domingo, 12 de outubro de 2008

Já agora, que estais com o ouvido à mão...

Ide ouvir o que a voz da lullaby faz actualmente (como bem sabeis, apaixono-me por vozes).

Lullaby de Domingo




Infelizmente estes senhores (Migala) já não fazem coisas destas juntos.

sábado, 11 de outubro de 2008

Da (falta de) espinha

Outra coisa não seria de esperar, de um partido que cada vez mais se descaracteriza e assume apenas a face que entende favorecer a continuidade na maioria que conquistou com publicidade enganosa. A mim só me ocorre a palavra vergonha, desconhecida do léxico desta gente.
De qualquer modo, já não passava pela minha agenda apoiar um aparelho que desde o início desta governação só tem defraudado. Nada de novo (excepção feita aos que ousaram dizer que não iam por ali, já que aquele nunca havia sido o seu caminho).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ain´t got no, I got life

Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no Perfume, ain't got no beard
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

What have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away

I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I got a headache, and toothache,
And bad times too like you,
I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobies
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got life, I'm gonna keep it
I've got life, I'm gonna keep it

Nina Simone

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Obsessão

Temo que os meus posts sejam tomados por Clarice. Mais do que já são. Mas só me apetece ler Clarice, trazer Clarice, respirar Clarice. Livro(s) de cabeceira, livro(s) das respostas, evangelho(s) meu.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Eu - Woab - também me associo

"A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta - associa-se e apoia a luta das organizações portuguesas, no sentido de verem reconhecido o direito ao casamento civil para todas as cidadãs e todos os cidadãos independentemente da sua orientação sexual.
(...)Embora a Constituição consagre no seu artigo 13º a eliminação de todas as formas de discriminação, o Código Civil mantém essa discriminação no que se refere ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Para a UMAR a lei tem que ser conforme à realidade e não pode atropelar a Constituição da República. A negação do acesso ao casamento civil de lésbicas e gays portugueses é uma restrição grave à liberdade e uma forma de discriminação inaceitável.
A UMAR reclama que no próximo dia 10 de Outubro a Assembleia da República assuma as suas responsabilidades, aprovando os projectos de lei que prevêem a alteração do Código Civil no que se refere ao acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. As deputadas e deputados portugueses terão oportunidade, através do seu voto, de mostrar que têm dos direitos fundamentais, da cidadania e da democracia uma visão que não discrimina ninguém, cidadãos e cidadãs do exercício e do direito à felicidade."

Dez anos depois...

... faço o mesmo que ela. Ouço determinadas faixas, repetidamente, durante horas.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A essência da palavra é a hospitalidade (E. Levinas)

Eu não tenho senão uma língua - constatação - ora ela não é a minha - lamento e simultaneamente abertura. A marca descompassada, atrasada, sempre em falta, do Outro em mim, de mim no Outro. Para o Outro.
É esta abertura, tão magnífica quanto terrífica, que relembra-me a separação originária que (quase) me impede o golpe bélico e economicista. Repito em oração - "ela não é a minha" - e humanizo-me na apropriação da palavra, dobro-a - de cada vez que me exilo na palavra de outrém. E portanto, não sou eu que possuo a língua - é ela que me desapropria através da demora(da) singular que d/nela faço.

domingo, 5 de outubro de 2008

Futilidades - não tão desimportantes quanto isso

"Dear Jeremy: in the last days i've been learning how to not trust people. And i'm glad i've failed."
in My Blueberry Nights


Uma das pessoas em quem confio em absoluto é no meu cabeleireiro. A tarefa não é fácil: a minha melena, apesar de modesta e de não ser alvo de loas, não é miúda para deixar domar facilmente o carácter rebelde. Ele enfrenta-a estoicamente e até hoje tem levado sempre a melhor.

Permitam-me que sugira...

...a leitura deste texto. Para quem frequenta o espaço escola (e tudo o que isso implica, desde as reuniões, planificações, planos de intervenção de turma, avaliações, salas de trabalho, de professores, de...), é inevitável a identificação.
Como sempre, muito bem escrito.

Lullaby de Domingo


"I've been learning to drive
My whole life
My whole life
I've been learning"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Interrupção ...



...do fim-de-post, para deixar por cá o embrulho a Mr. Lekker.
Enjoy it, enquanto chove.

(Estive quase a escolher Flying Lessons, dadas as apetências.)

Finalmente - The Greatest

Hoje entrego-me a Wong Kar Wai:
My Blueberry Nights a um preço aceitável (note-se que não será o ideal, mas ainda assim) na Fnac. Apanhado à saída, num gesto de descoberta surpresa, depois de deambular pelas ruelas do sítio. Com um brilhozinho nos olhos, adiei para hoje a sessão, já que o trabalho não é complacente com desejos prementes. Fim-de-post.

Adenda ao post anterior


Mas por isso mesmo, a palavra também SALVA.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Cogitações avulsas e inconsequentes

Evocando o cuidado aconselhado por Funes, compreendo, de certa forma, a interdição que pretende quanto à leitura de Derrida pelas crianças portadoras de magalhãezinhos...

"Eis toda a questão, cada palavra conta. Sustém, toca, puxa, como uma trela, afecta e algumas vezes rasga a pele, magoa, penetra na superfície epidérmica, o que um véu nunca faz, que basta para velar a vista."
Hélène Cixous e Jacques Derrida, Véus... à Vela

A palavra como desvelamento pode ser brutal. A afecção pela palavra é radical; a relação discursiva que dita a impossibilidade absoluta: relação ética, lembra a separação originária em relação ao Outro, que é anterior, sempre primeiro.
Não há contemplações, com a palavra. Precede-nos e convida-nos à dádiva ao outro, mas é ferida que marca a separação originária. Não há a ilusão da apreensão - a cegueira do olho. A palavra é sempre separação e cada palavra conta(-nos). Toca, puxa como uma trela, mas nunca coincide completamente: é o estrangeiro em nós - o limite da identidade. A minha palavra não é minha... (adulteração de uma afirmação derridaniana: "Sim,eu não tenho senão uma língua, ora ela não é minha" (in O Monolinguísmo do Outro).

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Há quem, como eu, prefira estar quieto

"Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como as pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. (...) Porém não sou etnólogo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. (...)
Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a Natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disso tenho ideias claras e uma experiência definitiva. (...)"

in O Barão, Branquinho da Fonseca

Da Excelência

Em dia da Música, deixo por cá aquele que tem sido companheiro de anos. Nada como o Prelúdio de Tristão e Isolda, perfeito para este início de Outubro.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Por falar em cultura da esquerda e da direita...

Os excertos do texto que vou transcrever evidenciam algumas características dos entes que "coisificam" os partidos políticos da nossa actualidade e que, fatalmente, são mais à direita ou mais à esquerda. Alguns dos referidos seres optaram ou assumiram uma postura que passa, muitas das vezes, pela forma como se vestem, pelo género de música que ouvem, pela forma como comem e o que comem, pela marca da viatura que usam ou se a usam... Ou seja, um código ideológico (muito parecido com o código genético... que apenas tenho uma pálida ideia do que é) manifestamente exteriorizado, objectivo e diferenciado que facilmente é associado como sendo da direita ou da esquerda, conforme o caso.
Eu limito-me a votar. Sou democrática, logo gosto de misturar estilos. Contudo, confesso, que já não sei qual é o que me assenta e cai melhor.
E a propósito, para finalizar, o poema que vos deixo: Viro-me para direita e pisca-pisca;/Viro-me para a esquerda e pisca-pisca./ E depois?/ Depois, é só estalada, é só estalada! (Não é pura a coincidência nem mesmo a inconsciência, pois a letra é mais ou menos a da conhecida música brejeira ou ligeira ou popular ou o que quiserem, vai tudo dar ao mesmo!).

Então, é caso para dizer (e muito bem dito e porque falava eu no início de excertos e para preencher mais a página ) que eu tentei parafrasear um texto e isso pode-se verificar com a seguinte leitura:

(...)
Sou um céptico. Não acredito nos homens nem nas mulheres. Quando se trata da cultura, não acredito na direita nem na esquerda. A direita no poder é populista. Parece esquerda. Quer fazer bem ao povo. Dá os subsídios em função do grau de adesão popular. Promove aquilo que mais povo junta. Porque sabe (quando sabe) distante das aspirações do povo, tem o remorso dos benfazejos e compensa a sorte que acha ter dando a esmola a quem mais precisa. O povo.
A esquerda é elitista. Parece direita. Pensa que os subsídios devem ser entregues aos iluminados, aos experimentalistas, que normalmente são os amigos e conhecidos. Porque é a esquerda, presume que o povo aderirá espontaneamente, cantando hinos, à cultura que ela escolhe. Surpreendem-na as salas vazias, os livros por vender. Surpreende-a o povo. Afinal, ninguém ama mais o povo do que a esquerda.
A esquerda julga acreditar na igualdade entre os seres humanos, mas, com um pragmatismo inconsciente, torna-se elitista, vive num circuito fechado, sonhando com marés de multidões enquanto fala para salas vazias. A direita (quando não é povo) tem consciência daquilo que a separa do povo. Mas tem remorsos do que pensa. Em casa ouve Bach, mas na rua, por expiação, dança Emanuel.
A esquerda, a direita e o povo deviam ser banidos deste paraíso terrestre. Por mim, só acredito e amo paisagem. A flora e a fauna não humana. O que faz de mim um radical ecologista. ( Serei de esquerda?).
Na impossibilidade verificada de se cumprirem os meus desejos, voto contra a democracia participativa. A esquerda é bem intencionada ao desejar esta forma de democracia. Mas, crédula que é na mirífica igualdade dos homens e possuidora de péssimos dotes matemáticos ( resultado de ensino que vem pondo em prática) ignora a estatística e não quer ver que isso equivale a uma sentença de morte do bom gosto e do direito. (Sou de direita?)
(...)

RAA 12/16/2003

"a oeste nada de novo" in (Revista)Periférica, Ano II, nº 6, Verão de 2003

Lenitivo

Um bocadinho mais a sério

Esta salganhada toda por causa do Magalhães deixa-me perplexa e uma vez mais convencida da veia essencialmente propagandística deste Executivo. Não que não considere aliciante que as famílias mais desfavorecidas tenham acesso a um tipo de instrumento que de outro modo não teriam. Ainda assim, tenho as minhas dúvidas; se tenho alunos cujos pais têm dificuldade em colcar-lhes comida na mesa, conseguirão manter uma mensalidade de acesso à internet? Por outro lado, considero perigosa a coorrelação que se estabelece entre um simples instrumento tecnológico e o suposto milagre que efectuará quanto ao sucesso escolar. Temo que os menos avisados comprem este engodo. Mas para isso não precisávamos das crianças/adolescentes (no caso do e-escolas); apenas do material, certo? Desenganem-se os crentes; a escola continua a não ser para todos. Veja-se a diferença entre uma escola sediada numa cidade e as restantes. Veja-se o equipamento escolar que continua a ser deficiente (e refiro-me às bibliotecas, às salas disponibilizadas para estudo, aos materiais que não existem nesses espaços); atente-se na quantidade e na qualidade do equipamento informático a que professores e alunos têm acesso na escola, na dificuldade em ter disponível uma sala equipada para aulas que não as de TIC. Faz-me espécie que não exista dinheiro para subsidiar o transporte dos alunos a uma exposição ou a uma biblioteca ou a uma peça de teatro na cidade mais próxima - pesquisa-se nos portáteis e vai dar ao mesmo, não é? Portanto, este entusiasmo febril em torno do equipamento informático adquirido a preços mais aliciantes interessa. E certamente será francamente mais em conta estabelecer parcerias com empresas e através de quantias modestas - mas não tão módicas quanto isso - chutar a responsabilidade de um ensino de qualidade no espaço escolar para o conforto da casa de cada um. Verdadeiros ilusionistas, estes senhores. Na escola, tudo permanece igual. Mas o burburinho dos computadores pagos a prestações toldam as vistas e ninguém vislumbra que a educação continua em pelota.

Distracções

Leio, em uma das páginas da Visão, que a partir de agora as notas dos nossos filhos melhorarão, já que o Office 2007 Home Student custa apenas 99 euros. Por momentos, penso que a publicidade é da responsabilidade do Ministério da Educação. Mas não. É mesmo da Microsoft.

domingo, 28 de setembro de 2008

Indecisões - deverei rir?

A propósito do lançamento dos 'Magalhães' nas escolas, uma leitora do 5Dias, escreve - num comentário a um post que critica a peça da SIC sobre o evento -:
"No fundo eles estão a distribuir livremente meios pornográficos aos miúdos"
Para que fiquem elucidados, esta frase refere-se aos perigos da Internet (mais concretamente, de um Magalhães com Internet) para as crianças. Ou melhor, no caso da leitora em questão, aparentemente, as criancinhas até vão abdicar das cenas picantes do 'morangos com açucar' e séries aparentadas, porque, finalmente, a Internet - a mãe de todos os males - irá levá-los ao inferno. Presumo que para esta encarregada de educação, as crianças só poderiam ter acesso à Internet no dia em que pudessem votar.
Deixo-vos o comentário integral. Comentário de tina
Data: 23 Setembro 2008, 22:49
A Maria João Nogueira elucida ainda mais o meu ponto. Quem são os pais que se vão sentar com as crianças a navegar pela Internet? Nenhuns, principalmente aqueles que vão receber um computador no qual nunca estaviram muito interessados em primeiro lugar. É este descontrolo total que é inadmissível e a actuação do governo deve ser responsabilizado por isso e pelos danos que possa causar. No fundo eles estão a distribuir livremente meios pornográficos aos miúdos

Com o acordo ortográfico...

...iremos ter:
uniões de fato 

sábado, 27 de setembro de 2008

Lullaby de Domingo (antecipa-se e é Sábado)

Do álbum This Fool Can Die Now Scout Niblett (Que me tem acompanhado os dias) Lullaby ilustrada. Com Cartier-Bresson

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Somos chamados a responder

Soube da petição no último dia do Congresso Feminista. Entretanto, o turbilhão dos dias subsequentes arredou a informação para recantos sombrios. Penitencio-me agora. Deixo-vos o link.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Convocatória

Para degustar sempre que necessário.

O Evangelho Segundo Clarice

"Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objecto - é para lá que eu vou. À ponta do lápis o traço. Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou. Na ponta dos pés o salto. Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? Eu vos espero. É para lá que eu vou. Na ponta da palavra está a palavra. (...). À beira de eu estou mim. É para mim que vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. (...). Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber. À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, eu a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento?, que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto."
Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água
 

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Moral a contragosto

O Sancho, a(rqui-ini)migo de velhas e longas batalhas, mostra-se perplexo com o facto de os movimentos gays se baterem simultaneamente pelo direito à diferença, apesar de quererem "ser aceites como iguais". Tal como referi na caixa de comentários, tal questão surgiu com outras nuances em relação às mulheres, nomeadamente às reinvindicações dos movimentos feministas. Então as gajas (e os homossexuais e as lésbicas) querem ser iguais e manter as diferenças? Como é que é? Já chegamos à Madeira? Ora, a Sylviane Agacinsky, de quem tive o prazer de assistir a uma comunicação no Porto - e não consta que já tenha passado pela Madeira - responde da seguinte forma, que me parece colmatar perfeitamente as angústias de quem não quer aniquilar a diferença pela igualdade: "A diferença não é (...) o contrário da igualdade mas da identidade: duas coisas são ou idênticas ou diferentes, ainda que um objecto possa ser idêntico a outro de um certo ponto de vista e diferente de um outro ponto de vista, ou sob um outro aspecto. Assim, o homem e a mulher são diferentes por certos caracteres, e semelhantes por outros. Quanto à igualdade, opõe-se à desigualdade e não à diferença. (...). A igualdade das pessoas significa hoje a igualdade dos seus direitos civis ou políticos, e não o facto de essas mesmas pessoas serem idênticas umas às outras pela sua própria natureza ou condição."
In A Política dos Sexos
 
Pois é. Os homossexuais e as lésbicas querem mesmo o reconhecimento do direito à diferença no que diz respeito à identidade sexual (eu Sou homossexual/ eu Sou heterossexual), mas sendo considerados iguais no que diz respeito aos seus direitos civis e políticos. E parece-me bem, já que contribuem tanto quanto os restantes cuja identidade sexual não causa tanta celeuma .

domingo, 21 de setembro de 2008

sábado, 20 de setembro de 2008

Um doce para o Funes

Ontem fiz-me acompanhar por este filme. Dizem que os homens preferem as loiras... ...mas acho que ao Funes agrada mais esta versão. E eu sou amiguinha.
A minha vida privada é o último interesse d@s meus(minhas) co-workers.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

As minhas inutilidades são-me preciosas

Hoje desacelerei, tal como recomendaste. Tentei suster o passo e sentir a calçada sob os meus pés lentos. Sentei-me na esplanada e esperei placidamente pelo sumo, enquanto lia um conto surpreendente de Clarice. Ou melhor, enquanto o terminava, abandonado que tinha sido pelo sono que me toldou os sentidos e venceu a importância do desferimento que é ler um conto de Clarice. Apeteceu-me transcrevê-lo aqui na íntegra, mas a certeza que a impaciência não permitiria a sua leitura susteve a ideia. Desisti de o querer lançar aos outros, de querer que se surpreendam tanto quanto eu me surpreendo de cada vez que A leio. Permiti que o dia não corresse por mim; senti-o em todos os seus segundos, afastando a urgência que chega com o aproximar dos dias mais rotineiros. Saboreei a sós o passeio pela cidade, a compra cuidadosa do papel de carta que relembra a urgência da escrita. Observei os outros que corriam, que apressavam o passo pela calçada sem a sentir. Calçada tornada alcatrão, indiferente, aborrecida. Sorvi a lentidão do dia - para que o travo permaneça.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Re-petição

Emil Schmidt

Despida de todas as certezas.

Morfeu

Ao escutar-lhe o relato do sonho, sente que este podia ser seu:
E é ela que foge de quarto em quarto, é ela que tenta escapar à voz que insiste na técnica da definição, é ela que procura desesperadamente alcançar a (s) porta(s) que se encerra(m). E se a definição a persegue, se a acto de conceptualizar a esgota, se quase soçobra perante o poder da voz, por fim reencontra-se e escapa; e o penúltimo suspiro torna-se o primeiro, fôlego derradeiro e originário da fuga e a voz perde-se e é a mão que a conduz, não mais a voz que (a) define.

Pela sua mão, revelada lentamente. Tornada sentidos.

Obra de Raúl Perez

Lullaby de Domingo


Hoje é impossível escapar à suavidade da palavra (e da mão) que (se) revela.



"Dire
Ce que l'on pense
(...)
NE PLUS SAVOIR à quoi s’attendre."

sábado, 13 de setembro de 2008

"Je ne sais pas, il faut croire. (...)"*

E de repente, em magnífico final de tarde, o olhar límpido desafia-me a tranquilidade (tanto quanto a Razão empacotada na sala ao lado) e pergunta-me na despedida: "Vamos dar cabo de tudo isto?" Não consigo deixar de anuir e sorrir. É enorme a tarefa, mas como não responder à lucidez dos seus sonhos?
"-Des larmes qui voient... Vous croyez? - Je ne sais pas, il faut croire. (...)"
Jacques Derrida, Mémoires d'Aveugle

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"mais importante que andar é descalçar os sapatos" António Dacosta (estação do metropolitano de Lisboa, Cais do Sodré)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Cosmogonia funiana 2

Algumas dúvidas perpassam pelos teóricos do universo funiano: será Privada o ser maior do que o qual nada pode ser pensado? Funes enciumado responde que, a sê-lo, será obviamente culpado de todo o mal. Privada responde com uma lírica encriptada. Insondáveis são os caminhos do Senhor.

Cosmogonia funiana

Funes assume-se como a Sarah Palin das divindades. Os discípulos perguntam-se se a alucinação inclui o uso de baton.

Anedotário partidário 2

Eu errei, claro que errei. Mas errei na certeza de que a decisão iria ser repensada. Por isso esperei um ano (e esperaria mais, não fosse a coisa transpirar cá para fora).

Anedotário partidário

Não queres mais brincar aos gajos graves? Olha, pensa bem e responde-me daqui a um ano. Não digo nada ao people, ok? Que nós aqui somos gente séria.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Manual de sobrevivência para não falantes

"O Golem é um homem feito de argila e visco. Não sabe falar. Trabalha como criado. Nunca sai de casa. Na fronte tem escrito Emeth (verdade). Todos os dias cresce e torna-se mais forte. Com receio dele, é-lhe apagada da fronte a primeira letra e fica só Meth (morreu); então ele desmorona-se e reduz-se a argila."
G.B. Scholem, citado em rodapé por
Roland Barthes em Fragmentos de Um Discurso Amoroso

A verdade revela? Ou quando se pronuncia já é tempo de morte?

sábado, 6 de setembro de 2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Resposta de uma esquerdina a uma moderada e a um destro que ainda por cima é memorioso

O Ministério é um bocadinho mais retorcido: acaba com os professores, transformando-(n)os em funcionários de secretaria. E desde que as estatísticas reflictam sucesso... Por isso acredito que qualquer dia os piquenos são dispensados e os certificados são directamente enviados para a maternidade.

A esquerdina, apesar do pormenor de escrever à esquerda, por vezes coincide com o Memorioso que escreve com a direita. É estranho, mas é um daqueles momentos absolutamente transitórios. Dentro de momentos, tudo voltará à normalidade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Cogitações avulsas de uma esquerdina

A cadeia Modelo/Continente captou bem a essência da política de educação (quase sacrilégio escrever esta expressão) em Portugal: com material informático e desportivo o assunto está resolvido. Eu iria mais longe e dispensava os piquenos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Os animais que poderia ter sido, mas não é!

Cheios de graça, benditos sois vós os vinculados

O regresso à escola reaviva algumas particularidades inerentes ao processo de recrutamento dos profissionais necessários para um novo ano lectivo, nomeadamente no que diz respeito aos professores. Neste campo, temos duas situações: docentes que são contratados e docentes vinculados ao Ministério (por enquanto em Quadro de Zona Pedagógica ou em Quadro de Escola). Tendo em conta a delicadeza do ofício, é exigido aos docentes contratados que apresentem uma cópia do registo criminal. À partida, a medida é pertinente. Afinal de contas, a delicadeza do ofício torna pertinente tal requisito. assim, anualmente, mesmo que o professor renove contrato no estabelecimento de ensino do ano transacto, apresenta novamente a cópia do dito registo. Continua a ser relevante, já que em um ano, efectivamente a fiocha do funcionário pode ter registado, efectivamente, uma alteração de situação que exija ponderação quanto à renovação do contrato. Caricato é que tal documentação deixe de ser exigida assim que um docente passe à situação de vínculo efectivo ao Ministério. Supõe-se que exista algures um estudo que comprove que os docentes depois da vinculação atingem um estado de graça que era totalmente inexistente na situação anterior; supõe-se que a propensão para a delinquência desapareça com o surgimento de uma situação de maior estabilidade profissional. Dita a lei que uma vez vinculado, nunca mais prevaricador. É obra.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Petit manuel à l'usage des amoureux

"O ser que espera não é real. Tal como o seio da mãe para o recém-nascido, «crio-o e recrio-o sem cessar a partir da necessidade que tenho dele»: o outro chega ali onde o espero, ali onde já o criei. E, se ele não chega, alucino-o: a espera é um delírio.
(...).
«Estou apaixonado? - Sim, pois espero.» O outro nunca espera. Por vezes pretendo agir como quem não espera; tento ocupar-me com outra coisa, chegar atrasado; mas, neste jogo, perco sempre: faça o que fizer, encontro-me desocupado, sou pontual e até chego adiantado. Outra não é a identidade fatal do apaixonado: sou eu quem espera."
Roland Barthes, Fragmentos do Discurso Amoroso

domingo, 31 de agosto de 2008

Once upon a time... ( a whispered story)

(Fotografia de Diane Arbus)

Já é tempo de assassinarmos a Cinderela, não achas?

Lullaby de Domingo

A melhor versão que ouvi até hoje - e não coloco o meu ouvido no fogo, já que com a Nina nunca se sabe. Já lhe ouvi várias, mas esta é a minha favorita. Adequada ao calor dos tempos, aos dias que discorrem lentamente, sem brisa, sob a égide de um sol abrasador(hoje o dia não foi exemplo).


sábado, 30 de agosto de 2008

Must try to fly (diz o Jorge)

Felizmente, o Jorge C encerra a minha noite com isto. Nem tudo está perdido: exorcizo as porcarias que andei a ouvir e durmo consolada.

Cruzes, credo, abrenúncio!

"For I dance
And drink & sing:
Till some blind hand
Shall brush my wing.
If thought is life
And strenght & breath:
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live,
Or if I die."
William Blake, Songs Of Innocence and of Experience
Algumas novas experiências podiam ser evitadas.
Não torno a ser apanhada em arraiais de Verão.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Quando tocadas pelo inantingível *

Há dias felizes. Que não se anunciam quando as pálpebras se abrem e olhamos difusamente para o tecto do quarto, ou para as paredes brancas, ou para a gata amarela que nos fixa curiosa. Os dias felizes não se denunciam imediatamente. Surgem sorrateiros, com uma cadência lenta. Levantamo-nos e parecem exactamente iguais aos outros. As mesmas rotinas; o pequeno almoço estremunhado em pijama, lento, o prolongamento dos gestos na preguiça de quem não quer recomeçar, ainda. O duche morno, a vestimenta escolhida quase por acaso, sem ponderar longamente. Não interessa.
Nos dias felizes, há sempre um acontecimento chave, que despoleta o sorriso. Uma chave de correio, uma escrita inesperada, uma lembrança preciosa que acolhemos no sorriso com que a recebemos.
Nos dias felizes, os amigos dizem-nos, por palavras encriptadas, que pensaram em nós, que leram por/em nós, na impossibilidade de lermos. Dizem da novidade e discutem connosco as possibilidades. Ou apenas simplesmente o amor.
Os dias felizes por vezes aparecem em catadupa, com pequenas situações que nos preenchem as horas e nem nos apercebemos que são mesmo felizes. Percebemos depois, na hora de fechar os olhos, a perder de vista o tecto do quarto ou as paredes brancas ou a gata que insiste em fixar-nos, ainda curiosa.

*Título inspirado em leituras sobre Levinas, mas que em nada compromete o autor.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

"la libertad"

Formatações

Fotografia de Henri Cartier-Bresson

Nem só de mulheres inconformadas é feito Matem as Mulheres Primeiro. Um dos casos descritos quebra em absoluto a noção de marginalidade que pauta os restantes. Uma das mulheres entrevistadas foi claramente manipulada pelo seu contexto a fim de se tornar numa executante quase perfeita dos desígnios da sua Pátria. Kim Hyon Hui foi uma norte-coreana encarregue de fazer explodir um voo que tinha por destino Seul, no ano anterior aos Jogos Olímpicos.
Segundo a autora, esta mulher foi a única que não manifestou o mínimo de confusão mental em relação às suas acções. Aliás, a haver emoção, esta residia não na perspectiva do sofrimento que inflingiria às vítimas e seus familiares, mas sim em relação à envergadura da acção que lhe tinha sido exigida pelo seu País, sendo ela tão nova (à data da captura tinha 25 anos). O perfil desta mulher não se coaduna minimamente com as restantes: não pretende mudar o sistema em que vive, não almeja alcançar uma mudança social profunda mesmo que a custo da perpretação de violência contra terceiros. A justificação prestada relembra essa outra apresentada em 60 por Eichmann em Jerusalém: limitou-se a cumprir ordens.
É preciso compreender o ambiente em que Kim viveu. "É uma sociedade enigmática e paranóica. as populações vivem em pequenas unidades habitacionais e uma em cada cinco famílias está incumbida de informar o Estado das actividades dos vizinhos e dos próprios familiares. As crianças são induzidas a pôr a lealdade ao Estado à frente da lealdade à família. " Mais à frente podemos ler que "O Partido dizia às mães que não se preocupassem em dar mimos e atenções às crianças em casa. eles encarregar-se-iam de lhes dar tudo o que elas precisavam. O sistema tinha por função conceber revolucionários convictos e trabalhadores e estava organizado de modo a evitar a influência parental. Horários de trabalho sobrecarregados faziam com que não sobrasse tempo às mães para se dedicarem aos filhos. (...) as crianças eram obrigadas a frequentar diversos movimentos infantis e juvenis de apoio ao regime depois da escola." Obviamente que um sistema destes está delineado para a formatação das massas, para a uniformização do pensamento. Ou melhor, para a ausência dele. Criam-se autómatos, cumpridores de um desígnio maior - que no caso era o Estado e o bem do Grande Chefe. Uma das características mais marcantes na leitura do percurso de Kim é a de que é uma mulher profundamente conservadora, que sempre tentou corresponder às expectativas do seu País. Nunca foi incitada a pensar e os ensinamentos sempre lhe foram apresentados como verdades absolutas. E uma verdade não é contestada, à verdade obedece-se, porque não apresenta dúvidas, porque é a melhor para todos. Porque é clara e distinta.
O pensamento que se apresenta como uniforme e pouco susceptível à dúvida não chega a ser pensamento. A educação resume-se a adestramento e a jogos mentais equivalentes às proezas que ensinamos o nosso animal de estimação a fazer para exibir perante terceiros.
Alguns dos relatos referentes a esta mulher aproximam-se perigosamente à forma como cada vez mais nos organizamos e educamos as nossas crianças. Estranhamos cada vez mais a diferença, ainda que a tentativa de anulação da mesma recorra a metodologias mais discretas. Formamos essencialmente funcionários especializados. E um funcionário não questiona, não repensa, não se distancia. Um funcionário, cumpre as ordens de alguém que acredita pensar melhor que ele.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

memórias das áfricas portuguesas

(ele) ainda hoje traz as cicatrizes na cabeça, daquele dia em que, por ter roubado uns carrinhos de linhas, a dona da retrosaria lhe tatuou o crânio com as agulhas de croché. Não eram umas agulhas quaisquer e ficaram inutilizadas, queixara-se a dona da loja. E o outro que de preto passou a vermelho, não por ser comunista, mas por apanhar de todos antes de ser levado pela polícia militar. Parecia uma lapidação. E quando, na fila da farmácia, fez questão de esperar pela sua vez, negando o privilégio da cor da pele? "Eles bem podem esperar, mas a menina é que sabe", vociferou o farmacêutico. Era a época em que as meninas saloias, que usavam carrapito, deixavam nele cair a catana do preto para se tornarem "donas". E daquela vez que o rapaz que lhes levava as compras foi acusado de roubar a fruta? Esmagaram-lhe a tíbia, a face esquerda inchou tanto que o olho não abria e a mão esquerda perdeu o indicador, conta perturbada ante a visão o preto enfiado numa cama improvisada enquanto aguardava o senhor doutor. E ele, a seu lado, com a sua figura gigante, suspirava: "ai, se eu não vestisse uma farda", e ela sabia que o que ele não dizia era "ia lá terminar com aquela vergonha". Nunca percebeu se sem farda acabaria com as desigualdades ou se com a vida do preto.

domingo, 24 de agosto de 2008

Lullaby de Domingo

Qualquer coisa de intermédio...
Uma faixa da banda sonora de My Blueberry Nights que remete para In The Mood For Love.


sábado, 23 de agosto de 2008

what is good about imagination....

Teatro - sem qualquer hesitação, seguia-se um bailado de Pina Bausch (não faço por menos) ou com a Margot Fonteyn (deixem-me lá, estou a imaginar, não estou? Por isso posso imaginá-la viva a pisar os palcos mais uma vez!). Depois disto... (ainda tenho algumas horas...) ia ao cinema (re)ver o Microcosmos, e por último, num pulinho....ia ver isto.

Quanto ao filme a ver (neste caso, a rever): Closet Land

Livros: ando há tempos a ver se encontro o Mary Reilly, da Valerie Martin e o The color Purple, da Alice Walker.

The unbearable lightness of summer

O Luís, que agora assina no Mictório Luzidio, desafia-me a responder a uma dessas populares correntes que acontecem maioritariamente no Verão. Pois bem, o cumprimento da minha tarefa será rápido e (quase) indolor.

Se, durante vinte e quatro horas em férias, pudesse assistir aos seguintes eventos, qual a ordem cronológica que escolheria para fazê-lo - dança/bailado; peça de teatro; exposição; cinema?

Em primeiro lugar, as minha primeiras opções não encontram aqui lugar. Obviamente, Nick Cave. De preferência uma sessão intimista, para poucos, Mr. N.C. numa sessão de faixas pedidas. Ou então, assistir a uma ópera. Não uma qualquer. Tristão e Isolda, pois claro. Ou a Tosca (este libreto não me sai da ideia). Ou Madame Butterfly. Melhor ainda se interpretadas pela Callas (a importância do Se aqui é fulcral).
Ora, mas estas não são possibilidades que integram o interrogatório. Assim, dadas as hipóteses, escolheria:
Exposição (não me sai da ideia a que esteve no Tate Modern e que uns e outros estiveram à porta de telemóvel na mão a fazer figas aos pobres).
Teatro.
Cinema.
Dança/Bailado.

Um filme visto ou revisto recentemente e um filme a ver ou rever?

Revi recentemente o Eduardo Mãos de Tesoura. Encontrei-o na FNAC a um preço jeitoso e não deixei passar.
Quanto a filme a ver, obviamente, My Blueberry Nights. Quando por cá passou, estava eu no Congresso e acabei por perder a oportunidade. E aqui faço batota e acrescento que graças ao facto de ter ouvido novamente parte da banda sonora, fiquei com imensa vontade de rever (again and again) In The Mood For Love, DVD que emprestei.

- Um livro lido recentemente e um livro a ler ou reler?
Recentemente, às voltas com Laços de Família, da (minha) Clarice.
Um livro que quero muito ler... A Maçã no Escuro, também da Clarice (e que tenho esperança de o fazer em Setembro, graças à generosidade de um amigo que o transportará de terras mais férteis). Quero também ler A Campânula de Vidro, da Sylvia Plath, mas parece-me que por este terei que esperar bem mais.

Agora a parte gira da coisa, que é quando tenho a oportunidade de remoer o juízo de algumas pessoas, ao passar-lhes a bolinha: o pessoal que assina este blog. Acercai-vos do pc, seus preguiçosos (Ceridwen, querida, sabes que a acusação de preguiça não é para ti), Sancho, Jorge C, Funes (vá lá, irrite-se, reclame, riposte com um post bem humorado), Blue e Su.

ralhetes

"Ceridwen: tens que parar com essa mania de estar sempre a olhar para o teu umbigo!
Para o teu umbigo olhamos nós, tu olhas para o umbigo dos outros!"

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Who's afraid of the F Word? 2

"Recordo-me que quando nos manifestávamos contra a lei antiaborto, os polícias vinham, desapertavam os cintos e batiam-nos com eles. Não usavam os cacetes, como teriam feito numa manifestação de estudantes, por sermos todas mulheres."

O episódio é descrito por Susana Ronconi (in Matem Primeiro as Mulheres, já antes referenciado aqui), membro das Brigadas Vermelhas Italianas, que antes de enveredar por essa vertente mais radical e violenta, integrou um grupo feminista chamado Lotta Femminista. O simbolismo dos cintos arrancados à cintura para punir aquelas mulheres inconformistas é flagrante. A agressão colectiva tornada íntima, com o instrumento punitivo das traquinices de quem precisa aprender a não desafiar a autoridade. Cada cinto a berrar-lhes Não são dignas de ser levadas a sério. O episódio tem 30 anos. Muito pouco tempo para repetirmos incessantemente que agora tudo vai bem.

Humor bestial

Na caixa de comentários.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

História de uma outra cidade

500
Duplo acesso: a partir da Ilha e para a Ilha.



Uma belíssima faixa de Fausto que não me permite nenhuma outra relação a não ser com esta Ilha. Tal como na leitura, ouvir também é sempre trair...

Porto, cidade com muito encanto

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Pela boca morre o peixe

"O mau argumento do mais autoritário dos autores cai com estrondo se for mau e se for visível que é mau, porque a racionalidade não é dele nem de qualquer outra pessoa."
Desidério Murcho, O Carcereiro Libertário in Público de 19-8-08


Começo por dizer que considero este passo do texto interessante. O restante é que deixa seriamente a desejar. E começo logo com a primeira expressão: atirar com um inócuo "há quem pense" também não constitui um estupro intelectual ao estimado leitor? Aliás, o texto pauta-se por uma série de acusações veladas que em momento algum permite ao leitor a sua verificação. A determinada altura é afirmado que quando estudamos autores que acusam a razão e a lógica de serem autoritárias, nenhuma razão nos é dada para aceitar o que afirmam. Contudo, não adianta a que autores se refere, nem tão pouco a que argumentos se reporta (percebemos mais à frente porquê). Assim, não apresenta nenhuma razão para que aceitemos o que afirma, o que me leva a perguntar: mas então temos que engolir o que afirma o autor do texto tendo por única fundamentação a sua autoridade? O Desidério diz que há autores que...
A rematar esta ligeiríssima reflexão sobre um dos mais proeminentes defensores da racionalidade, da verdade, da lógica, da ciência e da argumentação (esta amálgama confunde-me seriamente), uma outra citação do referido texto:

"O simples esforço de decifração dos textos de tais autores* é suficiente para adormecer o nosso sentido crítico, e o objectivo dessas bestas é precisamente provocar o adormecimento do intelecto."

*Repito, em momento algum o texto é claro quanto aos autores a quem é dirigida a acusação de estupro intelectual, nem tão pouco é devidamente esclarecida a adjectivação de "bestas". Para não cometer nenhuma injustiça, reporto-me ao dicionário para clarificar o conceito:
Besta - animal irracional. Quadrúpede; cavalgadura; pessoa bruta; estúpido; tolo; ignorante.
Caso para dizer que tudo devidamente fundamentado com racionalidade, verdade e lógica. Verdadeiro labor filosófico.

Revisito um post que ficou lá para trás. O caso torna-se tanto mais grave a partir do momento em que esta "metodologia" tem direito de antena em jornal de referência.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Reflexões e suspiros de alívio de uma tia


Do que a minha sobrinha (apresenta-se à família no próximo mês) se livrou...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Who's Afraid of the F Word?

O feminismo é o mesmo que o machismo, mas com mulheres a protagonizá-lo. Mantra, oração, feminismo cruzes credo não, que sou mulher, que gosto de homens, que gosto de mulheres, que gosto de tudo menos de feministas, de mulheres e homens que pensam que as mulheres também pensam. O papão anda aí e até fez Congresso, em que participou gente, pessoas, homens e mulheres, enfim, ridículos que comem homenzinhos ao pequeno almoço e testículos fritos no cinema e conversam sobre isso e se riem sobre essas ida ao cinema, humores que não gostam das respostas humoradas e queimam feministas como vacas sagradas. Goza-se o feminismo com genuíno gozo, com desprezo, que essas preocupações são ridículas, que são todos idiotas e nós não temos medo, nem dos feministas, nem das fêmeas, nem dos machos que dizem que o feminismo é coisa séria e para ter em atenção. Abata-se o feminismo e os feministas e as feministas que nós somos País sério, com preocupações sisudas, que não gostamos dessas coisas de apontar o dedo e tocar nas feridas, que não são para se mostrar, são para se esconder ciosamente, deixá-las entrar em putrefacção, que o cheiro disfarça-se e a maquilhagem esconde o aspecto. Eu não sou feminista, que não sou machista, que não, não sou...

Pequim 2008: ouro, prata e bronze para Portugal

Na modalidade de má língua ninguém nos bate.

Finding

Leio(-me n)as tuas páginas, Clarice.

domingo, 17 de agosto de 2008

Finding Sylvia Plath

"Between myself and myself.
I scratch like a cat."
Sylvia Plath, The Other


Há já algum tempo que vejo aqui e ali referências a Sylvia Plath. Desta vez, com o Bibliotecário de Babel, convenci-me que tenho mesmo que partir à descoberta desta senhora.

Lullaby de Domingo

Continuo com a temática das mulheres com o dedo no gatilho, desta feita com o auxílio de Mr. Tom Waits.



"With one eye on the pistol the other on the door"

sábado, 16 de agosto de 2008

É de ontem atirar-se à água e desafiar as normas

Fotografia tirada deste site.

Para um ilhéu, o mar é dado adquirido. E em tanto mar, há sempre um azul preferencial, local de eleição para estender os braços e galgar cores e sal. O meu pedaço de mar (há mais de 20 anos) é conhecido como Doca do Cavacas. São reentrâncias onde o titã descansa nos braços rochosos da ilha, espumando furiosa ou gentilmente. Quando amoroso, são muitos os que se atrevem a desafiar a sua generosidade, rasgando o leito que oferece.
Na Doca do Cavacas aprendi não só a nadar, bem como a desafiar o bom senso, atirando-me de locais que hoje são impensáveis. É certo que era das mais cobardes, tímida desafiadora dos patamares mais modestos, outros havendo que desafiavam escarpas bem mais acentuadas. Os saltos e os gritos são ruídos de infância, que acompanhavam os cheiros das manhãs límpidas e das tardes soalheiras. Nadava afincadamente até ao limite das poças, com o mar revolto, engolida pelas águas, redemoinhando à velocidade maior que o pensamento. Debrucei-me em dias mais calmos e deixei que as ondas acariciassem o meu corpo extenuado, estendido na língua que limitava o início do mar bravio.
Todos os anos regresso à Doca do Cavacas, na iminência de me encontrar com a infância e adolescência, apesar de não reconhecer os rostos que tornam hoje o local seu. O meu pedaço de mar tornou-se menos íntimo, menos perigoso, mais previsível e muito mais aborrecido. Agora temos vigilantes que controlam-nos as braçadas. A língua é-nos interdita, à distância do assobiar insistente, seguido de gesto que intimida ao regresso obediente. Os saltos são proibidos por avisos colocados nos locais de memória, os mesmos onde fazíamos fila para nos atirarmos para um quase infinito.
Já não é meu este pedaço de mar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Gun Girls

O mote lançado com o post sobre as mulheres, violência e condição emocional levou-me não só a retirar o livro da estante, como despoletou uma releitura do mesmo. Uma semana depois duas considerações: tenho uma memória que passou há muito de prazo. Releio o livro quase como se fosse a primeira leitura, o que me irrita formidavelmente. Um hiato de sete anos não justifica tanta selecção de informação.

A segunda consideração, um bocadinho mais séria, mas menos preocupante. Em quase todos os relatos de mulheres que optaram pela luta armada (algumas com laivos narcisistas, como foi o caso da Leila Kahled, a primeira mulher a sequestrar um avião) as convicções eram perfeitamente inabaláveis, e ainda hoje entendem que as suas acções são justificadas pela época. À excepção de Sibylle Vorderbrugge - que evoca a paixão pelo líder do movimento neo-nazi alemão e lamenta profundamente as suas acções - os testemunhos são unânimes em apontar a causa como a motivação central da adesão e empenho na dita luta armada.
Muito curioso também é o facto de, no caso do grupo Baader-Meinhof (que depois deu origem às RAF) apesar do nome do elemento masculino constituir uma parte da nomenclatura pelo qual o grupo ficou conhecido (Andreas Baader), a maior parte das ofensivas foram planeadas e perpretadas pelos elementos femininos do bando. Mais assinalável ainda é o facto de Andreas funcionar apenas como um elemento fraco e irascível. Na verdade, os cérebros do bando eram Gudrun Ensslin (companheira de Andreas) e Ulrike Meinhof, jornalista que aderiu à causa depois de ter entrevistado Gudrun. Consta que o seu poder persuasivo era enorme.

(little) Self stabbing exercice (once or twice a day)

Lamentavelmente, desconheço a autoria da foto....

Um sofá maior para o RPS, já!

Se forem precisos mais mantimentos, enviamos. Só não sei é se chegarão a tempo. Ainda assim, deixa-te estar quietinho no sofá e escreve-nos mais vezes.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

"Qualquer queda permanece na certeza da emergência"*

Sobre mulheres que trocam a filosofia pela religião, nada tenho a dizer (até porque a expressão noiva de Cristo me provoca graves comichões). Devoções à parte, a figura de Heidegger merece-me algumas perplexidades. Funciona em mim como esse outro génio, a quem presto devoção nomeadamente na audição do Prelúdio de Tristão e Isolda. Homens indignos com um labor genial, que nos obriga a transcender a sua (pouca) humanidade.
Ao homem que se filiou no partido nazi e escreveu loas ao ditador pertencem algumas das páginas mais importantes da filosofia contemporânea. O filósofo inscrito na infâmia do século XX inspirou outros tantos de origem judaica, atraídos pelo brilho do seu pensamento, mais caligrafia que homem. Não terá sido apenas Husserl que Heidegger traiu. Quando evoco esse episódio, lembro-me sempre no que deve ter significado tal filiação a Hannah Arend't, judia, aluna e amante.
A traição não é novidade nos corredores da filosofia. Lembremo-nos desse Agostinho que dizem santo e que só assim se tornou no dia em que abandonou a mulher com quem vivia e retirou-lhe o filho de ambos. A filosofia às vezes parece mesmo uma rameira, em que se sacrifica tudo no altar de uma razão velada.

*Obviamente, Heidegger.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Um blog cada vez mais plural


Temos novo homem cá no blog, para fazer companhia a Mr. Lekker. Ao nosso novo membro ainda falta passar pela adolescência, mas é de pequenino que... Por enquanto, o coração balança-lhe entre a música e o desporto - Ténis a 100%, futebol a 10%, como menino inteligente que é.

13 - A Rainha

Uma Rainha adoradora do Sol só poderia ter nascido em pleno Agosto. Exorta-se que hoje se cumpra escrupulosamente o conselho do vídeo que a seguir se coloca, em honra à nossa Nefertiti.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Primeira epístola de Kiara a RPS

Caro amigo:
Pelos vistos sou a única gata que suporta. Assim, a dignidade felina e a amizade que lhe voto obriga-me a comentar o seu último post sobre as olimpíadas, que padece de algumas confusões conceptuais ao que nos diz respeito. Nada de grave, mas a sua inimizade quanto à espécie (que não é extensível a mim, bem sei) pode provocar este tipo de equívocos quanto às nossas preferências.
RPS, se há coisa muito pouco abichanada, são saltos para água (seja esta gelada, fria, tépida ou quente). Nós não a suportamos e, portanto, não andamos aos saltos sincronizados para dentro de uma tigela gigante. Queremos distância, na verdade. Tal perspectiva apenas origina reacções adversas: bigodes torcidos, ameaças guturais, arranhadelas estratégicas pautam a relação de um bichano com a criatura que o quiser amandar para uma situação destas. Portanto, não há treinador que valha, nem treino que miraculosamente ultrapasse esta fobia colectiva.
Quer saber de uma modalidade abichanada? A esgrima, como é óbvio. A aquisição do equipamento sai-nos francamente em conta, desde que não se ponham com a piada de nos apararem o(s) florete(s).

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pouca Visão

Sabemos bem o que um bocadinho de sol e calor provoca nos media. Aliás, há anos que a época é imbecilmente chamada de silly season, supostamente porque nada se passa (aquele pequeno pormenor da Geórgia é engano), porque nada se diz, porque nada se faz (o que no meu caso é bem verdade e isso se calhar valerá um outro post). E, portanto, também as revistas não são de ferro. Desde o início do Verão que a Visão se tem escudado nas capas sobre locais onde fazer férias. E com esta manobra de diversão, lá vai safando edição atrás de edição.
Sou leitora assídua há 6 anos. Primeiramente, com o ritual de a comprar às sextas, por vezes aos sábados quando ainda não tinha chegado. Depois, cansei-me e assinei a bicha. E confesso que os amores esmorecem e as idas à caixa de correio são mais tardias. A desta semana, por exemplo, só a retirei ontem, enfadadamente, à espera de mais do mesmo. Porque assim tem sido; à excepção de algumas crónicas ou algumas matérias mais ou menos inspiradas, a verdade é que a qualidade tem vindo a perder-se nos meandros das notícias que anunciam garbosamente os números de vendas.
Mas não é (só) isto que motiva este post. A Visão desta semana, para além de me provocar mais alguns bocejos enquanto mecanicamente lhe passo revista, provocou uma certa irritação o artigo Sem Vida Nem Livros, no separador pomposamente etiquetado como Portugal - Governo. Ao longo da leitura do artigo, fiquei a saber que este era uma quase impossibilidade. Ora, inicialmente achei engraçado que a autora desfiasse as agruras de uma repórter em busca do livro favorito dos membros do executivo. Em 17 ministros, apenas 3 responderam ao repto da jornalista. E aqui registo a falta de três bem mediáticos: o Primeiro, que alardeou há uns tempos não perceber nada de Hegel, mas simpatizar com Popper, a Ministra da Educação e o Ministro da Cultura. Ora, num quiz sobre livros, parece-me estranho que estas três personalidades tenham adiado indefinidamente a resposta. Ná área que me é mais próxima, não me surpreende que a nossa senhora da Educação ande um bocadinho baralhada em busca do livro (e o que é um livro?) favorito. Enterrada entre tanto computador salvador do intelecto das nossas criancinhas, já nem deve reconhecer o formato. Eu por mim ia mais longe e substituia de uma vez as criancinhas por computadores e o assunto ficava logo arrumado. A ver se as estatísticas não respondiam condignamente aos números do Ministério. Adiante.
De regresso ao assunto que perdi algures no post. O inquérito. As coisas azedaram no que me diz respeito quando a leitura conduziu-me para as escolhas dos três homens que responderam - a saber, Augusto Santos Silva, Rui Pereira e Nuno Severiano Teixeira. Estas foram submetidas a uma rigorosa avaliação de três peritos - Pedro Mexia, Eduardo Pitta e Carlos Reis - que interpretaram as entrelinhas. No caso específico da avaliação de Eduardo Pitta, este permitiu-se a tecer mais algumas considerações absolutamente pretensiosas. A avaliação, na verdade, disse mais de quem avaliou do que propriamente das obras referidas, ou dos Ministros sobre fogo. Reiterei duas impressões minhas: o Eduardo Pitta é absolutamente insuportável e a Visão está uma grande porcaria (para não usar termo mais forte mas, certamente, mais adequado).

domingo, 10 de agosto de 2008

Weekend

E mais não digo....

Desabafo de ouvinte ocasional *

*Contra-resposta ao desabafo de RPS
O comentário mais deplorável que ouvi foi na Antena1, proferido por um comentador (não faço ideia quanto ao seu nome) que descrevia da seguinte forma um dos momentos do espectáculo de abertura: São muitas meninas bonitas com vestidos lindos. A riqueza da descrição fez-me lamentar ouvir tão poucas vezes rádio (eu bem tento contrariar esta minha pouca apetência).
A bem ouvir, a frase até pode funcionar como mantra. Ora repitamos exaustivamente: São muitas meninas bonitas com vestidos lindos. São muitas meninas bonitas com vestidos lindos. São muitas meninas bonitas com vestidos lindos...

Ontem

(Quase) comi manga à conversa com o Jorge e com a Sara.
Sim Jorge. Gosto.

Lullaby de Domingo



Uma peculiar combinação de timbres:
Isobel Campbell e Mark Lanegan

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Livro de Cabeceira 1


Um início fabuloso, este, de Dickens.
(aqui).

Livro de Cabeceira

Exercício interessante proposto pelo Bibliotecário de Babel.
Rendida à escolha do leitor Pedro (a primeira). Magnífica.

"Je suis Action Directe"*

Grupo Baader-Meinhof

Esta questão sobre o ingresso das mulheres em grupos especiais das forças armadas tem suscitado reacções mais ou menos racionais por todo o lado. De repente, mais uma vez lá acontece esta história de se permitir que se candidatem a forças mais especializadas quando todos sabemos, à partida, que as mulheres não passarão as provas requisitadas. O que, desde logo, coloca dúvidas quanto à natureza deste argumento. É que assim sendo, não há problema para os defensores da interdição e esta é, portanto absurda: permita-se, que a natureza encarregar-se-á do resto.

No DN de hoje, lê-se mais uma vez o desfiar dos argumentos dos nossos valorosos guerreiros sobre esta questão. Particular atenção para a afirmação de um almirante, que defende que certas forças de elite deverão continuar interditas a elementos do sexo feminino porque, entre outros, a "emotividade das mulheres desaconselha que entrem em combate directo". A ingenuidade de tal afirmação, a repetição de um arquétipo repetido até à exaustão, conduz-me a um livro que li há alguns anos atrás. Matem as Mulheres Primeiro, resulta de um trabalho de investigação de uma jornalista, Eileen MacDonald, que entrevistou algumas das mulheres que integraram os grupos terroristas mais conhecidos: ETA, IRA, Intifada Palestiniana, Brigadas Vermelhas italianas, o grupo Baader-Meinhof, a Facção do Exército Vermelho, Action Directe (grupo revolucionário francês). Todos estes grupos integraram mulheres nas suas fileiras que acederam conversar com a autora do livro, do qual vos deixo o seguinte excerto da introdução:

"«O primeiro alvo são as mulheres», era, segundo se diz, uma instrução dada aos recrutas do esquadrão antiterrorista da Alemanha Federal, bem como uma recomendação que a Interpol fazia aos outros serviços secretos europeus. Falei com vários membros destas organizações, e embora nenhum deles tenha confirmado que alguma vez tivesse recebido tal instrução, todos a consideravam um conselho precioso. Herr Christian Lochte, director do serviço de recolha de informação sobre movimentos subversivos alemães (...), que tem mais de vinte anos de experiência no estudo dos revolucionários políticos que tantos atentados cometeram no seu País, comentou: «A quem quer que tenha amor à vida, alvejar primeiros as mulheres é uma atitude muito inteligente. A minha experiência diz-me que as mulheres terroristas têm um carácter mais forte, mais poder, mais energia. Há alguns exemplos em que os homens hesitam por momentos na hora de disparar, ao passo que as mulheres o fazem de imediato. Este é um fenómeno generalizado entre os terroristas.»"

Com isto depreende-se que a imagem tradicional que tanto tem toldado uma verdadeira leitura das diferenças entre géneros - a mesma que levou o ilustre almirante, certamente convicto, a usar o argumento do excesso de emotividade - poderá ter nuances menos esperadas pelos garbosos heróis. A verdade é que a violência feminina é ainda matéria delicada - delicadeza é mesmo a palavra de ordem: espera-se que a mulher corresponda plenamente ao arquétipo de Mãe, piedosa e amantíssima, protectora dos lares, dotada de cílios freneticamente pestanejantes e achaques respiratórios. O problema é que, por vezes, com esta imagem, sai o tiro pela culatra. Ou melhor, em cheio.

*Citação de uma integrante das suas fileiras, proferida aquando da sua detenção, enquanto disparava contra a polícia. O namorado entregou-se pacificamente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Desassossegos 4 - Crónica de uma gata tramada


Ao iniciar este meu escrito, já deveis saber qual o meu estado de espírito. Mea culpa. Só vos escrevo quando acometida de grave crise: seja existencial ou não.
O que me traz hoje até vós é, garantidamente, uma tragédia: sou uma gata a descoberto. Apanhada em flagrante delito - que não em flagrante delitro; esse aconteceu logo após o meu primeiro mês de existência. Saídinha do meu quartinho de República Coimbrã, ainda mal segura nas minhas quatro patas, fomos a casa de uma amiga da Woab, ali mesmo ao lado. Fugiu-me a língua para a verdade e afiambrei-me a umas garrafas vazias de cerveja que estavam debaixo da mesa da cozinha: a consciencialização da minha vergonha! A risota das observadoras! Enfim, já lá vai e deixo-me de divagações. Dizia eu que fui apanhada em flagrante delito. Não será propriamente um delito maior. É assim algo pequenino, quase um pormenor. Mas era meu. O meu passe de mágica. O mistério por desvendar.
Fui finalmente apanhada a abrir as portas. Oh desgraça! O meu truque mais recôndito, o meu segredo mais bem guardado comentado displicentemente ao almoço, entre duas garfadas e goles de água, por aquela fulana que aqui aparece uma vez por semana e acciona aspiradores e outros elementos ensurdecedores. E ela, Woab, a ouvi-la atentamente. E eu ali, desesperada para que de repente, Deus misericordioso tornasse aquela cozinha numa nova Babel; que não se entendessem; que de repente a língua se tornasse estranha e que não se descodificasse as palavras proferidas. Ou então uma surdez súbita. Ou uma amnésia temporária. Mas nada. As palavras ressoaram e já não foi possível voltar para trás: Ela - eu - abre a porta no puxador. Estica-se toda e com uma das patas pressiona o puxador da porta.
O meu truque menor já conheciam. Quando encontro uma porta mal fechada, enfio as minhas delicadas patas no fio de abertura até desprender o trinco. Mas este! Este meu truque de escancarar portas exemplarmente fechadas era do desconhecimento total. Acabou-se a magia; as entradas em pés de lã e o espanto nos olhos dos outros. Acabou-se a descrença na minha capacidade de observação e de identificação do puxador como a chave para o outro lado. Tomam-me por perspicaz, senhores. Passei de engraçada a sagaz. Um horror. Agora não vão deixar-me em paz e vão querer que rebole e apanhe paus. Não tarda nada, vão exigir que ladre e obedeça. É que ladrar ainda posso pensar no assunto. Agora obedecer...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Evangelho segundo Clarice*

"No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila (...) pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.
(...) A brisa arrepiou-lhe os cabelo da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre - (...) - seu olhar ferido pela grande surpresa, (...), a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto."
Clarice Lispector, Laços de Família


*Tivesse eu acesso a todos eles...

domingo, 3 de agosto de 2008

Lullaby de Domingo

Imbuída do espírito que guiou Jorge C a Coura (com imediata romagem à Capital sem elucidar os seus leitores), impossibilitada de subir Paredes rumo à anarquia...



...esta singela lullaby de um madman anterior aos pistoleiros de Londres.

sábado, 2 de agosto de 2008

Quem é a gaja?


Não sabes quem é a cachopa? (Ceridwen)

Não, mas foi fotografada pelo meu amantíssimo Man Ray. (Woab)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Não será necessário o acordo do trabalhador em questão

Nada a opor, desde que o salário de P.M. seja pago integralmente com bengaladas.*

*O recurso à bengalada foi-me avivado recentemente como um excelente meio para resolver determinadas questões. No caso que agora apresento, afigurasse-me excelente.
Que fique registada a minha profunda tristeza por aconselhar tal remuneração a um homem chamado Sócrates. Já não se fazem Sócrates como antigamente.

"Todas as cartas de amor são ridículas"*

No entanto, esta é deveras irresistível. Gosto particularmente da alusão ao dever social para com o País. Foi o que se viu.

*Álvaro de Campos