domingo, 14 de setembro de 2008

Morfeu

Ao escutar-lhe o relato do sonho, sente que este podia ser seu:
E é ela que foge de quarto em quarto, é ela que tenta escapar à voz que insiste na técnica da definição, é ela que procura desesperadamente alcançar a (s) porta(s) que se encerra(m). E se a definição a persegue, se a acto de conceptualizar a esgota, se quase soçobra perante o poder da voz, por fim reencontra-se e escapa; e o penúltimo suspiro torna-se o primeiro, fôlego derradeiro e originário da fuga e a voz perde-se e é a mão que a conduz, não mais a voz que (a) define.

Pela sua mão, revelada lentamente. Tornada sentidos.

Obra de Raúl Perez

Lullaby de Domingo


Hoje é impossível escapar à suavidade da palavra (e da mão) que (se) revela.



"Dire
Ce que l'on pense
(...)
NE PLUS SAVOIR à quoi s’attendre."

sábado, 13 de setembro de 2008

"Je ne sais pas, il faut croire. (...)"*

E de repente, em magnífico final de tarde, o olhar límpido desafia-me a tranquilidade (tanto quanto a Razão empacotada na sala ao lado) e pergunta-me na despedida: "Vamos dar cabo de tudo isto?" Não consigo deixar de anuir e sorrir. É enorme a tarefa, mas como não responder à lucidez dos seus sonhos?
"-Des larmes qui voient... Vous croyez? - Je ne sais pas, il faut croire. (...)"
Jacques Derrida, Mémoires d'Aveugle

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"mais importante que andar é descalçar os sapatos" António Dacosta (estação do metropolitano de Lisboa, Cais do Sodré)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Cosmogonia funiana 2

Algumas dúvidas perpassam pelos teóricos do universo funiano: será Privada o ser maior do que o qual nada pode ser pensado? Funes enciumado responde que, a sê-lo, será obviamente culpado de todo o mal. Privada responde com uma lírica encriptada. Insondáveis são os caminhos do Senhor.

Cosmogonia funiana

Funes assume-se como a Sarah Palin das divindades. Os discípulos perguntam-se se a alucinação inclui o uso de baton.

Anedotário partidário 2

Eu errei, claro que errei. Mas errei na certeza de que a decisão iria ser repensada. Por isso esperei um ano (e esperaria mais, não fosse a coisa transpirar cá para fora).

Anedotário partidário

Não queres mais brincar aos gajos graves? Olha, pensa bem e responde-me daqui a um ano. Não digo nada ao people, ok? Que nós aqui somos gente séria.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Manual de sobrevivência para não falantes

"O Golem é um homem feito de argila e visco. Não sabe falar. Trabalha como criado. Nunca sai de casa. Na fronte tem escrito Emeth (verdade). Todos os dias cresce e torna-se mais forte. Com receio dele, é-lhe apagada da fronte a primeira letra e fica só Meth (morreu); então ele desmorona-se e reduz-se a argila."
G.B. Scholem, citado em rodapé por
Roland Barthes em Fragmentos de Um Discurso Amoroso

A verdade revela? Ou quando se pronuncia já é tempo de morte?

sábado, 6 de setembro de 2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Resposta de uma esquerdina a uma moderada e a um destro que ainda por cima é memorioso

O Ministério é um bocadinho mais retorcido: acaba com os professores, transformando-(n)os em funcionários de secretaria. E desde que as estatísticas reflictam sucesso... Por isso acredito que qualquer dia os piquenos são dispensados e os certificados são directamente enviados para a maternidade.

A esquerdina, apesar do pormenor de escrever à esquerda, por vezes coincide com o Memorioso que escreve com a direita. É estranho, mas é um daqueles momentos absolutamente transitórios. Dentro de momentos, tudo voltará à normalidade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Cogitações avulsas de uma esquerdina

A cadeia Modelo/Continente captou bem a essência da política de educação (quase sacrilégio escrever esta expressão) em Portugal: com material informático e desportivo o assunto está resolvido. Eu iria mais longe e dispensava os piquenos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Os animais que poderia ter sido, mas não é!

Cheios de graça, benditos sois vós os vinculados

O regresso à escola reaviva algumas particularidades inerentes ao processo de recrutamento dos profissionais necessários para um novo ano lectivo, nomeadamente no que diz respeito aos professores. Neste campo, temos duas situações: docentes que são contratados e docentes vinculados ao Ministério (por enquanto em Quadro de Zona Pedagógica ou em Quadro de Escola). Tendo em conta a delicadeza do ofício, é exigido aos docentes contratados que apresentem uma cópia do registo criminal. À partida, a medida é pertinente. Afinal de contas, a delicadeza do ofício torna pertinente tal requisito. assim, anualmente, mesmo que o professor renove contrato no estabelecimento de ensino do ano transacto, apresenta novamente a cópia do dito registo. Continua a ser relevante, já que em um ano, efectivamente a fiocha do funcionário pode ter registado, efectivamente, uma alteração de situação que exija ponderação quanto à renovação do contrato. Caricato é que tal documentação deixe de ser exigida assim que um docente passe à situação de vínculo efectivo ao Ministério. Supõe-se que exista algures um estudo que comprove que os docentes depois da vinculação atingem um estado de graça que era totalmente inexistente na situação anterior; supõe-se que a propensão para a delinquência desapareça com o surgimento de uma situação de maior estabilidade profissional. Dita a lei que uma vez vinculado, nunca mais prevaricador. É obra.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Petit manuel à l'usage des amoureux

"O ser que espera não é real. Tal como o seio da mãe para o recém-nascido, «crio-o e recrio-o sem cessar a partir da necessidade que tenho dele»: o outro chega ali onde o espero, ali onde já o criei. E, se ele não chega, alucino-o: a espera é um delírio.
(...).
«Estou apaixonado? - Sim, pois espero.» O outro nunca espera. Por vezes pretendo agir como quem não espera; tento ocupar-me com outra coisa, chegar atrasado; mas, neste jogo, perco sempre: faça o que fizer, encontro-me desocupado, sou pontual e até chego adiantado. Outra não é a identidade fatal do apaixonado: sou eu quem espera."
Roland Barthes, Fragmentos do Discurso Amoroso

domingo, 31 de agosto de 2008

Once upon a time... ( a whispered story)

(Fotografia de Diane Arbus)

Já é tempo de assassinarmos a Cinderela, não achas?

Lullaby de Domingo

A melhor versão que ouvi até hoje - e não coloco o meu ouvido no fogo, já que com a Nina nunca se sabe. Já lhe ouvi várias, mas esta é a minha favorita. Adequada ao calor dos tempos, aos dias que discorrem lentamente, sem brisa, sob a égide de um sol abrasador(hoje o dia não foi exemplo).


sábado, 30 de agosto de 2008

Must try to fly (diz o Jorge)

Felizmente, o Jorge C encerra a minha noite com isto. Nem tudo está perdido: exorcizo as porcarias que andei a ouvir e durmo consolada.

Cruzes, credo, abrenúncio!

"For I dance
And drink & sing:
Till some blind hand
Shall brush my wing.
If thought is life
And strenght & breath:
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live,
Or if I die."
William Blake, Songs Of Innocence and of Experience
Algumas novas experiências podiam ser evitadas.
Não torno a ser apanhada em arraiais de Verão.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Quando tocadas pelo inantingível *

Há dias felizes. Que não se anunciam quando as pálpebras se abrem e olhamos difusamente para o tecto do quarto, ou para as paredes brancas, ou para a gata amarela que nos fixa curiosa. Os dias felizes não se denunciam imediatamente. Surgem sorrateiros, com uma cadência lenta. Levantamo-nos e parecem exactamente iguais aos outros. As mesmas rotinas; o pequeno almoço estremunhado em pijama, lento, o prolongamento dos gestos na preguiça de quem não quer recomeçar, ainda. O duche morno, a vestimenta escolhida quase por acaso, sem ponderar longamente. Não interessa.
Nos dias felizes, há sempre um acontecimento chave, que despoleta o sorriso. Uma chave de correio, uma escrita inesperada, uma lembrança preciosa que acolhemos no sorriso com que a recebemos.
Nos dias felizes, os amigos dizem-nos, por palavras encriptadas, que pensaram em nós, que leram por/em nós, na impossibilidade de lermos. Dizem da novidade e discutem connosco as possibilidades. Ou apenas simplesmente o amor.
Os dias felizes por vezes aparecem em catadupa, com pequenas situações que nos preenchem as horas e nem nos apercebemos que são mesmo felizes. Percebemos depois, na hora de fechar os olhos, a perder de vista o tecto do quarto ou as paredes brancas ou a gata que insiste em fixar-nos, ainda curiosa.

*Título inspirado em leituras sobre Levinas, mas que em nada compromete o autor.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

"la libertad"

Formatações

Fotografia de Henri Cartier-Bresson

Nem só de mulheres inconformadas é feito Matem as Mulheres Primeiro. Um dos casos descritos quebra em absoluto a noção de marginalidade que pauta os restantes. Uma das mulheres entrevistadas foi claramente manipulada pelo seu contexto a fim de se tornar numa executante quase perfeita dos desígnios da sua Pátria. Kim Hyon Hui foi uma norte-coreana encarregue de fazer explodir um voo que tinha por destino Seul, no ano anterior aos Jogos Olímpicos.
Segundo a autora, esta mulher foi a única que não manifestou o mínimo de confusão mental em relação às suas acções. Aliás, a haver emoção, esta residia não na perspectiva do sofrimento que inflingiria às vítimas e seus familiares, mas sim em relação à envergadura da acção que lhe tinha sido exigida pelo seu País, sendo ela tão nova (à data da captura tinha 25 anos). O perfil desta mulher não se coaduna minimamente com as restantes: não pretende mudar o sistema em que vive, não almeja alcançar uma mudança social profunda mesmo que a custo da perpretação de violência contra terceiros. A justificação prestada relembra essa outra apresentada em 60 por Eichmann em Jerusalém: limitou-se a cumprir ordens.
É preciso compreender o ambiente em que Kim viveu. "É uma sociedade enigmática e paranóica. as populações vivem em pequenas unidades habitacionais e uma em cada cinco famílias está incumbida de informar o Estado das actividades dos vizinhos e dos próprios familiares. As crianças são induzidas a pôr a lealdade ao Estado à frente da lealdade à família. " Mais à frente podemos ler que "O Partido dizia às mães que não se preocupassem em dar mimos e atenções às crianças em casa. eles encarregar-se-iam de lhes dar tudo o que elas precisavam. O sistema tinha por função conceber revolucionários convictos e trabalhadores e estava organizado de modo a evitar a influência parental. Horários de trabalho sobrecarregados faziam com que não sobrasse tempo às mães para se dedicarem aos filhos. (...) as crianças eram obrigadas a frequentar diversos movimentos infantis e juvenis de apoio ao regime depois da escola." Obviamente que um sistema destes está delineado para a formatação das massas, para a uniformização do pensamento. Ou melhor, para a ausência dele. Criam-se autómatos, cumpridores de um desígnio maior - que no caso era o Estado e o bem do Grande Chefe. Uma das características mais marcantes na leitura do percurso de Kim é a de que é uma mulher profundamente conservadora, que sempre tentou corresponder às expectativas do seu País. Nunca foi incitada a pensar e os ensinamentos sempre lhe foram apresentados como verdades absolutas. E uma verdade não é contestada, à verdade obedece-se, porque não apresenta dúvidas, porque é a melhor para todos. Porque é clara e distinta.
O pensamento que se apresenta como uniforme e pouco susceptível à dúvida não chega a ser pensamento. A educação resume-se a adestramento e a jogos mentais equivalentes às proezas que ensinamos o nosso animal de estimação a fazer para exibir perante terceiros.
Alguns dos relatos referentes a esta mulher aproximam-se perigosamente à forma como cada vez mais nos organizamos e educamos as nossas crianças. Estranhamos cada vez mais a diferença, ainda que a tentativa de anulação da mesma recorra a metodologias mais discretas. Formamos essencialmente funcionários especializados. E um funcionário não questiona, não repensa, não se distancia. Um funcionário, cumpre as ordens de alguém que acredita pensar melhor que ele.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

memórias das áfricas portuguesas

(ele) ainda hoje traz as cicatrizes na cabeça, daquele dia em que, por ter roubado uns carrinhos de linhas, a dona da retrosaria lhe tatuou o crânio com as agulhas de croché. Não eram umas agulhas quaisquer e ficaram inutilizadas, queixara-se a dona da loja. E o outro que de preto passou a vermelho, não por ser comunista, mas por apanhar de todos antes de ser levado pela polícia militar. Parecia uma lapidação. E quando, na fila da farmácia, fez questão de esperar pela sua vez, negando o privilégio da cor da pele? "Eles bem podem esperar, mas a menina é que sabe", vociferou o farmacêutico. Era a época em que as meninas saloias, que usavam carrapito, deixavam nele cair a catana do preto para se tornarem "donas". E daquela vez que o rapaz que lhes levava as compras foi acusado de roubar a fruta? Esmagaram-lhe a tíbia, a face esquerda inchou tanto que o olho não abria e a mão esquerda perdeu o indicador, conta perturbada ante a visão o preto enfiado numa cama improvisada enquanto aguardava o senhor doutor. E ele, a seu lado, com a sua figura gigante, suspirava: "ai, se eu não vestisse uma farda", e ela sabia que o que ele não dizia era "ia lá terminar com aquela vergonha". Nunca percebeu se sem farda acabaria com as desigualdades ou se com a vida do preto.

domingo, 24 de agosto de 2008

Lullaby de Domingo

Qualquer coisa de intermédio...
Uma faixa da banda sonora de My Blueberry Nights que remete para In The Mood For Love.


sábado, 23 de agosto de 2008

what is good about imagination....

Teatro - sem qualquer hesitação, seguia-se um bailado de Pina Bausch (não faço por menos) ou com a Margot Fonteyn (deixem-me lá, estou a imaginar, não estou? Por isso posso imaginá-la viva a pisar os palcos mais uma vez!). Depois disto... (ainda tenho algumas horas...) ia ao cinema (re)ver o Microcosmos, e por último, num pulinho....ia ver isto.

Quanto ao filme a ver (neste caso, a rever): Closet Land

Livros: ando há tempos a ver se encontro o Mary Reilly, da Valerie Martin e o The color Purple, da Alice Walker.

The unbearable lightness of summer

O Luís, que agora assina no Mictório Luzidio, desafia-me a responder a uma dessas populares correntes que acontecem maioritariamente no Verão. Pois bem, o cumprimento da minha tarefa será rápido e (quase) indolor.

Se, durante vinte e quatro horas em férias, pudesse assistir aos seguintes eventos, qual a ordem cronológica que escolheria para fazê-lo - dança/bailado; peça de teatro; exposição; cinema?

Em primeiro lugar, as minha primeiras opções não encontram aqui lugar. Obviamente, Nick Cave. De preferência uma sessão intimista, para poucos, Mr. N.C. numa sessão de faixas pedidas. Ou então, assistir a uma ópera. Não uma qualquer. Tristão e Isolda, pois claro. Ou a Tosca (este libreto não me sai da ideia). Ou Madame Butterfly. Melhor ainda se interpretadas pela Callas (a importância do Se aqui é fulcral).
Ora, mas estas não são possibilidades que integram o interrogatório. Assim, dadas as hipóteses, escolheria:
Exposição (não me sai da ideia a que esteve no Tate Modern e que uns e outros estiveram à porta de telemóvel na mão a fazer figas aos pobres).
Teatro.
Cinema.
Dança/Bailado.

Um filme visto ou revisto recentemente e um filme a ver ou rever?

Revi recentemente o Eduardo Mãos de Tesoura. Encontrei-o na FNAC a um preço jeitoso e não deixei passar.
Quanto a filme a ver, obviamente, My Blueberry Nights. Quando por cá passou, estava eu no Congresso e acabei por perder a oportunidade. E aqui faço batota e acrescento que graças ao facto de ter ouvido novamente parte da banda sonora, fiquei com imensa vontade de rever (again and again) In The Mood For Love, DVD que emprestei.

- Um livro lido recentemente e um livro a ler ou reler?
Recentemente, às voltas com Laços de Família, da (minha) Clarice.
Um livro que quero muito ler... A Maçã no Escuro, também da Clarice (e que tenho esperança de o fazer em Setembro, graças à generosidade de um amigo que o transportará de terras mais férteis). Quero também ler A Campânula de Vidro, da Sylvia Plath, mas parece-me que por este terei que esperar bem mais.

Agora a parte gira da coisa, que é quando tenho a oportunidade de remoer o juízo de algumas pessoas, ao passar-lhes a bolinha: o pessoal que assina este blog. Acercai-vos do pc, seus preguiçosos (Ceridwen, querida, sabes que a acusação de preguiça não é para ti), Sancho, Jorge C, Funes (vá lá, irrite-se, reclame, riposte com um post bem humorado), Blue e Su.

ralhetes

"Ceridwen: tens que parar com essa mania de estar sempre a olhar para o teu umbigo!
Para o teu umbigo olhamos nós, tu olhas para o umbigo dos outros!"

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Who's afraid of the F Word? 2

"Recordo-me que quando nos manifestávamos contra a lei antiaborto, os polícias vinham, desapertavam os cintos e batiam-nos com eles. Não usavam os cacetes, como teriam feito numa manifestação de estudantes, por sermos todas mulheres."

O episódio é descrito por Susana Ronconi (in Matem Primeiro as Mulheres, já antes referenciado aqui), membro das Brigadas Vermelhas Italianas, que antes de enveredar por essa vertente mais radical e violenta, integrou um grupo feminista chamado Lotta Femminista. O simbolismo dos cintos arrancados à cintura para punir aquelas mulheres inconformistas é flagrante. A agressão colectiva tornada íntima, com o instrumento punitivo das traquinices de quem precisa aprender a não desafiar a autoridade. Cada cinto a berrar-lhes Não são dignas de ser levadas a sério. O episódio tem 30 anos. Muito pouco tempo para repetirmos incessantemente que agora tudo vai bem.

Humor bestial

Na caixa de comentários.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

História de uma outra cidade

500
Duplo acesso: a partir da Ilha e para a Ilha.



Uma belíssima faixa de Fausto que não me permite nenhuma outra relação a não ser com esta Ilha. Tal como na leitura, ouvir também é sempre trair...

Porto, cidade com muito encanto

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Pela boca morre o peixe

"O mau argumento do mais autoritário dos autores cai com estrondo se for mau e se for visível que é mau, porque a racionalidade não é dele nem de qualquer outra pessoa."
Desidério Murcho, O Carcereiro Libertário in Público de 19-8-08


Começo por dizer que considero este passo do texto interessante. O restante é que deixa seriamente a desejar. E começo logo com a primeira expressão: atirar com um inócuo "há quem pense" também não constitui um estupro intelectual ao estimado leitor? Aliás, o texto pauta-se por uma série de acusações veladas que em momento algum permite ao leitor a sua verificação. A determinada altura é afirmado que quando estudamos autores que acusam a razão e a lógica de serem autoritárias, nenhuma razão nos é dada para aceitar o que afirmam. Contudo, não adianta a que autores se refere, nem tão pouco a que argumentos se reporta (percebemos mais à frente porquê). Assim, não apresenta nenhuma razão para que aceitemos o que afirma, o que me leva a perguntar: mas então temos que engolir o que afirma o autor do texto tendo por única fundamentação a sua autoridade? O Desidério diz que há autores que...
A rematar esta ligeiríssima reflexão sobre um dos mais proeminentes defensores da racionalidade, da verdade, da lógica, da ciência e da argumentação (esta amálgama confunde-me seriamente), uma outra citação do referido texto:

"O simples esforço de decifração dos textos de tais autores* é suficiente para adormecer o nosso sentido crítico, e o objectivo dessas bestas é precisamente provocar o adormecimento do intelecto."

*Repito, em momento algum o texto é claro quanto aos autores a quem é dirigida a acusação de estupro intelectual, nem tão pouco é devidamente esclarecida a adjectivação de "bestas". Para não cometer nenhuma injustiça, reporto-me ao dicionário para clarificar o conceito:
Besta - animal irracional. Quadrúpede; cavalgadura; pessoa bruta; estúpido; tolo; ignorante.
Caso para dizer que tudo devidamente fundamentado com racionalidade, verdade e lógica. Verdadeiro labor filosófico.

Revisito um post que ficou lá para trás. O caso torna-se tanto mais grave a partir do momento em que esta "metodologia" tem direito de antena em jornal de referência.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Reflexões e suspiros de alívio de uma tia


Do que a minha sobrinha (apresenta-se à família no próximo mês) se livrou...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Who's Afraid of the F Word?

O feminismo é o mesmo que o machismo, mas com mulheres a protagonizá-lo. Mantra, oração, feminismo cruzes credo não, que sou mulher, que gosto de homens, que gosto de mulheres, que gosto de tudo menos de feministas, de mulheres e homens que pensam que as mulheres também pensam. O papão anda aí e até fez Congresso, em que participou gente, pessoas, homens e mulheres, enfim, ridículos que comem homenzinhos ao pequeno almoço e testículos fritos no cinema e conversam sobre isso e se riem sobre essas ida ao cinema, humores que não gostam das respostas humoradas e queimam feministas como vacas sagradas. Goza-se o feminismo com genuíno gozo, com desprezo, que essas preocupações são ridículas, que são todos idiotas e nós não temos medo, nem dos feministas, nem das fêmeas, nem dos machos que dizem que o feminismo é coisa séria e para ter em atenção. Abata-se o feminismo e os feministas e as feministas que nós somos País sério, com preocupações sisudas, que não gostamos dessas coisas de apontar o dedo e tocar nas feridas, que não são para se mostrar, são para se esconder ciosamente, deixá-las entrar em putrefacção, que o cheiro disfarça-se e a maquilhagem esconde o aspecto. Eu não sou feminista, que não sou machista, que não, não sou...

Pequim 2008: ouro, prata e bronze para Portugal

Na modalidade de má língua ninguém nos bate.

Finding

Leio(-me n)as tuas páginas, Clarice.

domingo, 17 de agosto de 2008

Finding Sylvia Plath

"Between myself and myself.
I scratch like a cat."
Sylvia Plath, The Other


Há já algum tempo que vejo aqui e ali referências a Sylvia Plath. Desta vez, com o Bibliotecário de Babel, convenci-me que tenho mesmo que partir à descoberta desta senhora.

Lullaby de Domingo

Continuo com a temática das mulheres com o dedo no gatilho, desta feita com o auxílio de Mr. Tom Waits.



"With one eye on the pistol the other on the door"

sábado, 16 de agosto de 2008

É de ontem atirar-se à água e desafiar as normas

Fotografia tirada deste site.

Para um ilhéu, o mar é dado adquirido. E em tanto mar, há sempre um azul preferencial, local de eleição para estender os braços e galgar cores e sal. O meu pedaço de mar (há mais de 20 anos) é conhecido como Doca do Cavacas. São reentrâncias onde o titã descansa nos braços rochosos da ilha, espumando furiosa ou gentilmente. Quando amoroso, são muitos os que se atrevem a desafiar a sua generosidade, rasgando o leito que oferece.
Na Doca do Cavacas aprendi não só a nadar, bem como a desafiar o bom senso, atirando-me de locais que hoje são impensáveis. É certo que era das mais cobardes, tímida desafiadora dos patamares mais modestos, outros havendo que desafiavam escarpas bem mais acentuadas. Os saltos e os gritos são ruídos de infância, que acompanhavam os cheiros das manhãs límpidas e das tardes soalheiras. Nadava afincadamente até ao limite das poças, com o mar revolto, engolida pelas águas, redemoinhando à velocidade maior que o pensamento. Debrucei-me em dias mais calmos e deixei que as ondas acariciassem o meu corpo extenuado, estendido na língua que limitava o início do mar bravio.
Todos os anos regresso à Doca do Cavacas, na iminência de me encontrar com a infância e adolescência, apesar de não reconhecer os rostos que tornam hoje o local seu. O meu pedaço de mar tornou-se menos íntimo, menos perigoso, mais previsível e muito mais aborrecido. Agora temos vigilantes que controlam-nos as braçadas. A língua é-nos interdita, à distância do assobiar insistente, seguido de gesto que intimida ao regresso obediente. Os saltos são proibidos por avisos colocados nos locais de memória, os mesmos onde fazíamos fila para nos atirarmos para um quase infinito.
Já não é meu este pedaço de mar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Gun Girls

O mote lançado com o post sobre as mulheres, violência e condição emocional levou-me não só a retirar o livro da estante, como despoletou uma releitura do mesmo. Uma semana depois duas considerações: tenho uma memória que passou há muito de prazo. Releio o livro quase como se fosse a primeira leitura, o que me irrita formidavelmente. Um hiato de sete anos não justifica tanta selecção de informação.

A segunda consideração, um bocadinho mais séria, mas menos preocupante. Em quase todos os relatos de mulheres que optaram pela luta armada (algumas com laivos narcisistas, como foi o caso da Leila Kahled, a primeira mulher a sequestrar um avião) as convicções eram perfeitamente inabaláveis, e ainda hoje entendem que as suas acções são justificadas pela época. À excepção de Sibylle Vorderbrugge - que evoca a paixão pelo líder do movimento neo-nazi alemão e lamenta profundamente as suas acções - os testemunhos são unânimes em apontar a causa como a motivação central da adesão e empenho na dita luta armada.
Muito curioso também é o facto de, no caso do grupo Baader-Meinhof (que depois deu origem às RAF) apesar do nome do elemento masculino constituir uma parte da nomenclatura pelo qual o grupo ficou conhecido (Andreas Baader), a maior parte das ofensivas foram planeadas e perpretadas pelos elementos femininos do bando. Mais assinalável ainda é o facto de Andreas funcionar apenas como um elemento fraco e irascível. Na verdade, os cérebros do bando eram Gudrun Ensslin (companheira de Andreas) e Ulrike Meinhof, jornalista que aderiu à causa depois de ter entrevistado Gudrun. Consta que o seu poder persuasivo era enorme.

(little) Self stabbing exercice (once or twice a day)

Lamentavelmente, desconheço a autoria da foto....

Um sofá maior para o RPS, já!

Se forem precisos mais mantimentos, enviamos. Só não sei é se chegarão a tempo. Ainda assim, deixa-te estar quietinho no sofá e escreve-nos mais vezes.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

"Qualquer queda permanece na certeza da emergência"*

Sobre mulheres que trocam a filosofia pela religião, nada tenho a dizer (até porque a expressão noiva de Cristo me provoca graves comichões). Devoções à parte, a figura de Heidegger merece-me algumas perplexidades. Funciona em mim como esse outro génio, a quem presto devoção nomeadamente na audição do Prelúdio de Tristão e Isolda. Homens indignos com um labor genial, que nos obriga a transcender a sua (pouca) humanidade.
Ao homem que se filiou no partido nazi e escreveu loas ao ditador pertencem algumas das páginas mais importantes da filosofia contemporânea. O filósofo inscrito na infâmia do século XX inspirou outros tantos de origem judaica, atraídos pelo brilho do seu pensamento, mais caligrafia que homem. Não terá sido apenas Husserl que Heidegger traiu. Quando evoco esse episódio, lembro-me sempre no que deve ter significado tal filiação a Hannah Arend't, judia, aluna e amante.
A traição não é novidade nos corredores da filosofia. Lembremo-nos desse Agostinho que dizem santo e que só assim se tornou no dia em que abandonou a mulher com quem vivia e retirou-lhe o filho de ambos. A filosofia às vezes parece mesmo uma rameira, em que se sacrifica tudo no altar de uma razão velada.

*Obviamente, Heidegger.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Um blog cada vez mais plural


Temos novo homem cá no blog, para fazer companhia a Mr. Lekker. Ao nosso novo membro ainda falta passar pela adolescência, mas é de pequenino que... Por enquanto, o coração balança-lhe entre a música e o desporto - Ténis a 100%, futebol a 10%, como menino inteligente que é.

13 - A Rainha

Uma Rainha adoradora do Sol só poderia ter nascido em pleno Agosto. Exorta-se que hoje se cumpra escrupulosamente o conselho do vídeo que a seguir se coloca, em honra à nossa Nefertiti.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Primeira epístola de Kiara a RPS

Caro amigo:
Pelos vistos sou a única gata que suporta. Assim, a dignidade felina e a amizade que lhe voto obriga-me a comentar o seu último post sobre as olimpíadas, que padece de algumas confusões conceptuais ao que nos diz respeito. Nada de grave, mas a sua inimizade quanto à espécie (que não é extensível a mim, bem sei) pode provocar este tipo de equívocos quanto às nossas preferências.
RPS, se há coisa muito pouco abichanada, são saltos para água (seja esta gelada, fria, tépida ou quente). Nós não a suportamos e, portanto, não andamos aos saltos sincronizados para dentro de uma tigela gigante. Queremos distância, na verdade. Tal perspectiva apenas origina reacções adversas: bigodes torcidos, ameaças guturais, arranhadelas estratégicas pautam a relação de um bichano com a criatura que o quiser amandar para uma situação destas. Portanto, não há treinador que valha, nem treino que miraculosamente ultrapasse esta fobia colectiva.
Quer saber de uma modalidade abichanada? A esgrima, como é óbvio. A aquisição do equipamento sai-nos francamente em conta, desde que não se ponham com a piada de nos apararem o(s) florete(s).

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pouca Visão

Sabemos bem o que um bocadinho de sol e calor provoca nos media. Aliás, há anos que a época é imbecilmente chamada de silly season, supostamente porque nada se passa (aquele pequeno pormenor da Geórgia é engano), porque nada se diz, porque nada se faz (o que no meu caso é bem verdade e isso se calhar valerá um outro post). E, portanto, também as revistas não são de ferro. Desde o início do Verão que a Visão se tem escudado nas capas sobre locais onde fazer férias. E com esta manobra de diversão, lá vai safando edição atrás de edição.
Sou leitora assídua há 6 anos. Primeiramente, com o ritual de a comprar às sextas, por vezes aos sábados quando ainda não tinha chegado. Depois, cansei-me e assinei a bicha. E confesso que os amores esmorecem e as idas à caixa de correio são mais tardias. A desta semana, por exemplo, só a retirei ontem, enfadadamente, à espera de mais do mesmo. Porque assim tem sido; à excepção de algumas crónicas ou algumas matérias mais ou menos inspiradas, a verdade é que a qualidade tem vindo a perder-se nos meandros das notícias que anunciam garbosamente os números de vendas.
Mas não é (só) isto que motiva este post. A Visão desta semana, para além de me provocar mais alguns bocejos enquanto mecanicamente lhe passo revista, provocou uma certa irritação o artigo Sem Vida Nem Livros, no separador pomposamente etiquetado como Portugal - Governo. Ao longo da leitura do artigo, fiquei a saber que este era uma quase impossibilidade. Ora, inicialmente achei engraçado que a autora desfiasse as agruras de uma repórter em busca do livro favorito dos membros do executivo. Em 17 ministros, apenas 3 responderam ao repto da jornalista. E aqui registo a falta de três bem mediáticos: o Primeiro, que alardeou há uns tempos não perceber nada de Hegel, mas simpatizar com Popper, a Ministra da Educação e o Ministro da Cultura. Ora, num quiz sobre livros, parece-me estranho que estas três personalidades tenham adiado indefinidamente a resposta. Ná área que me é mais próxima, não me surpreende que a nossa senhora da Educação ande um bocadinho baralhada em busca do livro (e o que é um livro?) favorito. Enterrada entre tanto computador salvador do intelecto das nossas criancinhas, já nem deve reconhecer o formato. Eu por mim ia mais longe e substituia de uma vez as criancinhas por computadores e o assunto ficava logo arrumado. A ver se as estatísticas não respondiam condignamente aos números do Ministério. Adiante.
De regresso ao assunto que perdi algures no post. O inquérito. As coisas azedaram no que me diz respeito quando a leitura conduziu-me para as escolhas dos três homens que responderam - a saber, Augusto Santos Silva, Rui Pereira e Nuno Severiano Teixeira. Estas foram submetidas a uma rigorosa avaliação de três peritos - Pedro Mexia, Eduardo Pitta e Carlos Reis - que interpretaram as entrelinhas. No caso específico da avaliação de Eduardo Pitta, este permitiu-se a tecer mais algumas considerações absolutamente pretensiosas. A avaliação, na verdade, disse mais de quem avaliou do que propriamente das obras referidas, ou dos Ministros sobre fogo. Reiterei duas impressões minhas: o Eduardo Pitta é absolutamente insuportável e a Visão está uma grande porcaria (para não usar termo mais forte mas, certamente, mais adequado).

domingo, 10 de agosto de 2008

Weekend

E mais não digo....

Desabafo de ouvinte ocasional *

*Contra-resposta ao desabafo de RPS
O comentário mais deplorável que ouvi foi na Antena1, proferido por um comentador (não faço ideia quanto ao seu nome) que descrevia da seguinte forma um dos momentos do espectáculo de abertura: São muitas meninas bonitas com vestidos lindos. A riqueza da descrição fez-me lamentar ouvir tão poucas vezes rádio (eu bem tento contrariar esta minha pouca apetência).
A bem ouvir, a frase até pode funcionar como mantra. Ora repitamos exaustivamente: São muitas meninas bonitas com vestidos lindos. São muitas meninas bonitas com vestidos lindos. São muitas meninas bonitas com vestidos lindos...

Ontem

(Quase) comi manga à conversa com o Jorge e com a Sara.
Sim Jorge. Gosto.

Lullaby de Domingo



Uma peculiar combinação de timbres:
Isobel Campbell e Mark Lanegan

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Livro de Cabeceira 1


Um início fabuloso, este, de Dickens.
(aqui).

Livro de Cabeceira

Exercício interessante proposto pelo Bibliotecário de Babel.
Rendida à escolha do leitor Pedro (a primeira). Magnífica.

"Je suis Action Directe"*

Grupo Baader-Meinhof

Esta questão sobre o ingresso das mulheres em grupos especiais das forças armadas tem suscitado reacções mais ou menos racionais por todo o lado. De repente, mais uma vez lá acontece esta história de se permitir que se candidatem a forças mais especializadas quando todos sabemos, à partida, que as mulheres não passarão as provas requisitadas. O que, desde logo, coloca dúvidas quanto à natureza deste argumento. É que assim sendo, não há problema para os defensores da interdição e esta é, portanto absurda: permita-se, que a natureza encarregar-se-á do resto.

No DN de hoje, lê-se mais uma vez o desfiar dos argumentos dos nossos valorosos guerreiros sobre esta questão. Particular atenção para a afirmação de um almirante, que defende que certas forças de elite deverão continuar interditas a elementos do sexo feminino porque, entre outros, a "emotividade das mulheres desaconselha que entrem em combate directo". A ingenuidade de tal afirmação, a repetição de um arquétipo repetido até à exaustão, conduz-me a um livro que li há alguns anos atrás. Matem as Mulheres Primeiro, resulta de um trabalho de investigação de uma jornalista, Eileen MacDonald, que entrevistou algumas das mulheres que integraram os grupos terroristas mais conhecidos: ETA, IRA, Intifada Palestiniana, Brigadas Vermelhas italianas, o grupo Baader-Meinhof, a Facção do Exército Vermelho, Action Directe (grupo revolucionário francês). Todos estes grupos integraram mulheres nas suas fileiras que acederam conversar com a autora do livro, do qual vos deixo o seguinte excerto da introdução:

"«O primeiro alvo são as mulheres», era, segundo se diz, uma instrução dada aos recrutas do esquadrão antiterrorista da Alemanha Federal, bem como uma recomendação que a Interpol fazia aos outros serviços secretos europeus. Falei com vários membros destas organizações, e embora nenhum deles tenha confirmado que alguma vez tivesse recebido tal instrução, todos a consideravam um conselho precioso. Herr Christian Lochte, director do serviço de recolha de informação sobre movimentos subversivos alemães (...), que tem mais de vinte anos de experiência no estudo dos revolucionários políticos que tantos atentados cometeram no seu País, comentou: «A quem quer que tenha amor à vida, alvejar primeiros as mulheres é uma atitude muito inteligente. A minha experiência diz-me que as mulheres terroristas têm um carácter mais forte, mais poder, mais energia. Há alguns exemplos em que os homens hesitam por momentos na hora de disparar, ao passo que as mulheres o fazem de imediato. Este é um fenómeno generalizado entre os terroristas.»"

Com isto depreende-se que a imagem tradicional que tanto tem toldado uma verdadeira leitura das diferenças entre géneros - a mesma que levou o ilustre almirante, certamente convicto, a usar o argumento do excesso de emotividade - poderá ter nuances menos esperadas pelos garbosos heróis. A verdade é que a violência feminina é ainda matéria delicada - delicadeza é mesmo a palavra de ordem: espera-se que a mulher corresponda plenamente ao arquétipo de Mãe, piedosa e amantíssima, protectora dos lares, dotada de cílios freneticamente pestanejantes e achaques respiratórios. O problema é que, por vezes, com esta imagem, sai o tiro pela culatra. Ou melhor, em cheio.

*Citação de uma integrante das suas fileiras, proferida aquando da sua detenção, enquanto disparava contra a polícia. O namorado entregou-se pacificamente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Desassossegos 4 - Crónica de uma gata tramada


Ao iniciar este meu escrito, já deveis saber qual o meu estado de espírito. Mea culpa. Só vos escrevo quando acometida de grave crise: seja existencial ou não.
O que me traz hoje até vós é, garantidamente, uma tragédia: sou uma gata a descoberto. Apanhada em flagrante delito - que não em flagrante delitro; esse aconteceu logo após o meu primeiro mês de existência. Saídinha do meu quartinho de República Coimbrã, ainda mal segura nas minhas quatro patas, fomos a casa de uma amiga da Woab, ali mesmo ao lado. Fugiu-me a língua para a verdade e afiambrei-me a umas garrafas vazias de cerveja que estavam debaixo da mesa da cozinha: a consciencialização da minha vergonha! A risota das observadoras! Enfim, já lá vai e deixo-me de divagações. Dizia eu que fui apanhada em flagrante delito. Não será propriamente um delito maior. É assim algo pequenino, quase um pormenor. Mas era meu. O meu passe de mágica. O mistério por desvendar.
Fui finalmente apanhada a abrir as portas. Oh desgraça! O meu truque mais recôndito, o meu segredo mais bem guardado comentado displicentemente ao almoço, entre duas garfadas e goles de água, por aquela fulana que aqui aparece uma vez por semana e acciona aspiradores e outros elementos ensurdecedores. E ela, Woab, a ouvi-la atentamente. E eu ali, desesperada para que de repente, Deus misericordioso tornasse aquela cozinha numa nova Babel; que não se entendessem; que de repente a língua se tornasse estranha e que não se descodificasse as palavras proferidas. Ou então uma surdez súbita. Ou uma amnésia temporária. Mas nada. As palavras ressoaram e já não foi possível voltar para trás: Ela - eu - abre a porta no puxador. Estica-se toda e com uma das patas pressiona o puxador da porta.
O meu truque menor já conheciam. Quando encontro uma porta mal fechada, enfio as minhas delicadas patas no fio de abertura até desprender o trinco. Mas este! Este meu truque de escancarar portas exemplarmente fechadas era do desconhecimento total. Acabou-se a magia; as entradas em pés de lã e o espanto nos olhos dos outros. Acabou-se a descrença na minha capacidade de observação e de identificação do puxador como a chave para o outro lado. Tomam-me por perspicaz, senhores. Passei de engraçada a sagaz. Um horror. Agora não vão deixar-me em paz e vão querer que rebole e apanhe paus. Não tarda nada, vão exigir que ladre e obedeça. É que ladrar ainda posso pensar no assunto. Agora obedecer...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Evangelho segundo Clarice*

"No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila (...) pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa.
(...) A brisa arrepiou-lhe os cabelo da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre - (...) - seu olhar ferido pela grande surpresa, (...), a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando, faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a como um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto."
Clarice Lispector, Laços de Família


*Tivesse eu acesso a todos eles...

domingo, 3 de agosto de 2008

Lullaby de Domingo

Imbuída do espírito que guiou Jorge C a Coura (com imediata romagem à Capital sem elucidar os seus leitores), impossibilitada de subir Paredes rumo à anarquia...



...esta singela lullaby de um madman anterior aos pistoleiros de Londres.

sábado, 2 de agosto de 2008

Quem é a gaja?


Não sabes quem é a cachopa? (Ceridwen)

Não, mas foi fotografada pelo meu amantíssimo Man Ray. (Woab)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Não será necessário o acordo do trabalhador em questão

Nada a opor, desde que o salário de P.M. seja pago integralmente com bengaladas.*

*O recurso à bengalada foi-me avivado recentemente como um excelente meio para resolver determinadas questões. No caso que agora apresento, afigurasse-me excelente.
Que fique registada a minha profunda tristeza por aconselhar tal remuneração a um homem chamado Sócrates. Já não se fazem Sócrates como antigamente.

"Todas as cartas de amor são ridículas"*

No entanto, esta é deveras irresistível. Gosto particularmente da alusão ao dever social para com o País. Foi o que se viu.

*Álvaro de Campos

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Transmission 2



Trabalho realizado por uma amiga no âmbito de uma formação de produção de conteúdos multimédia. Não resisto a chamar a atenção do vosso ouvido para a faixa escolhida. Bom gosto, não é?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Contextualização de uma releitura

Resgatei Derrida da estante. A culpa, como é óbvio, é do Funes.

"O País precisa voltar à escola"

E o exemplo deve ser dado. In english, please.

Acefalias diplomadas

Estou como o Funes. Conheço muito pouco do percurso de Helen Keller. Mas a verdade é que a evocação do seu nome me provoca uma situação idêntica à do cão do Pavlov - com as devidas distâncias. Obviamente, eu seria um gato a salivar ao som da campainha.
Helen Keller é uma das minhas campainhas. Inscrevi-me, há uns tempos, numa formação sobre Neuropsicologia e como a formadora inicialmente prevista adoeceu enviaram, em substituição, uma outra, esta especialista em Necessidades Educativas Especiais. Obviamente, desconfiei da troca - até porque o meu historial de formações não é dos melhores. Sou especialmente dotada na escolha das piores coisinhas que por aí andam (não é à toa que estou inscrita para fazer uma com D.M. em Setembro - é agora que o Funes aplaude mentalmente e julga que serei finalmente doutrinada como deve ser). Mas fui. A senhora, com grau de mestre e doutoramento na faculdade "estrongeira"de esfrega o certificado que fica sempre bem, já tinha uma certa idade e anunciou-se como sendo uma entendida em crianças invisuais. Até aqui a coisa não parecia excessivamente má, até que a criatura, entusiasmada por uma plateia que certamente lhe pareceria certamente de idiotas (ah e tal, eles na ilha, eu na Capital) enceta uma formação com resmas de papelada que (in)felizmente recalquei num qualquer caixote do lixo, salpicada por pérolas de preconceito(pensei, generosamente, ao início) e acefalia (sendo que esta última conclusão não precisou de muito tempo).
Na verborreia que a senhora derramava, pérolas houve que sobressaíram do seu discurso; a senhora considerou que bebés filhos de fumadores sofrem imenso com o vício dos pais, já que nascem todos mais pequeninos (o que se verifica) mas também com cara de macaquinhos - surpresa total na sala com esta informação que obviamente (não) foi desde logo fundamentada com quadros estatísticos exaustivamente apresentados, seguidos de relatórios médicos com a descrição precisa das características dos tais macaquinhos.
A senhora também permitiu-se a exortar às possíveis parideiras da sala: de que era preciso começarmos a parir (sim, neste caso utilizo as palavras odiadas), já que o País está a ser dominado pelos negros: em cada 10 crianças nascidas na Maternidade Alfredo da Costa, 9 são negras. É preciso, portanto, ganhar a corrida de emprenhamento, para não nos tornarmos num País entregue aos pretos.
As necessidades educativas especiais, obviamente, moravam ali.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Helen Keller*

" Nunca se deve gatinhar quando o impulso é voar"

"(...) o sentimento de um pensamento que partiu. (...). E não é possível ir para trás."*

Só hoje terminei a tarefa de arquivar o ano transacto. Fico sempre com um amargo de boca; cada documento que guardo são rostos que desaparecem, presenças que se esbatem na partida. Outros permanecem, mas sempre de modo diferente. Nesta altura do ano fico sempre orfã e sem saber que fazer com os meus minutos.


*Maria Zambrano, Clareiras Do Bosque

Pode a retina mais que o tímpano?

"Preciso ficar isenta de mim para ver."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.

domingo, 27 de julho de 2008

À atenção da Su e do Gonçalo

Repesquei este post porque vai ao encontro de uma das conversas do jantar. A voz e a palavra para mim são absolutamente essenciais.

A propósito de uma conversa ao longo do jantar

Chema Madoz

Ao longo do jantar de bloggers, foram múltiplos os assuntos colocados em cima dos pratos. Já nem sei muito bem como, chegamos à leitura e ao que conseguimos ou não ler. Como o tema me é querido. trago a discussão aqui para o blog. Sem pratos.
Saramago é, para mim, uma melancolia. Gostava genuinamente de o conseguir ler, mas há algo em mim que o interdita. Tanto quanto já pude ouvir sobre os seus livros, há alguns conceitos que considero geniais. Simplesmente, não consigo ler-lhe as entrelinhas. Pela forma como espraia esses conceitos pelo texto, Saramago é-me ilegível.
O mesmo já não acontece com Miguel Sousa Tavares. Como já tive a oportunidade de explicar anteriormente, as minhas razões para a recusa da leitura de MST são absolutamente irracionais: o homem irrita-me solenemente. Nem precisa abrir a boca. A postura corporal e os trejeitos de lábios são suficientes para me provocarem náuseas. O vaidosão da opinião contaminou completamente a minha visão sobre a sua escrita, pelo que nem consigo pegar num dos títulos dele para folhear em plena livraria. Desleitura antes da leitura, portanto.
Por outro lado, também tenho as minhas paixões assolapadas. Clarice Lispector é uma delas. Foi-me apresentada numa algo distante aula de Filosofia Contemporânea (quiz endereçado a Sancho: quem terá sido?). Ninguém como ela para me atingir com as palavras. Irónico que eu, que não consigo ler quase nada em português do brasil, eleja uma brasileira como uma das escritoras da minha eleição. A outra é, evidentemente, Virgínia Woolf (o nome deste blog assim o denuncia).
A escapar a esta catalogação, está Patricia Dunker. Dela, apenas li um pequeno livro, A Sombra de Foucault, que devorei. Difícil de encontrar nas livrarias, tenho o meu completamente rasurado, com as páginas a despenarem do manuseamento. Na verdade, a minha adoração por este pequeno livro é algo ridícula: não está maravilhosamente escrito. Mas tem passagens sublimes e essas bastam-me.
Passo a bola para o vosso lado: quem é o autor(a) da vossa eleição (e já agora, que livro)?
E quem nunca conseguiram ler, apesar de inglórios esforços?

Lullaby de Domingo



Scout Niblett é um vício. Se inicialmente algumas das suas composições soaram-me demasiado cruas, a verdade é que cada vez mais me apetece ouvi-la. E mesmo quando interpreta velhas melodias, a senhora é sublime. A lullaby que vos deixo - e é uma canção de lamento - é interpretada em parceria com Bonnie Prince Billy (a ele chegaremos não tardam muitos domingos).

sábado, 26 de julho de 2008

"- Are you flesh, or are you spirit?
- I am sorrow."

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Confissões de uma menina mal comportada*

Confesso a minha dificuldade em retirar o cartaz do Congresso ali do lado.

*O título alude a uma das obras de Beauvoir(Memórias de Uma Menina Bem Comportada) e pretende contrariar, em absoluto, os arquétipos de princesa (das arábias ou de qualquer outro reino que não seja seu) e de Anjo da Casa, de que fala Woolf no texto transcrito no post anterior.

Diário das princesas em geral

"(...) vocês não devem saber o que eu quero dizer com o Anjo da Casa. Eu vou descrevê-la da forma mais simples possível.
Ela era intensamente sensível. Era imensamente encantadora. Era profundamente dedicada. Ela dominava todas as difíceis artes da vida familiar. (...) - resumindo, ela era tão condescendente que nunca tinha tido uma ideia ou um desejo próprio - em vez disso preferia concordar sempre com as ideias e desejos dos outros.
Acima de tudo - nem era preciso dizer - era pura. A pureza era considerada a sua maior beleza - o pudor das faces era a sua maior qualidade.
E quando vim a escrever, encontrei-me com ela logo nas primeiras palavras. A sombra das suas asas caiu sobre a página; (...) quando peguei na caneta para escrever sobre aquele romance do homem famoso, ela deslizou por trás de mim e sussurrou «Minha querida, és uma rapariga. Estás a escrever sobre um livro que foi escrito por um homem. Sê bondosa, sê terna, elogia, ilude, (...). Nunca deixes ninguém supor que tu tens vontade própria."
Virginia Woolf, Profissões Para Mulheres

terça-feira, 22 de julho de 2008

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Ai que tempo

("Accidental Direction", Jordin Isip)

O Tempo cria Caruncho e Eu deambulo no Labirinto das Vontades.

sábado, 19 de julho de 2008

Pérolas a porcos

Vives rodeado de mistério
E jamais o dominarás.
Vive-o, respira-o.
E dorme nele como no seio de uma floresta.

Vergílio Ferreira, Pensar

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Interregno - lullaby extraordinária

Em direcção ao sol e à água. Portanto, Lullaby à sexta. Domingo em silêncio. Obviamente, deixo-vos muito bem acompanhados.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Não vou a tempo para o ver e ouvir, CARAGO!

Castração das liberdades

"La burqa, c'est une prison, une camisole de force, ce n'est pas un signe religieux mais le signe visible d'un projet politique totalitariste prônant l'inégalité des sexes et qui porte en soi l'absence totale de démocratie. C'est une castration de libertés."

A propósito desta questão, estive a reler a discussão que ocorreu no Síndrome de Estocolmo em Novembro. E mais uma vez lamentei ter lido mulheres afirmarem que gostavam que a nossa organização social fosse semelhante aos países islâmicos que obrigam ao uso do véu, porque teriam homens que cuidassem do seu bem estar e as tratassem como princesas. Juízo, minhas senhoras. Dois palmos de testa a funcionar. O mínimo de decoro!
Mais uma vez, a minha recusa visceral de loas à menoridade mental. E não, os valores que temos não são os melhores, mas nunca retroceder ao ponto da perda total de identidade, de deixar que nos agrilhoem o pensamento.
"Antes o poço da morte, que tal sorte" (Já cantava o Sérgio Godinho)

Galgar montanhas


Gosto de estar a caminho. E após um interregno de quase dois anos, finalmente dediquei um dia a simplesmente caminhar- De mochila às costas, mp3 para o caso de uma paragem mais prolongada, água, protector solar, algo para trincar em hamonia com a natureza - e ala que que se faz tarde. Eu e mais 56 pessoas.
Foi a primeira vez que fiz uma caminhada com um grupo em que praticamente não conhecia ninguém. A diferença não é tão grande assim. A maior parte permaneceu desconhecida, mas forneceu o conforto de não me saber sozinha. Flor estava comigo e Flor bastou para me que sentisse acompanhada no meio de tantos rostos sem rasto.
Isto de estar a caminho no meio de nada provavelmente revela a minha faceta mais masoquista. Caminhar incertamente, com um objectivo algo ridículo - atingir o ponto x e voltar - sob um sol abrasador com descidas acentuadas que na volta se tornam subidas (e vice-versa) é saudavelmente doloroso.
Lá em cima, a meio do percurso, quando decidi que não queria chegar ao cume do Pico, que queria ficar ali - sem os cinquenta rostos sem rasto - permiti-me a deitar-me sobre a erva (não confundir com relva), colocar os phones e conjugar os cheiros com os sons.
Já tinha esquecido quão dolorosamente reconfortante é estar no meio de nada, o peso de saber que ainda restam uns bons quilómetros para andar. O cheiro da terra em mim, as calças sujas, a camisola a roçar na erva e os cabelos baços da poeira dos pés em andamento sobre o solo nú. Alma de cabra, diz-me Flor - este espírito de andar para sítio nenhum, esta apetência por veredas e levadas, por doer-nos as pernas e os pés.
Havemos de voltar.

As fotografias são da responsabilidade do organizador da caminhada.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Subsídios para uma história do amor humano



"(...) os nossos antepassados tinham uma consciência aguda da contingência do amor e recusavam-se a construir fosse o que fosse sobre um alicerce tão frágil."


Elisabeth Badinter, In O Amor Incerto,
História do Amor Maternal do sec. XVII ao sec. XX
Picture by Brassäi

segunda-feira, 14 de julho de 2008

À atenção dos promotores de espectáculos na RAM

Há música para além da porcaria dos dj's da moda, com as porcarias das líricas de que querem voar alto, muito alto (pena que não voem de vez e em silêncio). Por cá também queremos gajos como estes, ou estes, ou estes (notem bem que refiro quem passou ou passará este ano por terras continentais). Aliás, até poderia fornecer uma lista inteira (por exemplo este, esta e esta), que espero que não seja totalmente desconhecida do vosso apurado ouvido musical.

domingo, 13 de julho de 2008

Lullaby de Domingo

Estes senhores já não passam aqui há demasiado tempo. À atenção do(s) capuchinho(s) vermelho(s): como deixar o(s) lobo(s) à porta.

Show must go on

Espancaram uma mulher na via pública. Espancou-a o seu companheiro. Durante o dia, ao que parece. Este crime público na via pública suscitou interesse nos trausentes: turistas, empregados de hotelaria, passeantes... Todos pararam para ver. Ninguém se lembrou de intervir, ninguém se lembrou de a socorrer. Não, ficaram a observar a cena, interessados, provavelmente a comentar entre si o espectáculo. Foi preciso uma outra mulher* parar o carro e chamar a polícia. Os que já lá estavam, apenas observaram como se de uma novela se tratasse. É nestas alturas que se quedam as vozes. E os discursos do está tudo feito fazem uma pausa, com algum pudor. Amanhã recomeçam, indiferentes aos estalos de hoje. Estalos não. Socos.
*Que fique bem claro que não fui eu; tomei conhecimento do caso pelo jornal.

Serviço Público

Uma preciosidade. A consultar.
Aviso à navegação em geral e ao Funes em particular: preparem-se para uma baforada de feminismo. É passível de ferir algumas susceptibilidades mais delicadas.

sábado, 12 de julho de 2008

Convocatória

Chamam-nos ali ao lado, para uma prova oral que terá lugar no próximo da 25. Aceitamos o convite. Seria maravilhoso se Ceridwen, Eurídice e Mr. Lekker também pudessem, mas sabemos como tal é praticamente impossível. Quem gostaria que participasse da convocatória? Num mundo perfeito* convocaria Lois, RPS, Jorge C, Funes, Isabela, Luís, Bartebly, Cuscavel, Talisca... Num mundo imperfeito, a convocatória fica-se por um desejo separado por um oceano.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Actualizações

O Blog da equipa da Madeira que participou no Congresso tem vindo a ser actualizado. A procissão ainda vai no adro, mas é dar um saltinho até lá, s.f.f. E já que estamos com a mão no teclado - e nos links - também se recomenda a leitura do texto de encerramento do Congresso, a cargo da incansável Salomé Coelho. Digam lá: quem é amiguinha (feminina/ista), quem é?

domingo, 6 de julho de 2008

Lullaby de Domingo

Ouvir a faixa (das magníficas CocoRosie) e ler a crónica do Anselmo Borges que também remete, de alguma forma, para o post anterior. 
 

sábado, 5 de julho de 2008

"Ver era um crer vacilante. Tudo era talvez. " Hélène Cixous

(Desconheço a autoria da fotografia)

A discussão começou com a Ana, com a sua escrita agressiva e muitas vezes maniqueísta. Gosto do que escreve, da forma como o faz, muito embora por vezes o meu instinto inicial repudie o que escreve. O meu apreço pela sua escrita é proporcional ao desprezo que tem manifestado pelas feministas. Por mim, portanto.
A discussão que lançou com este post, evocando o santo nome do Congresso em vão, despoletou uma grande variedade de respostas por esses blogues fora. Não os linko, porque perdi-lhes, na maior parte dos casos, o rasto.
Mas a questão do véu (e afins) e da excisão feminina é uma questão feminina/ista. E a acusação da Ana parece-me injusta. Pelo menos no que diz respeito à concepção de feminismo que milito.
Recuso-me a afirmar, taxativamente que as mulheres não podem usar o véu. Esse é um direito que lhes assiste, enquanto cidadãs dotadas de livre arbítrio. Mas é aqui que reside o cerne da questão: uma cultura que não promova uma escolha consciente e esclarecida não está, efectivamente, a permitir que a mulher assuma essa decisão conscientemente. Logo, na minha óptica, não há padrão cultural ou preceito religioso que o valha que justifique uma violentação tão grave à liberdade do outro, que neste caso é a mulher (nem agenda política, ou interesse económico - e sobre isto escreverei um dia).
No que diz respeito à excisão, a única que tolero é a que corte definitivamente com estes costumes milenares. Sem piedade, com a agravante de que o ritual não acontece na infância do mesmo. Dura há demasiado tempo.
O exemplo que a Luna apresenta não me suscita dúvida; não me incomoda que uma mulher minimamente dotada de liberdade escolha velar-se. Escolheu - espera-se que - conscientemente. Tal como as religiosas cristãs a determinada altura escolhem pelo uso do véu. Mas a uma mulher que nunca teve oportunidade de vivenciar a possibilidade de escolha endereço o meu pensamento, a minha fé fervorosa de que lhe é amputado um direito fundamental que a mim me foi ofertado: o direito de (quase) livre escolha.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

RPS: o prometido é devido

Com a mão no poema

Encerro a noite. Roubo uma vez mais Ana Luísa Amaral e endereço as suas palavras ao desincomodado Funes (estas feministas são umas mãos largas, desbaratam poemas e canções alheias pelos bloguistas mais próximos, que observam o congresso à distância de um link):
"O que perturba a mais: corredores negros, ao fundo nem janela. Luz demais ofuscando a pupila.Às vezes, só um olho em sobressalto."

Exercícios de paciência e auto-controle

Ler os artigos online do Público e ignorar os comentários.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Mas Ana

Eu, apesar de feminista, também prefiro que se deite pela pia abaixo uma cultura milenar (??) que defenda a excisão ou o uso do véu. E fui ao congresso, onde estas e outras questões foram discutidas.

Da desconstrução


Após três dias de congresso, com múltiplas discussões, reflexões - contentamentos e decepções também - saio com a convicção de que quebramos o silêncio. E quebrar o silêncio é sempre uma violência para o instituido, uma violência para os que, confortavelmente instalados, dissertam sobre o que fizemos e dissemos. Aliás, a maior parte dos confortavelmente instalados - mas ainda assim "ligeiramente" incomodados com o que se passava - espreitou apenas as parangonas (as letrinhas maiores, claro está) e imediatamente começou o discurso verborréico e secular dos lugares comuns repetidos.
Reina o estereótipo e o preconceito, neste reino de que vos falo. O mesmo que ainda hoje fala dos soutiens que nunca foram queimados nas nossas praças e que ignoram as agressões que sofreram algumas das nossas mulheres, porque se atreveram a desafiar os senhores das poltronas. Porque as houve. Porque ainda as há. Exactamente porque incomodam e abalam algumas das estruturas mais emperdenidas e ferrugentas que exortam ao deixa estar que estamos muito bem e tempos melhores chegarão naturalmente, preferencialmente distantes do nosso.
Porque incomodamos e abalamos - e fomos mais de 500, e somos muitas/os mais - e porque pacifica e cordialmente propusemo-nos a pensar as questões de todas e de todos nós. Que nos importamos e nos empenhamos e ignoramos os/as senhores/as da verdade e do discurso descansadinho de que até aqui estamos muito bem. Não estamos. E apenas quem se contenta com o seu umbiguinho satisfeitinho é que julga que estamos no fim da linha. Ou melhor, que o futuro só por si resolverá o problema sem que levantemos um dedo - ou um pensamento.É preciso que, pacientemente, partamos pedra. E o Congresso Feminista 2008 foi um bom exemplo disso.
Somos porvir - um porvir que não acredita no destino. O futuro somos nós, que o desenhamos a partir do aqui e agora.

Amnésica



"Uma pessoa julga que quer saber qualquer coisa e, depois de a saber, só tem um desejo: apagá-la do espírito. Daí em diante, quando me perguntassem o que queria ser quando fosse crescida, responderia Amnésica".


In A Vida Secreta das Abelhas by Sue Monk Kidd
Picture by Frida Kahlo

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Lullaby fora d'horas

Esta não é a lullaby do domingo passado. Essa, foi escolhida por nós - as que participaram no Congresso - e dedicamo-la integralmente ao RPS. Dela tratará Ceridwen, que a tem quase preparadinha para entrar em cena - ou em blog.
Estas são apenas duas lullaby's indissociáveis, que registam o meu regresso à ilha, depois de uma quase semana intensa. Estou cansada e apenas mantenho a audição atenta. Por isso, aqui fica uma descoberta vergonhosamente recente, já que quem m'os apresentou afirma que é sacrilégio eu ter chegado a esta idade sem ouvir GodSpeed You! Black Emperor. Eu concordo.