Trabalho realizado por uma amiga no âmbito de uma formação de produção de conteúdos multimédia. Não resisto a chamar a atenção do vosso ouvido para a faixa escolhida. Bom gosto, não é?
quinta-feira, 31 de julho de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Contextualização de uma releitura
Resgatei Derrida da estante. A culpa, como é óbvio, é do Funes.
"O País precisa voltar à escola"
E o exemplo deve ser dado. In english, please.
Acefalias diplomadas
Estou como o Funes. Conheço muito pouco do percurso de Helen Keller. Mas a verdade é que a evocação do seu nome me provoca uma situação idêntica à do cão do Pavlov - com as devidas distâncias. Obviamente, eu seria um gato a salivar ao som da campainha.
Helen Keller é uma das minhas campainhas. Inscrevi-me, há uns tempos, numa formação sobre Neuropsicologia e como a formadora inicialmente prevista adoeceu enviaram, em substituição, uma outra, esta especialista em Necessidades Educativas Especiais. Obviamente, desconfiei da troca - até porque o meu historial de formações não é dos melhores. Sou especialmente dotada na escolha das piores coisinhas que por aí andam (não é à toa que estou inscrita para fazer uma com D.M. em Setembro - é agora que o Funes aplaude mentalmente e julga que serei finalmente doutrinada como deve ser). Mas fui. A senhora, com grau de mestre e doutoramento na faculdade "estrongeira"de esfrega o certificado que fica sempre bem, já tinha uma certa idade e anunciou-se como sendo uma entendida em crianças invisuais. Até aqui a coisa não parecia excessivamente má, até que a criatura, entusiasmada por uma plateia que certamente lhe pareceria certamente de idiotas (ah e tal, eles na ilha, eu na Capital) enceta uma formação com resmas de papelada que (in)felizmente recalquei num qualquer caixote do lixo, salpicada por pérolas de preconceito(pensei, generosamente, ao início) e acefalia (sendo que esta última conclusão não precisou de muito tempo).
Na verborreia que a senhora derramava, pérolas houve que sobressaíram do seu discurso; a senhora considerou que bebés filhos de fumadores sofrem imenso com o vício dos pais, já que nascem todos mais pequeninos (o que se verifica) mas também com cara de macaquinhos - surpresa total na sala com esta informação que obviamente (não) foi desde logo fundamentada com quadros estatísticos exaustivamente apresentados, seguidos de relatórios médicos com a descrição precisa das características dos tais macaquinhos.
A senhora também permitiu-se a exortar às possíveis parideiras da sala: de que era preciso começarmos a parir (sim, neste caso utilizo as palavras odiadas), já que o País está a ser dominado pelos negros: em cada 10 crianças nascidas na Maternidade Alfredo da Costa, 9 são negras. É preciso, portanto, ganhar a corrida de emprenhamento, para não nos tornarmos num País entregue aos pretos.
As necessidades educativas especiais, obviamente, moravam ali.
Helen Keller é uma das minhas campainhas. Inscrevi-me, há uns tempos, numa formação sobre Neuropsicologia e como a formadora inicialmente prevista adoeceu enviaram, em substituição, uma outra, esta especialista em Necessidades Educativas Especiais. Obviamente, desconfiei da troca - até porque o meu historial de formações não é dos melhores. Sou especialmente dotada na escolha das piores coisinhas que por aí andam (não é à toa que estou inscrita para fazer uma com D.M. em Setembro - é agora que o Funes aplaude mentalmente e julga que serei finalmente doutrinada como deve ser). Mas fui. A senhora, com grau de mestre e doutoramento na faculdade "estrongeira"de esfrega o certificado que fica sempre bem, já tinha uma certa idade e anunciou-se como sendo uma entendida em crianças invisuais. Até aqui a coisa não parecia excessivamente má, até que a criatura, entusiasmada por uma plateia que certamente lhe pareceria certamente de idiotas (ah e tal, eles na ilha, eu na Capital) enceta uma formação com resmas de papelada que (in)felizmente recalquei num qualquer caixote do lixo, salpicada por pérolas de preconceito(pensei, generosamente, ao início) e acefalia (sendo que esta última conclusão não precisou de muito tempo).
Na verborreia que a senhora derramava, pérolas houve que sobressaíram do seu discurso; a senhora considerou que bebés filhos de fumadores sofrem imenso com o vício dos pais, já que nascem todos mais pequeninos (o que se verifica) mas também com cara de macaquinhos - surpresa total na sala com esta informação que obviamente (não) foi desde logo fundamentada com quadros estatísticos exaustivamente apresentados, seguidos de relatórios médicos com a descrição precisa das características dos tais macaquinhos.
A senhora também permitiu-se a exortar às possíveis parideiras da sala: de que era preciso começarmos a parir (sim, neste caso utilizo as palavras odiadas), já que o País está a ser dominado pelos negros: em cada 10 crianças nascidas na Maternidade Alfredo da Costa, 9 são negras. É preciso, portanto, ganhar a corrida de emprenhamento, para não nos tornarmos num País entregue aos pretos.
As necessidades educativas especiais, obviamente, moravam ali.
terça-feira, 29 de julho de 2008
"(...) o sentimento de um pensamento que partiu. (...). E não é possível ir para trás."*
Só hoje terminei a tarefa de arquivar o ano transacto. Fico sempre com um amargo de boca; cada documento que guardo são rostos que desaparecem, presenças que se esbatem na partida. Outros permanecem, mas sempre de modo diferente. Nesta altura do ano fico sempre orfã e sem saber que fazer com os meus minutos.
*Maria Zambrano, Clareiras Do Bosque
Pode a retina mais que o tímpano?
"Preciso ficar isenta de mim para ver."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.
domingo, 27 de julho de 2008
À atenção da Su e do Gonçalo
Repesquei este post porque vai ao encontro de uma das conversas do jantar. A voz e a palavra para mim são absolutamente essenciais.
A propósito de uma conversa ao longo do jantar
Ao longo do jantar de bloggers, foram múltiplos os assuntos colocados em cima dos pratos. Já nem sei muito bem como, chegamos à leitura e ao que conseguimos ou não ler. Como o tema me é querido. trago a discussão aqui para o blog. Sem pratos.
Saramago é, para mim, uma melancolia. Gostava genuinamente de o conseguir ler, mas há algo em mim que o interdita. Tanto quanto já pude ouvir sobre os seus livros, há alguns conceitos que considero geniais. Simplesmente, não consigo ler-lhe as entrelinhas. Pela forma como espraia esses conceitos pelo texto, Saramago é-me ilegível.
O mesmo já não acontece com Miguel Sousa Tavares. Como já tive a oportunidade de explicar anteriormente, as minhas razões para a recusa da leitura de MST são absolutamente irracionais: o homem irrita-me solenemente. Nem precisa abrir a boca. A postura corporal e os trejeitos de lábios são suficientes para me provocarem náuseas. O vaidosão da opinião contaminou completamente a minha visão sobre a sua escrita, pelo que nem consigo pegar num dos títulos dele para folhear em plena livraria. Desleitura antes da leitura, portanto.
Por outro lado, também tenho as minhas paixões assolapadas. Clarice Lispector é uma delas. Foi-me apresentada numa algo distante aula de Filosofia Contemporânea (quiz endereçado a Sancho: quem terá sido?). Ninguém como ela para me atingir com as palavras. Irónico que eu, que não consigo ler quase nada em português do brasil, eleja uma brasileira como uma das escritoras da minha eleição. A outra é, evidentemente, Virgínia Woolf (o nome deste blog assim o denuncia).
A escapar a esta catalogação, está Patricia Dunker. Dela, apenas li um pequeno livro, A Sombra de Foucault, que devorei. Difícil de encontrar nas livrarias, tenho o meu completamente rasurado, com as páginas a despenarem do manuseamento. Na verdade, a minha adoração por este pequeno livro é algo ridícula: não está maravilhosamente escrito. Mas tem passagens sublimes e essas bastam-me.
Passo a bola para o vosso lado: quem é o autor(a) da vossa eleição (e já agora, que livro)?Saramago é, para mim, uma melancolia. Gostava genuinamente de o conseguir ler, mas há algo em mim que o interdita. Tanto quanto já pude ouvir sobre os seus livros, há alguns conceitos que considero geniais. Simplesmente, não consigo ler-lhe as entrelinhas. Pela forma como espraia esses conceitos pelo texto, Saramago é-me ilegível.
O mesmo já não acontece com Miguel Sousa Tavares. Como já tive a oportunidade de explicar anteriormente, as minhas razões para a recusa da leitura de MST são absolutamente irracionais: o homem irrita-me solenemente. Nem precisa abrir a boca. A postura corporal e os trejeitos de lábios são suficientes para me provocarem náuseas. O vaidosão da opinião contaminou completamente a minha visão sobre a sua escrita, pelo que nem consigo pegar num dos títulos dele para folhear em plena livraria. Desleitura antes da leitura, portanto.
Por outro lado, também tenho as minhas paixões assolapadas. Clarice Lispector é uma delas. Foi-me apresentada numa algo distante aula de Filosofia Contemporânea (quiz endereçado a Sancho: quem terá sido?). Ninguém como ela para me atingir com as palavras. Irónico que eu, que não consigo ler quase nada em português do brasil, eleja uma brasileira como uma das escritoras da minha eleição. A outra é, evidentemente, Virgínia Woolf (o nome deste blog assim o denuncia).
A escapar a esta catalogação, está Patricia Dunker. Dela, apenas li um pequeno livro, A Sombra de Foucault, que devorei. Difícil de encontrar nas livrarias, tenho o meu completamente rasurado, com as páginas a despenarem do manuseamento. Na verdade, a minha adoração por este pequeno livro é algo ridícula: não está maravilhosamente escrito. Mas tem passagens sublimes e essas bastam-me.
E quem nunca conseguiram ler, apesar de inglórios esforços?
Lullaby de Domingo
Scout Niblett é um vício. Se inicialmente algumas das suas composições soaram-me demasiado cruas, a verdade é que cada vez mais me apetece ouvi-la. E mesmo quando interpreta velhas melodias, a senhora é sublime. A lullaby que vos deixo - e é uma canção de lamento - é interpretada em parceria com Bonnie Prince Billy (a ele chegaremos não tardam muitos domingos).
sábado, 26 de julho de 2008
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Confissões de uma menina mal comportada*
Confesso a minha dificuldade em retirar o cartaz do Congresso ali do lado.
*O título alude a uma das obras de Beauvoir(Memórias de Uma Menina Bem Comportada) e pretende contrariar, em absoluto, os arquétipos de princesa (das arábias ou de qualquer outro reino que não seja seu) e de Anjo da Casa, de que fala Woolf no texto transcrito no post anterior.
Diário das princesas em geral
"(...) vocês não devem saber o que eu quero dizer com o Anjo da Casa. Eu vou descrevê-la da forma mais simples possível.
Ela era intensamente sensível. Era imensamente encantadora. Era profundamente dedicada. Ela dominava todas as difíceis artes da vida familiar. (...) - resumindo, ela era tão condescendente que nunca tinha tido uma ideia ou um desejo próprio - em vez disso preferia concordar sempre com as ideias e desejos dos outros.
Acima de tudo - nem era preciso dizer - era pura. A pureza era considerada a sua maior beleza - o pudor das faces era a sua maior qualidade.
E quando vim a escrever, encontrei-me com ela logo nas primeiras palavras. A sombra das suas asas caiu sobre a página; (...) quando peguei na caneta para escrever sobre aquele romance do homem famoso, ela deslizou por trás de mim e sussurrou «Minha querida, és uma rapariga. Estás a escrever sobre um livro que foi escrito por um homem. Sê bondosa, sê terna, elogia, ilude, (...). Nunca deixes ninguém supor que tu tens vontade própria."
Ela era intensamente sensível. Era imensamente encantadora. Era profundamente dedicada. Ela dominava todas as difíceis artes da vida familiar. (...) - resumindo, ela era tão condescendente que nunca tinha tido uma ideia ou um desejo próprio - em vez disso preferia concordar sempre com as ideias e desejos dos outros.
Acima de tudo - nem era preciso dizer - era pura. A pureza era considerada a sua maior beleza - o pudor das faces era a sua maior qualidade.
E quando vim a escrever, encontrei-me com ela logo nas primeiras palavras. A sombra das suas asas caiu sobre a página; (...) quando peguei na caneta para escrever sobre aquele romance do homem famoso, ela deslizou por trás de mim e sussurrou «Minha querida, és uma rapariga. Estás a escrever sobre um livro que foi escrito por um homem. Sê bondosa, sê terna, elogia, ilude, (...). Nunca deixes ninguém supor que tu tens vontade própria."
Virginia Woolf, Profissões Para Mulheres
terça-feira, 22 de julho de 2008
Fotodiário de duas princesas
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Ai que tempo
O Tempo cria Caruncho e Eu deambulo no Labirinto das Vontades.
sábado, 19 de julho de 2008
Pérolas a porcos
Vives rodeado de mistério
E jamais o dominarás.
Vive-o, respira-o.
E dorme nele como no seio de uma floresta.
E jamais o dominarás.
Vive-o, respira-o.
E dorme nele como no seio de uma floresta.
Vergílio Ferreira, Pensar
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Interregno - lullaby extraordinária
Em direcção ao sol e à água. Portanto, Lullaby à sexta. Domingo em silêncio. Obviamente, deixo-vos muito bem acompanhados.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Não vou a tempo para o ver e ouvir, CARAGO!
Castração das liberdades
"La burqa, c'est une prison, une camisole de force, ce n'est pas un signe religieux mais le signe visible d'un projet politique totalitariste prônant l'inégalité des sexes et qui porte en soi l'absence totale de démocratie. C'est une castration de libertés."
A propósito desta questão, estive a reler a discussão que ocorreu no Síndrome de Estocolmo em Novembro. E mais uma vez lamentei ter lido mulheres afirmarem que gostavam que a nossa organização social fosse semelhante aos países islâmicos que obrigam ao uso do véu, porque teriam homens que cuidassem do seu bem estar e as tratassem como princesas. Juízo, minhas senhoras. Dois palmos de testa a funcionar. O mínimo de decoro!
Mais uma vez, a minha recusa visceral de loas à menoridade mental. E não, os valores que temos não são os melhores, mas nunca retroceder ao ponto da perda total de identidade, de deixar que nos agrilhoem o pensamento.
"Antes o poço da morte, que tal sorte" (Já cantava o Sérgio Godinho)
Mais uma vez, a minha recusa visceral de loas à menoridade mental. E não, os valores que temos não são os melhores, mas nunca retroceder ao ponto da perda total de identidade, de deixar que nos agrilhoem o pensamento.
"Antes o poço da morte, que tal sorte" (Já cantava o Sérgio Godinho)
Galgar montanhas

Gosto de estar a caminho. E após um interregno de quase dois anos, finalmente dediquei um dia a simplesmente caminhar- De mochila às costas, mp3 para o caso de uma paragem mais prolongada, água, protector solar, algo para trincar em hamonia com a natureza - e ala que que se faz tarde. Eu e mais 56 pessoas.
Foi a primeira vez que fiz uma caminhada com um grupo em que praticamente não conhecia ninguém. A diferença não é tão grande assim. A maior parte permaneceu desconhecida, mas forneceu o conforto de não me saber sozinha. Flor estava comigo e Flor bastou para me que sentisse acompanhada no meio de tantos rostos sem rasto.
Isto de estar a caminho no meio de nada provavelmente revela a minha faceta mais masoquista. Caminhar incertamente, com um objectivo algo ridículo - atingir o ponto x e voltar - sob um sol abrasador com descidas acentuadas que na volta se tornam subidas (e vice-versa) é saudavelmente doloroso.
Lá em cima, a meio do percurso, quando decidi que não quer
ia chegar ao cume do Pico, que queria ficar ali - sem os cinquenta rostos sem rasto - permiti-me a deitar-me sobre a erva (não confundir com relva), colocar os phones e conjugar os cheiros com os sons.
Já tinha esquecido quão dolorosamente reconfortante é estar no meio de nada, o peso de saber que ainda restam uns bons quilómetros para andar. O cheiro da terra em mim, as calças sujas, a camisola a roçar na erva e os cabelos baços da poeira dos pés em andamento sobre o solo nú. Alma de cabra, diz-me Flor - este espírito de andar para sítio nenhum, esta apetência por veredas e levadas, por doer-nos as pernas e os pés.
Havemos de voltar.
As fotografias são da responsabilidade do organizador da caminhada.
Foi a primeira vez que fiz uma caminhada com um grupo em que praticamente não conhecia ninguém. A diferença não é tão grande assim. A maior parte permaneceu desconhecida, mas forneceu o conforto de não me saber sozinha. Flor estava comigo e Flor bastou para me que sentisse acompanhada no meio de tantos rostos sem rasto.
Isto de estar a caminho no meio de nada provavelmente revela a minha faceta mais masoquista. Caminhar incertamente, com um objectivo algo ridículo - atingir o ponto x e voltar - sob um sol abrasador com descidas acentuadas que na volta se tornam subidas (e vice-versa) é saudavelmente doloroso.
Lá em cima, a meio do percurso, quando decidi que não quer
ia chegar ao cume do Pico, que queria ficar ali - sem os cinquenta rostos sem rasto - permiti-me a deitar-me sobre a erva (não confundir com relva), colocar os phones e conjugar os cheiros com os sons.Já tinha esquecido quão dolorosamente reconfortante é estar no meio de nada, o peso de saber que ainda restam uns bons quilómetros para andar. O cheiro da terra em mim, as calças sujas, a camisola a roçar na erva e os cabelos baços da poeira dos pés em andamento sobre o solo nú. Alma de cabra, diz-me Flor - este espírito de andar para sítio nenhum, esta apetência por veredas e levadas, por doer-nos as pernas e os pés.
Havemos de voltar.
As fotografias são da responsabilidade do organizador da caminhada.
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