sábado, 2 de agosto de 2008

Quem é a gaja?


Não sabes quem é a cachopa? (Ceridwen)

Não, mas foi fotografada pelo meu amantíssimo Man Ray. (Woab)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Não será necessário o acordo do trabalhador em questão

Nada a opor, desde que o salário de P.M. seja pago integralmente com bengaladas.*

*O recurso à bengalada foi-me avivado recentemente como um excelente meio para resolver determinadas questões. No caso que agora apresento, afigurasse-me excelente.
Que fique registada a minha profunda tristeza por aconselhar tal remuneração a um homem chamado Sócrates. Já não se fazem Sócrates como antigamente.

"Todas as cartas de amor são ridículas"*

No entanto, esta é deveras irresistível. Gosto particularmente da alusão ao dever social para com o País. Foi o que se viu.

*Álvaro de Campos

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Transmission 2



Trabalho realizado por uma amiga no âmbito de uma formação de produção de conteúdos multimédia. Não resisto a chamar a atenção do vosso ouvido para a faixa escolhida. Bom gosto, não é?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Contextualização de uma releitura

Resgatei Derrida da estante. A culpa, como é óbvio, é do Funes.

"O País precisa voltar à escola"

E o exemplo deve ser dado. In english, please.

Acefalias diplomadas

Estou como o Funes. Conheço muito pouco do percurso de Helen Keller. Mas a verdade é que a evocação do seu nome me provoca uma situação idêntica à do cão do Pavlov - com as devidas distâncias. Obviamente, eu seria um gato a salivar ao som da campainha.
Helen Keller é uma das minhas campainhas. Inscrevi-me, há uns tempos, numa formação sobre Neuropsicologia e como a formadora inicialmente prevista adoeceu enviaram, em substituição, uma outra, esta especialista em Necessidades Educativas Especiais. Obviamente, desconfiei da troca - até porque o meu historial de formações não é dos melhores. Sou especialmente dotada na escolha das piores coisinhas que por aí andam (não é à toa que estou inscrita para fazer uma com D.M. em Setembro - é agora que o Funes aplaude mentalmente e julga que serei finalmente doutrinada como deve ser). Mas fui. A senhora, com grau de mestre e doutoramento na faculdade "estrongeira"de esfrega o certificado que fica sempre bem, já tinha uma certa idade e anunciou-se como sendo uma entendida em crianças invisuais. Até aqui a coisa não parecia excessivamente má, até que a criatura, entusiasmada por uma plateia que certamente lhe pareceria certamente de idiotas (ah e tal, eles na ilha, eu na Capital) enceta uma formação com resmas de papelada que (in)felizmente recalquei num qualquer caixote do lixo, salpicada por pérolas de preconceito(pensei, generosamente, ao início) e acefalia (sendo que esta última conclusão não precisou de muito tempo).
Na verborreia que a senhora derramava, pérolas houve que sobressaíram do seu discurso; a senhora considerou que bebés filhos de fumadores sofrem imenso com o vício dos pais, já que nascem todos mais pequeninos (o que se verifica) mas também com cara de macaquinhos - surpresa total na sala com esta informação que obviamente (não) foi desde logo fundamentada com quadros estatísticos exaustivamente apresentados, seguidos de relatórios médicos com a descrição precisa das características dos tais macaquinhos.
A senhora também permitiu-se a exortar às possíveis parideiras da sala: de que era preciso começarmos a parir (sim, neste caso utilizo as palavras odiadas), já que o País está a ser dominado pelos negros: em cada 10 crianças nascidas na Maternidade Alfredo da Costa, 9 são negras. É preciso, portanto, ganhar a corrida de emprenhamento, para não nos tornarmos num País entregue aos pretos.
As necessidades educativas especiais, obviamente, moravam ali.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Helen Keller*

" Nunca se deve gatinhar quando o impulso é voar"

"(...) o sentimento de um pensamento que partiu. (...). E não é possível ir para trás."*

Só hoje terminei a tarefa de arquivar o ano transacto. Fico sempre com um amargo de boca; cada documento que guardo são rostos que desaparecem, presenças que se esbatem na partida. Outros permanecem, mas sempre de modo diferente. Nesta altura do ano fico sempre orfã e sem saber que fazer com os meus minutos.


*Maria Zambrano, Clareiras Do Bosque

Pode a retina mais que o tímpano?

"Preciso ficar isenta de mim para ver."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.

domingo, 27 de julho de 2008

À atenção da Su e do Gonçalo

Repesquei este post porque vai ao encontro de uma das conversas do jantar. A voz e a palavra para mim são absolutamente essenciais.

A propósito de uma conversa ao longo do jantar

Chema Madoz

Ao longo do jantar de bloggers, foram múltiplos os assuntos colocados em cima dos pratos. Já nem sei muito bem como, chegamos à leitura e ao que conseguimos ou não ler. Como o tema me é querido. trago a discussão aqui para o blog. Sem pratos.
Saramago é, para mim, uma melancolia. Gostava genuinamente de o conseguir ler, mas há algo em mim que o interdita. Tanto quanto já pude ouvir sobre os seus livros, há alguns conceitos que considero geniais. Simplesmente, não consigo ler-lhe as entrelinhas. Pela forma como espraia esses conceitos pelo texto, Saramago é-me ilegível.
O mesmo já não acontece com Miguel Sousa Tavares. Como já tive a oportunidade de explicar anteriormente, as minhas razões para a recusa da leitura de MST são absolutamente irracionais: o homem irrita-me solenemente. Nem precisa abrir a boca. A postura corporal e os trejeitos de lábios são suficientes para me provocarem náuseas. O vaidosão da opinião contaminou completamente a minha visão sobre a sua escrita, pelo que nem consigo pegar num dos títulos dele para folhear em plena livraria. Desleitura antes da leitura, portanto.
Por outro lado, também tenho as minhas paixões assolapadas. Clarice Lispector é uma delas. Foi-me apresentada numa algo distante aula de Filosofia Contemporânea (quiz endereçado a Sancho: quem terá sido?). Ninguém como ela para me atingir com as palavras. Irónico que eu, que não consigo ler quase nada em português do brasil, eleja uma brasileira como uma das escritoras da minha eleição. A outra é, evidentemente, Virgínia Woolf (o nome deste blog assim o denuncia).
A escapar a esta catalogação, está Patricia Dunker. Dela, apenas li um pequeno livro, A Sombra de Foucault, que devorei. Difícil de encontrar nas livrarias, tenho o meu completamente rasurado, com as páginas a despenarem do manuseamento. Na verdade, a minha adoração por este pequeno livro é algo ridícula: não está maravilhosamente escrito. Mas tem passagens sublimes e essas bastam-me.
Passo a bola para o vosso lado: quem é o autor(a) da vossa eleição (e já agora, que livro)?
E quem nunca conseguiram ler, apesar de inglórios esforços?

Lullaby de Domingo



Scout Niblett é um vício. Se inicialmente algumas das suas composições soaram-me demasiado cruas, a verdade é que cada vez mais me apetece ouvi-la. E mesmo quando interpreta velhas melodias, a senhora é sublime. A lullaby que vos deixo - e é uma canção de lamento - é interpretada em parceria com Bonnie Prince Billy (a ele chegaremos não tardam muitos domingos).

sábado, 26 de julho de 2008

"- Are you flesh, or are you spirit?
- I am sorrow."

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Confissões de uma menina mal comportada*

Confesso a minha dificuldade em retirar o cartaz do Congresso ali do lado.

*O título alude a uma das obras de Beauvoir(Memórias de Uma Menina Bem Comportada) e pretende contrariar, em absoluto, os arquétipos de princesa (das arábias ou de qualquer outro reino que não seja seu) e de Anjo da Casa, de que fala Woolf no texto transcrito no post anterior.

Diário das princesas em geral

"(...) vocês não devem saber o que eu quero dizer com o Anjo da Casa. Eu vou descrevê-la da forma mais simples possível.
Ela era intensamente sensível. Era imensamente encantadora. Era profundamente dedicada. Ela dominava todas as difíceis artes da vida familiar. (...) - resumindo, ela era tão condescendente que nunca tinha tido uma ideia ou um desejo próprio - em vez disso preferia concordar sempre com as ideias e desejos dos outros.
Acima de tudo - nem era preciso dizer - era pura. A pureza era considerada a sua maior beleza - o pudor das faces era a sua maior qualidade.
E quando vim a escrever, encontrei-me com ela logo nas primeiras palavras. A sombra das suas asas caiu sobre a página; (...) quando peguei na caneta para escrever sobre aquele romance do homem famoso, ela deslizou por trás de mim e sussurrou «Minha querida, és uma rapariga. Estás a escrever sobre um livro que foi escrito por um homem. Sê bondosa, sê terna, elogia, ilude, (...). Nunca deixes ninguém supor que tu tens vontade própria."
Virginia Woolf, Profissões Para Mulheres

terça-feira, 22 de julho de 2008

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Ai que tempo

("Accidental Direction", Jordin Isip)

O Tempo cria Caruncho e Eu deambulo no Labirinto das Vontades.

sábado, 19 de julho de 2008

Pérolas a porcos

Vives rodeado de mistério
E jamais o dominarás.
Vive-o, respira-o.
E dorme nele como no seio de uma floresta.

Vergílio Ferreira, Pensar

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Interregno - lullaby extraordinária

Em direcção ao sol e à água. Portanto, Lullaby à sexta. Domingo em silêncio. Obviamente, deixo-vos muito bem acompanhados.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Não vou a tempo para o ver e ouvir, CARAGO!

Castração das liberdades

"La burqa, c'est une prison, une camisole de force, ce n'est pas un signe religieux mais le signe visible d'un projet politique totalitariste prônant l'inégalité des sexes et qui porte en soi l'absence totale de démocratie. C'est une castration de libertés."

A propósito desta questão, estive a reler a discussão que ocorreu no Síndrome de Estocolmo em Novembro. E mais uma vez lamentei ter lido mulheres afirmarem que gostavam que a nossa organização social fosse semelhante aos países islâmicos que obrigam ao uso do véu, porque teriam homens que cuidassem do seu bem estar e as tratassem como princesas. Juízo, minhas senhoras. Dois palmos de testa a funcionar. O mínimo de decoro!
Mais uma vez, a minha recusa visceral de loas à menoridade mental. E não, os valores que temos não são os melhores, mas nunca retroceder ao ponto da perda total de identidade, de deixar que nos agrilhoem o pensamento.
"Antes o poço da morte, que tal sorte" (Já cantava o Sérgio Godinho)

Galgar montanhas


Gosto de estar a caminho. E após um interregno de quase dois anos, finalmente dediquei um dia a simplesmente caminhar- De mochila às costas, mp3 para o caso de uma paragem mais prolongada, água, protector solar, algo para trincar em hamonia com a natureza - e ala que que se faz tarde. Eu e mais 56 pessoas.
Foi a primeira vez que fiz uma caminhada com um grupo em que praticamente não conhecia ninguém. A diferença não é tão grande assim. A maior parte permaneceu desconhecida, mas forneceu o conforto de não me saber sozinha. Flor estava comigo e Flor bastou para me que sentisse acompanhada no meio de tantos rostos sem rasto.
Isto de estar a caminho no meio de nada provavelmente revela a minha faceta mais masoquista. Caminhar incertamente, com um objectivo algo ridículo - atingir o ponto x e voltar - sob um sol abrasador com descidas acentuadas que na volta se tornam subidas (e vice-versa) é saudavelmente doloroso.
Lá em cima, a meio do percurso, quando decidi que não queria chegar ao cume do Pico, que queria ficar ali - sem os cinquenta rostos sem rasto - permiti-me a deitar-me sobre a erva (não confundir com relva), colocar os phones e conjugar os cheiros com os sons.
Já tinha esquecido quão dolorosamente reconfortante é estar no meio de nada, o peso de saber que ainda restam uns bons quilómetros para andar. O cheiro da terra em mim, as calças sujas, a camisola a roçar na erva e os cabelos baços da poeira dos pés em andamento sobre o solo nú. Alma de cabra, diz-me Flor - este espírito de andar para sítio nenhum, esta apetência por veredas e levadas, por doer-nos as pernas e os pés.
Havemos de voltar.

As fotografias são da responsabilidade do organizador da caminhada.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Subsídios para uma história do amor humano



"(...) os nossos antepassados tinham uma consciência aguda da contingência do amor e recusavam-se a construir fosse o que fosse sobre um alicerce tão frágil."


Elisabeth Badinter, In O Amor Incerto,
História do Amor Maternal do sec. XVII ao sec. XX
Picture by Brassäi

segunda-feira, 14 de julho de 2008

À atenção dos promotores de espectáculos na RAM

Há música para além da porcaria dos dj's da moda, com as porcarias das líricas de que querem voar alto, muito alto (pena que não voem de vez e em silêncio). Por cá também queremos gajos como estes, ou estes, ou estes (notem bem que refiro quem passou ou passará este ano por terras continentais). Aliás, até poderia fornecer uma lista inteira (por exemplo este, esta e esta), que espero que não seja totalmente desconhecida do vosso apurado ouvido musical.

domingo, 13 de julho de 2008

Lullaby de Domingo

Estes senhores já não passam aqui há demasiado tempo. À atenção do(s) capuchinho(s) vermelho(s): como deixar o(s) lobo(s) à porta.

Show must go on

Espancaram uma mulher na via pública. Espancou-a o seu companheiro. Durante o dia, ao que parece. Este crime público na via pública suscitou interesse nos trausentes: turistas, empregados de hotelaria, passeantes... Todos pararam para ver. Ninguém se lembrou de intervir, ninguém se lembrou de a socorrer. Não, ficaram a observar a cena, interessados, provavelmente a comentar entre si o espectáculo. Foi preciso uma outra mulher* parar o carro e chamar a polícia. Os que já lá estavam, apenas observaram como se de uma novela se tratasse. É nestas alturas que se quedam as vozes. E os discursos do está tudo feito fazem uma pausa, com algum pudor. Amanhã recomeçam, indiferentes aos estalos de hoje. Estalos não. Socos.
*Que fique bem claro que não fui eu; tomei conhecimento do caso pelo jornal.

Serviço Público

Uma preciosidade. A consultar.
Aviso à navegação em geral e ao Funes em particular: preparem-se para uma baforada de feminismo. É passível de ferir algumas susceptibilidades mais delicadas.

sábado, 12 de julho de 2008

Convocatória

Chamam-nos ali ao lado, para uma prova oral que terá lugar no próximo da 25. Aceitamos o convite. Seria maravilhoso se Ceridwen, Eurídice e Mr. Lekker também pudessem, mas sabemos como tal é praticamente impossível. Quem gostaria que participasse da convocatória? Num mundo perfeito* convocaria Lois, RPS, Jorge C, Funes, Isabela, Luís, Bartebly, Cuscavel, Talisca... Num mundo imperfeito, a convocatória fica-se por um desejo separado por um oceano.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Actualizações

O Blog da equipa da Madeira que participou no Congresso tem vindo a ser actualizado. A procissão ainda vai no adro, mas é dar um saltinho até lá, s.f.f. E já que estamos com a mão no teclado - e nos links - também se recomenda a leitura do texto de encerramento do Congresso, a cargo da incansável Salomé Coelho. Digam lá: quem é amiguinha (feminina/ista), quem é?

domingo, 6 de julho de 2008

Lullaby de Domingo

Ouvir a faixa (das magníficas CocoRosie) e ler a crónica do Anselmo Borges que também remete, de alguma forma, para o post anterior. 
 

sábado, 5 de julho de 2008

"Ver era um crer vacilante. Tudo era talvez. " Hélène Cixous

(Desconheço a autoria da fotografia)

A discussão começou com a Ana, com a sua escrita agressiva e muitas vezes maniqueísta. Gosto do que escreve, da forma como o faz, muito embora por vezes o meu instinto inicial repudie o que escreve. O meu apreço pela sua escrita é proporcional ao desprezo que tem manifestado pelas feministas. Por mim, portanto.
A discussão que lançou com este post, evocando o santo nome do Congresso em vão, despoletou uma grande variedade de respostas por esses blogues fora. Não os linko, porque perdi-lhes, na maior parte dos casos, o rasto.
Mas a questão do véu (e afins) e da excisão feminina é uma questão feminina/ista. E a acusação da Ana parece-me injusta. Pelo menos no que diz respeito à concepção de feminismo que milito.
Recuso-me a afirmar, taxativamente que as mulheres não podem usar o véu. Esse é um direito que lhes assiste, enquanto cidadãs dotadas de livre arbítrio. Mas é aqui que reside o cerne da questão: uma cultura que não promova uma escolha consciente e esclarecida não está, efectivamente, a permitir que a mulher assuma essa decisão conscientemente. Logo, na minha óptica, não há padrão cultural ou preceito religioso que o valha que justifique uma violentação tão grave à liberdade do outro, que neste caso é a mulher (nem agenda política, ou interesse económico - e sobre isto escreverei um dia).
No que diz respeito à excisão, a única que tolero é a que corte definitivamente com estes costumes milenares. Sem piedade, com a agravante de que o ritual não acontece na infância do mesmo. Dura há demasiado tempo.
O exemplo que a Luna apresenta não me suscita dúvida; não me incomoda que uma mulher minimamente dotada de liberdade escolha velar-se. Escolheu - espera-se que - conscientemente. Tal como as religiosas cristãs a determinada altura escolhem pelo uso do véu. Mas a uma mulher que nunca teve oportunidade de vivenciar a possibilidade de escolha endereço o meu pensamento, a minha fé fervorosa de que lhe é amputado um direito fundamental que a mim me foi ofertado: o direito de (quase) livre escolha.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

RPS: o prometido é devido

Com a mão no poema

Encerro a noite. Roubo uma vez mais Ana Luísa Amaral e endereço as suas palavras ao desincomodado Funes (estas feministas são umas mãos largas, desbaratam poemas e canções alheias pelos bloguistas mais próximos, que observam o congresso à distância de um link):
"O que perturba a mais: corredores negros, ao fundo nem janela. Luz demais ofuscando a pupila.Às vezes, só um olho em sobressalto."

Exercícios de paciência e auto-controle

Ler os artigos online do Público e ignorar os comentários.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Mas Ana

Eu, apesar de feminista, também prefiro que se deite pela pia abaixo uma cultura milenar (??) que defenda a excisão ou o uso do véu. E fui ao congresso, onde estas e outras questões foram discutidas.

Da desconstrução


Após três dias de congresso, com múltiplas discussões, reflexões - contentamentos e decepções também - saio com a convicção de que quebramos o silêncio. E quebrar o silêncio é sempre uma violência para o instituido, uma violência para os que, confortavelmente instalados, dissertam sobre o que fizemos e dissemos. Aliás, a maior parte dos confortavelmente instalados - mas ainda assim "ligeiramente" incomodados com o que se passava - espreitou apenas as parangonas (as letrinhas maiores, claro está) e imediatamente começou o discurso verborréico e secular dos lugares comuns repetidos.
Reina o estereótipo e o preconceito, neste reino de que vos falo. O mesmo que ainda hoje fala dos soutiens que nunca foram queimados nas nossas praças e que ignoram as agressões que sofreram algumas das nossas mulheres, porque se atreveram a desafiar os senhores das poltronas. Porque as houve. Porque ainda as há. Exactamente porque incomodam e abalam algumas das estruturas mais emperdenidas e ferrugentas que exortam ao deixa estar que estamos muito bem e tempos melhores chegarão naturalmente, preferencialmente distantes do nosso.
Porque incomodamos e abalamos - e fomos mais de 500, e somos muitas/os mais - e porque pacifica e cordialmente propusemo-nos a pensar as questões de todas e de todos nós. Que nos importamos e nos empenhamos e ignoramos os/as senhores/as da verdade e do discurso descansadinho de que até aqui estamos muito bem. Não estamos. E apenas quem se contenta com o seu umbiguinho satisfeitinho é que julga que estamos no fim da linha. Ou melhor, que o futuro só por si resolverá o problema sem que levantemos um dedo - ou um pensamento.É preciso que, pacientemente, partamos pedra. E o Congresso Feminista 2008 foi um bom exemplo disso.
Somos porvir - um porvir que não acredita no destino. O futuro somos nós, que o desenhamos a partir do aqui e agora.

Amnésica



"Uma pessoa julga que quer saber qualquer coisa e, depois de a saber, só tem um desejo: apagá-la do espírito. Daí em diante, quando me perguntassem o que queria ser quando fosse crescida, responderia Amnésica".


In A Vida Secreta das Abelhas by Sue Monk Kidd
Picture by Frida Kahlo

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Lullaby fora d'horas

Esta não é a lullaby do domingo passado. Essa, foi escolhida por nós - as que participaram no Congresso - e dedicamo-la integralmente ao RPS. Dela tratará Ceridwen, que a tem quase preparadinha para entrar em cena - ou em blog.
Estas são apenas duas lullaby's indissociáveis, que registam o meu regresso à ilha, depois de uma quase semana intensa. Estou cansada e apenas mantenho a audição atenta. Por isso, aqui fica uma descoberta vergonhosamente recente, já que quem m'os apresentou afirma que é sacrilégio eu ter chegado a esta idade sem ouvir GodSpeed You! Black Emperor. Eu concordo.

sábado, 28 de junho de 2008

Post(al): queridas amigas, Woman e Ceridwen,


Misha Gordon

" Mais fascinante ainda é a história de Lilith. A tradição judaica conta que Eva não foi a primeira mulher de Adão,mas que existiu Lilith. E esta quis ser igual ao homem: indignava-se, por exemplo, que a forçassem a fazer amor debaixo de Adão, uma posição que lhe parecia humilhante, e reclamava os mesmos direitos que o homem. Adão, aproveitando a sua maior força física, tentou obrigá-la a obedecer, mas então Lilith abandonou-o. Foi a primeira feminista da Criação, mas as suas moderadas reivindicações eram obviamente inadmissíveis para o deus patriarcal da época, que converteu Lilith num diabo mata-crianças e a condenou a sofrer a morte de cem dos seus filhos todos os dias, horrendo castigo que emblematiza perfeitamente o poder do macho sobre a fêmea. É talvez no mito de Lilith esteja subjacente a memória esquecida dessa possível transição entre um mundo antigo não sexista (com mulheres tão fortes e tão independentes como os homens) e a nova ordem masculina que se instaurou depois."

"Introdução - A vida invisível" in Histórias de Mulheres, Rosa Monteiro, Edições Asa, 2000

P.s.: que tudo corra bem. Se puderem, vejam a peça de teatro NEXT : ))


Voltamos dentro de momentos



Andamos muito ocupadas no Congresso Feminista
(WOAB e Ceridwen e mais 548 pessoas*)

*o título é uma promessa exclusiva das duas primeiras
 

Privilégios de Feminista

O que ouvimos hoje, recitado pela própria
Ana Luísa Amaral



Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mas adiante)

Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora…

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E me ia levantar, a mulher sorriu
como quem diz: That’s it

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu sentia-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são



domingo, 22 de junho de 2008

sábado, 21 de junho de 2008

"Caderno azul n.º 10"

Era um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Também não tinha cabelo, pelo que só convencionalmente se podia chamar ruivo. Não podia falar, porque não tinha boca. Também não tinha nariz. Nem sequer tinha mãos, nem pernas. Não tinha ventre, não tinha costas, não tinha coluna vertebral nem quaisquer entranhas. Não tinha nada! Por isso não se compreende de quem se trata. É melhor não falarmos mais nele. Darniil Harms (1905-1942)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Apostasias - o evangelho segundo ELA

Tinha corpo de prostituto quando se deitava em qualquer uma. Prostituía-se de cada vez que acreditava que o queriam para além da pele que outros também tinham, exactamente igual. A diferença estava em que os outros não a alugavam facilmente.
Convencera-se que aquela fina camada era só o que valia. E, apesar de não o dizer, apesar de tentar convencer a todos os outros que não era assim, a verdade é que a única coisa em que acreditava ter algum valor, era na sua pele. E nem esta era já sua - era pertença de qualquer uma em quem se deitava.
Uma pechincha, na verdade; de usar e deitar fora.

terça-feira, 17 de junho de 2008

É já amanhã!

Madeira na Rota do Congresso Feminista Conversas em torno do Feminino
Dia: 18 de Junho Hora: 19 horas Local: FNAC Madeira Convidadas: Lília Remesso - Presidente da Associação do Planeamento da Família Luísa Pessanha - Directora da Associação Protectora dos Pobres A Ilha na rota do Feminino: a uma semana do Congresso Feminista em Lisboa, as temáticas do feminino continuam a ser pensadas entre nós. Que questões nos são colocadas hoje, ao repensarmos as questões de Género? Que rasto deixa a Mulher madeirense na Ilha? Nesta segunda conversa, procuraremos tematizar a exclusão social da Mulher e alguns dos factores que para tal contribuem.
 

domingo, 15 de junho de 2008

Para ti, em particular...

Clã - "Sexto andar"

Lullaby de Domingo

Há muito que esta menina não passa por cá. Com líricas sempre mui interessantes.

sábado, 14 de junho de 2008

Sócrates e Hegel

Sócrates deixou-se biografar estrategicamente a um ano das eleições*. E a fim de dar um colorido pitoresco à coisa, faz afirmações surpreendentes. Fiquei surpreendida por ler que Sócrates, o novo, tentou ler Hegel, mas que o achou intragável. Que teve sentimentos de culpa por não o conseguir fazer. Que descansou quando leu que Popper (e vão dois) considera que Hegel não sabia o que queria dizer. Eu só acho que Sócrates tentou ler Hegel em Inglês. *Toda a informação constante deste post tem como fonte a Visão. Menos o último parágrafo.
 

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Da fome (e) da(s) vitória(s)


Reina o caos na segunda circular. A fila para abastecer na Repsol entope uma das saídas.
Na BP do Estádio de Alvalade o gasóleo deixou de correr das pistolas às primeiras horas da manhã. A meu lado, dezenas de carros de bandeira nacional hasteada antecipam uma vitória suada, que nos irá retirar do calor mórbido. "venham eles que os comemos vivos", ouve-se. Venham eles que nós damos conta do recado, ainda que não haja nada nas prateleiras dos supermercados. São quase 17 horas. Os minutos passam a correr e a prioridade é ter uma televisão para testemunhar, em directo, o futuro de um país. Leio na capa de uma revista: "famílias portuguesas já poupam na alimentação para pagar a casa". Ouço-os dizer à boca cheia que tudo farão para defender Portugal, que a defesa já não se faz com missões de paz ou de guerra, nem nas mesas de ministros com preocupações com a água ou com as fronteiras. A defesa de um país faz-se nas quatro linhas. Enquanto houver futebol há esperança, e quando da selecção sobrarem ecos, restam-nos os clubes nacionais, esses que movem a economia e nos põem a comida na mesa. Esses que nos defendem do desemprego e da ganância dos outros. Esses que são responsáveis pelas descobertas científicas que nos aliviam as doenças e a fome. A fome? Essa que se lixe, temos é fome de vitória, e nisso, a selecção, esse troféu que se apoia em 22 pernas, não nos desilude.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Entre as brumas da memória

O dia da raça não é de lamentar.
O lamento está em relação aos que o lamentaram. Não em relação a quem o proferiu.

A minha Pátria

Não é a (equipa da) Selecção Portuguesa.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Cogitações avulsas

Ao clicar no botão de envio da missiva, tomo consciência de que lhe escrevo há 8 anos, que não a vejo há dois e que ainda assim me sinto próxima. Curioso como o respeito, a genuína admiração e a timidez da amizade transcendem os dias e os anos, despindo-os de importância no momento da recepção de uma carta, de um postal, de um livro ou de um abraço. Degusto a saudade com os olhos, lentamente, como se de um mil folhas se tratasse.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Apreciadora de tomate(s) me confesso


Principalmente cortado(s) às rodelas, acompanhado(s) por queijo fresco e nozes. Bem regado(s) com azeite, vinagre balsâmico e uma pitada de sal grosso e oregãos.

terça-feira, 3 de junho de 2008

É já amanhã!

Madeira na Rota do Congresso Feminista: Conversas Em Torno do Feminino
Dia: 4 de Junho Hora: 19 Horas Local: FNAC Madeira Convidados: Daniela Maria Nelson Veríssimo
A Ilha na rota do Feminino: a menos de um mês do Congresso Feminista em Lisboa, as temáticas do Feminino chegam antecipadamente até nós. Que questões nos são colocadas hoje, ao repensarmos as questões de Género? Que rasto deixa a mulher madeirense na Ilha?

"Não se considere esta questão como antecipadamente decidida pelos factos e pelas opiniões existentes, mas sim aberta à discussão sobre os seus méritos, como questão de justiça e conveniência."
Stuart Mill
 
Porque é a conversar que a gente se entende, convidámo-lo(a) a comparecer na FNAC e a debater connosco as nossas relações a dois. 

Já dizia o outro que...


"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal."

Oscar Wilde

Nota: fui buscar tudo ao google! Copy past, pois claro.

Saltos altos...


- É só o que tem na montra?
- Espere. Temos estes que acabaram de chegar... Veja como são giros!
- Sim. Tem bengalas a condizer?

Mandaria a SELECÇÃO NACIONAL...

ÀS URTIGAS!

domingo, 1 de junho de 2008

Pérolas a porcos

"Domingos longos, enfadonhos, inúteis e calmos. Quando era jovem, eram estes os dias que eu detestava. Agora ansiava por eles. Momentos prolongados, calma de morte. Tinha descoberto que necessitava deste dia, de existir simplesmente."
uuu
Os Nomes, Don DeLillo

Lullaby de Domingo

Hoje soube-me a tanto Portanto, Hoje soube-me a pouco...

sábado, 31 de maio de 2008

A doçura da provocação: da contra-série "La beauté est dans la rue" - Fin


"(...) a moral masculina, no que lhe diz respeito, é uma vasta mistificação. O homem acena-lhe pomposamente com o seu código de virtude e honra, mas incita-a a desobedecer; espera, mesmo, essa desobediência; sem esta, a bela fachada arás da qual ele se abriga desmoronar-se-ia." Simone de Beauvoir

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Post pseudo-funiano(??)

Ao sentar-me para metodicamente redigir um post, reflicto mais atentamente e "vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem distinguir por sinais seguros, o que me espanta(...)"*: na verdade a questão dos universais não passa de um sonho. *Com uma ajudita de Mestre Descartes

É sempre em frente

... e, depois,

terça-feira, 27 de maio de 2008

Pérolas a porcos

"(...) Os gestos não totalmente sinceros vão sempre atrasados."
ssss
O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago

sábado, 24 de maio de 2008

Lullaby de Domingo

Uma promessa de há muito a Nefertiti. Para animar a viagem.

A doçura da provocação: da contra-série "La beauté est dans la rue"


"O saber absoluto, tal como foi procurado, prometido ou recomendado pela filosofia, é um pensamento do Igual. (...) sem dúvida, o ser finito que somos não pode, no fim de contas, levar a bom termo a tarefa do saber; mas, dentro dos limites em que esta tarefa fica cumprida, ela consiste em fazer que o Outro se torne o Mesmo. "
Emmanuel Levinas

sexta-feira, 23 de maio de 2008

(Almost) Closed Door




Encerro o meu dia de trabalho. A três horas e meia de iniciar a próxima tarefa. mas o excelente que recebi e os dois cafés das últimas horas tiraram-me o sono. Vem aí outro dia de olheiras e a porta está entre- a-b-e-r-t-a.

Instalação de Jessica Feldman

quarta-feira, 21 de maio de 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

Este País não é para velhos de espírito (se calhar, até é)

Ouço, incrédula, aquele homem trémulo e inseguro proferir as enormidades de há meio século. Uma plateia de saudade escuta-o desatentamente, imersos nos seus próprios pensamentos (e ainda bem).
Ele prega, balbucia os terrores com que amaldiçoa os que não o ouvem. Fala repetida e monocordicamente de castigo, de horrores eternos, de almas em suplício. Monotonamente. Evoca os círculos de Dante, promete e distribui condenações. Enfadonhamente. Renega os que renegam, evocando o Santo nome do Espírito em vão. Consciente e (desconfio) maliciosamente.
Termina titubeante, na esperança que o arrependimento divino acometa o público que desconfia ser infiel à noção de Pai castigador que apresenta com tanto desvelo. Já não é deste tempo, aquele velho homem amargo, cansado, que fala da morte provavelmente porque a pressente perto e a tenta renegar amaldiçoando desta forma os que em vida permanecem por enquanto. Crê-se salvo. Crê salvar os outros com aquele grasnar irritante e agoirento. Bate no peito na oração da culpa, logo depois de ter praguejado: por vossa culpa, por vossa máxima culpa.

"Emissário de Um Rei Desconhecido"

Emissário de um rei desconhecido Eu cumpro informes instruções de além, E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anómalo sentido... Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem, E a glória do meu Rei dá-me o desdém Por este humano povo entre quem lido... Não sei se existe o Rei que me mandou. Minha missão será eu a esquecer, Meu orgulho o deserto em que em mim estou... Mas há! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser... Já viram Deus as minhas sensações... Fernando Pessoa

domingo, 18 de maio de 2008

Um fim de semana cheio de suspiros por uma adolescência longínqua.

A doçura da provocação: da contra-série "La beauté est dans la rue"

"(...) e vós, Senhor meu Deus! concedei-me a graça de produzir alguns belos versos que me provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo." Baudelaire

Lullaby de Domingo

Can't break that which isn't yours.

sábado, 17 de maio de 2008

A minha verdadeira devoção

(Marc Chagall)


Nada garante que tu existes

Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas


de David Mourão-Ferreira


A Sócrates o que é de Sócrates (o novo)

A Sócrates* não basta parecer sério. É preciso efectivamente sê-lo.
*Retiremos a mulher de César que, coitada, era séria e ainda lhe exigiam que o parecesse.
Sócrates, o velho, supostamente disse umas coisitas sobre esta nova interpretação do velho ditado. Uma vez mais, Sócrates contra Sócrates.

Aos 5 infames votantes da sondagem de Mr. Lekker

Estou em crer que não conseguirão degustar nada decente nos próximos tempos, tal o peso da consciência sobre a vossa digestão!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Também nós vamos a fumos

As declarações de Sócrates quanto à possibilidade de se chicotear em público quem, como ele, fuma nos espaços que ele próprio proibiu, faz-me lembrar o bebé na incubadora do Santana Lopes.

Ao cuidado do camarada Funes

Acabei de ler A Fenomenologia assinada por Lyotard. Suponho que fique mais satisfeito em saber que abandono a indecência dos franceses e abro agora a radiante obra de um inglês: lanço-me ao Stuart Mill em A Sujeição das Mulheres.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Porque dizem que anda por aí uma espécie de crise alimentar e tal

Fábula Menino gordo comprou um balão e assoprou assoprou com força o balão amarelo. Menino gordo assoprou assoprou assoprou o balão inchou inchou e rebentou! Meninos magros apanharam os restos e fizeram balõezinhos. José Craveirinha, Moçambique

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A doçura da provocação: da contra-série "La beauté est dans la rue"


"O teu corpo composto - três quartos de água, mais um punhado de minerais terrestres. E essa grande chama em ti de que desconheces a natureza. E nos teus pulmões, sorvido e libertado sem cessar no teu tórax, o ar, esse belo estrangeiro, sem quem não podes viver." Marguerite Yourcenar

terça-feira, 13 de maio de 2008

Declaração pública de interesse

Ide votar na sondagem do nosso Mr. Lekker. É que prometeu cozinhar, pour moi, o prato vencedor - logo, a última opção está-vos proibida. Entendido?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Só porque me apetece...

Há muito tempo que quero criar um novo ditado popular. Parece-me a altura certa.
aaa
aaaa
Cada tolo com a sua mania, e os três pastorinhos na Cova da Iria.

sábado, 10 de maio de 2008

devoções

"O Sr. Funes escreve Direito por linhas tortas. " Ámen

A doçura da provocação: da contra-série "La beauté est dans la rue"


"Vejo eu o que vejo? O que não estava ali se calhar estava. Ser e não ser não se excluíam mais." Hélène Cixous

O Paul do romance não passava de um porco (badalhoco)

Deixo aqui uma passagem do fascinante livro: O velho que lia romances de amor, de Luís Sepúlveda

“ Paul beijou-a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos”.

Leu a passagem várias vezes em voz alta.

Que raios seriam as gôndolas?

Deslizavam por canais. Devia tratar-se de botes ou canoas, e quanto àquele Paul, era óbvio que não se tratava de um tipo decente, já que beijava “ardorosamente” a rapariga na presença de um amigo, e ainda para mais cúmplice.

Gostou do começo.

Pareceu-lhe acertado que o autor definisse os maus com clareza desde o princípio. Dessa maneira evitavam-se complicações e simpatias imerecidas.

E quanto a beijar, como é que ele dizia? “ardorosamente” como diabo seria isso?

(…)

Não. Os xuar não se beijavam.

Recordou-se também de que, em certa ocasião, vira um garimpeiro acasalando com uma jíbara, uma pobre mulher que deambulava por entre os colonos e os aventureiros implorando uma golada de aguardente. Quem tivesse vontade puxava-a de parte e possuía-a. A pobre mulher, embrutecida pelo álcool, não tinha consciência do que estavam a fazer com ela. Dessa vez, o aventureiro montou-a na areia e procurou-lhe a boca com a sua.

A mulher reagiu como uma besta. Tirou o homem de cima dela, arremessou-lhe um punhado de areia e desatou a vomitar com um nojo indissimulável.

Se beijar ardorosamente era isso, então o Paul do romance não passava de um porco.

(...)

Ditado

Concordo com o texto da magnífica Ana. E acrescento que a palavra dita tem uma violência -e erosão - mais acentuada que a palavra escrita. A brejeirice pronunciada é-me sempre mais desagradável que a escrita, como se o silêncio da leitura a consiga quase silenciar, como se a audição a tornasse insuportável.
Curiosamente, raramente interpreto a utilização de tal linguagem como um insulto a quem é dirigido. Insistentemente, soa-me como um auto-insulto, uma auto-depreciação disfarçada de violência contra Outrém. O que a torna mais traiçoeira: o efeito boomerang do insulto - lançado ao rosto do Outro, por um passe de mágica volta à face dos lábios que a proferiram, que despudoradamente a lançaram. Esta é a única utilidade que lhe vislumbro, que na verdade é uma utilidade perversa, recontada ao longo dos tempos: a criatura que devora o criador, quando este apenas contava instrumentalizá-la.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A doçura da provocação: da contra-série "La beauté est dans la rue"

"(...) quando nos encontramos diante das repetições mais mecânicas, mais estereotipadas, fora de nós e em nós, extraímos constantemente delas pequenas diferenças (...)." Deleuze

Subsídios Para Uma Conjugalidade Pacífica

Lenha para a fogueira do nobilíssimo Funes:
"Eu dou-te a palavra, e tu jogarás nela
e nela apostarás com determinação.
Seja a palavra “biltre”. Talvez penses num cesto, Açafate de ráfia, prenhe de flores e frutos. Talvez numa almofada num regaço onde as mãos ágeis manobrando as linhas as complicadas rendas vão tecendo. Talvez num insecto de élitros metálicos emergindo da terra empapada de chuva. Talvez num jogo lúdico, numa esfera de vidro, pequena, contra outra arremessada. Talvez... Mas não. Biltre é um homem vil, infame e ordinário. São assim as palavras." António Gedeão

terça-feira, 6 de maio de 2008

domingo, 4 de maio de 2008

Pérolas a porcos

O tempo parece infinito e a ambição inútil. Por cima de tudo paira a sensação de inutilidade de qualquer acção humana.
ddd
As Ondas, Virginia Wolff

Lullaby de Domingo

"Quando lhe falava, qualquer que fosse o tema do discurso, muitas vezes X... parecia olhar e escutar o que se passava em redor, vigiando qualquer coisa: detinha-me desencorajado; depois de um prolongado silêncio, X... dizia 'continua, estou a ouvir-te'; retomava então, tanto quanto possível, o fio de uma história em que já não acreditava."
Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A beleza renascentista


( David - Miguel Ângelo)


"Novas" fragrâncias feministas

O Congresso Feminista, já antes abordado por cá e com direito a cartaz logo ali ao lado, tem o condão de propagar a sua fragrância para outras paragens. Ao ponto de atravessar o Atlântico e, oficialmente, também chegar até nós. Assim, aqui fica - e ali ao lado também - o endereço do blog da equipa cá da Ilha, com direito a divulgação do que por cá se fizer. Não poderia deixar de assinalar o seu nascimento...

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Morre de uma vez e não chateies

"Acabo de reler Werther, não sem irritação. Esquecera-me que ele demorara tanto tempo a morrer. Nunca mais acaba e chega-se a querer empurrá-lo pelos ombros. Ao fim de quatro ou cinco vezes, quando se esperava o seu último suspiro, segue-se ainda um outro e mais um outro(...) as partidas buriladas exasperam-me."
André Gide, citado por Roland Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso
Ainda não li Werther, mas desconfio que tenderei a simpatizar com a afirmação de Gide. (ao contrário de Barthes, que a considera uma tolice. Sempre tive queda para as tolices.)

Viagens...

Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou. A posse é um declínio. Antes um pássaro a voar que dois na mão. Dois pássaros na mão são o que já não falta. Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele; ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares; dar a volta ao mundo e continuar; é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.
Branquinho da Fonseca
Nota: depois de ter lido O Barão, quero conhecer melhor a obra deste ilustre escritor. Uma revelação para mim. Uma excelente descoberta.

In the mood for...

Rever esta magnífica. O inferno está sempre nos empata-génios.