domingo, 12 de julho de 2009

"A fabricação de subjectividades obedientes"

É angustiante trabalhar num sistema que nos castra, que nos tolhe e que nos ameaça de uma forma tão incompreensível...

Nos intervalos da existência, resta-me fazer algumas leituras para realmente perceber o que está a acontecer... para "nortear" o meu pensamento.


" (...) No processo de domesticação da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e da sua ministra da Educação representam muito mais do que simples traços psicológicos. São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento e de fabricação de subjectividades obedientes. Conviria chamar a este mecanismo tão eficaz «a desactivação da acção». É a não-inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política à maneira de certos processos psicóticos.
Começou, entretanto, outro processo de avaliação, desta vez da classe médica. Estamos ainda no começo, e nada se pode dizer de definitivo, mas esta nova iniciativa mostra bem que o programa de gestão da sociedade, pelo Estado, não quer deixar ninguém de fora. (...)"

José Gil, Em Busca da Identidade - o desnorte, Relógio D´Água, 2009

Vede bem esta nossa pouca vergonha e ide dar os parabéns à menina


Marakoka, aniversariante camuflada no jantar de ontem, não conseguiu safar-se a ter que soprar as velas de um soberbo bolo de chocolate especialmente dedicado a ela. O Baby agraciou-a com um título assaz pertinente que certamente colocou a nossa menina a ler compulsivamente assim que chegou a casa, lá para as 4 da matina.

Lullaby de Domingo


Não faço ideia que signifique (se é que significa algo) Lunnaya Pogonka. Mas parece-me um excelente acompanhamento para o V jantar de bloggers que por cá se realiza. Da conversa, tratamos nós.

sábado, 11 de julho de 2009

Ó Zé, ninguém está a perceber isto!!




Os requisitos exigidos para concorrer às escolas da Região Autónoma da Madeira foram os mesmos, quer para continentais quer para madeirenses. Não houve distinção. Conheço colegas madeirenses que não obtiveram colocação. Contudo, ninguém ainda apontou o dedo aos continentais que eventualmente estão a “tirar” lugares aos naturais da região.
A Secretaria Regional da Madeira opta apenas por uma lista onde constam os nomes, as habitações e as graduações dos profissionais e estes são chamados mediante às necessidades dos organismos. Nunca ninguém foi retirado do concurso devido à sua origem ou região ou “nacionalidade”.
Agora vêm-me dizer que não posso dar continuidade à minha candidatura no continente porque lecciono num quadro de zona da Madeira! É estranho, é muito esquisito… Não percebo.
A Sr.ª Ministra inicialmente disse que as Regiões dos Açores não eram Portugal. Pensei que tinha sido uma distracção, cansaço e errar é humano, mas constato que ela realmente acredita nisso! E já deu provas que a Madeira também não é Portugal!
O Pior, pior, pior é ter que aturar isto!
O melhor é a senhora Ministra vir de férias. Neste “estrangeiro” as pessoas falam português e conhecem alguma coisa da língua gestual portuguesa, isto no caso do Dr. Pinho também tirar férias e quiser vir, constou-se que também anda cansado.
O famoso navegador Colombo também quando chegou ao continente americano, em 1492, convenceu-se que estava nas costas do Extremo Oriente. Acreditou nesse feito até ao leito da sua morte.

Ai, Portugal, Portugal... Portugal profundo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

"A Ensinança de (bem) Cavalgar Toda a Sela"

(clicar na tira para conseguir ler alguma coisa)

Parece que, segundo a nossa Ministra da Educação, os maus resultados nos exames nacionais de matemática são da responsabilidade da comunicação social.

* Título roubado a D. Duarte, reminiscências das aulas de Filosofia em Portugal.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"As Asas"

Andava por aí a voar e alguém falou da Né Ladeiras. Que saudade tenho eu desta bela Voz:

"Voilá mes gestes, voilá mon essence"


“(…) Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j´escris; c´est moi, c´est mon essence. Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção ou reconstrução de mim mesmo. Por exemplo, agora que contei um pecado, diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica transferida a melhor oportunidade.

Nem perderás em esperar; meu amigo; ao contrário, acode-me agora que... Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião, como são também possíveis e prováveis, pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes, não menos simples que clara. Reduz a isto que cada pessoa nasce com certo número deles e delas. Aliados por matrimônio para se compensarem na vida. Quando um de tais conjûges é mais forte que o outro, ele só guia o indivíduo, sem que este, por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado, se possa dizer isento de um ou de outro; mas a regra é dar-se a prática simultânea dos dois, com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos; falta-me tempo.

Pelo que me toca, é certo que nasci com alguns daqueles casais, e naturalmente ainda os possuo. Já me sucedeu, aqui no Engenho Novo, por estar uma noite com muita dor de cabeça, desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas, ainda que morresse alguém; e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão, Voilá mes gestes, voilá mon essence.”


Machado de Assis, Dom Casmurro

terça-feira, 7 de julho de 2009

"Vós que aqui entrais, abandonai todas as esperanças"

O Atendimento dos Recursos Humanos do Ministério da Educação é sem dúvida o pior de todos os tempos... Esclarecimentos?! Só depois de horas a fio a ouvir Vivaldi e olha lá!


Há coisas mesmo porreiras, pá!

Nota: não se atrevam a clicar no título, pois terão uma VISÃO muito... porreira, pá!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Rendição total

Este post teve início aqui e por hoje continua do seguinte modo:

(...) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, (...)aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, (...).
José Saramago, Memorial do Convento


Amanhã parto com as minhas crianças para um capricho que só uma directora de turma acarreta e levo comigo este livro. Sim, este. À terceira tentativa, estou agarrada, que é como quem diz, perdida.

Boa Semana

domingo, 5 de julho de 2009

Acabou em três dias


(Fotografia tirada por Alix, que aqui a esperta não levou máquina)

Por compromissos profissionais, não consegui estar na noite de sexta no Funchal Jazz (e perdi o Ron Carter, que dizem as boas línguas que foi imperdível). Ontem lá consegui comparecer e se gostei dos concertos no Parque de Santa Catarina, amei mesmo a jam session no O'briens, noite dentro. Darryl Hall, contrabaixista de Benny Golson/Cedar Walton Quintet foi absolutamente incansável. Resta esperar pelo próximo ano.

Sem pau nem pedra

Ainda não me refiz do choque em relação à capa da Visão desta semana. Ao passar pelas bancas, desdenhosamente ri-me da capa da Sábado, com o óbvio MJ. O susto que apanhei quando cheguei a casa é indescritível: MST como tema de capa. Castigo óbvio da Deusa.

PS: Não, ainda não li a entrevista, um susto de cada vez.

Lullaby de Domingo



1001 nights - Lhasa

O que roda comigo nas viagens:

A thousand and one nights of this
And then the change will come
And then I will be free


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sim, assumo, sou uma pessoa triste...

Naturalmente triste. Irremediavelmente triste. Tão triste, tristemente, que nem sei bem o que é tristeza...

Já tinha saudades de ouvir Chico Buarque...

Cantemos esta bela canção!
(basta clicar)

E se, de repente
A gente não sentisse
A dor que a gente finge
E sente
Se, de repente
A gente distraísse
O ferro do suplício
Ao som de uma canção
Então, eu te convidaria
Para uma fantasia
Do meu violão

Canta, canta uma esperança
Canta, canta uma alegria
Canta mais
Revirando a noite
Revelando o dia
Noite e dia, noite e dia
Canta a canção do homem
Canta a canção da vida
Canta mais
Trabalhando a terra
Entornando o vinho
Canta, canta, canta, canta
Canta a canção do gozo
Canta a canção da graça
Canta mais
Preparando a tinta
Enfeitando a praça
Canta, canta, canta, canta
Canta a canção de glória
Canta a santa melodia
Canta mais
Revirando a noite
Revirando o dia
Noite e dia, noite e dia

"Fantasia" de Chico Buarque



Memória selectiva (e ainda bem)

No dia em que toda a gente fala disto apenas recordo este outro acontecimento do dia (ou melhor, da noite). Bem mais aprazível. Nas ilhas, por vezes, a magia também acontece.

PS: Eu gosto da voz da Vânia Fernandes. Mas perdeu-me assim que percebi que estava a cantar I Loves you Porgy, com um arranjo que só me permitiu reconhecê-la já a música ia no apogeu - e tal reconhecimento deu-se apenas pela letra. Há coisas em que não se mexe, e esta intemporal ainda ressoa ao meu ouvido pela genial Nina Simone.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Send a whale!

A greenpeace lançou uma campanha para pedir (apenas mais uma vez...) ao governo do Japão que pare com a caça à baleia.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Waiting for another miracle

Acerca de nós repita-se, antes, o dito do profeta Asaph: «Sois Deuses e todos filhos do Altíssimo.» De tal modo que, abusando da indulgentíssima liberalidade do Pai, não tornemos nociva, em vez de salutar, a livre escolha que ele nos concedeu. Que a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de anelarmos às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível.
Giovanni Pico Della Mirandola, Discurso Sobre a Dignidade do Homem

Óculos, para que vos quero?

Ontem, no final do dia, fui ao oftalmologista. Entretanto, quando ia a sair do consultório, encontrei uma amiga que me convidou para ir com ela às compras.
Doía-me a cabeça, não me sentia nada bem e, com um ar um pouco enjoado, disse-lhe:
- Compras? Não, obrigada. Olha, acabei de comprar uns óculos que me custaram os olhos da cara, acreditas? Estou escandalizada!! Até fiquei cega!
Ficámos durante algum tempo em silêncio, a moer o que tinha dito.
Por fim, desatámo-nos a rir.

Saúde, passa bem


“(…) Saudar vem do latim: salutem dare (dar, desejar saúde). Ainda se diz nas aldeias: ‘negar a salvação a alguém’, com o sentido de recusar-se a cumprimentar uma pessoa. Saudade tem aqui igualmente o seu étimo. Veja-se, por exemplo, a expressão: mandar muitas saudades. A saudade é aquele sentimento de solidão que tem na sua base a falta da pessoa querida. Ter saudades e enviar saudades é aquele desejo de que quem partiu e anda longe, esteja onde estiver, passe bem…
(…) os santos com os quais habitualmente contactamos julgamos que são aquelas figuras geralmente muito feias, torcidas e até por vezes ridículas que vemos em muitos altares das igrejas e que são levadas a passear pelas ruas uma vez por ano nas romarias. Mesmo quando nos reportamos àqueles homens e àquelas mulheres reais de carne e osso, que aquelas figuras quereriam representar, vemo-los a maior parte das vezes como beatos, tristes, a bichanar orações, desagradados com a vida, deprimidos, de relações cortadas com o sexo oposto, ascetas a quem não é permitido apreciar as coisas boas da vida…”
In Religião - opressão ou Libertação?, Anselmo Borges