quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Contos Exemplares


"I Dare Not Speak It's Name"

Esta semana a Visão justifica o preço que por ela é pago. Na página 114.

O homem pássaro está entre vós: falou-vos no passado dia 1 de Outubro e toca esta noite na Aula Magna, também para vós . O vós só é extensível a quem está no Continente, especialmente a quem está por Lisboa (porque estar no Continente não basta e há quem trabalhe amanhã cedo e não possa ter o luxo de se deslocar até à Aula Magna e depois regressar calmamente a casa).  O homem pássaro está entre vós e desconfio que vos falou da mesma forma sublime como compõe e  como escreveu uma belíssima crónica que justifica o que se paga pela Visão (esta semana). E eu, esmagada pela inveja de apenas lhe beber as palavras escritas e a nada mais ter direito.

(a próxima lullaby será dele)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A ignorância Atrevida

Ouço Miguel Sousa Tavares (MST) garantir assertivamente, no Jornal das 9, na SIC, a inexistência de monarquias ditatoriais. Talvez não fosse má ideia, sei lá, mandar-lhe umas informações das ONG's de Direitos Humanos sobre... as monarquias (na visão dele tão democráticas) da Arábia Saudita, do Camboja, da Tailândia, do Brunei, Omã, dos Emirados Árabes Unidos.... A ignorância é triste, mas a ignorância atrevida é insuportável! MST diz estas incorrecções sem qualquer pudor. Sem qualquer reconhecimento pela responsabilidade que é ser um personagem que tem acesso ao espaço público de forma privilegiada. Não preciso de ver um telejornal para ouvir o que MST disse: já o ouvi anteriormente (por parte de alguns defensores do regime monárquico). É curioso como uma ideia se pode perder no caminho sinuoso dos argumentos e de quem os recebe. Não entendo esta defesa da monarquia baseada na alegada 'inexistência de ditaduras monárquicas' - o que, para além de ser uma incorrecção - não invalida que as monarquias europeias tivessem tido períodos de regimes ditatoriais. Sou republicana porque não concebo a ideia de que alguém ganhe o direito de representar/e/ou governar a nação apenas porque nasceu numa determinada família [terá por certo as suas vantagens - encontram-se, naturalmente, prós e contras no facto de se educar alguém (de nascença) para as tarefas de representação do reino (consoante o tipo de monarquia pode ser bem mais que representação)]. Mas voltando o foco aqui para o rectângulo, e pensando no papel do PR: sim, apesar de todos os constrangimentos existentes na eleição de um(a) PR (apenas as personalidades escolhidas pelos partidos podem ser eleitas na prática e, os partidos mais fortes - mais ricos -, têm mais hipótese que os outros) - apesar destas (e de outras questões que fragilizam a eleição de um representante da nação e outras que fragilizam o próprio regime em si), continuo a preferir um regime onde eu possa escolher quem me representa. A ideia das castas e dos privilégios e obrigações à (por) nascença carece de algum tipo de crença no destino - da qual eu sou desprovida. É claro que, reconheço a existência de castas (de famílias, de profissões, partidárias, etc.) no regime republicano democrático em que vivemos. Claro, e pior que isso, existem privilégios quanto ao número de nomes que @s descendentes da ex-família real podem usar (privilégios esses que não são extensíveis aos restantes cidadãos). Dizia MST que "foi um erro esconder o que foi a 1.ª República: que se acha que se instituiu o sufrágio universal, a inclusão das mulheres na política, a promoção da educação". Não sei com quem anda MST a falar, mas eu soube há já alguns (bastantes) anos que as mulheres acederam - timidamente - aos lugares de eleição e eleitoras já durante o Estado Novo. O que se sabe é que a Iª República prometeu o voto às mulheres republicanas e que lho retirou logo após a médica Carolina Beatriz Ângelo ter exercido o seu direito de voto (não sem antes a questão do recenseamento ter ido a tribunal). Por isso se costuma dizer que a Iª República traiu as mulheres sufragistas. E se falhou no número de escolas que implementou (porque não cumpriu o seu plano para a educação), lembremo-nos que a monarquia já contava com alguns séculos sem tentar - tão pouco - democratizar o ensino. As coisas são como são, mas eu gostava, sinceramente, que @s monárquic@s deste país dissessem mais em prol da defesa do regime que acreditam ser melhor para o país, para além de se queixarem do dinheiro gasto na representação da República (na Monarquia devia ser menos, com certeza...), ou no facto de algumas personalidades da República terem mais privilégios que ele@s (não é que tod@s nós, é del@s!) - como se o mesmo não acontecesse na monarquia... Depois, claro, para não ajudar, ainda há aquela gente que gosta de usar palavras light como nomes próprios e nomes de peso nos apelidos, a quem as revistas cor-de-rosa acompanham com títulos de baronesa, duque, e aparentados. Esses trataram de ridicularizar qualquer réstia de dignidade à coisa.

Picture by Diane Arbus

Boa Semana

sábado, 2 de outubro de 2010

Lullaby de Sábado


(lullaby de sábado para DE)

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
 Clarice Lispector

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O Fim e o Princípio (de quê?)

Depois de cada guerra
alguém tem de fazer a limpeza.
As coisas não se limpam
a si próprias, afinal.
Alguém tem de afastar os escombros
Para a berma da estradas,
Para que as carroças com os cadáveres
Possam passar.
Alguém tem de meter-se
por entre a lama e as cinzas
por entre as molas dos sofás
por entre os vidros partidos
por entre os farrapos ensanguentados.
Alguém tem de arrastar a trave
Que escorará a parede,
Alguém tem de por o vidro na janela
E colocar a porta nos gonzos.
Nada disto é digno de ser fotografado
E demora anos.
As máquinas fotográficas partiram já
Para outras guerras.
As pontes têm de ser reconstruídas
E as estações ferroviárias também.
As mangas das camisas ficarão rotas
De tanto serem arregaçadas.
Alguém, vassoura na mão,
Se lembra ainda de como foi.
Outro alguém escuta, acenando que sim
Com a cabeça
Mas já outros, ali perto
Acham tudo aquilo um pouco maçador.
De vez em quando alguém
Desenterra ainda numa moita
Um velho argumento enferrujado
E lança-o na lixeira.
Os que sabem
o porquê e o como
vão ceder lugar
aos que pouco sabem.
E aos que sabem menos ainda.
E por fim mesmo nada.
E na erva que vai crescer
Sobre as causas e os efeitos
Alguém deverá deitar-se
de espiga nos dentes
olhando as nuvens
O Fim e o Princípio por Wislawa Szymborska

Clarice ali, a olhar para mim

aTrouxe o único exemplar que havia na FNAC. Não sei se houve mais.apenas que Clarice estava lá, à minha espera, a detestar a tradução do título que fizeram. A Mulher mistério tem uma biografia cujo título português é demasiado evidente. Why This World transformou-se em Clarice Lispector - Uma Vida. Mau presságio?


Sou invadida pela mesquinhez. Invejo o autor, que tem a minha idade e que se dedicou a esta obra monumental (refiro-me ao volume e às leituras documentadas, que sobre o conteúdo ainda nada posso acrescentar). Folheio o livro a invejar uma paixão idêntica, mas que foi muito mais longe que a minha. Pobre de mim, SÓ leitora.

domingo, 26 de setembro de 2010

Qual o valor de uma biografia?

Curiosa, a forma como esta biografia é apresentada ( ainda não li). Como se a obra de Clarice Lispector não fosse suficiente para esta ser reconhecida ; como se a biografia desenhada por outras mãos suplantasse a escrita da própria. Como se esta fosse a primeira vez que se escreve sobre Clarice.
Título estranho, este. 

Lullaby de Domingo


Semana de apresentações: um admirável mundo novo. O receio estampado em alguns rostos. Noutros, desafio. Aborrecimento. Curiosidade. Entreolham-se: aquele é idiota, aquela tímida.  O do lado é giro. O que está no canto certamente não é de cá. 
Tenho cinco salas repletas de rostos ansiosos que iniciam agora um percurso num espaço que para a maioria é desconhecido (e insuficiente, em alguns casos). 
Cá vamos nós.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Lullaby de Domingo


No can do this!
No can do that!
What a hell can you do, my friend?
In this place that you call your town 

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"A linguagem administrativa é a minha única língua"*

"Reduzir-se-ão todas as relações humanas aos cálculos de prejuízos e de interesses, e todos os problemas à liquidação de contas?"
Lévinas, citado por Chaterine Chalier em Lévinas, a Utopia do Humano


A Comissária Europeia Vivien Reding pronunciou-se sobre a expulsão dos ciganos ordenada pelo governo de Sarkozy e o Eliseu declarou-se profundamente ofendido, apesar das suas  pretensões xenófobas, com as palavras da comissária. Durão Barroso secundou e bem a Comissária.
Por cá, a música é outra. E dos dois principais partidos (o CDS não conta, nem surpreende) temos  vetos a moções de censura à política de Sarkozy e juras de compreensão e clarificação de intenções do mesmo apresentadas por JS e PPC.

O pormenor que parece escapar aos meninos maravilha é a de que a França de Sarkozy (e que não é dele) não expulsa "apenas" os imigrantes ilegais no País. Sarkozy ordena que a prioridade seja dada aos ciganos.  E é esta a diferença fundamental que torna esta uma questão de xenofobia e não apenas questão de segurança, bandeira que é sempre acenada quando alguns Estados pretendem usar de metodologias pouco recomendáveis, em claro choque com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O assentimento que ambos, o efectivo e o aspirante a Primeiro Ministro,  fizeram questão de dar ao seu colega francês apenas esclarece que partilham de uma mesma dificuldade: pensar do ponto de vista do outro. É difícil para esta gente, mas é muito é perigoso para todos nós. Porque é preciso aprender com o que já fomos capazes de fazer, porque não podemos permitir que no seio desta Europa que acreditávamos muito distante da outra, voltemos a expulsar pessoas em função da sua etnia. Porque é preciso, de forma clara e inequívoca esclarecer estes burocratazinhos que nos governam ou que aspiram a governar, que os seus ares graves de estadistas não  nos enganam quanto à pequenez da sua capacidade de entender o Outro como digno de respeito.

*Eichmann, um bom funcionário, citado por Hannah Arendt em Eichmann Em Jerusalém - Uma Reportagem Sobre a Banalidade do Mal.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Já nem me refiro ao masculino neutro...



Uma mensagem com muito amor, da Isabelinha.

(imagem retirada aqui)
(vídeo primeiramente visionado aqui)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Banhado a ouro

Primeiro ri com vontade em relação à vontade do golden boy de que entremos na rota da excelência. 
Depois percebi que a meta é perfeitamente exequível, já que o garçon d'or refere-se a dados percentuais, com efeitos meramente estatísticos. Pelo menos é coerente. O nosso menino d'oiro não quer ser. Apenas parecer.

Renovação de quadros

Passos Coelho continua. Dia sim, dia sim senhor, cá está ele a lançar uma opinião, uma pergunta, um reparo., um petardo sobre quase tudo o que mexe. Até sobre a demora da divulgação do acordão do processo Casa Pia PPC teve algo a dizer. O professor Marcelo e o VPV já devem andar a fazer contas à vida. Afinal, é mais um especialista generalista a rondar-lhes a coutada (agora que as sondagens lhe tiraram a aura de menino prodígio - de ouro é o outro).

Vamos lá ver se isto consome mais 7 anos

Foram 10 dias de atraso? Então, queremos mais 10, por conta de juros de mora.