quarta-feira, 26 de novembro de 2008

"Na minha fome encho-me de forças que não tenho. Eu sou Hércules." (por ouvir dizer)

Eu nunca tinha ouvido falar de Manfred Karge. Mas quero ler-lhe os textos - e guardá-los, que sou possessiva em relação aos textos guardados em livros - que raramente consigo dar .
Acabei de lhe ouvir um, nas vozes de Beatriz Batarda. E a aliança é soberba, da palavra escrita à dita, numa relação simbiótica.
Eu nunca tinha ouvido falar de Manfred Karge e apanhei-me na penumbra da sala a tentar anotar fragmentos de texto às cegas, com medo que se me escapassem (e escaparam). E claro, reconfirmei esta minha inclinação pela palavra: os pormenores cénicos escapam-se-me na catadupa do texto. Eu quero é mergulhar na palavra e no rosto daquela mulher que as diz, que as sente, que as modela com a massa do seu corpo tornado muitos.
E especialmente para o Jorge*, uma das minhas anotações (trémulas, provavelmente com termos imaginados, recontados, como geralmente acontece nestes casos):
"Opressores e oprimidos todos ao monte e aos pontapés. Quem sabe onde começam uns e acabam os outros?"
- e aqui já não sei se no plural, não sei, anotei assim, mas já tinha sido dito, já estava mais à frente no texto, o texto a ser dito e o meu ouvido a correr freneticamente atrás dele, ele a escapar-se por entre os lábios, por todo o corpo daquela mulher que enchia o palco. E a plateia, com os risinhos idiotas de coisa com graça nenhuma.
Inúteis, sussurra a determinada altura a personagem (e a actriz). Somos nós, os imprestáveis Com toda a razão. Inúteis**.

*Diz-me lá que agora é a guerra total e eu acredito e acho-te graça e aceno-te com uma tocha (ai, Prometeu, Prometeu).

**Este é também um post absolutamente inútil (como aliás quase todos os que tenho assinado por cá, com excepção dos que se reportam ao D.M.)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Eu, que sou uma indignada (esporádica?)

Deixo aos homens que frequentam este blogue um endereço a visitar, e uma petição a assinar (caso concordem com o teor da mesma, que só apela para o repúdio da violência contra a mulher).

"Querida Mãe

Venho comunicar-te a morte de Maria: morreu horas depois de a ter trazido cá para casa a ocupar o lugar que lhe era devido. Bem sabes que apesar das tuas censuras há muito lhe havia perdoado e que durante todos estes anos tudo fiz a fim de a forçar a regressar. Não me pesa, pois, a consciência, só me restando agora chorá-la... Perdoa-lhe tu também e pede por ela nas tuas orações, a pobre foi bem castigada: teve uma morte terrível depois de uma agonia lenta e pavorosa de ver.
Que vou fazer agora da minha vida se a consagrei até hoje a perseguir a dela com a finalidade única de a trazer ao bom caminho e ao dever? E afinal, qual a sua morte... ou eu com o meu poder?
Teu desgraçado filho
António."

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa
Novas Cartas Portuguesas

domingo, 23 de novembro de 2008

Menino da rádio e de outros blogues

O Menino da Rádio, que conhecemos prendado, acompanha o programa de rádio que não ouvimos com um blog recém inaugurado. Chamamos a atenção para a rubrica particularmente interessante "Tudo menos Kizomba". Desejamos ao menino gostoso que o programa e o blog sejam um sucesso. Ainda que por cá só distribua pérolas a porcos...

Lullaby de Domingo

sábado, 22 de novembro de 2008

"Once again I go through the door
Ever the same door
And yet another

Then I see the door
Leads to another
Ever the same door
And yet another

This door leads me on
As footsteps follow one another
Ever the same door
And yet another

Going through the door
I can be no other
Ever the same door
And yet another"

Ana Hatherly

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Menino da Rádio II

O nosso Mr. Lekker, o meu declamador favorito do Cântico Negro dedica-se, a partir de agora, a partilhar a sua voz em frequência que dificilmente nos chegará. Ainda assim, cá fica o spot do programa, em que a profundidade da sua voz me leva a exclamar: "Arre! Parece mesmo o homem do alto!"

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O Menino da Rádio I



Esse já não é bem segredo, mas em breve irei (de qualquer modo) desvendá-lo.

O "meu reino" não é desta gente

Já anteriormente expressei algumas impressões sobre os sindicatos (nomeadamente a Fenprof) que representam a classe docente.
Os tempos são difíceis, mas esta gente, após uma desorientação inicial face ao descontentamento generalizado dos docentes, depressa se organizou e chamou a si uma luta que não é claramente a deles. Porque o que os docentes pretendem não passa por protagonismo, ou agendamento político, ou posições extremadas e infantis. E quando um suposto representante assume esta postura, outra leitura não pode ser feita e obviamente pretende estender a toda uma classe um posicionamento arrogante, inconsequente e pueril que a maioria certamente não aprova. Não sou representada, recuso-me categoricamente a ser representada por este senhor, quando arrogantemente repete o comportamento autista que o Ministério tem adoptado em relação a esta questão. Uma vez mais, shame on you.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Um post inútil para vós...

Ticiano

... mas libertador para mim. Termino finalmente esta penosa tarefa de desclassificadora, em primeiro momento de avaliação. Deixo por algum tempo esta tarefa de Sísifo, em que o rochedo a carregar montanha acima é mais pesado que habitualmente.
Continuo a desclassificar; mas é uma desclassificação que dispensa, por hora, tintas de sangue, suor e lágrimas: deles e minhas.

domingo, 16 de novembro de 2008

"Acontece. Será sempre assim?
O meu espírito é um rochedo,
sem dedos para me segurar, sem voz;"

(Sylvia Plath)

Lullaby de Domingo

O lifelogger abandonou-nos, mas o Jorge - célere como sempre - arranjou-nos solução:


...And you'll wrap up the tears
Of forty thousand gone
Who wish they'd acted out
When they had time
And they had voice
To tempt the furies
The furies are not gone.

Are you not furious ?

Aval(iação)

Pede-me o Jorge que comente esta decisão do Governo Regional: por decreto, serei classificada como boa professora no final deste ano. Contudo, ainda que seja uma situação absurda, a verdade é que não será pior que o rumo decidido pelo Ministério da Educação, quando prevê o número de professores classificados como sendo excelentes ou muito bons e estabelece um tecto para tal.
Temos assim sucedâneos de absurdos, no reino da (des)educação. E uma proposta de avaliação que passa por uma tentativa de controlar ainda mais as escolas em prol das estatísticas e da fotografia na UE. Toda uma classe que se quer transformada em burocratas, manipuladores de papéis e estatísticas. Uma classe de funcionários públicos, numa repartição pública, a preencher formulários e a impingir produtos a vazio.
Quer-se esmagar o pouco espírito crítico que ainda resiste à petrificação de uma escola desejada para todos, mas que ainda se regula única e exclusivamente para alguns.

Escrevinho este desinspirado post em momento de pausa em relação a um processo de avaliação. Dos meus alunos. E esta é, para mim, a tarefa mais dolorosa da minha profissão - atribuir classificações a um trabalho de 90 minutos. Com todos os enviesamentos que sei que tal situação possibilita. Que aprendem realmente os meus alunos? Pior, que transmito eu, que os avalio num processo que fomenta a standartização do conhecimento?

Volto à avaliação por decreto. Por mim, podem decretar-me como quiserem; só não me exijam que avalie os meus alunos em função de números e estatísticas, que não me peçam para cegar perante programas rígidos e fórmulas feitas que apenas procuram aniquilar com a possibilidade de uma atitude mais informada e crítica. Meti-me, sem querer, numa fábrica. E agora o meu patrão quer peças exactamente iguais, a um ritmo de produção alucinante. Mecanizam-me as mãos. Por decreto ou por autismo político.

Atam-nos.*

*Docentes e alunos.

sábado, 15 de novembro de 2008

Semanas atípicas

E sinto que algo faço, ao deambular pelas ruas da cidade acompanhada pelos alunos que repetem o poema e encontram-lhe beleza que não resiste à sala de aula. É nestes instantes, ao acaso, que o embalo da poesia não lhes é tão estranho ou distante.
"(...)
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia"
( Al Berto)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Eu vi



E para já não consigo dizer nada, a cegueira deixou-me muda.

domingo, 9 de novembro de 2008

Lullaby de Domingo

O lifelogger continua em greve. Contornámo-la com o nosso velhinho you tube. Cá está a menina que me apetece deixar por .

Apressar o tempo... e depois suspendê-lo

Há dias em que não deviamos ter que trabalhar. Este domingo é um deles. Aguardo (im)pacientemente pelo lusco-fusco, em que me liberto do jugo das classificações a metro e espraio-me em direcção à cegueira.
Há dias assim, longos, trabalhosos... minados pela expectativa da hora do início do seu adormecimento.

A propósito...

(favor ler este e este)

Na passada 4.ª feira estive na FIL em função de um projecto que a minha escola adoptou e do qual faço parte. Na sessão de abertura, a real presença de um mandatário da Ministra. Saí quando o indivíduo começou o mantra do costume: "eu tenho um ministério que me ama... que me ama...que me aama... agora no plural: nós temos um ministério que nos ama..."

A administração explica

A culpa é do lifelogger, que não está ao serviço. Lullaby seleccionada desde ontem, impossibilitada de ser ouvida, por enquanto, neste domingo. Aguardemos (im)pacientemente (por mim falo).

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"O zumbido dos ventos"*

Afasto-me cada vez mais da chamada actualidade. Para que quero eu festejar Obama ou carpir o Porto ou resmungar à crise de todos nós?
Deambular, deambular. Palavra de (des)ordem é deambular - pelas páginas de Clarice que trouxe na bagagem (volto à maçã, mas a de Clarice) e de Sylvia Plath generosamente ofertada por mão amiga. Preciosa.

Que se matem todos. E que se elejam. E que paguem a bola a peso de água (que vale mais que o ouro, comentava ontem um colega. "Não pago por um litro de gasolina o que pago por um litro de água num qualquer estabelecimento").

Parêntesis, parêntesis. Gosto, recorro a parêntesis. Toda a minha vida está mediada por parêntesis.
(Hoje) não faço qualquer esforço para ser coerente e séria (uma menina bem comportada lê o jornal e reflecte o prato do dia).
(Hoje) não quero esforçar-me por revestir-me de sentido.
Apenas ler, ler, ler - deixar-me à loucura da palavra.
As palavras são(-me) mais preciosas que água.

*Título roubado a um poema de Al Berto

Whicked Wishes

Abandonar o corpo ao nada e vagabundear o espírito.

domingo, 2 de novembro de 2008

What do you see here?

Muito rapidamente

ProfessorE - CamÁra - CUUUração - dizerE - fazerE
(e muitas mais, que me foge a memória e não anotei).
Mas que tendência é aquela de prolongar as palavras? De as acentuar na sílaba errada?
E o cuidado com a dicçãOOOOO? Não importa?
Pela DeusAAAAAAA!

Lullaby de Domingo



Movimentos de expiração a cargo de Yeah Yeah Yeahs (isto requer muito fôlego).

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Je suis une pipe

(Magritte)

"E hoje como te chamas?"
Cachimbo, responde automaticamente.
Ontem era maçã. Mas comeu-a rapidamente e hoje acordou estremunhada com o espaço que a maçã - agora descarnada, caroço tímido, patético até - deixou no seu nome.
Cachimbo. Hoje chama-se cachimbo. E se amanhã acordar fumada, trocará novamente de nome.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"Womansitting"

Não se arranja nada no Género?
Brinco, mas qualquer dia vem o Executivo do Primeiro (detesto nomeá-lo, por óbvia heresia) apresentar isto como exemplo a seguir. Sempre era mais variado, deixávamos a Finlândia por uns tempos...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Good night, and good luck"

Depois de suar as estopinhas, rezar às anjinhas e implorar à senhora da bilheteira, lá consegui os bilhetes* para a Orquídea Branca. Em terra acusada de desprezar tudo o que tenha que ver com contemplação (no caso, é favor apurar o ouvido), a verdade é que esta produção tem casa quase cheia nas várias apresentações que ainda estão por cumprir. Restam alguns poucos bilhetes desgarrados, abandonados à sua sorte. A quem não queira deixar passar a oportunidade, recomenda-se paciência e um olhar ao estilo S. Bernardo, a fim de comover os corações emperdenidos das salas quase cheias. "Good night and... good luck."
*Espero mesmo dar por bem empregada a quantia.

Mas qual é a dúvida?

O segredo está na elaboração das provas. Que aliás, faz todo o sentido, já que temos toda uma política estruturada em função de listas e estatísticas. Seria contraproducente facilitar ao longo do percurso e dificultar apenas no final. O Ministério sabe mesmo o que faz.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Para ti

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer."
A. Campos

domingo, 26 de outubro de 2008

Perdoado

Into My Arms do My Private Lord a coroar o post!
Chama-me Senhora quando quiseres (desde que logo de seguida apazigúes a ferida com Mr. NC).

Quase

Aqui a Senhora (gritos de desespero a acompanhar a palavra imprudentemente grafada ) que tira Jorge C do sério, considera que o tango que decorre há uns meses entre o referido cavalheiro e F é profundamente estimulante para o dito senhor (ora toma, que a coisa pode ser devolvida).
É verdadeiramente inspirador seguir os arrufos, os amuos, os insultos carinhosamente endereçados um ao outro, em que se podem ler (ou imaginar) nas entrelinhas os suspiros, os cabelos arrancados, as faces vermelhas ou o revirar ocular perante a leitura mútua.
A última cruzada envolve uma temática exaustivamente tratada desde o alvor dos tempos. E Jorge, que anda inspirado no assunto (mas não graças a F ou a mim - e que a responsável se pronuncie) discorreu livremente sobre o assunto e deixou na caixa do jugular um dos seus comentários mais inspirados, onde nem sequer faltou a referência ao meu filme de eleição (nos tempos de adolescência): Gone With The Wind. Perante o comentário, fazem vénia todos os outros comentaristas que não se atrevem a esgalhar pálida continuação. E nem a provocação final anula o encantamento do texto.
É obra senhor. Quase lhe perdoo o Senhora.

Lullaby de Domingo



Danke a quem me deu a ouvir esta pérola: Mono. A faixa chama-se Gone.

sábado, 25 de outubro de 2008

Fracturante

Eis a palavra que está na base da não aprovação do casamento homossexual no parlamento português. Junto a outros argumentos que são, simplesmente, idiotas, fracturante deu azo às mais diversas perspectivas sobre o assunto.

Começando pelo parlamento, onde a bancada que apoia o governo não aprovou a dita lei por esta ser (adivinhem lá)... fracturante e, desde logo, pouco pertinente. O que eu me vou rir se, e quando, estes que lá andam estiverem na oposição e apresentarem um projecto sobre o assunto.

Na blogosfera é possível ler outros arrazoados tendo por base o mesmo conceito. Minoriza-se a questão, sem mais, porque é fracturante e ser fracturante é coisa de esquerda. Como tudo o que é proposto pela esquerda é idiota, estalinista ou sem sentido, logo... Um verdadeiro argumento sólido! Como é claro, isso de paneleirices é só coisa de pessoal de esquerda.

Por fim, basta-nos dar um salto até à Virgínia e constatar o quão idiota toda esta discussão será dentro de alguns anos.

«Permitir o casamento entre pessoas de raças diferentes significaria necessariamente a degradação do casamento convencional, uma instituição que merece admiração em vez de execração»

«Deus todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes diferentes. E se não tivéssemos interferido com esta disposição nem sequer estaríamos agora a falar de casamento entre pessoas de raças diferentes. O facto de ter separado as raças demonstra bem que Deus não queria que as raças se misturassem».

Sentença proferida por um juiz do Estado norte-americano da Virgínia que em 1967 condenou Mildred e Richard Loving pelo «crime de casamento inter-racial»


Até lá, e como diria o outro da televisão, façam o favor de ser felizes.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pausa esfumaçante/idiota/catártica

Pior que assistir (e por vezes presidir) a reuniões carregadinhas de burocracia, só mesmo ter de redigir as actas de tais colossos geradores de contagiosos bocejos. Mas isto é vida para uma sexta feita à tarde?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Caminhar sobre as águas


Sob um sol tardio, conversamos sobre a nossa cidade. Do que foi - essencialmente das memórias de meninice - e do que é. Relembro que naquele exacto espaço, há muito tempo, frequentava com a minha Mãe uma oficina de automóveis, igual a tantas outras naquele espaço. Agora não. Limpou-se a zona, engalanou-se o espaço em que o sol é convidado a entrar e desafiar a cor amarelo ocre do Museu que orgulhosamente enfrenta o mar e que encerra a rua.
Elejo espaços de eleição (vide este outro) de quando em vez e, se calhar por neste ter testemunhado uma trilogia perfeita - um magnífico pôr-do-sol, uma Razão maliciosamente empacotada (ah, como gostava de enviar alguns pacotes a DM) e um Morpheu que me inspirou um fim de semana em Setembro - também passou a ser, de certo modo, um outro espaço que transcende a Ilha e a lança para fora do mundo. E estas visitas esporádicas têm a graça de me suspender e projectar no mar. Preciso crer nestes espaços, cada vez mais. Para que a Ilha não se torne irrespirável.

(fotografia de Lucia Alderighi Stringi roubada aqui)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pérolas a porcos

"É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma"

O Leopardo, Giovanni Tommasi di Lampedusa



Pérola arduamente engolida, e ainda não totalmente deglutida, em reunião tida lugar há bem pouco tempo. O status quo, esse, é igual em todo o lado.


(Já agora, esta foi uma das boas leituras que fiz ultimamente)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Condicional (a whispered story)

Ah, se eu sabia, erraria, ah, se eu sabia, erraria. E caminharia de mãos vazias, olhos vendados, apenas a ponta dos dedos a tocar o mundo. Ah, se eu sabia, se eu sabia, erraria e não fugiria ao assustador que é prece. Ah, se eu sabia, se eu sabia, erraria e não pararia a perguntar as horas para saber que vivia; seria apenas cega do tempo, tactearia o irreal com a palma das mãos, à flor da pele. Ah, se eu sabia acordaria no desacordo, desacordaria o acordado, rasgaria contrato e tocaria o susto; abandonaria ao medo o instante. Ah, eu não sabia e se eu sabia não erraria julgando errar. Ah, se eu sabia, arderia, ah, se eu sabia, arderia.

Presente (a whispered story)

"Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. (...). Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. "
Tempestade de Almas in Contos de Clarice Lispector

domingo, 19 de outubro de 2008

Lullaby de Domingo


Finalmente descanso, subsidiado por Velvet Underground.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Complexo? Não...complicado ou combinado...

A julgar pelos critérios de recrutamento de algumas empresas, em breve poderemos substituir o trabalho das universidades por um treino intensivo de páginas de 'quebra-cabeças'. Para quê queimar a pestana se, para qualquer empresazeca, se tem que mostrar que se consegue pôr o quadradinho no sítio certo? Que importa a linguística se o que interessa é saber que o correspondente de 'destinatário' é, segundo os critérios (estáticos) de correcção: 'beneficiário'? As teorias psicológicas de 5.ª categoria de avaliação de personalidade, atenção, concentração, cálculo mental, raciocínio são medidas nas folhas de quebra-cabeças de uma qualquer empresa de recrutamento.
Perceber uma teoria económica? Mostrar que se consegue elaborar uma frase? Qual quê? O importante é perceber o bonequinho e entrar directamente na cabeça de quem elaborou o testezinho. É assim que se passa de analfabeto funcional a apto para colaborar numa graaaannnnnnnde empresa.
E já agora... aceitam-se sugestões: para complexo (sem qualquer contexto adicional), escolheriam complicado ou combinado? Só uma estaria correcta (segundo os critérios de correcção dos referidos psicólogos). Há paciência?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A frase que "se pegou" :

A melhor forma de solucionar a crise é: NACIONALIZAR OS PREJUÍZOS!!

Post it aberto

Caríssimo Che Carvalho:
No ponto 3 do seu diário de hoje, acerto em cinco das seis causas denunciadas. Após a leitura e consequente reflexão sobre a razoabilidade dos meus posicionamentos, restam-me as seguintes dúvidas, a que certamente responderá. Exponho-as por pontos:
1 - Serei fracturante ou irremediavelmente fracturada? (dúvida prontamente denunciada na sua caixa de comentários)
2 - Com tanta pontaria, deverei arriscar e jogar em alguns dos jogos da Santa Casa da Misericórdia?
3 - Se recorrer ao autoflagelo, acha que consigo descontagiar-me?

E pega-se*

Há uns anos atrás, papagueávamos aos alunos que também aprendemos por ouvir dizer.
Hoje, ouvi dizer que o preconceito em relação a educadores de infância (no masculino) é plenamente justificado, já que nunca se sabe; e a afirmação inicial, misteriosa, é seguida por trejeitos que anunciam o que vem de seguida - do género, vocês sabem o que quero dizer, apenas estão a fingir que são parvos. Face à estupefacção dos restantes, a criatura prosseguiu a sua linha de raciocínio em relação à tese nebulosamente enunciada: na sua terra natal , explicou como se tivessemos todos quatro anos, havia um conjunto de homens assumidamente homossexuais que haviam sido contaminados pela pessoa que havia sido responsável pela sua educação nos primeiros anos.
Mistério resolvido! A justificação pela qual é perigoso atribuir a educação das idades mais tenras a homens é a de que, a escolher tal profissão, esses homens são claramente homossexuais (e obviamente agressores sexuais). E eu que andei tão enganadinha estes anos todos, a julgar que nestes casos a célebre frase da Simone não se aplicaria: eles não são homossexuais: dão em homossexuais, por obra e graça do exemplo dos mais velhos. Veja-se por exemplo (analogia que derrubou qualquer argumentação contrária) o caso do alcoolismo precoce em crianças cujos pais consomem álcool, ou as zonas em que a droga é vista de forma inconsequente pelo contexto sociocultural. Obviamente, a conclusão a tirar é a seguinte: tal como no segundo e terceiro casos as criancinhas tornam-se alcoólicos e viciados em estupefacientes, logo, no primeiro caso, obviamente, também dão em homossexuais. Aprendi em uma tarde o que durante anos não consegui vislumbrar.
Claro que fica por explicar por que raio é que no seio de uma família heterossexual surge uma criança/adolescente com uma identidade sexual diferente das restantes criaturas de Deus. Ou como pode ser traumático um jovem assumir a sua orientação sexual perante a comunidade. Está bom de ver que o caso só se aplica quando queremos provar que os homens - e implicitamente, os homossexuais - devem ser arredados da educação infantil. É que isto da homossexualidade é como a coca-cola do Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se*.

Arre, que fervo com isto. Como boa esquerdonguinha que sou.

namoros "lights"

Hoje levei as minhas crianças do oitavo ano à biblioteca da nossa escola. Disse-lhes que o exercício do dia era namorar livros. Apesar da Catarina informar-me desde logo que só gostava de namorar o Diogo e que não estava interessada, a maioria gostou da ideia. Conhecedora dos "calcanhares d´Aquiles" daqueles que são a minha verdadeira e única razão e motivação de me levantar cedo, libertei-os das (j)aulas e encaminhei-os para a biblioteca. Todos seguiram-me. Uns até bateram nas portas das salas, não com intenção de perturbar as aulas das outras turmas, mas sim, caríssimos senhores, para anunciar a felicidade que parecia transbordar dos seus coraçõezinhos de crianças. Foi, literalmente, uma alegria perturbadora. Enfim, pormenores só mesmo nas participações que alguns colegas mais lesados poderão (in)dignar-se a descrever.
À nossa espera já estava a bibliotecária, senhora muito simpática e amável, que nos fez uma visita guiada. Informou e mostrou-nos como é que estavam os livros organizados, catalogados e indicou quais os que podiam ser requisitados. Até aqui o percurso até correu bem. Mesmo muito bem.
Na fase seguinte, a prática: “Ok”, disse-lhes, “Agora estão por vossa conta. Ninguém sai daqui sem um livro. No final deste período lectivo, irão falar dele, "d´O Escolhido"! Conta para nota! Ouviram?! Não precisam de acertar à primeira! Nem sempre os amores à primeira vista resultam. Observem bem as capas, as contra-capas, os desenhos, as sínteses, os autores.... Namorem bem e muito ! Nada de pressas! Aqui existe uma grande variedade e há para todos os gostos. Se não gostarem, mesmo depois da requisição (contrato/casamento) e de o terem convosco , é porque foram "traídos" ou , então, porque se enganaram. Pronto, não resultou. Peçam o "divórcio" e venham cá trocar por outro. O importante é não desistirem, meninos! "Ide" então procurar o vosso companheiro ideal! "Ide" tomar decisões importantes para as vossas vidas!”
Enquanto circulava pela sala, ouvia comentários e exclamações do género: “Nem pensar levar este, tem muitas folhas. Esse?! Nunca! Já viste a grossura dele?! Estás doido?!”
Senhores, era a quantidade de folhas que preocupava aquelas crianças! Sentiam-se revoltados porque só existiam livros com imensas folhas! E nem sequer tinham desenhos (apesar de referir que também podiam incluir a banda desenhada nas suas escolhas)! Alguns alunos até tiveram a ousadia de insinuar, perante a minha pessoa, que iriam requisitar folhetos informativos! Folhetos!! E só não o fizeram porque… Enfim, há sorrisos que valem por mil palavras! E, neste caso, foi o meu sorriso bem amarelo a fugir para o enjoo!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

(saudosos Ornatos)

Sinto a falta deles como se algo novo tivesse ficado por criar.



A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga,ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doenca
Quando nele julgamos ver a nossa cura

Relação simbiótica (continuação)

"Pompanheira"

(de Magritte)

Estabeleci com aquela mulher adulta/hospedeira querida uma relação simbiótica. Mas, com o tempo, também fiquei adulta, ou seja, da mesma espécie e a simbiose terminou.
Eu queria estar sempre muito perto dela.
Ela dava um passo, eu dava dois ou três para nunca a perder de vista; ela debruçava-se para apanhar qualquer coisa que caía, eu punha-me logo a jeito para um abraço ou para um beijo e quando ela parava, eu levantava os braços, queria logo colo.
Um dia… pediu que me afastasse dela!! Ia lavar umas roupas e podia molhar-me. Pedido recusado. Impossível. Impensável. Insisti ficar muito perto.
Entretanto, foi persistente e eu idem: sacudia-me e eu voltava; virava-me má cara e eu olhava para o chão; dava-me palmadas nas mãos e eu continuava a meter as mãos na água; ia-me sentar e eu agarrava-a, choramingava e dizia repetidamente que queria ir embora.
Passado algum tempo, num tom de voz muito ríspido e, de certa forma, inaudito para mim, ordenou de vez que me afastasse. Muito magoada, afastei-me.
Fiquei desnorteada, sem rumo… o meu mundo ficou destruído. Tinha sido, pela primeira vez, expulsa. Eu só sabia viver muito perto dela. Nem consegui chorar e só solucei.
Ao ver-me tão triste, não aguentou e “regressou” para junto de mim. Explicou-me a razão de me querer afastada naquele momento e eu, ainda revoltada, disse-lhe: “­­Mas eu quero ficar junto de si, porque eu sou a sua Pompanheira!”
Moral da história: em criança tinha jeito para neologismos.

domingo, 12 de outubro de 2008

Já agora, que estais com o ouvido à mão...

Ide ouvir o que a voz da lullaby faz actualmente (como bem sabeis, apaixono-me por vozes).

Lullaby de Domingo




Infelizmente estes senhores (Migala) já não fazem coisas destas juntos.

sábado, 11 de outubro de 2008

Da (falta de) espinha

Outra coisa não seria de esperar, de um partido que cada vez mais se descaracteriza e assume apenas a face que entende favorecer a continuidade na maioria que conquistou com publicidade enganosa. A mim só me ocorre a palavra vergonha, desconhecida do léxico desta gente.
De qualquer modo, já não passava pela minha agenda apoiar um aparelho que desde o início desta governação só tem defraudado. Nada de novo (excepção feita aos que ousaram dizer que não iam por ali, já que aquele nunca havia sido o seu caminho).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ain´t got no, I got life

Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no Perfume, ain't got no beard
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

What have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away

I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I got a headache, and toothache,
And bad times too like you,
I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobies
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got life, I'm gonna keep it
I've got life, I'm gonna keep it

Nina Simone

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Obsessão

Temo que os meus posts sejam tomados por Clarice. Mais do que já são. Mas só me apetece ler Clarice, trazer Clarice, respirar Clarice. Livro(s) de cabeceira, livro(s) das respostas, evangelho(s) meu.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Eu - Woab - também me associo

"A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta - associa-se e apoia a luta das organizações portuguesas, no sentido de verem reconhecido o direito ao casamento civil para todas as cidadãs e todos os cidadãos independentemente da sua orientação sexual.
(...)Embora a Constituição consagre no seu artigo 13º a eliminação de todas as formas de discriminação, o Código Civil mantém essa discriminação no que se refere ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Para a UMAR a lei tem que ser conforme à realidade e não pode atropelar a Constituição da República. A negação do acesso ao casamento civil de lésbicas e gays portugueses é uma restrição grave à liberdade e uma forma de discriminação inaceitável.
A UMAR reclama que no próximo dia 10 de Outubro a Assembleia da República assuma as suas responsabilidades, aprovando os projectos de lei que prevêem a alteração do Código Civil no que se refere ao acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. As deputadas e deputados portugueses terão oportunidade, através do seu voto, de mostrar que têm dos direitos fundamentais, da cidadania e da democracia uma visão que não discrimina ninguém, cidadãos e cidadãs do exercício e do direito à felicidade."

Dez anos depois...

... faço o mesmo que ela. Ouço determinadas faixas, repetidamente, durante horas.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A essência da palavra é a hospitalidade (E. Levinas)

Eu não tenho senão uma língua - constatação - ora ela não é a minha - lamento e simultaneamente abertura. A marca descompassada, atrasada, sempre em falta, do Outro em mim, de mim no Outro. Para o Outro.
É esta abertura, tão magnífica quanto terrífica, que relembra-me a separação originária que (quase) me impede o golpe bélico e economicista. Repito em oração - "ela não é a minha" - e humanizo-me na apropriação da palavra, dobro-a - de cada vez que me exilo na palavra de outrém. E portanto, não sou eu que possuo a língua - é ela que me desapropria através da demora(da) singular que d/nela faço.

domingo, 5 de outubro de 2008

Futilidades - não tão desimportantes quanto isso

"Dear Jeremy: in the last days i've been learning how to not trust people. And i'm glad i've failed."
in My Blueberry Nights


Uma das pessoas em quem confio em absoluto é no meu cabeleireiro. A tarefa não é fácil: a minha melena, apesar de modesta e de não ser alvo de loas, não é miúda para deixar domar facilmente o carácter rebelde. Ele enfrenta-a estoicamente e até hoje tem levado sempre a melhor.

Permitam-me que sugira...

...a leitura deste texto. Para quem frequenta o espaço escola (e tudo o que isso implica, desde as reuniões, planificações, planos de intervenção de turma, avaliações, salas de trabalho, de professores, de...), é inevitável a identificação.
Como sempre, muito bem escrito.

Lullaby de Domingo


"I've been learning to drive
My whole life
My whole life
I've been learning"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Interrupção ...



...do fim-de-post, para deixar por cá o embrulho a Mr. Lekker.
Enjoy it, enquanto chove.

(Estive quase a escolher Flying Lessons, dadas as apetências.)

Finalmente - The Greatest

Hoje entrego-me a Wong Kar Wai:
My Blueberry Nights a um preço aceitável (note-se que não será o ideal, mas ainda assim) na Fnac. Apanhado à saída, num gesto de descoberta surpresa, depois de deambular pelas ruelas do sítio. Com um brilhozinho nos olhos, adiei para hoje a sessão, já que o trabalho não é complacente com desejos prementes. Fim-de-post.

Adenda ao post anterior


Mas por isso mesmo, a palavra também SALVA.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Cogitações avulsas e inconsequentes

Evocando o cuidado aconselhado por Funes, compreendo, de certa forma, a interdição que pretende quanto à leitura de Derrida pelas crianças portadoras de magalhãezinhos...

"Eis toda a questão, cada palavra conta. Sustém, toca, puxa, como uma trela, afecta e algumas vezes rasga a pele, magoa, penetra na superfície epidérmica, o que um véu nunca faz, que basta para velar a vista."
Hélène Cixous e Jacques Derrida, Véus... à Vela

A palavra como desvelamento pode ser brutal. A afecção pela palavra é radical; a relação discursiva que dita a impossibilidade absoluta: relação ética, lembra a separação originária em relação ao Outro, que é anterior, sempre primeiro.
Não há contemplações, com a palavra. Precede-nos e convida-nos à dádiva ao outro, mas é ferida que marca a separação originária. Não há a ilusão da apreensão - a cegueira do olho. A palavra é sempre separação e cada palavra conta(-nos). Toca, puxa como uma trela, mas nunca coincide completamente: é o estrangeiro em nós - o limite da identidade. A minha palavra não é minha... (adulteração de uma afirmação derridaniana: "Sim,eu não tenho senão uma língua, ora ela não é minha" (in O Monolinguísmo do Outro).

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Há quem, como eu, prefira estar quieto

"Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como as pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. (...) Porém não sou etnólogo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. (...)
Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a Natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disso tenho ideias claras e uma experiência definitiva. (...)"

in O Barão, Branquinho da Fonseca

Da Excelência

Em dia da Música, deixo por cá aquele que tem sido companheiro de anos. Nada como o Prelúdio de Tristão e Isolda, perfeito para este início de Outubro.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Por falar em cultura da esquerda e da direita...

Os excertos do texto que vou transcrever evidenciam algumas características dos entes que "coisificam" os partidos políticos da nossa actualidade e que, fatalmente, são mais à direita ou mais à esquerda. Alguns dos referidos seres optaram ou assumiram uma postura que passa, muitas das vezes, pela forma como se vestem, pelo género de música que ouvem, pela forma como comem e o que comem, pela marca da viatura que usam ou se a usam... Ou seja, um código ideológico (muito parecido com o código genético... que apenas tenho uma pálida ideia do que é) manifestamente exteriorizado, objectivo e diferenciado que facilmente é associado como sendo da direita ou da esquerda, conforme o caso.
Eu limito-me a votar. Sou democrática, logo gosto de misturar estilos. Contudo, confesso, que já não sei qual é o que me assenta e cai melhor.
E a propósito, para finalizar, o poema que vos deixo: Viro-me para direita e pisca-pisca;/Viro-me para a esquerda e pisca-pisca./ E depois?/ Depois, é só estalada, é só estalada! (Não é pura a coincidência nem mesmo a inconsciência, pois a letra é mais ou menos a da conhecida música brejeira ou ligeira ou popular ou o que quiserem, vai tudo dar ao mesmo!).

Então, é caso para dizer (e muito bem dito e porque falava eu no início de excertos e para preencher mais a página ) que eu tentei parafrasear um texto e isso pode-se verificar com a seguinte leitura:

(...)
Sou um céptico. Não acredito nos homens nem nas mulheres. Quando se trata da cultura, não acredito na direita nem na esquerda. A direita no poder é populista. Parece esquerda. Quer fazer bem ao povo. Dá os subsídios em função do grau de adesão popular. Promove aquilo que mais povo junta. Porque sabe (quando sabe) distante das aspirações do povo, tem o remorso dos benfazejos e compensa a sorte que acha ter dando a esmola a quem mais precisa. O povo.
A esquerda é elitista. Parece direita. Pensa que os subsídios devem ser entregues aos iluminados, aos experimentalistas, que normalmente são os amigos e conhecidos. Porque é a esquerda, presume que o povo aderirá espontaneamente, cantando hinos, à cultura que ela escolhe. Surpreendem-na as salas vazias, os livros por vender. Surpreende-a o povo. Afinal, ninguém ama mais o povo do que a esquerda.
A esquerda julga acreditar na igualdade entre os seres humanos, mas, com um pragmatismo inconsciente, torna-se elitista, vive num circuito fechado, sonhando com marés de multidões enquanto fala para salas vazias. A direita (quando não é povo) tem consciência daquilo que a separa do povo. Mas tem remorsos do que pensa. Em casa ouve Bach, mas na rua, por expiação, dança Emanuel.
A esquerda, a direita e o povo deviam ser banidos deste paraíso terrestre. Por mim, só acredito e amo paisagem. A flora e a fauna não humana. O que faz de mim um radical ecologista. ( Serei de esquerda?).
Na impossibilidade verificada de se cumprirem os meus desejos, voto contra a democracia participativa. A esquerda é bem intencionada ao desejar esta forma de democracia. Mas, crédula que é na mirífica igualdade dos homens e possuidora de péssimos dotes matemáticos ( resultado de ensino que vem pondo em prática) ignora a estatística e não quer ver que isso equivale a uma sentença de morte do bom gosto e do direito. (Sou de direita?)
(...)

RAA 12/16/2003

"a oeste nada de novo" in (Revista)Periférica, Ano II, nº 6, Verão de 2003

Lenitivo

Um bocadinho mais a sério

Esta salganhada toda por causa do Magalhães deixa-me perplexa e uma vez mais convencida da veia essencialmente propagandística deste Executivo. Não que não considere aliciante que as famílias mais desfavorecidas tenham acesso a um tipo de instrumento que de outro modo não teriam. Ainda assim, tenho as minhas dúvidas; se tenho alunos cujos pais têm dificuldade em colcar-lhes comida na mesa, conseguirão manter uma mensalidade de acesso à internet? Por outro lado, considero perigosa a coorrelação que se estabelece entre um simples instrumento tecnológico e o suposto milagre que efectuará quanto ao sucesso escolar. Temo que os menos avisados comprem este engodo. Mas para isso não precisávamos das crianças/adolescentes (no caso do e-escolas); apenas do material, certo? Desenganem-se os crentes; a escola continua a não ser para todos. Veja-se a diferença entre uma escola sediada numa cidade e as restantes. Veja-se o equipamento escolar que continua a ser deficiente (e refiro-me às bibliotecas, às salas disponibilizadas para estudo, aos materiais que não existem nesses espaços); atente-se na quantidade e na qualidade do equipamento informático a que professores e alunos têm acesso na escola, na dificuldade em ter disponível uma sala equipada para aulas que não as de TIC. Faz-me espécie que não exista dinheiro para subsidiar o transporte dos alunos a uma exposição ou a uma biblioteca ou a uma peça de teatro na cidade mais próxima - pesquisa-se nos portáteis e vai dar ao mesmo, não é? Portanto, este entusiasmo febril em torno do equipamento informático adquirido a preços mais aliciantes interessa. E certamente será francamente mais em conta estabelecer parcerias com empresas e através de quantias modestas - mas não tão módicas quanto isso - chutar a responsabilidade de um ensino de qualidade no espaço escolar para o conforto da casa de cada um. Verdadeiros ilusionistas, estes senhores. Na escola, tudo permanece igual. Mas o burburinho dos computadores pagos a prestações toldam as vistas e ninguém vislumbra que a educação continua em pelota.

Distracções

Leio, em uma das páginas da Visão, que a partir de agora as notas dos nossos filhos melhorarão, já que o Office 2007 Home Student custa apenas 99 euros. Por momentos, penso que a publicidade é da responsabilidade do Ministério da Educação. Mas não. É mesmo da Microsoft.

domingo, 28 de setembro de 2008

Indecisões - deverei rir?

A propósito do lançamento dos 'Magalhães' nas escolas, uma leitora do 5Dias, escreve - num comentário a um post que critica a peça da SIC sobre o evento -:
"No fundo eles estão a distribuir livremente meios pornográficos aos miúdos"
Para que fiquem elucidados, esta frase refere-se aos perigos da Internet (mais concretamente, de um Magalhães com Internet) para as crianças. Ou melhor, no caso da leitora em questão, aparentemente, as criancinhas até vão abdicar das cenas picantes do 'morangos com açucar' e séries aparentadas, porque, finalmente, a Internet - a mãe de todos os males - irá levá-los ao inferno. Presumo que para esta encarregada de educação, as crianças só poderiam ter acesso à Internet no dia em que pudessem votar.
Deixo-vos o comentário integral. Comentário de tina
Data: 23 Setembro 2008, 22:49
A Maria João Nogueira elucida ainda mais o meu ponto. Quem são os pais que se vão sentar com as crianças a navegar pela Internet? Nenhuns, principalmente aqueles que vão receber um computador no qual nunca estaviram muito interessados em primeiro lugar. É este descontrolo total que é inadmissível e a actuação do governo deve ser responsabilizado por isso e pelos danos que possa causar. No fundo eles estão a distribuir livremente meios pornográficos aos miúdos

Com o acordo ortográfico...

...iremos ter:
uniões de fato 

sábado, 27 de setembro de 2008

Lullaby de Domingo (antecipa-se e é Sábado)

Do álbum This Fool Can Die Now Scout Niblett (Que me tem acompanhado os dias) Lullaby ilustrada. Com Cartier-Bresson

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Somos chamados a responder

Soube da petição no último dia do Congresso Feminista. Entretanto, o turbilhão dos dias subsequentes arredou a informação para recantos sombrios. Penitencio-me agora. Deixo-vos o link.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Convocatória

Para degustar sempre que necessário.

O Evangelho Segundo Clarice

"Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objecto - é para lá que eu vou. À ponta do lápis o traço. Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou. Na ponta dos pés o salto. Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? Eu vos espero. É para lá que eu vou. Na ponta da palavra está a palavra. (...). À beira de eu estou mim. É para mim que vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. (...). Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber. À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, eu a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento?, que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto."
Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água
 

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Moral a contragosto

O Sancho, a(rqui-ini)migo de velhas e longas batalhas, mostra-se perplexo com o facto de os movimentos gays se baterem simultaneamente pelo direito à diferença, apesar de quererem "ser aceites como iguais". Tal como referi na caixa de comentários, tal questão surgiu com outras nuances em relação às mulheres, nomeadamente às reinvindicações dos movimentos feministas. Então as gajas (e os homossexuais e as lésbicas) querem ser iguais e manter as diferenças? Como é que é? Já chegamos à Madeira? Ora, a Sylviane Agacinsky, de quem tive o prazer de assistir a uma comunicação no Porto - e não consta que já tenha passado pela Madeira - responde da seguinte forma, que me parece colmatar perfeitamente as angústias de quem não quer aniquilar a diferença pela igualdade: "A diferença não é (...) o contrário da igualdade mas da identidade: duas coisas são ou idênticas ou diferentes, ainda que um objecto possa ser idêntico a outro de um certo ponto de vista e diferente de um outro ponto de vista, ou sob um outro aspecto. Assim, o homem e a mulher são diferentes por certos caracteres, e semelhantes por outros. Quanto à igualdade, opõe-se à desigualdade e não à diferença. (...). A igualdade das pessoas significa hoje a igualdade dos seus direitos civis ou políticos, e não o facto de essas mesmas pessoas serem idênticas umas às outras pela sua própria natureza ou condição."
In A Política dos Sexos
 
Pois é. Os homossexuais e as lésbicas querem mesmo o reconhecimento do direito à diferença no que diz respeito à identidade sexual (eu Sou homossexual/ eu Sou heterossexual), mas sendo considerados iguais no que diz respeito aos seus direitos civis e políticos. E parece-me bem, já que contribuem tanto quanto os restantes cuja identidade sexual não causa tanta celeuma .

domingo, 21 de setembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

Um doce para o Funes

Ontem fiz-me acompanhar por este filme. Dizem que os homens preferem as loiras... ...mas acho que ao Funes agrada mais esta versão. E eu sou amiguinha.
A minha vida privada é o último interesse d@s meus(minhas) co-workers.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

As minhas inutilidades são-me preciosas

Hoje desacelerei, tal como recomendaste. Tentei suster o passo e sentir a calçada sob os meus pés lentos. Sentei-me na esplanada e esperei placidamente pelo sumo, enquanto lia um conto surpreendente de Clarice. Ou melhor, enquanto o terminava, abandonado que tinha sido pelo sono que me toldou os sentidos e venceu a importância do desferimento que é ler um conto de Clarice. Apeteceu-me transcrevê-lo aqui na íntegra, mas a certeza que a impaciência não permitiria a sua leitura susteve a ideia. Desisti de o querer lançar aos outros, de querer que se surpreendam tanto quanto eu me surpreendo de cada vez que A leio. Permiti que o dia não corresse por mim; senti-o em todos os seus segundos, afastando a urgência que chega com o aproximar dos dias mais rotineiros. Saboreei a sós o passeio pela cidade, a compra cuidadosa do papel de carta que relembra a urgência da escrita. Observei os outros que corriam, que apressavam o passo pela calçada sem a sentir. Calçada tornada alcatrão, indiferente, aborrecida. Sorvi a lentidão do dia - para que o travo permaneça.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Re-petição

Emil Schmidt

Despida de todas as certezas.

Morfeu

Ao escutar-lhe o relato do sonho, sente que este podia ser seu:
E é ela que foge de quarto em quarto, é ela que tenta escapar à voz que insiste na técnica da definição, é ela que procura desesperadamente alcançar a (s) porta(s) que se encerra(m). E se a definição a persegue, se a acto de conceptualizar a esgota, se quase soçobra perante o poder da voz, por fim reencontra-se e escapa; e o penúltimo suspiro torna-se o primeiro, fôlego derradeiro e originário da fuga e a voz perde-se e é a mão que a conduz, não mais a voz que (a) define.

Pela sua mão, revelada lentamente. Tornada sentidos.

Obra de Raúl Perez

Lullaby de Domingo


Hoje é impossível escapar à suavidade da palavra (e da mão) que (se) revela.



"Dire
Ce que l'on pense
(...)
NE PLUS SAVOIR à quoi s’attendre."

sábado, 13 de setembro de 2008

"Je ne sais pas, il faut croire. (...)"*

E de repente, em magnífico final de tarde, o olhar límpido desafia-me a tranquilidade (tanto quanto a Razão empacotada na sala ao lado) e pergunta-me na despedida: "Vamos dar cabo de tudo isto?" Não consigo deixar de anuir e sorrir. É enorme a tarefa, mas como não responder à lucidez dos seus sonhos?
"-Des larmes qui voient... Vous croyez? - Je ne sais pas, il faut croire. (...)"
Jacques Derrida, Mémoires d'Aveugle

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"mais importante que andar é descalçar os sapatos" António Dacosta (estação do metropolitano de Lisboa, Cais do Sodré)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Cosmogonia funiana 2

Algumas dúvidas perpassam pelos teóricos do universo funiano: será Privada o ser maior do que o qual nada pode ser pensado? Funes enciumado responde que, a sê-lo, será obviamente culpado de todo o mal. Privada responde com uma lírica encriptada. Insondáveis são os caminhos do Senhor.

Cosmogonia funiana

Funes assume-se como a Sarah Palin das divindades. Os discípulos perguntam-se se a alucinação inclui o uso de baton.

Anedotário partidário 2

Eu errei, claro que errei. Mas errei na certeza de que a decisão iria ser repensada. Por isso esperei um ano (e esperaria mais, não fosse a coisa transpirar cá para fora).

Anedotário partidário

Não queres mais brincar aos gajos graves? Olha, pensa bem e responde-me daqui a um ano. Não digo nada ao people, ok? Que nós aqui somos gente séria.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Manual de sobrevivência para não falantes

"O Golem é um homem feito de argila e visco. Não sabe falar. Trabalha como criado. Nunca sai de casa. Na fronte tem escrito Emeth (verdade). Todos os dias cresce e torna-se mais forte. Com receio dele, é-lhe apagada da fronte a primeira letra e fica só Meth (morreu); então ele desmorona-se e reduz-se a argila."
G.B. Scholem, citado em rodapé por
Roland Barthes em Fragmentos de Um Discurso Amoroso

A verdade revela? Ou quando se pronuncia já é tempo de morte?

sábado, 6 de setembro de 2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Resposta de uma esquerdina a uma moderada e a um destro que ainda por cima é memorioso

O Ministério é um bocadinho mais retorcido: acaba com os professores, transformando-(n)os em funcionários de secretaria. E desde que as estatísticas reflictam sucesso... Por isso acredito que qualquer dia os piquenos são dispensados e os certificados são directamente enviados para a maternidade.

A esquerdina, apesar do pormenor de escrever à esquerda, por vezes coincide com o Memorioso que escreve com a direita. É estranho, mas é um daqueles momentos absolutamente transitórios. Dentro de momentos, tudo voltará à normalidade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Cogitações avulsas de uma esquerdina

A cadeia Modelo/Continente captou bem a essência da política de educação (quase sacrilégio escrever esta expressão) em Portugal: com material informático e desportivo o assunto está resolvido. Eu iria mais longe e dispensava os piquenos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Os animais que poderia ter sido, mas não é!

Cheios de graça, benditos sois vós os vinculados

O regresso à escola reaviva algumas particularidades inerentes ao processo de recrutamento dos profissionais necessários para um novo ano lectivo, nomeadamente no que diz respeito aos professores. Neste campo, temos duas situações: docentes que são contratados e docentes vinculados ao Ministério (por enquanto em Quadro de Zona Pedagógica ou em Quadro de Escola). Tendo em conta a delicadeza do ofício, é exigido aos docentes contratados que apresentem uma cópia do registo criminal. À partida, a medida é pertinente. Afinal de contas, a delicadeza do ofício torna pertinente tal requisito. assim, anualmente, mesmo que o professor renove contrato no estabelecimento de ensino do ano transacto, apresenta novamente a cópia do dito registo. Continua a ser relevante, já que em um ano, efectivamente a fiocha do funcionário pode ter registado, efectivamente, uma alteração de situação que exija ponderação quanto à renovação do contrato. Caricato é que tal documentação deixe de ser exigida assim que um docente passe à situação de vínculo efectivo ao Ministério. Supõe-se que exista algures um estudo que comprove que os docentes depois da vinculação atingem um estado de graça que era totalmente inexistente na situação anterior; supõe-se que a propensão para a delinquência desapareça com o surgimento de uma situação de maior estabilidade profissional. Dita a lei que uma vez vinculado, nunca mais prevaricador. É obra.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Petit manuel à l'usage des amoureux

"O ser que espera não é real. Tal como o seio da mãe para o recém-nascido, «crio-o e recrio-o sem cessar a partir da necessidade que tenho dele»: o outro chega ali onde o espero, ali onde já o criei. E, se ele não chega, alucino-o: a espera é um delírio.
(...).
«Estou apaixonado? - Sim, pois espero.» O outro nunca espera. Por vezes pretendo agir como quem não espera; tento ocupar-me com outra coisa, chegar atrasado; mas, neste jogo, perco sempre: faça o que fizer, encontro-me desocupado, sou pontual e até chego adiantado. Outra não é a identidade fatal do apaixonado: sou eu quem espera."
Roland Barthes, Fragmentos do Discurso Amoroso