A visita dessa imagem peregrina (e já discorremos sobre a ocupação no avião: é carga ou passageira?) trouxe ao de cima uma ilha que ainda se verga perante imagens como se de gente se tratasse. Não seria mau, se as mesmas gentes que acenam de lágrima no olho ao barro moldado por mãos humanas, tivessem o mesmo desvelo pelas mãos. Humanas. Mas a imagem percorre as terras com honras que pouca gente teve e depois da passagem fica tudo exactamente na mesma. Como a reza que se desfia, mas da qual fazemos ausentar qualquer significado.
O
desvelamento do significado de uma imagem destas revela-se também nas pequenas coisas. Instrumentalizada na perpetuação de uma fé genuína - mas cega, revela-se, também ela, instrumento da política (no pior sentido que o termo pode ter).
Continua o Carnaval que arrancou com um Bispo de orgulho ferido. Depois da excomunhão do padre que fazia política na facção errada (nunca fez espécie à igreja Madeirense meter-se na política, desde que fosse em consonância com o poder estabelecido), a festa continua, passados quase 30 anos. A vinda de um novo Bispo acalentou algumas esperanças; às primeiras movimentações, percebeu-se que mudava a forma, mas não o conteúdo. A renovação mostrou-se, uma vez mais, bafienta e sujeita aos interesses do beija-mão (e de quem beijar-a-mão). A imagem peregrina assim o vem atestar, escolhendo fiéis mais iguais que os outros. Temos uma igreja interdita à imagem, uma igreja desde há muito na margem, à margem, deliberadamente excluída dos altos interesses (com letra minúscula) de uma diocese que deixa o culto para estar presente em inaugurações. E portanto, não é de espantar que esta igreja recuse entrar na Igreja da Ribeira Seca
e que venha um dos (quase) grandes desta igreja cada vez mais pequenina alegar que não é hora de justificações sérias, quando estas não convêm.
E com tudo isto, só me lembro da cena emblemática de um Cristo que há sensivelmente dois mil anos expulsou os vendilhões do templo. Pois o templo está novamente pejado deles. Quem os expulsa?