande mais valia). No que às praias diz respeito, geralmente estas têm, à saída, inúmeros caixotes do lixo em que podemos desfazermo-nos do objecto. É mesmo só para quando se apanha sol na moleirinha, corpo envolto em protector, água e sal. 
Quanto aos jornais desportivos, não vislumbro nenhum local em que estes possam desenvolver em mim qualquer interesse.Já basta termos a maior parte dos serviços de informação a dedicar-lhes a maior parte do horário nobre.

Um Caso Sério 3020

O post e o tema abordado. Uma Ilha em chamas e comemora-se com foguetes, enquanto o Inverno não chega (e com ele as águas imparáveis). Não está tudo bem, mas o que interessa é o povo contentinho e os festeitos inchados com tanto fogo lançado ao ar. Como cai, e onde, não é da responsabilidade dos diversos intervenientes.

Boa Semana

domingo, 29 de agosto de 2010

Lullaby de Domingo (private lullaby)


E não apresento mais argumentos quanto à discussão sobre as diferenças entre os Blur e esses outros que não nomeio. E como sabes, teimosia não é defeito... 



segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Interdições salgadas

O que antes era nosso e deixou de o ser, tem agora horário de funcionamento (desde que deixou de ter acesso gratuito) .
Ao descer as escadas, há um portão que determina que a praia (sim, a praia) de infância para além de ser paga, só funciona das 10 às 20h. O sol não sabe e, como tal, as crianças devem apenas fazer praia até às 11 ou a partir das 5. Mas isso não interessa à Frente-Mar. Quem quiser que pague por uma hora e pouco de praia, porque a água e o sol, ali, só abrem mesmo às 10 da manhã.

Boa Semana

domingo, 22 de agosto de 2010

Lullaby de Domingo


Como a próxima semana ainda é de férias, pulamos até à Ilha ao lado.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Summer Readings

Mom, Dad and their children are having dinner on a Wednesday night. Dad is snappy and irritable, criticizing everybody during the meal, spreading his tension around like electricity. When he finishes eating, he leaves the table abruptly and heads out of the room. His ten-year-old daughter says. “Dad, where are you going? Wednesday is your night to wash the dishes.“ Upon hearing these words, Dad bursts into flames, screaming, “You upstart little shit, don’t you dare try to tell me what to do! You’ll be wearing a dish on your face!” He grabs a plate off the table, makes like he is going to throw it at her, and then turns away and smashes it on the floor. He knocks a chair over with his hand and storms out of the room. Mom and the children are left trembling, the daughter bursts into tears. Dad reappears in the doorway and yells that she’d better shut up, so she chokes off her tears, which causes her to shake even more violently. Without touching a soul, Dad has sent painful shock waves through the entire family. We move ahead now to the following Wednesday. Dinner passes fairly normally, without the previous week’s tension, but Dad still strolls out of the kitchen when he finishes eating. Does a family member remind him that it’s his turn to wash the dishes? Of course not. It will be many, many months before anyone makes that mistake again. … Dad’s scary behaviour has created a context in which he won’t have to do the dishes anytime he doesn’t feel like it, and no one will dare take him to task for it. … The abusive man gains power.” Why Does He Do That? Inside the Minds of Angry and Controlling Men, Lundy Bancroft
In http://www.thenarcissistandpsychopath.yolasite.com/predators.php Imagem de Suad Al-Attar
Noomi Rapace é, definitivamente, a minha Lisbeth Salander. Michael Nyqvist é, definitivamente, o meu Mikael Blomkvist.
Se os dois primeiros filmes da trilogia são fieis à história (alterando alguns detalhes, cortando pormenores), o último trai algumas personagens do livro. O último volume do best-seller de Larsson é pleno de mulheres fortes, que contrariam os mitos relacionados com a fragilidade feminina. Erika, Annika, Monica (que na versão portuguesa aparece como Rosa Figuerola), Sonja, Malin e Susanne são todas exemplos de mulheres que desafiam a ordem conservadora. Elas são fortes, autónomas, inteligentes e independentes. No filme, elas mal se notam. Podiam ser elas ou outras quaisquer. O episódio dos mails para a Erika e a sua decisão relativamente à publicação da revista são, efectivamente, uma traição a Erika. Para além de lamentar que o diálogo entre Annika e Teleborian tenha sido eliminado do filme, lamento ainda mais que o filme se tenha limitado a ser a continuação da saga Blomkvist e Salander, desvirtuando algo que aparece notório no livro: a denúncia da violência e discriminação contra as mulheres e a celebração de mulheres fortes e de espírito guerreiro.

domingo, 8 de agosto de 2010

(Desta Vez) Foi Longe Demais

Imagem roubada aqui (Gabriel Muniz)


No que diz respeito à violência contra as Mulheres - e mais especificamente na violência entre casais - a condescendência surge quase sempre nas primeiras declarações. Percebe-se o conformismo de algo que choca (mas não muito) com declarações dos que ouviam as agressões: é que desta vez ele foi longe demais. E o que me indigna é que estas pessoas não percebam que "longe demais" foi muito antes - a vez em que aconteceu a primeira agressão.
Recordo um caso de há uns anos atrás, na Região Autónoma da Madeira, em que um/a dos/as entrevistados/as dizia que alguma coisa ela devia ter feito "para lhe acontecer isto". "Isto" remetia para o assassinato à queima roupa.
Certo é que, apesar de um número muito elevado de assassinatos de mulheres que muitas vezes já haviam apresentado queixa contra a violência dos companheiros, na maior parte dos casos a queixa não protege efectivamente a vítima, que continua a ter que lidar não só com a violência já conhecida, como também com a ira por se ter atrevido a apresentar queixa (ou de a terem apresentado por ela). Assim, num ano em que são registados 24 assassinatos (o Público apresenta um número diferente:14) - e ainda só vamos a meio do ano - apenas 59 agressores respondem pelo crime que julgam que lhes é permitido por direito. 
Este ano já morreram demasiadas mulheres, porque os companheiros foram longe demais. Só desta vez.

Lullaby de Domingo


Por estas bandas faz-se muito pouco.  E portanto, uma lullaby condizente.




segunda-feira, 2 de agosto de 2010



Alexandra Lucas Coelho foi a Juarez e conta o que viu.
"Cabeças cortadas. Cadáveres atirados para o deserto. Gente raptada, violada, baleada, todos os dias. Esta é a história de como se destrói uma sociedade de fronteira. Primeiro, é o bordel dos EUA. Depois, fica escrava do comércio livre. E então o narcotráfico entra a matar, porque se tornou fácil e o dinheiro é muito. A cidade mais violenta do mundo é Juárez, fronteira do México com os EUA."

Humano Demasiado (des)Humano

Uma casa de banho branca é um perigo. O excesso de claridade denuncia as viandantes ilegais, lustrosas nas suas carapaças escuras, a calcorrearem apressadamente as superfícies imaculadas. 
Tivemos uma batalha com uma delas, uma noite destas. A criatura, coitada, corria assustada a esconder-se nos recantos sombrios. E eu, se inicialmente calma, fui progressivamente deixando que o pânico me invadisse e me tornasse cada vez mais implacável. O bicho não sairia vivo daquela divisão, atormentando o nosso sono. É que quando penso em virar costas e fingir que ela não existe, que as suas antenas desmesuradas e as suas patas em espigão não me incomodam, a verdade é que consigo imaginá-la - como se já a sentisse - a invadir a minha pele enquanto durmo. É isso que me incomoda: julgar que o bicho secretamente pode ter a veleidade de me tocar e eu não o sentir. E o nojo, o nojo que isso suscita. Imaginar a correria sobre os corpos adormecidos, o lastro invisível deixado em nós.
Ela tem medo, coitada. Corre a esconder-se onde pode, mesmo que seja debaixo da gata que não compreende a correria e assusta-se connosco - e não com a barata. Os olhos dela crescem, de incredulidade, perante a violência do embate na minúscula divisão. Assusta-se com os movimentos bruscos - não os da criatura em fuga, três vezes morta - mas os nossos (os teus, na verdade - que apenas denunciei e a pontei e vigiei), a exigir a morte do monstrengo, preço de uma noite descansada.
No final, já o cadáver desaparecido da vista, tenho alguma pena do animal que perdeu a vida por nós. E concordo em silêncio com a tua afirmação de que também tu lamentas que ninguém consiga gostar destas criaturas de deus.
A verdade é que entretanto adormeci e o remorso não me assaltou o sono.

Boa Semana!

domingo, 1 de agosto de 2010

sábado, 31 de julho de 2010

Problema de Expressão

As pessoas gritam e enervam a Isabel Alçada. As pessoas não estão abertas ao progresso e não estão preparadas para o diálogo.  Afinal, a Isabel diz agora que não disse que queria acabar com os chumbos. Apenas queria dizer que gostaria de abrir o diálogo sobre esta temática com os professores, as escolas, os directores, os encarregados de educação, enfim, com a sociedade. Mas as pessoas põem-se logo aos gritos e a Isabel não gosta.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Esta mulher tem um nome: Aisha, 18 anos, jovem afegã a quem o marido cortou o nariz e as orelhas. A última capa da Time é totalmente perturbante, mas o seu conteúdo também corre o risco de ser perturbantemente propagandístico. Esta imagem podia muito bem pertencer a uma mulher indiana (ou paquistanesa), vítima de mais uma retaliação da família do esposo por problemas com o dote. Não é, Aisha é afegã. E a Time acompanha Aisha com uma frase em jeito de interrogação: "what happens if we leave Afghanistan"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Setembro Vai Ser Um Bom Mês


My (private) Lord está de volta, desta feita com um novo álbum de Grinderman (a 13 de Setembro).  Temos, por hora, a audição do primeiro single.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Uma Estampa


Não houve tempo para visionar o documentário sobre Tamara Lempicka (lá voltaremos), mas este Self-Portrait está no Centro das Artes.

Just a Perfect Day

Restam 7 meses para esta magnífica exposição sair do Centro das Artes - Casa das Mudas. Por aqui passei neste primeiro fim-de-semana de Verão.  Ainda assim, uma advertência para quem lá for: a chave está em ignorar os textos sobre a exposição que inauguram a maioria das salas: continuo a achar que Português do Brasil é assim meio a brincar. E não, não era uma tentativa de cumprir o (des)acordo ortográfico.

Boa Semana

domingo, 25 de julho de 2010

É Preciso Apanhar Sol

"E o homem para quem trabalho riu-se:«Viu algum fantasma?
De repente ficou tão branca.» E eu não disse nada.
Vi a morte nas árvores desfolhadas, o vazio total."
Sylvia Plath

Lullaby de Domingo


And now we’re waiting
And now we’re stranded
And now we’re aching
And now we’re all waiting…


sábado, 24 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Da Desonra

 Paula Rego


A vergonha é senhora dos últimos tempos. Em Janeiro, por causa dele, comecei a leitura da saga de Stieg Larsson.
Quando miúda, a leitura era a minha maior companhia. Sequiosamente, percorria as prateleiras da biblioteca das escolas por onde passei e, simultaneamente, as bibliotecas municipais.  Obviamente criei as minhas predilecções e pequenos ódios; Hemingway foi um deles, apesar de este fim de semana ter ficado com vontade de lhe ler O Velho e o Mar, depois de ter visto o clássico que passou na RTP2 (ao qual não cheguei, enjoada pelos seus personagens masculinos sempre muito viris, acompanhados por idiotazinhas que só lhes atrapalham as façanhas - aos guinchos, pois claro).  Dizia eu que era uma leitora compulsiva, com estratagemas para tornear as tentativas sucessivas da minha Mãe para velar o meu sono. Esperava pela respiração pesada dos meus pais às escuras, a fim de poder acender novamente a luz, ou colocava o pequeno candeeiro por baixo dos lençóis e cobertores para o quarto não passar tanta claridade por baixo da porta e denunciar o delito nocturno.  Nessa altura, era uma pequena devoradora metódica que lia tudo o que conseguia apanhar de um autor cujo primeiro livro tivesse gostado (e as escolhas iniciais eram, muitas vezes, fruto do acaso).
O balanço deste ano não é muito positivo e a mulher que hoje sou certamente envergonharia a adolescente que fui; em sete meses, li apenas quatro livros,  entre os quais apenas os dois primeiros livros da trilogia mencionada. A ver se me penitencio a partir de hoje, que inicio o terceiro volume da dita. Isto se não enconstar logo às primeiras páginas. Já há algum tempo que ultrapassei o problema de insónia que me perseguia há anos; agora o mais provável é conseguir adormecer a escovar os dentes.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Entregues a quem?

O homem que não é Primeiro, mas quer ser e já se arvora com ares de... decidiu levantar o véu em relação ao seu projecto político. Se dúvidas houvesse, não preciso de mais esclarecimentos.

domingo, 18 de julho de 2010

LER FUNES

Eles é que são muitos

Em miúda, corri atrás dos pombos no Rossio. Enchiam todo o espaço e faziam a delícia das crianças, que palmilhavam a calçada atrás de todos sem apanhar um que fosse. Quando eu era pequena, os pombos não eram ratos com asas, nem provocavam esgares de nojo ou comentários de como são incomodativos, asquerosos, demasiados a voar por aí.
Por essa altura, lembro-me também de um estribilho sobre uma gaivota que simbolizava liberdade. Nessa altura, também as gaivotas não eram demasiadas, nem incomodavam por aí além; não eram consideradas animais imundos, alvos a abater que nos cagam em cima, as porcalhonas.
A graça de um gato a dormir em cima de um carro suplantava o horror aos riscos no tejadilho ou ao incómodo que é limpar o traço deixado pelas patitas almofadadas; atropelar um cão era um drama e não uma maçada que sujava e danificava o carro (o idiota do cão, atravessar assim a estrada,que já lá estava e nem há passadeira. E agora esta despesa toda, espero que o sacana tenha ido morrer longe). 

E depois, há isto. E as pragas são, claro está, eles.

Lullaby de Domingo


Espero que sim, que ele apareça.

domingo, 11 de julho de 2010

Lullaby de Domingo


Uma melodia leve, a chamar o Verão (a leveza da melodia não esbate a verdade do estribilho).

terça-feira, 6 de julho de 2010

Agora Escolha

Os comentários, no facebook da TSF, à notícia de que Caster Semeya foi autorizada a voltar às competições, fazem-me questionar a obrigatoriedade de existência de cérebro para a aprendizagem da escrita:
Ao que @s iluminad@s comentam....
a) - "... na competição masculina."
b)"-....na competiçao gay"
c) "autorizada" ou "autorizado?"

d) "A atleta sul-africana Caster Semeya, campeã do mundo dos 800 metros, foi autorizada a competir," - realmente não dizem em que género foi autorizada, mas como dão a notícia no feminino..."

e) "Demorou 11 meses a decidir qual o género a que pertence a "piquena", já lá vão os tempos em que um simples e forte apertão decidia este tipo de situação!! Sinais dos tempos! "

(não faço a menor ideia que tipo de método de averiguação de sexo envolve apertões, mas esta leitora - por certo tão moderna - deve estar ao corrente deste método infalível e cuja eficácia, pelo comentário dela, deveria ser comprovada por séculos de experiência.

Eu sei que não é fácil, mas... vamos lá escolher qual dos comentários acima está mais imbuído de imbecilidade! Estão abertas as votações!

Tens razão, N*.


A entrevista que Alberto Manguel deu ao Público é leitura obrigatória. 


segunda-feira, 5 de julho de 2010

The Meatrix

Consequências da criação intensiva de animais para consumo humano: Intérpretes: Moopheus e Leo

Boa Semana

domingo, 4 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

Mulheres, como nós


Confesso enorme dificuldade em digerir o discurso de algumas mulheres. Muito pouco solidárias para com as outras, sempre que têm a oportunidade para subir ao púlpito a retórica é direccionada para agradar aos machos; são modernas, amam de morte Nova Iorque e  sapatos de saltos altos (neste caso a bigamia é assumida, oscilando entre Jimmy Choo e Manolo Blahnick). 
No que diz respeito aos homens, suspiram pelo Mr. Big que lhes há-de caber (sou tal e qual a Carrie, mas da calçada portuguesa); são exigentes, mas perdoam-lhes as falhas e culpam as outras, cabras provocadoras, sempre a atentar-lhes os piquenos.  São modernas, mas não muito. Atrevidas, mas recatadas; comedidas, mas vaporosas. Chi-quérrimas, vão todas as sextas ao sushi, que passou a ser o chinês lá do bairro. São magras e exigem que todas as outras o sejam. São novas, mas postulam o que chamam de dress code para as restantes (as que não cumprem, são galdérias, sem direito de contestação).
A moral das (de algumas) mulheres que adoram cupcakes e anseiam por quem lhe pague as contas seria risível, se não fosse tudo tão triste.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Contos exemplares

A acreditar na notícia, aqui está um exemplo de como estas matérias são tratadas nos nossos tribunais; quanto vale a dignidade e direito de justiça desta mulher, face a um pai (e aqui coloca-se outra questão em relação à capacidade deste indivíduo para "educar") que apenas violou pela primeira vez? Não é, portanto, de espantar a surpresa do advogado de defesa que, perante os factos, até esperava que o cliente fosse absolvido. É que faltou pouco.

domingo, 27 de junho de 2010